Carnavalzinho pra lá de esquisito!

Eu sei que muito pouca gente percebeu, mas acabei ficando fora da Sapucaí no carnaval. Deu zebra com minha credencial e preferi ficar em casa.

Minha mulher ficou muito contrariada e estranhou muito a passividade com que eu aceitava aquele fato que, antes, teria assumido proporções de tragédia.

Fiquei ali, uma cervejinha aqui, uma comidinha gostosa depois, escola por escola. Fazia muito tempo que não assistia o desfile pela Tv. Sei que é muito ruim, mas não foi tão mal assim, meu "camarote" acabou ficando muito acolhedor.

Acho que minha escola chamuscada e excluída da disputa amenizou a decepção por minha ausência da festa. Uma festa que espero chegar como o menino que fui esperava o natal.

Vi o desfile de sábado, naquele dia minha credencial "PRESS" valeu. Achei que a Cubango
ia vencer, ou a Viradouro. A Rocinha me encantou, mas… gostar mesmo, de verdade, gostei do Império da Tijuca.

Antes do desfile de domingo dei uma relida em minha coluna postada imediatamente após o carnaval passado. Na verdade foram duas:
uma delas em 18 de fevereiro, "Aquele Carnaval Que Passou", na quinta-feira posterior aos desfiles, e a outra duas semanas depois já com resultados digeridos à qual dei o título "Vitória Retumbante" ao me referir à vitória da Tijuca.

A Tijuca não perdera mais que um décimo em nenhum quesito. Ali eu dizia que não me lembrava de uma vitória tão imediatamente aceita, antes e depois da apuração. Criei até o termo "paulobarrização do carnaval", preocupado com o efeito daquela "maneira de fazer carnaval" sobre as demais escolas e seus carnavalescos. Ali víamos "uma arte específica que nem todo carnavalesco domina ou dominará". Uma maneira muito pessoal de "narrar e de expor".

Meu receio era de que vitória uma tão retumbante desencadeasse uma contaminação daquela maneira tão pessoal de fazer carnaval, de conseqüências não imagináveis.

Dali saia vitorioso o carnavalesco que evidenciava o grande desafio do carnaval: a comunicação com o público. "Um desafio que tem em
Paulo Barros seu maior desafiador", (…) e, pelo impacto criado, "(…) que tem nele o maior desafiado".

Citei naquela oportunidade três frases, todas pós carnavalescas: "antes de conquistar o júri, temos que conquistar o público", dita pelo próprio Paulo; " É…pegou na veia", dita por Renato Lage; da outra não consigo me lembrar, mas veio de Laíla que acusava o golpe e anunciava uma Beija Flor mais leve, mais solta.

E a Grande Rio fez aquele carnaval todo.

E esse carnaval de 2011 se aproximava com uma Tijuca divulgando aquele enredo anunciadamente arrebatador, e a Beija-Flor com Roberto
Carlos. E eu achando que ia pegar fogo (desculpem, esse incêndio não me sai da cabeça). Quem arrebataria mais a platéia? Essa a aposta das escolas por mim nominadas favoritas.
Correndo por fora o Salgueiro e a Grande Rio se impunham a cada dia e sendo logo incluídas entre as favoritas.

Depois veio aquele incêndio e o carnaval começava a começar: Uma favorita ficava de fora. E quando começou para valer uma outra favorita ficou também de fora. Restaram as duas favoritas iniciais que acabariam e acabaram por decidir o título.

E quem venceu afinal? A que mais arrebatou? A que mais emocionou, a que mais surpreendeu? Ou deu NRA?

Da sala da minha casa não vi nem uma coisa nem outra. Me baseando no título e na sinopse acabei perdido no enredo da Tijuca. Me baseando na sinopse da Beija Flor, em muito focada no repertório do "rei", senti a emoção passar longe, restrita ao único momento do último carro.

Ainda inconformado com o efeito "King Kong" da escola que mais me encantara, e enquanto a chuva batia forte na vidraça de minha janela, confesso que não me arrependi da opção que fiz no dia anterior. Pior, não me arrependi nem um pouco.

Quem venceria não me importava. Achava que os quesitos de samba, de chão, definiriam a parada. Se uma esbanjara força nesses quesitos no ano anterior, a outra não ficara atrás. Tanto que me recusei, por todo o ano, a acreditar no que muitos diziam sobre vitória tijucana atribuída unicamente à comissão de frente.

Não considero que o carnaval de uma tenha sido superior ao da outra, cheguei a achar que a Vila surpreenderia.

E aí veio o resultado. A tijuca perdeu tanto em tantos quesitos que está me convencendo a achar, como tantos leitores, que aquela outra comissão de frente, a de 2010, realmente contaminou os quesitos e fez a diferença final. Que aquela CF fora a maior responsável por aquela vitória.

O enorme impacto da atual comissão ficou ali, fez o seu papel. Penso que com todo seu impacto, a nova CF não chegou a contagiar a
escola e não foi suficientemente forte para contaminar quesitos e contagiar julgadores. Cumpriu magnificamente bem sua função e pronto.

A Beija Flor veio mais leve, mais solta, é verdade. Mas não a reconheci. Não reconheci algumas fantasias, alguns setores em harmonia,
não reconheci a comissão de frente. Mas sabia que no chão era a mesma escola, no canto era a mesma escola, no samba era a mesma escola, o casal era o mesmo casal. Por isto cheguei apostar mais nela como vencedora.

E aí veio o resultado. Aquela diferença toda me assustou, ainda que até prevista a ordem de classificação. Um julgamento excessivamente severo em relação às outras e benevolente com a campeã.

Terá sido uma pré disposição contrária dos julgadores àquela forma tijucana de fazer carnaval ? Mas e quanto ao Salgueiro nos quesitos
off atraso, só para citar a que mais me impressionou?

Um fato em especial me chamou a atenção: o quê houve com o julgador Carlos Alberto? Será que eu não fui capaz de perceber tanta diferença entre a escola que tirou dez e as demais que beiraram a nota zero, ou oito, a nota mínima? Que desfile aquele senhor viu e que
eu não vi?

Um julgador rejeitou a "paradona". De minha parte gostei muito, até por deixar no ar, e nos fazer ouvir a voz do canto das arquibancadas. Mostrou assim que o sambódromo não é tão frio como pensamos. Aquele som, naquele volume, não deixa o canto geral ser ouvido. Considero o samba do Salgueiro julgado com muito rigor, só para citar dois exemplos mais claros. Mas respeito qualquer critério, inclusive
os de maior rigor e caneta mais pesada, desde que seja para todos.
Como pode um julgador ter sido tão rigoroso com as alegorias de quase todas as outras escolas sem ter visto a avaria no navio do "rei"? Como disse, não estive lá para ver isto, mas recebi vários e-mails de leitores presentes que acusaram o problema, inclusive um torcedor
insuspeito da escola.

Aquele conjunto de notas foi claramente destoante de todos os outros, de todos os julgadores, ainda que, quase todos, destinados ao descarte.

A dúvida maior que me fica, e são tantas, eu divido com vocês, com a abstração da tal gritante diferença de pontuação, pelo menos neste momento: será que neste ano a presença do "rei" foi "aquela comissão de frente do ano passado", mesmo vindo atrás e vindo de outra escola?

Outra: uma coisa é uma vitória normal, por assim dizer; outra coisa é uma vitória avassaladora numericamente. Será que o objeto do julgamento foi Roberto Carlos e não a Beija Flor? Será que alguns julgadores estavam na verdade fantasiados de tietes? O ídolo foi julgado
e não cada um dos segmentos da escola?

Que terá feito a diferença no comportamento diferenciado dos julgadores?

Terá havido contaminação de quesitos a partir do ídolo? Terá havido contaminação de quesitos em 2010 a partir da comissão de frente? Será que os julgadores são suficientemente orientados, a cada carnaval, quanto ao risco de tal contaminação?

Agora o carnaval acabou. Esperei tanto e fiquei de fora da festa. Ainda bem que curti muito os ensaios técnicos e os ensaios de minha escola em Madureira, quando o sonho ainda não havia acabado.

Foi mesmo um carnaval esquisito. Antes, durante e depois. Adorei ter ficado em casa. Tanto que fui barrado no domingo e nem tentei entrar na segunda.

Me confesso meio desanimado com tudo isso aí em cima. Também por ter vivido o carnaval o ano inteiro e ter recebido uma credencial
"PRESS" que só me deixava circular por corredores.

E viver um carnaval cujo vitorioso não é contestado e sim o tamanho de sua vitória.

Nunca imaginei que um carnaval tivesse acabado sem que eu sentisse falta de ter pisado na Sapucaí. E olha que não falei, ainda, do resultado do acesso e nem do, moralmente, pior incêndio que foi o da Alegria da Zona Sul.

De minha parte a alegria que tive ao vivo de ver a rapaziada da Formiga mostrando tanto carnaval com tão poucos recursos. Daqui do meu camarote particular a alegria de ver na Ilha que ainda há beleza possível neste carnaval espetacular. Da Mangueira a alegria de sentir que
o samba está aí mais forte do que nunca.

Do Salgueiro por ter resumido e concentrado isto tudo. Ter provado que a beleza do desfile está no equilíbrio de forças entre a cultura do carnaval, do espetáculo e da cultura do samba.

No mais, parabenizo a RIOTUR , a Liesa e a Tv Globo. Mais uma vez ficaram com o peso maior da balança.

O carnaval despejou na economia carioca importantes 1.5 bilhão de reais. O carnaval fica cada vez mais atraente para a economia, para o turismo e para os anunciantes, de agora e do natal.

Cada um cumprindo competentemente seu papel e sua parte.

Já a face cultural … enredos, sambas, alegria … tá ficando esquisita…

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