Casal de coreógrafos da Tijuca rebate questionamentos sobre estilo de trabalho

Depois de mais um ano de sucesso e todas as notas dez possíveis na Marquês de Sapucaí, o casal de coreógrafos da Unidos da Tijuca, Priscilla Mota e Rodrigo Negri, grandes responsáveis pelo sucesso da comissão de frente tijucana nos últimos dois carnavais, passaram a conviver com alguns questionamentos. Um deles dá conta do uso de alguns atributos que, a princípio, na visão dos críticos, não pertencem ao universo do carnaval, e o outro aborda o fato de a dupla usar um contingente maior do que os quinze aparentes permitidos pelo regulamento. Incomodados com as críticas, Priscilla e Rodrigo conversaram com o CARNAVALESCO sobre a questão.

É inegável que o que se pensava sobre comissão de frente há quinze anos atrás não cabe mais para o carnaval atual. Ciente das transformações do quesito, Priscilla Mota ressalta o conceito de espetáculo no desfile das escolas de samba.

– Nós procuramos inovar e agregar outros tipos de arte dentro do carnaval. Carnaval é espetáculo sim. Não acho certo quando as pessoas dizem o contrário. Falam muito que a nossa comissão é algo separado do que acontece com o resto da escola, mas eu acho isso um absurdo. Nós pesquisamos junto com o Paulo Barros o tempo todo. Sempre trazemos coisas totalmente relevantes e que sintetizam o enredo, essa é a nossa preocupação. O nosso trabalho deveria servir para a continuidade da evolução do quesito e não para essas críticas. Cada um tem o seu espaço. O meu dez não vai tirar o dez de ninguém -desabafou a bailarina.

Rodrigo fez coro com as palavras da companheira e lembrou que o estilo da dupla já está marcado no carnaval. Sobre o fato de usarem pessoas escondidas dentro dos tripés, o bailarino admitiu o uso do artifício, mas não vê tanta vantagem na prática.

– O regulamento tem essa brecha. Nós utilizamos esse recurso em 2010, até por que a nossa ideia exigia isso. Não tinha como fazer aquela troca de vestido só com quinze pessoas, senão ficaríamos sem o número mínimo na Avenida, que são nove. Foi um recurso que nós utilizamos para trocar os figurinos. Acho que as pessoas pensam que pode ser uma malandragem nossa, que as pessoas dentro da caixa preta do desfile de 2010 estavam descansando, mas não é verdade. Quem estava dentro da caixa tinha um trabalho muito pior do que aquelas que estavam fora. Tudo dependia das coisas que aconteciam lá dentro. Qualquer botão fora do lugar comprometeria o nosso dez. Nós ficamos tristes quando as pessoas apontam isso como se estivéssemos tirando vantagem – disse ele, citando que não só integrantes da comissão desfilam dentro dos tripés, mas camareiros e outros profissionais de apoio à funcionalidade da comissão.

Perguntada se seria necessário um posicionamento mais claro da Liesa sobre esse ponto do regulamento, assunto debatido durante o 'I Seminário Pensando o Carnaval' pelos coreógrafos Carlinhos de Jesus, Jaime Arouxa, Marcelo Misailidis e Hélio Bejani, Priscilla Mota aprova a ideia. Ela aproveitou para deixar claro que, enquanto for possível e necessário, a comissão de frente da Unidos da Tijuca continuará usando o precedente.

– De repente poderia ser feita uma comissão ou uma reunião para decidir se pode ou não pode usar mais pessoas que as quinze aparentes. Até hoje tudo o que está definido no regulamento nós sempre fizemos. As pessoas que estão dentro do tripé sofrem muito. Desfilam no escuro e morrendo de calor com o peso da fantasia. Sem contar a pressão de não poder errar e o fato de praticamente não conseguir ouvir o samba-enredo. Só quem vive é que sabe o que é. Pode ter certeza que isso nunca facilitou a nossa vida. Sempre foi um fator de dificuldade para o nosso trabalho. Como esconder essas pessoas? Como fazer com que elas fiquem idênticas? Nós não temos o trabalho de botar  quinze pessoas idênticas, mas trinta. Se precisarmos usar mil pessoas para fazer uma ideia acontecer nós vamos fazer. Faremos isso enquanto acharmos necessário e o regulamento permitir.