Chegou a hora de cobrar o que é nosso

O poder público chega as raias do descaso ao ignorar homericamente projetos, discussões e pautas das escolas de samba de todos os grupos de acesso. Tudo o que discutimos aqui neste site. Todas as notícias de mudanças de local de desfile para Deodoro; redução de número de escolas; incorporação dos blocos de enredo a hierarquia competitiva; “condomínio do samba”; tudo isto foi comprovadamente ignorado nas magnânimas decisões do prefeito e sua secretária de culturas.

Não é preciso ir muito longe basta notar que o carnaval realizado na Intendente Magalhães não consta em nenhum folheto informativo ou guia de carnaval, daqueles patrocinados por uma cervejaria famosa, da prefeitura. Por mais que milhares de pessoas se acotovelem nos cinco dias de festa em Campinho para assistir a pequenas escolas e blocos. Por mais que a democracia impere frente ao carnaval do sambódromo. Por mais que a disparidade de alegria e criatividade seja fundante de poucos momentos emocionantes na folia como dói o caso do amanhecer na quarta-feira com o Tuiutí em 2011. Nada disso basta para convencer os tecnocratas da prefeitura ou os burocratas do governo federal.

È preciso dinheiro e poder. Mostre que sua festa dá lucro e iremos investir nela. Mostre que você controla muitos votos e arrumaremos um espaço na agenda para discutirmos em meu gabinete. Fora isso é conversa fiada, desperdício e todos vocês serão esquecidos. Assim é tratada a educação na cidade, não dá lucro, não interessa aumentar salários de professores e lhes dar condições estruturais dignas. Assim é tratada a saúde pública. Por que seria diferente com cultura?

O momento para que as escolas acordem é esse. É necessário pressionar o poder público por uma posição firme e uma solução definitiva que salvaguarde nosso patrimônio cultural. Algo que deveria ter sido feito há muito quando todos os projetos olímpicos para a cidade foram apresentados. Já nesta época, antes mesmo da candidatura olímpica, aliás, existia o projeto do “condomínio do samba” no Carandiru. Eu mesmo assisti a diversos políticos apadrinhando o projeto, inclusive aliados do prefeito Eduardo Paes. Agora onde estão estes?

As escolas dos grupos de acesso merecem respeito. São centros formadores de artistas. Esses mesmos que hoje impressionam e alimentam a lucrativa indústria do turismo no carnaval. Foi por lá, pela desabrigada Vizinha Faladeira onde começou Paulo Barros, foi pela desamparada Tuiutí que chamou a atenção e foi contratado pela Unidos da Tijuca. Que respeitem nossa cultura como ela merece. Tenho certeza que apesar de se adaptar e conseguir se abrigar, nossa cultura popular não merece uma garagem de ônibus sem cobertura ou um pequeno depósito de bebidas com mais de 30 escolas. Merecem uma solução e um local definitivo, respeitando suas demandas.

As reedições na Ponte e na Intendente A Unidos da Ponte anunciou recentemente que apostará em uma reedição na busca pelo título do Grupo C no carnaval 2012. A opção da azul e branca foi pelo samba de 1989 “Vida que te quero viva” de Jorginho do Axé, Renato Camunguelo e Gerson PM. Não é garantia de sucesso, tampouco representa uma vantagem apostar em uma reedição, mas vamos refletir sobre o caso nestas linhas.

Inicialmente pensei no que buscava a Ponte tomando um histórico de seus últimos desfiles. Desde que chegou ao Grupo C e a Intendente Magalhães a escola não alcança bons resultados, nem realiza bons desfiles. A melhor posição alcançada foi logo em seu primeiro ano de Intendente: um honroso 4º lugar no disputadíssimo carnaval de 2007. Ali ainda se via uma escola vibrante que pulsava e berrava o samba. Era a Ponte da década de 80 com aquela força que lhe rendeu passagens memoráveis na Sapucaí. Desde então a escola passou por um processo de recrudescimento abrindo espaço para o crescimento de duas co-irmãs na sua vizinhança, a Independente e a Matriz. Seus desfiles minguaram de tal forma que nos últimos anos só desfila com tripés plotados com elementos gráficos representativos do enredo. Pobre visualmente, a força do canto não se faz mais presente. Eu um admirador confesso do samba de 2011 fiquei surpreso com a frieza de seu desfile. Ano passado a escola adotou uma estratégia muito mais interessante que a reedição. Resgatou um samba derrotado do carnaval de 1984 tão lindo quanto o que representou “Oferendas” naquele ano.

Reeditar sambas na Intendente Magalhães desde que se apresentou como tática tem apresentados resultados no mínimo dúbios. A primeira que assisti foi da Em Cima da Hora no Grupo D em 2006. Naquele ano a escola de Cavalcanti sagrou-se campeã com um desfile arrebatador e emocionante ao som do samba-enredo de 1974 “Festa dos Deuses Afro-Brasileiros”. Salvo engano, no mesmo ano a Unidos do Sacramento reeditava um samba com o qual havia desfilado nos tempos em que ainda concorria no carnaval de São Gonçalo “O prazer do cheiro e a infância do aroma na sedução”. O resultado foi diametralmente oposto e a escola acabou na penúltima posição do mesmo grupo.

Foi a senha para que as escolas da Intendente lançassem mão mais vezes da mesma fórmula. Já em 2007 o Acadêmicos do Engenho da Rainha reeditou um dos mais belos sambas de sua história “Ganga Zumba – Raiz de Liberdade” de 1986, no Grupo C. O mesmo fez o Paraíso da Alvorada no Grupo D reeditando “Da Floresta Amazônica a região banhada por Igarapés”, samba de 2004! Você não leu errado a escola reeditou um samba três anos após de sua primeira passagem na avenida. O resultado foi péssimo para ambas, rebaixadas em seus respectivos grupos.

O insucesso das reedições na Intendente em 2007 não desmotivaram outras escolas que voltaram a utilizar o artifício nos carnavais seguintes. Em 2008 foi a vez da Unidos do Jacarezinho reeditar seu maravilhoso samba de 1992, “A visita do Jacarezinho ao reino encantado de Maria Clara Machado”. E diferente das reedições em 2007 esta do Jacarezinho rendeu o título do Grupo C à escola e mais um desfile épico a Passarela da Intendente Magalhães.

E ficaram as reedições afastadas dos grupos C,D e E até 2010 quando o Canários das Laranjeiras depois de dois carnavais licenciada reeditou “Bahia de todos os Deuses, templo de tradição e fé” em um desfile apagado. Foi o mesmo Canários quem voltou a reeditar em 2011 “Lugar de mulher é na história” samba que desfilou em 1991.

Enfim, o tema das reedições já debatido a exaustão quando se trata das escolas da Marquês de Sapucaí, merece reflexão diferenciada ao olharmos para a Intendente Magalhães. Uma escola que reedita ali busca algo além da facilidade de entrosamento do canto que nem sempre se mostra presente. Tampouco garantir comunicação com o público já que este participa e vibra com diversos sambas menos conhecidos. O próprio contato do público com esses sambas pode ser colocado em questão já que em sua maioria não são sambas conhecidos pelo grande público.

Pode ocorrer uma busca pelo resgate da auto-estima da escola através de uma imersão em seu passado glorioso de outrora. Até mesmo a busca por temas de fácil desenvolvimento como é de praxe entre essas escolas. A reedição da Unidos da Ponte em 2012, no entanto, é mais uma oportunidade para refletir sobre as reedições.

Ainda sobre Manaus. Deu o que falar a última coluna e me deixou feliz o carinho dos sambistas manauaras. Faltaram, no entanto, citar blogs e sites que são referência e podem ser usados pelos leitores para ficar por dentro das notícias das escolas de samba de lá. O principal é o portal Manaus Samba (www.manaussamba.com.br). Outra importante fonte de informação e interação é a comunidade do Carnaval de Manaus no Orkut (http://www.orkut.com.br/ Main#Community?cmm=13714993).

Percorrendo as escolas de samba brasileiras. Empolgado com a descoberta particular do carnaval de Manaus através da obra de Daniel Sales “É tempo de Sambar”, parti para outra leitura que provavelmente me conduzirá a constatações tão interessantes quanto as de Manaus. O livro “Carnaval Capixaba” de Lucas Monteiro que comecei a ler faz pouco tempo parece me conduzir por informações e curiosidades de riqueza ímpar das escolas de samba de Vitória. Vale a pena conferir.

Homenagem ao meu pai. Não tenho o dom de compor belas palavras em perfeita harmonia umas com as outras como ele. Tenho orgulho, no entanto, do seu exemplo, da sua coragem, do seu carinho. Meu pai: poeta, herói e amigo. Esta é em homenagem ao meu mais fiel leitor por ocasião do seu aniversário.

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