Cid Carvalho e Renato Lage querem pessoas do mundo do samba como julgadores

Na sexta mesa de debate do  ‘I Seminário Pensando o Carnaval’, ocorrida na noite desta quinta-feira, na Faculdade Hélio Alonso, em Botafogo , dois dos principais artistas do carnaval carioca estiveram presentes. Em pauta, o quesito alegorias e adereços, e Renato Lage, carnavalesco do Salgueiro, e Cid Carvalho, carnavalesco da Mangueira, entre muitas opiniões sobre o modelo de julgamento atual, manifestaram o desejo de ver pessoas ligadas ao mundo do samba compondo o corpo de julgadores.

O encontro foi mediado por Raphael Azevedo, jornalista de O Dia, e o primeiro ponto abordado, como não poderia deixar de ser, foi a opinião dos entrevistados sobre o desempenho dos jurados nos últimos carnavais. Um dos carnavalescos mais experientes do Grupo Especial, Renato Lage disse nunca ter sido consultado sobre o julgamento das escolas de samba.

– Nunca fui consultado para saber a minha opinião. Nós é que fazemos o carnaval. O julgamento não me traz parâmetro de nada. Não dá para melhorar o meu trabalho lendo as justificativas dos jurados. Os julgadores não têm vivência no carnaval. A folha curricular deles não é conhecida. Neste caso, a questão do julgamento fica muito atrelada ao gosto pessoal. Não é assim! Eles precisam julgar a concepção artística e a plástica das alegorias. Ao contrário disso, ficam procurando erros, parecem fiscais. Este ano tive o desprazer de ser abordado por um julgador para me dizer algo que não estava em sua justificativa – disse Renato, que também lembrou que para justificar uma nota dez o jurado precisa conhecer o que está julgando.

Já Cid Carvalho, para a surpresa da maioria dos presentes, confessou que prefere não ler as justificativas. Segundo o carnavalesco da Mangueira, o que os jurados escrevem não o acrescentam em nada.

– Eu não leio as justificativas simplesmente porque elas não justificam nada. Sou uma pessoa muito humilde. Sei que tenho defeitos, os assumo e faço de tudo para consertá-los, mas a justificativa não me ajuda a melhorar. Não posso dizer se eles têm qualidade ou não para julgar, não os conheço. Quem tem que saber disso é a Liesa. Este ano eu vi uma escola com um rasgo em uma alegoria e ela levou nota dez. Acho que o melhor seria se eles tivessem que justificar a nota dez.

Com relação à extrema valorização da estética nos desfiles em detrimento aos quesitos de chão, a dupla tem opiniões diferentes. Para Cid, o carnaval passa por fases e a atual é a era da estética. Já Renato Lage, lembrou a capacidade artística dos ritmistas, dos passistas e dos componentes que compõem o chão da escola. Para ele, é apenas uma questão de se reconhecer características artísticas diferentes.

Outra questão bem inerente ao carnaval contemporâneo é a coreografia nos carros alegóricos. Na visão de Cid, que citou a teatralização dos carros alegóricos da Beija-Flor, quando ele integrava a comissão de carnaval, a coreografia é bem vinda quando pertinente ao contexto do carro. Já Renato Lage, citou Paulo Barros em sua resposta.

– Concordo com o Cid. Se houver a necessidade não vejo problema. É uma questão de estilo de trabalho. Eu acho que o Paulo Barros usa isso muito bem. E tem mais é que continuar usando. O carnaval necessita de estilos diferenciados. Se passar tudo a mesma coisa, o carnaval perde a graça.

Uma prática comum até alguns anos atrás no carnaval carioca era a visita dos jurados às quadras e barracões alguns dias antes do desfile oficial. Cid lembrou a questão e pediu seu retorno.

– Acho que isso faz com que o jurado aprenda a valorizar o trabalho do carnavalesco. Nós trabalhamos demais. As pessoas não têm noção do trabalho que dá fazer um carnaval. Aí quando chegamos na Avenida eles nos tiram décimos por que tem algo uma pedrinha solta ou rendinha descosturando na alegoria. Acho até que isso deve ser explicado na justificativa, mas tem que ter um peso menor na hora de definir a nota.

Contrário à ideia de Cid, Renato justificou, temendo um pré-julgamento por parte dos jurados.

– Além de o julgador já chegar na Avenida pré-disposto a dar uma nota, como acontece com o samba-enredo, o desfile perde a emoção, a novidade. Se o julgador quiser ver antes que vá à concentração. Os carros ficam lá o dia inteiro – afirmou Lage.

Apesar de discordarem nesse ponto, Cid e Renato foram unânimes ao pedir o fim da passarela da Cidade do Samba, atualmente fechada em razão das obras. Cid revelou que fica chateado quando vê pré-julgamentos de seu trabalho em fotos que, de acordo com ele, não mostram devidamente as alegorias.

Outro ponto em comum nas opiniões da dupla de artistas e, talvez a mais importante exposta no evento, foi o desejo de ver no corpo de julgadores pessoas que convivem no meio do samba.

– Porque as pessoas do meio não podem ser julgadoras? Todas elas têm um nome a zelar e entendem daquilo que passa na Avenida. Até parece que as pessoas que torcem por outras escolas ficariam chateadas caso o Haroldo Costa, por exemplo, fosse ser jurado. Tenho certeza que ele não iria ser tendencioso ao Salgueiro. Ele tem um nome a zelar. Tanto o Haroldo quanto muitos outros nomes –  concluiu Renato Lage.

Cid, além de fazer coro com o carnavalesco salgueirense, brincou, dizendo que, neste caso, voltaria a ler as justificativas. A polêmica sobre o fechamento das notas de domingo no próprio domingo, ao contrário do que é feito atualmente, quando os jurados fecham todas as notas na segunda-feira, também voltou a ser debatida.

– Se você perguntar a todos os carnavalescos tenho a impressão que eles responderiam da mesma forma que eu. Gostaria muito que o envelope fosse fechado no próprio dia de desfile – disse Cid Carvalho.

– É claro que tem que fechar no dia do desfile. A opinião da mídia influencia na decisão do julgador – lembrou Renato Lage.

Na segunda metade do debate, a sinceridade da dupla acabou rendendo algumas declarações inéditas. Principalmente quando o assunto foi a Mocidade Independente de Padre Miguel, escola em que Renato ficou 13 carnavais, sendo campeão de três, e que Cid já assinou dois trabalhos. O atual carnavalesco da Mangueira não poupou críticas à diretoria da escola.

– A situação na Mocidade é mais complicada do que a maioria pensa. Peguei a escola duas vezes na 11ª colocação e cheguei ao sétimo lugar, o que não é bom, principalmente se olharmos a história da Mocidade. Já cheguei ao ponto de levar uma máquina minha para o barracão da Mocidade. Trabalhar sem apoio é difícil. E o apoio não é só financeiro não. É muito difícil quando você grita sozinho. É preciso encontrar eco na sua voz, ter gente que queira assim como você. Dizem por aí que fui o responsável pelas escolhas dos dois sambas da Mocidade enquanto eu estive lá, mas é mentira. Os meus sambas preferidos não eram esses pula-pula que ganharam.

Quando o assunto foi o relacionamento dos dois com os diferentes diretores de carnaval com que já trabalharam ao longo da carreira, Cid e Renato manteram franqueza. Ambos fizeram elogios a Laíla, com quem já trabalharam, mas o artista quatro vezes campeão do carnaval – uma com o Salgueiro e três com a Mocidade – deu a entender que não gostaria de trabalhar no modelo implementado pelo diretor de carnaval da Beija-Flor.

– O Laíla é muito competente. Sabe muito de samba, harmonia, evolução, bateria, mas é preciso ter uma cabeça pensante na parte plástica. Alguém que implemente uma linha, um estilo, senão vira uma colcha de retalhos – disse Renato.

– O Laíla é o melhor com que eu trabalhei, mas tem diretor de carnaval por aí que não te ajuda. Tem uns que são puxa-sacos. Esses são os piores. Não te ajudam a colocar o trabalho em prática – afirmou Cid.

Par terminar, Cid Carvalho escolheu o desfile da Estácio de Sá de 2009, ‘’Que chita bacana’’, como o melhor de sua carreira. Já Renato Lage apontou o ‘’Vira, Virou’’ de 1990, da Mocidade, com o seu predileto. A dupla definiu também como suas principais referências três papas do carnaval: Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues e Joãosinho Trinta.