Coluna de Eugênio Leal: A saga do compositor de samba-enredo – 2

Passado o furacão das disputas de samba-enredo retorno ao tema da última coluna, escrita quando o processo de eliminatórias nas quadras ainda estava começando. Nesta segunda parte o tema é exatamente este – o processo de disputa, maior dor de cabeça dos compositores.

Compor um samba é muito divertido. É o momento da criação, do bate-papo, da cerveja, da brincadeira. Da ilusão. A realidade é bem mais dura e acontece nas quadras. Do primeiro dia até a grande final (para os poucos sobreviventes), cada apresentação é um suplício: verificar chegada dos cantores e músicos; ensaiar o palco num cantinho da quadra ou arredores; checar os convites para a torcida; organizar, distribuir e recolher adereços; cantar, pular, suar. Suar muito.

Um dos maiores dramas é quando o seu intérprete “defende” samba em outra escola no mesmo dia. O compositor quase vai à loucura controlando os horários. Parece que ele nunca vai chegar. E às vezes não chega mesmo. Tudo piora quando a escola decide fazer o sorteio da ordem de apresentação na última hora para garantir quadra cheia o tempo todo. Já teve compositor que fez o percurso Ramos-Nilópolis em dez minutos para conduzir um cantor. A expectativa pela chegada do “canário” é de dar pena.

Sufoco parecido acontece com as torcidas. Quando você está começando é fácil levar para a quadra seus amigos, vizinhos, parentes, colegas de trabalho ou faculdade. Tudo é novidade. No segundo ano o ímpeto desse pessoal diminui. No terceiro você começa a ouvir desculpas pelas faltas e a partir do quarto ano todo mundo fala que vai “aparecer na final”. Não fique triste, não se sinta abandonado, não brigue com as pessoas próximas. Desista: se seus amigos não forem do samba eles não irão.

A solução para atender às cobranças das escolas é levar as “torcidas profissionais”. São grupos organizados em comunidades carentes que vêem nas disputas uma maneira de se divertir e beber uma cerveja de graça nos finais de semana. O compositor paga o ônibus, as entradas e a bebida pro pessoal. Muitas vezes rola também um churrasco. Só que nem sempre estes grupos são lá muito confiáveis. Nem sempre os líderes conseguem reunir tantas pessoas e às vezes trazem “torcedores” desanimados que não cantam o samba nem expressam alegria. Ficam apenas “fazendo número”. Isso quando o “pneu do ônibus” não fura e a galera não chega ou se atrasa. Haja stress!!!

Ultimamente palco, torcida, bolas e bandeiras não são mais suficientes. Para impressionar você tem que ter efeitos especiais, coreografia, show de luzes, fogos de artifício, chuva de prata, bandeirão, e tudo mais que se possa imaginar.

Isso tem um custo que varia de acordo com o peso da parceria. Há quem pague só a um cantor mais de mil reais por semana (e tem louco que coloca quatro, cinco intérpretes de ponta no palco). Numa final o gasto circula em torno dos dez mil reais. É difícil colocar tudo na ponta do lápis, mas em grandes escolas há “compositores” que chegam a investir 80, 100 mil reais em toda a disputa.

Muita gente já vendeu carro, casa ou contraiu dívidas em bancos ou junto a agiotas, acreditando na vitória. Tem também a questão familiar: pergunte a qualquer mulher de compositor o que ela acha dessa loucura.

E os bastidores? Estes seriam engraçados se não fossem trágicos. O que o compositor escuta de “toque” ao longo de uma disputa daria pra escrever um livro. E vem de todas as partes. Desde os presidentes até os faxineiros das quadras. E o pior é que cada um te fala uma coisa diferente. É um “ti-ti-ti” infinito. Quase sempre o que se ouve é mentira ou opinião pessoal, mas os loucos dos compositores assumem como se fosse verdade absoluta.

As reuniões das parcerias durante as disputas acabam sempre em fofoca – “Você viu como o presidente cantou o samba tal?”, “O diretor de carnaval está com o samba de fulano”, “A bateria puxou determinado samba para trás”, “A primeira-dama sorriu na hora do nosso samba”… Cada detalhe do que acontece na quadra é observado pelos compositores e amigos presentes.

Dentro da quadra acontecem coisas estranhas. As pessoas da escola que preferem outro samba evitam cruzar com você. Passam longe, desviam o caminho e ficam constrangidas quando você as flagra cantando ou vestindo a camisa de um concorrente. Essa questão tem outro lado – às vezes a pessoa que não prefere o seu samba fica com raiva de você por aquele período pelo simples fato de que seu samba pode derrotar o favorito dela. O compositor vira “inimigo” de um monte de gente na escola por estar buscando a vitória.

A ansiedade aumenta conforme as semanas vão passando e a final se aproximando. O sonho de ouvir seu samba no desfile principal não te deixa dormir. Os boatos aumentam e passam a te atormentar. O compositor fica imaginando a hora do anúncio do samba campeão e, claro, este é sempre o seu. Quando isto acontece a sensação é indescritível. É uma alegria incontida, uma sensação inebriante de vitória. Quem já ganhou vai eternamente sonhar em passar por isso de novo.

O sentimento de alegria diminui quando vem outra realidade: as escolas, que já recebem milhões de patrocinadores e subvenção, decidem meter a mão no dinheiro que os compositores conquistaram o direito de receber. Tem agremiação que “come” até 50% do “prêmio” pela vitória. Quando acontece junção de sambas, então, o dinheiro é ainda mais dividido… mal dá para pagar o que foi investido.

Todo ano, ao final do ciclo, metade dos compositores promete nunca mais participar dessa loucura, mas como somos todos loucos, no ano seguinte estamos de volta à batalha!

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