Coluna de Luis Carlos Magalhães: ‘No tempo do Renascença’

Eu vivi bem esse tempo. Ah! Como vivi…

Eu morava em São Paulo e tinha dois pontos de encontro: na praia e no Renascença.

Já peguei o Renascença ali onde é hoje, no Andaraí.

Nei Lopes, o “bruxo” da Seropédica, nos conta que o clube fora fundado em 1951, no Méier nascido dos “ (…) anseios de uma emergente classe media negra carioca, cansada de ver seu ingresso vetado nos quadros sociais dos clubes sociais da vizinhança, no eixo Tijuca-Meier, aí incluído o aristocrático Grajaú e até a boêmia Vila Isabel-bairro,também, de militares de altas patentes”.

No tempo do Andaraí, naqueles idos de 1970, foi sua fase áurea, qualitativamente falando. Depois foi lá para o Clube Maxwell onde também, anos antes, o Salgueiro de Paula, de Narcisa, de Roxinha, Vitamina, Gargalhada, Damásio realizava ensaios com concursos de passistas que marcariam para sempre minha vida e minha ligação com o samba das escolas.

Minha melhor lembrança de tudo e do quanto vivi naquele espaço do Andaraí foi a apresentação do Orfeu Negro, a céu aberto em 1973, com direção de meu grande amigo Haroldo de Oliveira. Um espetáculo emocionante, inesquecível, com direção musical de Reginaldo Bessa que está por aí pelo carnaval para desmentir se eu estiver exagerando.

No Maxwell era bom? Era! Mas nunca mais seria como os velhos tempos do Andaraí.

O que teria havido?  

Na época a TV Bandeirantes era lado a lado com a Globo em importância, em audiência e tudo.

O João Saldanha falava, no Jornal da Bandeirantes, cinco minutinhos, ou menos, sobre futebol. Quando ia terminando seu tempo ele dava aquele sorriso “safado” e dizia: “ Bem, agora vou para casa, tomar um banho, que logo mais eu vou para o Renascença”.

Na verdade nunca vi o Saldanha lá, nem uma vez, mas ele incentivava muita gente a dar uma chegada no Rena.

 Mas eu não perdia um sábado… um único sábado, eu e minha turma.

Nosso encontro era sempre em um barzinho relativamente próximo ali pelas 9: o Bar da Didi, que já não existe. Podia-se cantar sambas em bares naqueles dias. O samba que marca aquela época para mim é “Estrela de Madureira”, o tal que não ganhou. Deixávamos sempre para a hora de ir embora. Àquela altura o pequeno “Bar da Didi” repleto de gente, sambistas ou não, parecia levantar vôo com tanta alegria e energia positiva:

“E…
O trem de luxo parte
Para exaltar a sua arte
Que encantou Madureira“

Fico impressionado lembrando como éramos felizes, como acreditávamos tanto e em tanta coisa,  como o samba era uma coisa tão forte em nossas vidas, mesmo  em meio à pior fase da ditadura militar. Pois foi nessa fase que o Rena explodiu e já não dava mais para ficar lá, se mudando para o espaçoso Clube Maxwell, ali perto.

Ainda havia sambas de terreiro nas escolas. Cada escola só cantava seus  próprios sambas-enredo e seus sambas de terreiro. Era impossível você ir à Portela e ouvir sambas da Mangueira ou do Salgueiro.

E foi esse fator o responsável por parte do êxito do Renascença. Para ali convergiam compositores de todas as escolas. Ali cantavam seus sambas de terreiro, eventuais lançamentos em disco, e os sambas-enredo de suas escolas.

Hoje temos tudo isto à mão graças aos sites carnavalescos, mas na época isto só era possível para quem estivesse lá naquelas noites de sábado. Sem contar as atrações especiais como no sábado que, pela primeira vez eu via Clementina cantar e saracotear em um palco. Como tentar dizer isto para vocês? Aqueles perdigotos caindo em mim ali bem debaixo do palco.

Mas eu disse que isto tudo era parte do êxito, certo? E qual seria a outra parte?

Ora, todo mundo aí esta sabendo!

Mulheres lindíssimas, sorrisos por todo lado grande parte vinda de negras e mulatas lindíssimas que frequentavam o clube e suas rodas de samba nos anos 1960.
Negras e Mulatas sucessoras de negras e mulatas que marcaram época nessa cidade nos concursos de Miss que agora, nos fazem desenterrar essas histórias.
Tudo começa no primeiro concurso de Miss do então recém criado Estado da Guanabara. O Renascença, ainda no Méier, apresentava Dirce Machado, comerciária moradora do Catumbi. Ficou em quarto lugar deixando, porém um rastro de graça, beleza e elegância.

Estava aberto o caminho.

Depois veio um furacão: Aizita Nascimento. Foi em 1963.

Bem, dizer que Aizita Nascimento era um monumento não representa apenas uma rima, mas a mais pura verdade. Poucas vezes vi coisa igual, e até parecida.
Sorriso incomparavelmente largo, 500 dentes, lindíssima além de inteligente, charmosa e espirituosa nas entrevistas. E tudo isto visto só pelas revistas, pela televisão.

Aizita ficou entre as sete e acabou classificada em quarto em um Maracanãzinho que, em uníssono, em meio a 25 mil pessoas gritava: “queremos a mulata, queremos a mulata”.

No ano seguinte foi a vez de Vera Lucia Couto. Uma beleza diferente, mais delicada, mais meiga que Aizita. Mas o caminho estava aberto. Um ano antes Aizita havia feito o serviço, muito bem feito, para as duas favoritas que disputavam, ainda em casa: Vera Lucia e ninguém menos que Esmeralda Barros.

Que tempos, meninos, que tempos!

Nessas lembranças de mulatas nada mais oportuno que saudar a vitória da negra angolana Leila Lopes no concurso de Miss Universo. E ela é tão “nossa”, nos passa tanta intimidade que deixa parecer que saiu por engano de uma das ruas de Bonsucesso e foi parar em Angola.

Que ao invés de representar o Rena representou seu país que estará aqui conosco, inclusive com ela – tomara – no carnaval da Vila Isabel, bem próximo da sede do Renascença. Que venha, ao lado de Aizita, de Verinha, de Deise Nunes, também Miss Brasil em 1986 e rainha de bateria da Ilha por tantos anos.

Será que ela tem a noção do quanto nos representou também?

Sua vitória trouxe uma alegria tão grande para tanta gente que fiquei imaginando a vitória de Vera Lucia Couto naqueles distantes anos sessenta. Vera ganhou no Renascença e fez história no concurso de Miss Guanabara tirando o primeiro, primeiríssimo lugar. A cidade fez a festa.

No carnaval só dava “Mulata Bossa Nova”, de João Roberto Kelly e o Salgueiro, com um samba  de quadra memorável, demonstrava todo o entusiasmo do povo carioca com sua Miss que ainda alcançaria o 2º lugar no concurso de Miss Brasil e 3º lugar no Concurso de Miss Beleza Internacional:

Deixa a platéia aplaudir
A Miss mulata
Rainha da cor
Rainha de uma raça.

Quando ela pisou na passarela
Representando a nossa cor verde amarela
Rezando eu pedi ao meu santo de fé
E ela foi aplaudida de pé.

Que tempos, meninos… que tempos…

Em tempo: 1) A Dona Didi, dona do bar onde nos encontrávamos, pude reencontrá-la décadas depois quando, PR pura coincidência, comprei dela o apartamento onde hoje moro com minha família. Disse–me ela, ainda com seu marido, que aqueles foram os melhores tempos de sua vida; 2) Não consegui me lembrar o autor do samba de terreiro citado acima: Miss Mulata.  Não  se é do Marron, do Valdir Ferreira ou de Sobrinho do Salgueiro. Se alguém aí souber…é só mandar que eu dou o crédito.

FOTOS:
1) Dirce Machado, Miss Renascença 1960;
2) Esmeralda Barros, concorrente a Miss Renascença em 1964;
3) Aizita Nascimento, Miss Renascença 1963;
4) Vera Lucia Couto, Miss Renascença 1964;
5) Leila Lopes, Miss Angola 2011 e Miss Universo;
6) A Miss Mulata, com traje típico “SAMBA” de Evandro Castro Lima.

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