Coluna do Rodrigo Coutinho: ‘O som que vem do outro lado da Poça’

 

 

Muito legal poder dividir esse espaço com vocês ao longo do ano. Ao invés de apenas analisar as baterias que fazem ensaios técnicos e desfilam na Marquês de Sapucaí, vamos abordar alguns temas, comentar as novidades e lembrar grandes baterias do carnaval carioca. Você, ritmista ou não, pode me ajudar! Envie a sua sugestão, reclamação ou elogio. Vamos interagir! Aproveito para agradecer pelo espaço ao Alberto João, editor do site e referência jornalística para a minha carreira.

O carnaval de 2015 ainda está bem longe, mas as escolas de Niterói e São Gonçalo largaram muito bem no que diz respeito às baterias. Escolho esse tema para dar o pontapé inicial na nossa coluna não só por uma questão afetiva – já desfilei nas três baterias em questão, nasci em Niterói e moro em São Gonçalo – , mas também pelo sentido jornalístico. Uma acertadíssima manutenção e duas grandes contratações na região fluminense.

Viradouro

Começemos pela Unidos do Viradouro, que manteve o talentosíssimo mestre Pablo. Integrante da escola desde pequeno, Pablo destacou-se como ritmista na Furacão Vermelho e Branco, virou diretor-auxiliar de mestre Ciça, e assumiu a bateria no Carnaval 2011. Desde então vem realizando um trabalho que visa manter as características que tornaram a bateria da Viradouro famosa: pegada e ousadia! Fará sua estreia no Grupo Especial em 2015.

Conversei com ele na última semana e fiquei muito satisfeito ao constatar que Pablo sabe muito bem a diferença entre o nível de julgamento do quesito entre a Série A e o Grupo Especial. Pretende começar seus ensaios mais cedo, trabalhar tecnicamente cada instrumento e reduzir um pouco a velocidade do andamento. De fato, em alguns momentos nos últimos anos, muito em razão do andamento, a bateria da Viradouro apresentou pequenas falhas técnicas que, no Grupo Especial, ganhariam mais visibilidade. Não se trata de ferir uma característica. A bateria da Viradouro tem que ‘’tocar na frente’’, com pulsação firme, mas pode dar um andamento um pouco mais confortável para o samba. Isso fará com que alguns instrumentos, como caixas e surdos de terceira, rendam ainda melhor.

Pablo tem talento e material humano para acertar isso. A Viradouro sempre foi celeiro de bons ritmistas e, com o retorno à elite, a tendência é que eles aumentem em quantidade.

Cubango

Histórica em Niterói, a rivalidade entre o lado vermelho e o lado verde da cidade estará ainda mais acirrada em 2015. Apesar de voltarem a ocupar grupos diferentes depois de quatro anos, há, desde a década de 70, uma disputa simbólica, sem animosidades, para definir a melhor bateria entre as duas gigantes do município. E desta vez a Cubango respira novos ares.

A agremiação contratou um dos maiores talentos surgidos recentemente no quesito: mestre Maurão, que chega credenciado pelos ótimos anos de comando na bateria da Rocinha e por trabalhos como diretor-auxiliar com mestre Celinho e mestre Odilon Costa. Ciente das falhas técnicas apresentadas pela bateria da Verde e Branco nos últimos anos, Maurão já começou a ensaiar seus novos comandados e vem dando uma aula de como trabalhar cada naipe.

Assistí a dois ensaios da bateria Folgada e cada instrumento é trabalhado separadamente nos treinos. O diretor responsável pelo naipe, ou o próprio Maurão, passa a maneira correta de tocar e fazem testes individuais. Importante ressaltar que a abordagem com o ritmista não é feita de forma agressiva. Fica claro que o objetivo não é constranger, mas sim doutrinar, ensinar. Infelizmente, em muitas baterias, esse tipo de trabalho nunca foi feito de maneira correta e o resultado é a falta de qualidade na Avenida. Atualmente, as baterias ensaiam em média oito meses. Não trabalhar cada naipe é assinar o atestado de incompetência!

Mesmo ainda embrionário, percebe-se um salto de qualidade muito grande no trabalho realizado na bateria da Cubango. Início promissor!

Porto da Pedra

Quem gosta de um bom ritmo vibrou muito esta semana! Pela humildade e capacidade não há como não torcer pelo sucesso de mestre Celinho. E a Unidos do Porto da Pedra nos brindou com o retorno do mestre que fez história na Unidos da Tijuca na década passada. Nem tanto pelas notas! Inexplicavelmente, a meu ver,  Celinho acabou não colecionando tantas notas máximas na escola que o revelou. Injustiça que o carnaval há de reverter.

À frente da  Ritmo Feroz, Celinho tentará levar para a Avenida, mais uma vez, um conceito rítmico que foi responsável pela evolução da maioria das baterias do carnaval carioca. A educação musical de seus marcadores, o apreço pela correção na execução de cada instrumento e o cuidado com a afinação dos surdos são suas principais características e tornaram-se padrão de evolução até hoje.

Chega em uma bateria jovem, disposta a continuar evoluindo, como foi na época do mestre Thiago Diogo, e traz consigo uma geração de bons diretores, além de uma legião de ótimos ritmistas, apaixonados pela sua maneira de comandar a bateria. Uma junção perfeita entre simplicidade e educação. A torcida é para que, na Unidos do Porto da Pedra, Celinho tenha o que não teve nas recentes passagens por Inocentes de Belford Roxo e Paraíso do Tuiuti: tempo para trabalhar. A continuidade é fundamental em qualquer ramo de atividade. 

Comente: