Começar do zero?

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É com enorme prazer que inauguro este espaço tão nobre e de grande visibilidade falando sobre algo que sou apaixonado: as pequenas escolas de samba do Rio de Janeiro. Comecei a me apaixonar por tal a partir de 2005 no meu primeiro desfile na Intendente Magalhães em Campinho como um dos cantores da extinta Acadêmicos da Barra da Tijuca. De lá para cá foram cinco anos ininterruptos acompanhando entusiasmadamente os desfiles.

Muita coisa mudou nesses anos. A maior parte dos componentes dessas escolas se adaptou ao local de desfiles. O número de componentes vem crescendo significativamente, bem como o público presente. Os moradores da região facilmente adotaram os desfiles como parte importante do circuito do carnaval. Passaram a demonstrar interesse pelas escolas e desfiles, ainda que à margem da grande mídia.

Um dado interessante da tese de Doutoramento de Eugênio Araújo ("Valorizando a Batucada: Um estudo sobres as escolas de samba dos grupos C,D e E do Rio de Janeiro") mostra que 63,5% do público demonstra interesse pela parte visual ou musical dos desfiles contra apenas 36,5% que não se sentem atraídos.

Para a surpresa de todos a AESCRJ e a Prefeitura, anunciam então duas medidas que de uma vez afeta aos interessados nas pequenas escolas: a redução do quadro de
escolas na cidade e sua transferência para o Autódromo de Deodoro. Ao contrário do que muitos imaginam essas escolas integram uma quantidade significativa de pessoas
ao circuito das escolas de samba tornando esse mesmo circuito dinâmico e acessível à metrópole como um todo. São inúmeros os exemplos de sambistas que começaram em
uma pequena escola de samba; são também inúmeros os exemplos de componentes de escolas grandes que em período de rompimento político ou sentimental com grandes
escolas procuram abrigo nas mesmas. O que dizer então da enorme variedade material que escapa do lixo e esquecimento reaproveitada e resignificada nos desfiles dessas
pequenas agremiações? Nada justificaria tal enxugamento. A cidade só ganha com a variedade e presença de dezenas agremiações no Rio de Janeiro.

A novidade anunciada recentemente neste site é a transferência dos desfiles para um complexo a ser construído em Deodoro. Louvável a preocupação em construir espaços dignos de trabalho para a construção dos desfiles dessas pequenas escolas, bem como a resolução de problemas de sonorização e estrutura oferecida ao público ainda
persistentes na Intendente Magalhães. O que se questiona, no entanto é a transferência descabida e pouco proveitosa diante da total adaptabilidade dos desfiles ao local atual. Teria os desfiles no novo local tanta aceitação popular quanto adquiriram em Campinho? A estrutura comportaria todas as escolas que desfilam atualmente? Estaria o poder público disposto a investir em uma estrutura adequada atendendo aos anseios dessas escolas?

Diante de tantas questões a principal se coloca em pauta: por que não adaptar o local atual de desfiles de maneira que atenda aos anseios de todas as escolas? Próximo da Intendente Magalhães o espaço conhecido como Carandiru 2 onde cerca de 20 escolas preparam suas alegorias poderia ser ampliado e sofrer adaptações para
atender as necessidades das mesmas. Com público crescente e interesse das escolas e organizadores a pista de desfiles sofreu significativa e visível melhora estrutural. Não há necessidade, portanto, de começar do zero. Não devemos maltratar escolas que já sofrem tanto com sua própria condição: a de buscar o topo.

* Ricardo Delezcluze é mestre em Antropologia pela UFRJ, onde defendeu a dissertação "O Acadêmicos do Dendê da Ilha do Governador: Conflito e sociabilidade em uma pequena escola de samba" e comentarista do programa Cidade do Samba da Rádio Manchete. Já foi compositor da Vizinha Faladeira e desfilou no carro de som da União da Ilha, Boi da Ilha e Acadêmicos do Dendê. Foi um dos fundadores da Virtuafolia, dos desfiles de escolas de samba virtuais e o narrador dos desfiles. Foi do site Obatuque.com, onde filmou os últimos 4 carnavais da Intendente Magalhães e produziu compactos dos grupos C,D e E que estão no ar ainda em seu canal do YouTube (www.youtube.com/delezcluze). Foi do Departamento cultural da União da Ilha e colaborador do Sambanet em 2008.

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