Como deve ser a avaliação da bateria no ensaio técnico do Sambódromo

Ponto alto das escolas durante os ensaios técnicos na Marquês de Sapucaí, as baterias são os segmentos mais esperados do grande público que lota as arquibancadas durante as semanas que antecedem o carnaval. Em 2012 não será diferente. E o site CARNAVALESCO conversou com três mestres de bateria do Grupo Especial para saber como o treino é encarado por eles e o que as baterias de Mangueira, Grande Rio e Porto da Pedra estão preparando.
 
Seja qual for a escola que vai passar, a pergunta do maior entendido no assunto ao mais leigo é sempre acerca das bossas que determinada bateria vai apresentar. Neste conceito também entram as coreografias que, principalmente nos ensaios técnicos, costumam arrancar aplausos e suspiros do público. Comandante da sempre emocionante bateria Surdo Um da Mangueira, mestre Aílton acha determinante fazer no ensaio técnico as bossas que pretende colocar em prática na Avenida.
 
– É primordial! Para fazer no dia do desfile, a bateria precisa estar segura. A não ser que seja algo que queira surpreender. Existe um entendimento entre a direção de bateria, a presidência e a direção de carnaval para definir o momento das bossas. Aqui na Mangueira nós fazemos tudo de maneira planejada.
 
A seriedade parece mesmo ser o norte dos mestres de bateria durante os treinos no Sambódromo. Um dos mais aguardados pelas loucuras que realiza com as suas baterias, mestre Ciça, exalta o caráter  de definição que a ocasião permite.
 
– Lá é que vamos definir o que levaremos para o desfile. É importantíssimo. Na Avenida temos noção do que dará certo ou não, onde podemos testar, ''limpar'' as bossas. Depois temos uma conversa com o Wantuir, com a direção de carnaval, de harmonia, e chegamos num consenso. É uma troca de ideias muito importante para o trabalho da escola de uma maneira geral.
 
Já o mestre Thiago Diogo, da Porto da Pedra, revela como é o entendimento com a direção da escola para a definição das bossas.
 
– Ensaiar na Sapucaí é muito importante porque você tem noção perfeita da acústica e percepção de como a bateria vai reagir ao que acontece na pista. É um termômetro. Existem coisas que você faz na quadra que não dá certo na Avenida. Existe sim um entendimento com a direção de carnaval para o momento de fazer as bossas, mas não é nada determinado, tenho a minha liberdade, até porque sou abusado(risos), gosto de fazer bossa na cara do julgador e bem em frente aos setores. Queremos acabar com esse negócio de que a Porto da Pedra é escola pequena. Viremos com um carnaval bem grandioso – disse Thiago Diogo, que terá 290 ritmistas no Carnaval 2012.
 
Entre as possíveis pedras que possam aparecer no caminho das baterias durante os ensaios técnicos, a maior delas é, sem dúvida, a qualidade do som disponibilizado. Apesar de toda a estrutura que precisaria ser montada em torno disso, mestre Ciça acha que o correto é que todas as escolas tenham como ensaiar com o som do desfile oficial. Ele, inclusive, dá uma sugestão interessante.
 
– O ideal seria o som oficial, até porque o ensaio é técnico, mas acaba ficando meia-bomba por causa da questão do som. A Liesa ou a Prefeitura deveriam colocar o som oficial para o ensaio ficar 100%. Não que o som seja ruim, mas são três mil pessoas e sem um som completo fica muito difícil. Muitas vezes as baterias são criticadas por causa do som. Uma ideia boa era fazer no mês de fevereiro, bem perto do carnaval, ensaios no meio da semana. A cada dia iriam duas escolas e ensaiariam com o som da Avenida. Desta forma daria para ter mais noção de como vai ser no dia do desfile oficial.
 
Para mestre Aílton, o segredo é não inventar. Fazer no ensaio técnico aquilo que vem sendo ensaiado desde os primeiros encontros entre os ritmistas, ainda no mês de junho de 2011.
 
– O negócio é trabalhar o mais parecido possível em todos os ensaios para não termos surpresa. Trabalhamos bastante o psicológico dos ritmistas para que, caso haja algo que dê errado, eles não sintam. Na bateria da Mangueira, muitas vezes o ritmista não tem muita noção do que iremos fazer no dia do desfile. Ensaiamos muitas coisas e, no ano passado, eles só foram ter noção exata do que fazer quando chegaram na Avenida, no dia do desfile.
 
Uma saída para driblar qualquer problema com o som, de acordo com Thiago Diogo, é fazer com que o ritmista cante o samba. Componente de bateria desde pequeno, o comandante dos ritmistas do Tigre de São Gonçalo sabe que nem sempre as coisas podem sair do jeito que planejou, mas garante que sente o revés.
 
– O ensaio é assim mesmo, ás vezes para os meus diretores e para a escola foi maravilhoso, mas para mim nem tanto. O contrário também pode acontecer. Eu costumo dizer que o mestre de bateria sente quando algo não vai dar certo, mas sei como me prevenir, já estou nisso desde guri e qualquer coisa eu passo reto, sem fazer bossa.
 
Experiente na Marquês de Sapucaí, Ciça sabe bem o que é ter um ensaio técnico onde sua bateria não tem o rendimento esperado. Em 2009, no seu último ano na Unidos do Viradouro, durante o ensaio técnico a bateria chegou a atravessar ainda no primeiro recuo, mas, no dia do desfile recuperou-se e foi a única bateria do Grupo Especial a receber todas as notas dez naquela ocasião. Ele lembra o episódio.
 
– Já passei por uma experiência desse tipo, mas o mestre de bateria tem que ter calma e sabedoria para trabalhar nesse momento. No ensaio você pode errar e o ritmista precisa entender isso. No dia do desfile passamos muito bem e tiramos dez em todos os jurados. Mesmo que falte uma semana para o carnaval dá tempo de corrigir os erros.
 
O sambódromo só deverá ser reinaugurado no dia 12 de fevereiro, data em que a Beija-Flor fará o último ensaio técnico da temporada e uma grande bateria com ritmistas de todas as escolas também desfilará. Na data, as novas arquibancadas já estarão de pé e, consequentemente, a nova acústica poderá ser enfim avaliada, mas antes disso, os três mestres comandarão suas baterias em cinco ensaios – dois para Grande Rio e Porto da Pedra e um para a Mangueira. Thiago Diogo lembra da acústica do Sambódromo paulistano para exemplificar sua opinião sobre a questão.
 
– Já conversei com muitas pessoas a respeito disso e, ao que tudo indica, vai ser bem melhor. Vai ter muito som dos dois lados da pista e vamos ver quem é que vai ter o 'pulo do gato' para aproveitar isso. Trabalho com uma galera de São Paulo na minha bateria e lá sempre foi assim, apesar da arquitetura ser diferente daqui, mas dá para ter uma noção sim. Mesmo não estando completamente pronto durante o nosso ensaio, será possível perceber diferença, não vai ter mais o paredão.
 
Um dos grandes responsáveis por todo o frisson provocado pelas baterias na Marquês de Sapucaí é o calor com que o público recebe os ritmistas das agremiações cariocas. Durante esses anos que os ensaios técnicos vem sendo realizados, as coreografias feitas pelas baterias levantam a galera e dão um tempero a mais ao ritmo. Aílton considera muito importante agradar a quem comparece aos ensaios.
 
– A resposta desse público é o nosso feedback. É ele quem nos ajuda também. E comandando a bateria da Mangueira não dá para desconsiderar a reação do público.
 
Mestre na arte de levantar o público, seja nos ensaios ou no desfile, Ciça aborda a sua relação com quem prestigia os ensaios.
 
– Nos preocupamos bastante em agradar ao público que comparece aos ensaios. Quem vai assistir ensaio técnico é sambista mesmo. Sempre preparamos uma apresentação especial para eles. É uma festa! Todos se encontram e a gente faz a festa pra eles.
 
Festa é o que Thiago Diogo quer fazer também com sua bateria Ritmo Feroz, que subiu muito de produção após o jovem diretor de bateria assumir sua regência. Ele exalta o bom ambiente entre os mestres de bateria de todas as agremiações.
 
– O público que está lá é o mesmo que vai nos consagrar, nos brindar com os aplausos. A minha vibe é sempre a mesma. Quero fazer um espetáculo bonito para o público, para a imprensa e todos os outros mestres das coirmãs que nos prestigiam. É um clima muito legal. Um curte o trabalho do outro, dá toques, ideias.
 
Domingo começa a festa! Veremos o que as 13 baterias do Grupo Especial e as nove do Grupo de Acesso irão mostrar durante os ensaios técnicos.
 
Amanhã é a vez de conhecermos o que os casais de mestre-sala e porta-bandeira estão preparando.

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