Compositores criticam atual produção do samba-enredo

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A segunda mesa de debates do seminário ''Carnaval que festa é essa'' colocou duas gerações diferentes de compositores frente a frente. Na noite desta terça-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro do Rio, Monarco e André Diniz opinaram sobre questões inerentes ao samba-enredo atual. O encontro, que teve curadoria do jornalista Aydano André Motta e ótima mediação do escritor Luiz Antonio Simas, recebeu excelente público e foi marcado pela autenticidade dos debatedores, além da maciça participação da plateia.

Um das questões mais polêmicas relativas ao samba-enredo atual é o caráter transitório que ele ganhou. O tema foi indagado pelo mediador Luiz Antonio Simas e André Diniz, filho de uma geração que já nasceu incluída nesse contexto, deu a sua opinião. Segundo ele, doze vezes vencedor de samba-enredo na Vila Isabel, o problema não está na qualidade das obras atuais.

– Acho que o compositor é a maior vítima do atual processo. A mídia atualmente é muito fragmentada. Não existe mais a divulgação que os sambas-enredo ganhavam antigamente. Você fazer samba sobre o cabelo é difícil. O carnavalesco também sofre com isso. Além do mais, é preciso separar o samba de qualidade do samba que faz sucesso. ''Pega no Ganzé, pega no ganzá'' é um samba de muito sucesso que não tem a mesma qualidade de muitos outros que são seus contemporâneos e não tiveram o mesmo sucesso – disse André Diniz.

Já para Monarco, que fez questão de dizer que não acompanha mais as disputas de samba, bateu na tecla da aceleração de andamento que o gênero sofreu nas últimas décadas. Apesar disso, ele parabenizou quem continua escrevendo samba-enredo.

– A velocidade que os sambas ganharam acabou com a desenho melódico característico deles. Era muito bonito, hoje não é mais. Eu não faço essa linha de samba. Minhas músicas são tristes, melancólicas. Não existe nada, em lugar nenhum, dizendo que um samba tem que ser alegre. Ele tem que vir do coração – finalizou.

Ainda na questão da aceleração das baterias, Luiz Antonio Simas lembrou a medição de batidas por minutos, as famosas BPMs, muito usadas pelos mestres de bateria de hoje para controlar o andamento dos sambas-enredo. Ele ressaltou que 150 batidas por minuto, número que algumas baterias chegam a ultrapassar em alguns momentos no carnaval atual, já é considerado, musicalmente, andamento de frevo.

Campeão de samba na Vila Isabel, mais uma vez em 2011, André disse que tentou fazer com que sua obra não sofresse os efeitos descritos pelo mediador, mas não obteve sucesso.

– Eu falei para os meus parceiros que este ano nós iríamos fazer um samba que seria impossível deles correrem. E fizemos. Com a melodia que colocamos no refrão principal, ficaria muito feio se o samba fosse tocado de forma acelerada. E não é que conseguiram acelerar o samba… Hoje existe também a ditadura dos tons agudos nos sambas-enredo. Não se pode mais usar tons graves porque os diretores de harmonia, de carnaval e a diretoria da escola querem ver o componente gritando, pulando –  afirmou André Diniz, que apontou mestre Odilon como principal mártir na briga pela manutenção das baterias cadenciadas.

A gravação do CD oficial do Grupo Especial também foi alvo de críticas de André. O compositor mostrou-se contrário ao tempo de gravação do álbum.

– Não se pode gravar um CD em uma semana. Muitas vezes o compositor tem a sua obra castrada. As escolas modificam a obra original e estragam, muitas vezes, um belo trabalho. Na Vila eu não posso reclamar porque isso não acontece, mas vejo coisas absurdas por aí. Outra coisa que a Liga precisa ficar atenta é que alguns presidentes fazem com os nossos direitos autorais. Tem agremiação tirando 60% dos direitos autorais dos compositores. Na Vila, se tira 20% para ajudar os outros compositores, mas tem presidente aí tirando um direito que Getúlio Vargas nos deu – disse, referindo-se ao ex-presidente do Brasil, que criou a lei do direito autoral.

A participação dos compositores em escolas diferentes da que são oriundos também foi debatida pela dupla. Para o mestre Monarco, isso é algo inadmissível. Ele lembrou que já fez sambas para o Unidos de Jacarezinho e a Unidos de Padre Miguel, mas justificou sua ação.

– Nunca fiz samba para escola que concorresse com a Portela. Uma vez levei uma bronca do Paulo da Portela porque tinha feito samba para o Jacarezinho, mas disse a ele que tratava-se de uma escola pequena, que não concorreria com a Portela.

Já André Diniz, que disse ter sido acusado até de envolvimento com contraventores e os famosos escritórios de samba, se defendeu.

– Gostaria de ter feito tantos sambas assim como as pessoas dizem. Tenho certeza que a minha situação financeira não estaria tão apertada(risos). Eu já fui consultado por compositores amigos meus e dei a minha opinião em sambas deles sim, mas sempre a diretoria da Vila fica sabendo onde me meto. Eles apenas me pedem para não em meter em certas escolas que são adversárias diretas da Vila Isabel. Se escritórios são máquinas de fazer samba e ganhar dinheiro eu sou contra, mas se for uma ajuda a um amigo, não vejo nada demais.

Quem esteve presente ao evento pôde deliciar-se também com histórias envolvendo grandes nomes do samba contadas por Monarco. Carlos Cachaça, Cartola e Silas de Oliveira foram citados pelo poeta portelense que, por incrível que possa parecer, nunca venceu um samba -enredo na agremiação de Oswaldo Cruz. Com muita simplicidade, ''O Mestre'' pediu mais carinho com o samba.

– Ás vezes eu ouço dez sambas na disputa na Portela e sinto vontade de ir embora. Está tudo muito ruim e igual. O samba precisa vir do coração. Nem o carnavalesco e nem ninguém pode dizer o que e quando deve estar ou ficar pronto no seu samba. O samba ainda é o responsável por toda aquela grande festa que passa na Avenida. Ele precisa ser preservado. O Chico Buarque me disse uma vez que nós, compositores de samba, não devemos deixar ninguém de fora entrar no nosso meio. Nós sabemos fazer samba. Isso não pode morrer. Vamos enaltecer as nossas escolas de samba. Além dos sambas-enredo, os sambas de terreiro precisam voltar – pediu Monarco.

O interesse do público no assunto era tamanho que, em determinado momento, várias pessoas da plateia também opinaram de maneira veemente sobre as questões abordadas, abrindo possibilidades para futuros debates sobre o assunto. Mesmo não tendo muito a ver com o foco central do encontro, a qualidade da transmissão da TV Globo foi indagada e respondida por André Diniz. Para o compositor, a solução é a emissora carioca para de tratar o carnaval como espetáculo e passar a vê-lo como competição, deixando a transmissão a cargo do departamento de jornalismo da Globo.

Para finalizar, um processo que se aproxima e gera muita reclamação nas agremiações: a escolha do samba-enredo. Expert no assunto, pois é multicampeão na Vila Isabel, André revelou o que acha.

– Estou cansado de ver ônibus de torcida, pagar cerveja e todo esse processo. Na minha opinião, a escola deveria se fechar, colocar só as alas de comunidade lá dentro e definir qual samba levará para a Avenida. No circo das disputas de samba o compositor é o grande palhaço.

A próxima mesa de debate do ''Carnaval que festa é essa?'' acontece no dia 16 de agosto, também no Centro Cultural Banco do Brasil e, com o nome de ''O chão do samba'', contará com as presenças de Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor, e  Nilce Fran, coordenadora da ala de passistas da Portela. O encontro será mediado por Aydano André Motta, que também curador do evento.   

    

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