Conheça o braço direito de Laíla na Harmonia da Beija-Flor

Os maiores especialistas em palestras de gerenciamento de grandes grupos de trabalho costumam dizer que os verdadeiros líderes preocupam-se com a capacitação de seus subalternos para, um dia, terem alguém a altura para substituí-los. No carnaval, talvez o maior líder atual, Laíla, disse certa vez, de forma carinhosa, em entrevista ao CARNAVALESCO que não abre mão de trabalhar com um certo 'neguinho' entre os diretores de harmonia da Beija-Flor. Pois bem, fomos atrás do tal 'neguinho' no ensaio de quadra da agremiação de Nilópolis e agora você vai conhecer o homem de confiança de Laíla na harmonia da Deusa da Passarela.


Nascido em São João de Meriti, o ex-passista da Unidos da Ponte, Válber Frutuoso, começou a trabalhar em harmonia quase que por acaso. Foi na Grande Rio, no final da década de 80, quando chamado por um amigo para ajudar a tomar de conta de uma ala acabou ficando para o ano seguinte, mas a permanência na Tricolor de Caxias não foi tão simples assim.


 

Lembro que precisei passar por uma espécie de teste. Me deram a ala das baianas para ensaiar e gostaram do meu rendimento. Depois disso fiquei na escola até 1994 – disse ele.


Foi na Grande Rio que Válber Frutuoso conheceu Laíla, em 1991, durante os preparativos para o desfile da escola para o desfile do ano seguinte – 'Águas Claras para um Rei Negro' – quando a agremiação de Caxias voltou ao Grupo Especial. À época, Laíla ainda não havia assumido o comando da harmonia da Grande Rio, que era dirigida pelo compositor Candimba, fato que só ocorreu no ano seguinte.


No pré-carnaval de 1993, durante os preparativos para o grande desfile 'No mundo da lua' que a Grande Rio faria, Laíla quis saber quem era o responsável pela criação dos úteis organogramas de trabalho que a escola dispunha. Foi apresentado a Válber e desde então começaram a aproximar os laços.


Comecei a organizar uma documentação do organograma da escola, montei planilhas para o barracão com cálculo de tempo para execução das tarefas e outras coisas e também fazia esse trabalho junto com as alas. Aí o Laíla se interessou em saber quem eu era. Não consigo ficar parado e ele foi me conhecendo nos ensaios, fomos sempre trocando ideias e hoje estamos juntos na Beija-Flor.


Válber carrega no sangue o DNA de sambista. É inegável. É primo de Almir Frutuoso, diretor de harmonia da União da Ilha, filho de um dos fundadores do Cacique de Ramos e ex-mestre-sala da Mangueira, além de ser irmão do compositor e intérprete Wander Timbalada, atualmente na Unidos de Vila Santa Tereza. Perguntado o que mais aprendeu com Laíla em todos esses anos, o diretor de harmonia tem dificuldade para sintetizar.


– São várias coisas, mas o fundamental é a humildade e a perseverança. Estamos trabalhando juntos desde 1991 e ele tem uma capacidade de aglutinar grupos,uma espontaneidade e uma sinceridade impressionantes. O grande ensinamento dele é esse. A valorização do grupo, o zelo pelo próximo, a formação dos jovens. Nós sempre temos em mente a política de dar oportunidade aos jovens.


Antes de chegar na Beija-Flor, em 1995, Válber lembra de um caso que, segundo ele, resume bem a significância de Laíla para quem trabalha com ele. Pouca gente sabe, mas antes do desfile da Grande Rio de 1993, a escola encontrou muitas dificuldades para levar suas alegorias para a Avenida.


– O que me marcou muito foi o nosso primeiro ano na Grande Rio, quando desfilamos sem dormir. O nosso barracão era na Avenida Brasil, na altura da Penha, e saímos de lá na sexta-feira de noite e só  conseguimos chegar na Sapucaí no domingo de manhã. Os carros foram quebrando, problemas de eixo, um carnaval grandioso, e o que me impressionou foi a garra do Laíla em nos dar força. Eu lembro que pedi a um amigo para me levar em casa para tomar banho e tirei um cochilo dentro do carro mesmo. O abre-alas estava até com um problema, tivemos que deixá-lo embicado na Passarela para ele poder passar. Aqui na Beija-Flor, o que mais me marcou foi esse último carnaval. Demos uma guinada na escola em termos de fantasia e alegoria após uma visão do Laíla e essa vontade de mudar comprada por todos foi muito legal. O carisma do Roberto Carlos também foi algo impressionante durante o desfile.


Atualmente trabalhando na Fundação Oswaldo Cruz, o biólogo Válber mostra humildade ao não se sentir capaz para substituir Laíla em alguma eventualidade. Ele lembra que precisaria alterar completamente sua rotina para tomar conta de tudo o que o diretor de carnaval da Beija-Flor conta. Além disso, admite que ainda precisa evoluir em alguns aspectos.


– É uma coisa extremamente difícil. Não me sentiria à vontade. O carnaval hoje não é só a quadra. Em razão do meu trabalho fora do carnaval não tenho disponibilidade para estar no barracão todos os dias. Sinceramente, não sei se conseguiria desempenhar o papel dele com a mesma capacidade. É uma responsabilidade muito grande. Uma coisa é a coordenação das alas e outra é tomar conta do barracão. Lá é preciso ter percepção de muitas outras coisas. É um conjunto de coisas que eu ainda não domino plenamente. Sou muito sincero nas minhas posições e não sou do tipo que dá um passo maior do que se possa dar. Espero, do fundo do meu coração, que tão cedo não se tenha a necessidade de substituição do Laíla na Beija-Flor. Ele tem saúde e vibração muito fortes. Ainda tenho muito o que aprender com ele, assim como todos na escola – disse ele, atualmente com 47 anos.


A Beija-Flor de Laíla, Válber e toda comunidade nilopolitana será a sexta escola a desfilar no domingo de carnaval, com o enredo 'São Luís – o poema encantado do Maranhão'. A escola buscará o 13º título de sua história no Grupo Especial.
 

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