Cordão da Bola Preta arrasta multidão no Centro do Rio

Manhã, tão bonita, manhã…

E nem era manhã tão bonita assim, mas quem se importava… Chovia, sim; mas o cenário era mais que perfeito.
Mais uma vez… mais um carnaval … mais um Bola Preta.

Mais uma vez fico me perguntando: por que razão gosto tanto disso, por que razão isto me faz tão bem? Me revigora, me traz tanta energia?

* Veja galeria de fotos do  Cordão  da Bola Preta 2011

Sabemos que o carnaval para uns tem suas origens há milênios vinculadas à agricultura e à alegria e comemoração de colheitas bem sucedidas. Para outros tem origens mais recentes, alguns séculos atrás, quando a igreja definiu datas que acabaram por direcionar o comportamento dentro do universo da fé cristã.

Será que uns ou os outros sabiam o que estavam inventando. Que proporções tudo isto ia alcançar?

De uma maneira ou de outra, desde essa ou aquela data, o carnaval ganhou o mundo e está por toda parte. Mas em nenhum outro lugar expandiu-se em dimensões continentais e tão vibrantes como aqui, entre nós.

Por todo país vemos os espetáculos das escolas de samba. Regionalmente mais diferenciada na Bahia e em Pernambuco a festa mostra ao mundo a cara multifacetada culturalmente que temos mostrada ao mundo com a cara monofacetada da mesma alegria de brincar o carnaval.

Que outro país, que outro lugar poderia proporcionar uma festa tão singular, tão generosa, tão intensa quanto a que faz o Cordão da Bola Preta?

Por mais que me orgulhe, que goste tanto, que pense e escreva sobre ele por todo o ano, nunca deixei que o desfile das escolas de samba monopolizasse meu carnaval. E nunca vou deixar.

O cortejo do Bola Preta para mim ainda é o momento insuperável, maior da festa. Será que era a isso que o Didi, da Ilha, queria dizer com o tal "porre de felicidade"?

Aquela multidão, aquela avenida, aquelas marchinhas e sambas atemporais para mim são mais significativos do que o mais bonito e mais vibrante desfile que eu possa ter vivido.

É claro que há um enorme componente pessoal, familiar, emocional nisso tudo. Não posso, não me interessa e não vou negar.

Se o desfile para mim é uma mistura da cultura do samba e de carnaval, o cortejo do Bola é mistura de samba, de carnaval, temperado e apimentado com marchinhas que nunca vou poder esquecer e de sambas de carnaval que nunca vou poder esquecer.

E tudo isto com gente, com muita gente. Gente como eu que ama o carnaval, que ama a cidade, que se orgulha de ambos, e que vive e deixa transbordar em cada um o verdadeiro espírito carnavalesco, coisa que as escolas de samba, cada vez mais bonitas, vão deixando progressivamente para trás.

Será aquele momento, aquele sábado, aquela manhã de carnaval, é um momento mágico!? No sentido exato da palavra? Isto mesmo, momento mágico. Ali não é a vida real, não é o dia a dia; ali não é o carnaval de 2011.
Essa a magia do BOLA, por isso me faz tão bem.

Aquilo não é verdadeiro, não é real. Aquela massa humana, aquela massa musical, todo mundo igual, com a mesma cara, ou mesma expressão, só existe ali, naquele momento; só existe para quem está ali, agora. Não adianta ver pela televisão.

Se na vida real as marchinhas morreram, sob a fúria comercial dos sambas-enredo, se no dia a dia os sambas são tão "corretos", "suficientes", "mecânicos", se
no carnaval de 2011 ouvimos tão poucos sambas que nos induzem a cantar e dançar, no mundo irreal, único, mágico do Bola Preta tudo isto está de volta. Está de volta, uma ova! Nunca foi embora!
Vi um rapaz ainda imberbe, fantasiado de árabe, brincando com uma moça de idade semelhante vestida de cigana só na cabeça. Naquela hora a banda tocava "A Jardineira". Não sei se conheceram ali. Ele fez ar de apaixonado e perguntou "por que ela estava tão triste"? E ela,com ar mais apaixonado ainda, respondeu
aquelas coisa coisas da Camélia caída do galho para morrer em seguida. Não deu para ouvir direito, mas acho que ele estava querendo dizer a ela "que este
mundo era todo dela, e que ela era muito mais bonita que a camélia que morreu"

Ali não eram jovens americanos dirigidos pelo "american way of life". Lá só o futuro importa: o futuro está no futuro! O cordão do Bola, naquele momento irreal, me
dá a infinita certeza de que aqui as coisas são diferentes. Se o futuro está no futuro, no passado está nossa alma. A alma do povo brasileiro com todas as suas paixões.

Sabemos que o carnaval, pela importância cultural, pela ancestralidade em nossas vidas, é terreno profícuo para o saudosismo, assim diz sempre Sergio Cabral com saudades os carnavais imortais da Cascadura de sua infância.

Quem é que vai tentar me convencer que o maior sucesso do carnaval foi "Tengo, Tengo", "Máscara Negra" ou "Jardineira"?

Cada um de nós tem seu jardim de carnaval. Nele suas melhores lembranças, suas ruas de infância, a presença terna e amiga de pais, irmãos, avós… e de tantos amigos, todas e tantas namoradas mesmo que nunca tenham sido verdadeiras namoradas.

Que outro povo terá isto?

Que outro povo faz de sua festa maior, mais exuberante, o repositório de suas saudades, de suas alegrias, da busca do remédio para as adversidades e descaminhos de uma vida que tomou rumos muitas vezes tão doloridos?

Tantas tristezas por aí, tantas perdas pelo caminho.

Pois saibam que para mim o maior carnaval do mundo, maior que da Sapucaí, maior que do Bola Preta era o carnaval da casa de D. Vilma. D. Vilma, a Tia Ciata
da rua Cabuçu, a tia festeira, acolhedora, amiga que deixava fazer acontecer em sua pequena sala, ao som de frevos, marchinhas e sambas carnavalescos, as maiores ilusões de nossa vidas infanto-juvenis.

Pois saibam vocês todos que a música de carnaval que mais me toca é o hino do América.

Como é que vocês querem nesses dias de hoje que eu consiga dimensionar para vocês o que era o baile começar e depois terminar nos salões do América ao som daquele hino?

Como é que eu posso conseguir dizer para vocês o que era ouvir aquele hino ao final do baile, sabendo que estávamos na terça-feira. Saber que era, enfim, o fim daquele carnaval.

E ver a Sandrinha, a maior de todas as minhas paixões de carnaval, com aquela pele tão morena, sair do baile com um cara muito mais bonito do que eu, muito mais velho do que eu? E tudo aquilo que aconteceu na casa de D. Vilma, será que não valeu nada? Será que a vida é isso?

O carnaval do Boulevard, de Vila Isabel.

As cadeiras na porta da Vila Cortez, que está lá até hoje, casa da avó de meu pai. Estávamos todos ali e éramos tão felizes. Puxa, queria muito que vocês soubessem como éramos tão felizes naqueles carnavais.

Aí eu vou para a Sapucaí hoje e sinto o maior orgulho daquilo lá. Puxa, eu sinto como se fosse o meu povo contando a sua história, uma história que eu acho tão bonita, apesar de tudo. E  contando de uma forma como nenhum outro povo é capaz de contar.

Mas quando estou no Bola Preta é diferente. Muito mais que a história musical de meu povo, ali está passando também o carnaval das marchinhas da minha vida. Os sambas que meu pai cantou um dia, naquela mesma rua.

Ali, com o Bola Preta, muito mais que um carnaval tão bonito, passa a trilha sonora da própria vida de cada um de nós. Assim como se soubéssemos, ou mesmo que tivéssemos por ilusão, do quanto fomos tão felizes e nem sabíamos quanto.
Esta crônica é dedicada a Olivier Desart e Emilie Bottldoorn, companheiros de hoje do Bola, foliões do carnaval do mundo inteiro.

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