Cordel salgueirense já está nas mãos de seus poetas repentistas

A cada ano que passa, o Salgueiro tenta, cada vez mais, fazer jus ao seu slogan, “Nem melhor, nem pior, apenas diferente”, criado por Calça Larga, um dos fundadores da agremiação. Diferente de tudo que se viu em 2010, a Vermelho e Branco da Tijuca promoveu um encontro simples entre a diretoria e os compositores para lançar a sinopse do enredo “Cordel branco e encarnado”, que pelo nono ano leva a grife e a assinatura de Renato Lage.

A presidente Regina Celi, recém empossada para mais um mandato de três anos no comando da escola, foi a primeira a falar e frisou que o sistema de escolha do hino salgueirense continua o mesmo. No último ano, a presidente surpreendeu a todos quando revelou o voto de todos os segmentos da escola, fazendo história em termos de disputa de samba-enredo.

– Aqui no Salgueiro tudo está em paz. Se algum compositor pensou que vai fazer acordo e que sua obra é mais merecedora que a de um concorrente, é melhor nem entrar em nossa disputa. Vamos fazer como no ano passado e revelar os votos de cada um dos votantes. No Salgueiro fazemos tudo às claras. É tempo de acabar com aquela velha história de “fulano” falar que vota em “ciclano” por causa da amizade. Aqui no Salgueiro se você recebe as pastas de votação, você tem que assumir seu voto publicamente – lembrou Regina.

A mandatária aproveitou a ocasião para apresentar alguns dos novos integrantes da escola, ou pessoas que já estavam no Salgueiro, mas que passam a ter representatividade na nova diretoria, como Tia Nilda, presidente da Ala dos Compositores, André, que cuidará de todo o controle de material do barracão, e Dudu Azevedo, novo integrante da direção de carnaval. Vestindo uma camisa vermelha, uma das cores da escola, o ex-comandante da harmonia da Grande Rio mostrou que está bem tranquilo para exercer sua nova função.

– Foi maravilhoso chegar ao Salgueiro. Todos aqui estão me tratando super bem. Agora eu sou o Dudu do Salgueiro. Só vim porque era para acrescentar e não para tirar o lugar de alguém – frisou.

O carnavalesco Renato Lage parecia muito tranquilo e feliz com a escolha do enredo e fez questão de citar o Departamento Cultural da agremiação, integrado por Paulinho, Eduardo Pinto e o colunista do CARNAVALESCO, Gustavo Melo, que nos últimos anos auxiliam no desenvolvimento do enredo e na pesquisa da sinopse.

– Fico avexado de falar no microfone (iniciou brincando). Esse tema é muito inspirador. Muito gostoso de fazer, não apenas para o compositor, mas também para o artista que planeja as imagens casadas com o que está escrito. Quando se pega um enredo assim tudo fica mais fácil. O Salgueiro é uma escola de pessoas fantásticas. Esse trio do Departamento Cultural é espetacular. Um enredo como esse do cordel é um brinde, um verdadeiro poema que tem identificação com todos e com a escola – encerrou Renato pedindo inspiração aos compositores presentes.

Após a leitura da sinopse, integrantes do Departamento Cultural do esclareceram as primeiras dúvidas dos compositores. As citações de regiões típicas do nordeste e o uso de linguagem própria do sertanejo colocados na sinopse foram esclarecidos pelo trio da cultura salgueirense. Gustavo Melo, colunista do CARNAVALESCO, citou alguns trechos da sinopse.

– Temos que fazer uma disputa como em 2011. A presidente nos possibilitou a oportunidade e o Renato nos brindou com um texto e uma pesquisa maravilhosa. Espero que os dons da inspiração dominem vocês (compositores). Estamos fazendo uma abordagem bem cronológica e bastante simples. Começa na Europa e passa pelos cordões famosos. É uma viagem de simplicidade com profundidade. Queremos ter o melhor samba de 2012 e, tenho certeza, que os compositores irão nos presentear com mais algumas belas obras – afirmou Gustavo Melo.

Conhecido como “Lobisomem”, Victor Alvim Garcia é apaixonado pela arte da literatura de cordel e fez questão de prestigiar a entrega da sinopse. No fim da cerimônia, o artista e o carnavalesco Renato Lage trocaram diversas ideias sobre a literatura de cordel.

– É muito gratificante ver essa manifestação que lutamos tanto para não deixar morrer, se transformar em um enredo tão bem pesquisado. Cheguei ao cordel por causa da capoeira. Sempre tive interesse pela cultura brasileira em geral, mas quando comecei a praticar a capoeira, fui pesquisar e me encantei com a simplicidade da literatura de cordel. Os temas populares, a histórias fantasiosas, o cangaço, a abordagem absurda. Tudo nessa manifestação é fascinante – afirmou.

Dono de uma extensa lista de criações na literatura de cordel, Victor também escreve suas histórias desse tipo de literatura. O autor disse com exclusividade ao CARNAVALESCO que inventou uma maneira bastante peculiar de citar em sua arte, as pessoas que gosta.

– Quis homenagear todos os meus ídolos. Peguei pessoas que sou fã transportei para o universo da literatura de cordel. Foi a maneira que encontre de colocar as pessoas que gosto dentro daquilo que eu mais gosto – disse o autor de títulos como “A fantástica história de Zeca Pagodinho, o disco voador e o extraterrestre”, “O maravilhoso encontro de Jorge Benjor com São Jorge”, “O debate de padre Cícero com mestre Caiçara” e “A peleja de Lampião com o besouro mangangá”.