Coreógrafo da Mangueira e do Tuiuti, Júnior Scarpin vive rotina atribulada entre o carnaval e a TV

A comissão de frente do Paraíso do Tuiuti na Série A em 2015, representando 'O herói navegador e os terríveis papões selvagens' foi uma das grandes sensações do carnaval que passou. Ao lado de outros trabalhos, como a comissão de frente do Império da Tijuca em 2013 nomeada 'Éfé-Geledé – O ritmo em louvor a Eléeye', a comissão do Tuiuti em 2015 constitui mais uma página no portfólio do coreógrafo Júnior Scarpin, agora contratado pela Mangueira para reforçar o time da escola rumo ao Carnaval 2016. A arte de Júnior, porém, não está contida apenas no carnaval: além das duas escolas em que está desenvolvendo apresentações para o próximo ano, ele também trabalha como coreógrafo na TV Globo desde 2010, conforme contou ao site CARNAVALESCO:

– Comecei a trabalhar na TV Globo em 2010, como coreógrafo assistente do Criança Esperança. Em 2011, segui no projeto e também comecei a coreografar o humorístico do Casseta & Planeta. Em 2012, ainda estava no Criança Esperança e pintou, no finalzinho do ano, o Fly, que é um coreógrafo super conhecido e muito meu amigo, me chamou para coreografar o Esquenta. O programa estava voltando e ia para uma temporada maior que os três meses anteriores, de quando ele tinha uma temporada só de carnaval. O Esquenta para uma temporada de seis meses e o Fly não ia poder assumir porque estava entrando como diretor, ele me perguntou se eu estava afim de fazer e eu confirmei. Já coreografei outras coisas na casa, coreografo o Esquenta há três anos e há seis meses entrei para o time do novo Zorra, coreografando os quadros musicais – conta Júnior.

Há cinco anos trabalhando na Globo, sendo três dele no Esquenta, Júnior vivenciou na pele o intercâmbio entre duas das mais representativas manifestações audiovisuais do país. Se o carnaval é a maior festa popular do Brasil, capaz de reunir imagens, sons e emoção em 82 minutos, é a televisão, hábito diário do brasileiro e objeto intrínseco às casas de todas as famílias do país que transmite essa festa para todo o território nacional e tem o papel de engrandecê-la ainda mais. Por conta dessa conexão, a entrada de Scarpin para a equipe de bastidores do Esquenta foi permeada pela sua forte relação com o mundo carnavalesco:

– Isso é a minha cara. Eu trabalho com carnaval, a Regina Casé é uma fã declarada de carnaval e o programa é feito por sambistas como o Xande de Pilares, o Arlindo Cruz e o Leandro Sapucahy. Entrar num lugar onde você já tem conhecimento de causa, é um ganho enorme. O elenco é composto por ex-rainhas do carnaval, como a Bianca Salgueiro; ex-princesas como a Chaveirinho e a Talita. Então, eu me senti muito bem e aceitei o convite mais por conta desse desafio. Eu só estava acostumado a trabalhar com bailarinos profissionais e quando o Fly me fez o convite contando que o elenco não era profissional, mas que eram pessoas que dançavam e amavam carnaval, eu topei – relata o coreógrafo.

Júnior considera que para equipe do programa, também é importante contar com uma figura do mundo do carnaval trabalhando atrás das câmeras: – Amo aquele lugar, eles me dão uma super abertura. Foi importante pra equipe ter uma pessoa do carnaval. Em 2013, quando fiz o Império da Tijuca, foi um ano em que meu trabalho se destacou muito e eles reconheceram isso. Pra eles é muito bacana ter alguém do carnaval não só no elenco, mas também por trás das câmeras.

Dividida entre duas escolas e o Projac, rotina de Júnior é 'uma loucura'

Se as quadras do Paraíso do Tuiuti e da Mangueira ficam a apenas três quilômetros de distância uma da outra, o Projac, onde trabalha Júnior nas produções do 'Esquenta' e do 'Zorra', fica a cerca de 25 quilômetros das duas. Ou seja, na rotina de Scarpin, carnaval e televisão estão praticamente em extremidades opostas da cidade, o que é um fator que exige organização e disciplina do coreógrafo para que ele possa estar presente em todos os compromissos que assume:

– É uma loucura. Não temos dias fixos de gravação e recebemos o cronograma uma semana antes. As vezes tenho reunião em um dia, ensaio no dia seguinte e gravação no outro. Quando entro no Projac, não tenho hora pra sair, só pra entrar. Eu moro na Tijuca e o Projac fica em Curicica, então levo um tempo para chegar e sair. Já aconteceu diversas vezes de eu chegar atrasado nos meus ensaios por estar saindo da gravação e é o que vai acontecer por agora.

Para conseguir organizar todos os compromissos, ensaios e eventos nos quais precisa estar presente, Júnior conta com a ajuda da irmã, Mariana Scarpin. Além dela, ele também revela que trabalha com uma equipe capaz de suprir todas as suas necessidades: – Começo a ensaiar a comissão de frente da Mangueira na semana que vem e em novembro a do Tuiuti. Terei, então, Esquenta, Zorra, Tuiuti e Mangueira. Trabalho com uma equipe que me supre de tudo, não falto nunca aos meus compromissos, o máximo que me permito é chegar atrasado. Minha irmã é meu braço direito e esquerdo e minhas duas pernas, ela trabalha comigo, toma conta de tudo e cuida da minha agenda pra não deixar embolar. Eu dou conta – diz ele confiante.

Saída do Império da Tijuca foi conturbada e carinho pelo Tuiuti fez com que Júnior seguisse na escola

O rebaixamento do Império da Tijuca para a Série A, em 2014, ainda é uma marca recente nos integrantes da escola do Morro da Formiga. Júnior era o coreógrafo da escola para aquele desfile e conta que acabou sendo culpado pelo rebaixamento, devido as notas de comissão de frente. Na ocasião, a escola perdeu 13 décimos dos 30 pontos possíveis, sem contar a nota descartada. A saída da escola, uma decisão pessoal motivada por uma briga, fez com que Júnior pensasse em se afastar do carnaval temporariamente:

– Saí do Império da Tijuca em um momento de muita turbulência, foi no rebaixamento da escola, muitas coisas aconteceram e cheguei a ser um dos culpados por causa das notas e da queda. As pessoas costumam enaltecer a gente na glória, mas na derrota sempre há um culpado e a culpa cai para o lado mais fraco. A verdade é que eu saí da escola por um motivo pessoal, por conta de uma briga que eu tive lá e por isso eu tomei a decisão. Conversei com o presidente e em comum acordo, decidimos que eu sairia da escola. Eu estava decidido a não fazer mais carnaval, pelo menos naquele ano – diz o coreógrafo.

O afastamento durou pouco. Dentro de alguns meses, Júnior recebeu um convite de Renato Thor, presidente do Tuiuti à época, e foi contratado para desenvolver a comissão de frente da escola para o Carnaval 2015: – Tenho um carinho muito grande pelo Tuiuti.  Depois de alguns meses fora do Império da Tijuca, recebi o convite do Thor, que já queria trabalhar comigo desde 2013. Em 2014, ele tentou negociar com o Tê para que eu trabalhasse pelo Tuiuti na Série A e pelo Império no Grupo Especial, mas não aconteceu. O Tuiuti me tratou muito bem. Eles foram muito honestos comigo desde o momento da minha contratação, até o momento de me pagar. A escola supre todas as minhas necessidades. Quando eu fui conversar com o Thor, eu disse a ele que se ele me desse toda a estrutura de trabalho, eu conseguiria fazer um carnaval maravilhoso e ele disse que se comprometia comigo. Graças a Deus ganhei todos os prêmios e os quarenta pontos, o que é uma pena pra escola que eu deixei. Acho que Deus sabe o que faz e eu estou muito feliz – comemora.

A comissão de frente do Tuiuti coreografada por Júnior foi premiada com o ESTRELA DO CARNAVAL, do site CARNAVALESCO, de Melhor Comissão de Frente da Série A em 2015. A apresentação trazia um 'bicho-papão', carinhosamente chamado de Helena, que devorava Hans, personagem principal do enrendo, e o devolvia para a Avenida instantes depois fantasiado de esqueleto. A aplaudida apresentação rendeu frutos colhidos ao longo do ano. Em junho, na Feira Carnavália-Sambacon, o 'bicho-papão' esteve em exposição no stand do site CARNAVALESCO e foi facilmente reconhecido pelos amantes do carnaval, além de ter servido como companhia para diversas 'selfies' e fotografias memoráveis para o público do Centro de Convenções SulAmérica, no Centro do Rio. 

O trabalho realizado no Império da Tijuca e no Tuiuti chamou atenção do presidente Chiquinho da Mangueira e Júnior foi convidado a trabalhar na escola, mas conta que em momento nenhum pensou em deixar a agremiação que o acolheu na Série A: – Quando pintou o convite da Mangueira, o Chiquinho foi um dos primeiros a virar pra mim e falar 'Eu gostaria que você não deixasse o Tuiuti'. Eu falei que essa era uma das minhas cláusulas: aceitar fazer a Mangueira, mas sem deixar o Tuiuti em momento algum. Enfim, estou feliz, dá tempo pra tudo, dá tempo pra ensaiar, dá tempo para fazer o Esquenta e dá tempo para estar nas duas escolas.