Cria da Mangueira, Elmo José dos Santos elege o carnaval de 1967 como o momento inesquecível

"Relembro… / Aquele mundo encantado / Fantasiado de dourado/ Oh! doce ilusão / Sublime relicário de criança / Que ainda guardo como herança / No meu coração". Versos de um samba-enredo imortal. Versos de um samba-enredo que embalou um desfile, para ele, imortal. Ele é Elmo José dos Santos, o escolhido pelo para abrir a série de reportagens "Meu Carnaval Inesquecível". Ex-presidente da Mangueira e hoje diretor de carnaval da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), Elmo define o carnaval de 1967 como o momento mais marcante de sua vida.

Na época, com apenas nove anos, o então garoto sonhava com o dia em que tocaria junto com seu pai, na bateria adulta da Mangueira. Um dos fundadores da bateria mirim da verde e rosa, Elmo queria sentir a emoção de desfilar envolvido pela magia do povo na Avenida Presidente Vargas. E foi lá que conseguiu realizar tal feito, capaz até de superar outro tão especial quanto: a conquista do título do carnaval de 1998, quando era presidente da escola, com o enredo Chico Buarque da Mangueira.

– É gostoso ser campeão como presidente da escola, me emocionou muito. Mas o carnaval que marcou a minha vida foi o de 67, com Monteiro Lobato, quando eu ainda era da bateria mirim. Quando cheguei na Avenida, todo mundo gritando "Mangueira, Mangueira", aquela emoção. E pior, eu queria tocar caixa, porque meu pai era o maior tocador de caixa da Mangueira. Mas o mestre Waldomiro disse que eu ia tocar chocalho, porque o desfile durava duas, três horas e eu não aguentaria. Chorei muito, mas acabei me empolgando. Quando acabou, eu estava realmente exausto, mas o povo desceu da arquibancada gritando "A Mangueira já ganhou". Então mesmo depois de todo esse tempo de desfile, fomos tocar com o povo. Foi demais, foi lindo – conta Elmo, emocionado.

Arrepiado apenas por lembrar do momento, o dirigente da Liga tem em mente, no entanto, a realidade que hoje é o carnaval – bem diferente do romântico tempo de O mundo encantado de Monteiro Lobato. Mas para ele, há uma experiência que ainda deveria ser comum a todos.

– Acho que todo dirigente tinha que passar pela bateria, porque é ali que você rasga a mão pela escola. Foi ali que eu aprendi a amar o pavilhão verde e rosa e dar valor àquele povo da cozinha da bateria. E tenho muito orgulho disso. A Mangueira é uma coisa de maluco. A gente via o cara tocando e chorando, um amor muito grande pela escola – afirma.

Orgulhoso por ter assumido o cargo mais alto de uma escola fundada por Carlos Cachaça e Cartola, Elmo conta que, quando criança, tinha toda a bateria da Mangueira dentro de sua casa, já que na quadra o telhado não era suficiente para evitar que chuva molhasse os instrumentos. Segundo o diretor, naquele tempo, o quadro social da bateria era maior que o da própria escola, o que mostra a força que tinha o grupo. Feliz com as lembranças, ele relata como se deu o enterro de mestre Waldomiro, então diretor de bateria da verde e rosa.

– Antes de morrer, ele pediu para ser enterrado com a bateria roncando atrás dele. E foi o que a gente fez. Falei com alguns amigos, mas no final consegui quase 300 pessoas para tocarem atrás do caixão entrando pelo cemitério, parecia Avenida. Me arrepio só de lembrar.

Assim como Elmo José dos Santos, diversos outros mangueirenses certamente têm seus carnavais inesquecíveis. Mas com certeza o que eles querem mesmo é fazer de 2011, no futuro, um ano memorável para a escola.