Cultura x lucratividade

As pessoas que conduzem o carnaval hoje em dia, não pensam em samba; só pensam em dinheiro. Se o homem público tem um projeto para a cultura, se tem uma política definida para a preservação do patrimônio cultural, isso não importa. O que importa é quanto o político vai dar de subvenção. Quando vai reformar a quadra de ensaios, quando vai construir o barracão.

O que esperam é quadra cheia. Não cheia de sambistas; cheia de consumidores de cerveja, pagadores de ingressos, compradores de camisas na boutique da escola.

No show business do samba, compositor bom não é aquele que faz um bom samba, compositor bom é aquele que produz megaeventos, com palco recheado de estrelas na parceria e intérpretes famosos.

Para esses gananciosos administradores do carnaval, movimento cultural é discurso de idealista boboca. A realidade, dizem, é que é preciso dinheiro, muito dinheiro, milhões. Ninguém fala em nada menos do que milhões.

O mérito do carnaval está se tornando proporcional ao número de países que ele consegue alcançar pela televisão. Quantos turistas ele consegue trazer para a cidade maravilhosa. Quanto esses turistas gastam na cidade maravilhosa. Quanto as indústrias e comerciantes de material para fantasias e alegorias vão obter de lucro. Quantos trabalhadores, mesmo que sub-empregados, sem vínculo empregatício, sem condições de segurança e saúde; quantos trabalhadores vão estar sobrevivendo por conta do show business que se tornou o carnaval. Lucro é o discurso. Lucro, porém, para alguns poucos.

Por que o rebaixamento do grupo especial é de apenas uma escola, enquanto nos grupos de acesso chegam a ser três ou mais ? Porque as pessoas que mandam não podem ter suas escolas rebaixadas. Nem vão repartir com quem está ascendendo. Para poder ascender e ficar, é preciso ser aceito pela cúpula poderosa do show business.

Algumas escolas apregoam contrapartidas, como o aumento em suas alas de comunidade. Sobre esse cenário cabem algumas reflexões:

Velha-guarda é ou não comunidade? Então por que existem escolas que chegam a cobrar R$ 800,00 pela fantasia dessas pessoas que recebem pequenas aposentadorias? Ala de compositores é menos comunidade do que outros frequentadores das escolas? Então por que algumas escolas chegam a cobrar valores em torno de R$ 500,00 para fantasias de compositores? Embora uma parte dos direitos autorais seja retido pela escola a título de custeio da mesma ala de compositores?

E aquela comunidade que frequenta a escola, participa de todos os ensaios técnicos, duas, três vezes por semana, cuja presença é registrada em chamada nominal e ainda têm que confeccionar as próprias fantasias? E, como se não bastasse, algumas escolas cobram por essas mesmas fantasias de ala de comunidade, confeccionadas pela comunidade, valores entre R$ 100,00 e R$ 150,00.

Nós que repudiamos as ditaduras que ainda insistem em oprimir alguns povos pelo mundo, nós que ficamos atentos a qualquer movimento de ilegalidade institucional em nosso país; aceitamos, até com certa naturalidade, comportamentos autoritários dentro do carnaval. Curioso como estes, que hoje se apresentam como paladinos da democracia que defendem a "liberdade" de receber verbas públicas a qualquer custo, são os que perseguem aqueles que discordam de suas idéias. São os que expurgam componentes rebeldes das escolas e críticos de suas geniais gestões. Sem lucro não tem democracia?

Não é atoa que o desfile das escolas de samba cada vez mais se assemelha a paradas militares. Mas, como dizem, o samba não pode parar. O samba não pode parar nem pra pensar.

Comente: