Debatedores querem uma nova revisão no quesito enredo

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Um quesito que ainda parece um pouco misterioso para o sambista e carnavalesco, pelo menos em seu julgamento. Resumido e explicado em menos de uma página no Manual de Julgadores da Liesa, o enredo, base de todo desfile, é mal julgado, segundo os convidados do seminário “Pensando o Carnaval”.  Os carnavalescos Milton Cunha e Maria Augusta, os pesquisadores Marcos Roza e Julio Cesar Farias, além de Gustavo Mello, da direção cultural do Salgueiro e colunista do CARNAVALESCO, pediram uma revisão do Manual de Julgadores.  Eles ainda reivindicam um corpo de júri com maior “envergadura cultural” e enredos mais críticos e alegres. Para eles, o carnaval teria ficado “careta” demais.

– A Liga deveria reformular o Manual. Para o carnaval de 1987, o Anísio [Abraão David, presidente de honra da Beija-Flor], mudou todo Manual. Houve encontros com especialistas, diretores de todas as escolas. Nós estamos avaliando seguindo o mesmo texto de quase 25 anos. Os critérios estão obsoletos. Há anos nós não entendemos o julgamento do carnaval. Um dos motivos da minha saída do carnaval foi que eu não me sentia confortável com aquele tipo de julgamento  – confessa Maria Augusta.

A carnavalesca ainda lembrou que o jurado parece estar mais preocupado em fiscalizar se todas as alas estão na ordem correta ou se não falta nenhum carro alegórico. – Eu defendo que o carnavalesco possa mudar uma ala ou até tirar um carro alegórico antes do desfile. Ele só tem uma idéia do conjunto do desfile quando está na Avenida. Antes disso, é tudo na sua imaginação, em desenhos. O carnavalesco como artista poderia mudar sua criação na Avenida – sugere a carnavalesca.

Para Milton Cunha, julgar está ligado ao poder. Considerado um dos melhores criadores de enredo do carnaval carioca, ele acredita que primeiramente os temas levados à Sapucaí precisam ter “relevância cultural”. O carnavalesco criticou o que chamou de “pop”.

– Se eu fosse jurado, eu olharia se aquele enredo tem alguma relevância cultural. Se não tiver, eu iria canetar. Exerceria meu poder. O enredo precisa acrescentar algo

No entanto, para os pesquisadores Julio Cesar Farias e Marcos Roza, tudo pode virar enredo, mas nem todo enredo necessariamente tem relevância cultural. Julio Cesar entende que o tema precisa primeiramente ter começo, meio e fim.  Ele e os outros convidados apoiaram ainda a justificativa da nota dez, hoje não obrigatória.     

– Por que justificar o dez? Para saber como o carnavalesco atingiu de maneira certa o julgador – disse o escritor e pesquisador da Unidos da Tijuca.

Aliás, o enredo deste ano da Unidos da Tijuca sobre o medo no cinema serviu como exemplo para um outro problema no julgamento que irrita os carnavalescos. O mediador do debate Fabio Fabato leu uma justificativa na qual o jurado desconta dois décimos da escola por ter sentido falta de alguns filmes de terror no enredo. Neste caso, para Gustavo Mello, os jurados desobedecem ao próprio Manual da Liesa quando não respeita o recorte do carnavalesco sobre o enredo.

– Em 2003, o Salgueiro perdeu muitos décimos em enredo. Nós decidimos contar a história dos 50 anos da escola tendo como base os seus títulos. E os jurados falaram que o Salgueiro tinha mais história. Sim, claro que a escola tem, mas nós decidimos fazer um recorte diferente – conta Gustavo Mello.

Como não poderia faltar, os polêmicos enredos patrocinados foram criticados pelos debatedores com relação à forma em que ele é desenvolvido. Para eles, a imposição do patrocinador fere a autoria do carnavalesco.

– Eu já vi escola que recebeu do patrocinador o roteiro inteiro. Na Beija-Flor com o enredo de Brasília, queriam exigir que a escola passava todos os seus desenhos de alegorias e fantasias para aprovação do escritório do Niemeyer – revelou Maria Augusta.

Milton Cunha disse que os enredos patrocinados estão “esquartejando” a criação dos carnavalescos. Ele ainda pediu a volta dos enredos críticos e alegres.  Segundo ele, os enredos e o carnaval estão caretas.

– Os enredos precisam libertar. Permitir sonhar. O mundo está careta demais – desabafa Milton

No final, todos indicaram possíveis caminhos para melhorar o julgamento no quesito enredo. Para Marcos Roza, as notas deveriam ser divulgadas em tempo real logo após o desfile de cada escola. Já Julio Cesar Farias pede uma reformulação do corpo de júri. Alguns julgadores estão há mais de 20 anos no carnaval. Ele sugeriu também um aperfeiçoamento do curso de jurados, com a exibição de vídeos de desfiles. Já o colunista do CARNAVALESCO Gustavo Mello gostaria que o julgamento tivesse uma mudança de mentalidade

– Hoje você sai da nota dez e vai até o sete. Eu queria que fosse ao contrário, do sete para o dez. Quero ser julgado pelos meus méritos, não pelos meus defeitos.

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