Descaracterizado ao longo do tempo, samba-enredo vive uma fase ‘acelerada’

Quando Império Serrano, Viradouro, Tradição e Portela entraram na Avenida em 2004, reeditando sambas-enredo antigos, uma percepção foi clara: a diferença de ritmo para os outros 10 sambas das escolas que desfilaram naquele carnaval no Grupo Especial. As melodias, bem mais lentas e cadenciadas, evidenciaram a mudança que o samba-enredo sofreu ao longo do tempo. E não é de hoje que se percebe o andamento mais acelerado das obras cantadas na Avenida. Isso foi bom ou ruim? Faz parte da evolução natural da festa?

Para debater o futuro desse "ex-protagonista" do carnaval, ouvimos personagens do mundo do samba: o colunista do Carnavalesco Luiz Carlos Magalhães e os compositores André Diniz – multicampeão na Vila Isabel – e Beto Mussa – autor e parceiro de Edgar Filho em um samba que perdeu a final do Salgueiro em 2009 (no enredo Tambor), mas que deu o que falar durante a disputa.

De acordo com o comentarista, todas as mudanças que acompanhamos em setores estratégicos das escolas, como o samba, as baterias, as alas de passistas, baianas e etc., fazem parte de uma questão "estrutural". Para Luiz Carlos, o samba se tornou algo "burocrático".

– Tenho medo que a bateria se transforme numa massa sonora, e o samba acompanhe isso. Esses dois elementos têm uma função secundária hoje, são acessórios. O carnaval mudou de dono. Antes, era o sambista. Hoje ele é apenas um personagem do carnaval. Em ala dos compositores tem muita gente da classe média. Não é errado, mas perde a identidade. Os compositores de morro não podem entrar na briga porque não tem "bala" pra isso. É uma democracia excludente em função da disputa. O samba ficou descaracterizado, burocrático. Lá nos primórdios, o carnaval não tinha nada a ver com samba, mas eles se juntaram e se tornaram filhos sem pai – argumenta o colunista.

Uma aposta diferente no Salgueiro

O segundo semestre de 2008 foi tenso para a parceria do escritor Beto Mussa, um dos autores de um samba polêmico no Salgueiro. Chamado de "samba do Edgar (Filho)", a obra disputava a preferência da comunidade salgueirense para o carnaval de 2009. Com uma cadência mais melódica e uma pegada leve, o samba era como um estranho no ninho, já que se assemelhava mais aos sambas antigos do que aos que nos acostumamos a ouvir nos últimos carnavais. Para Beto Mussa, os sambas atualmente estão muito parecidos.

– As coisas evoluem. Não existe nenhuma forma de arte que permaneça idêntica historicamente. E foi isso que aconteceu com o samba-enredo. Não podemos a princípio nos posicionar contra e querer manter a tradição engessada. O que está acontecendo hoje no samba-enredo não é só uma mudança de estilos. Pode até estar relacionado ao andamento dos sambas, que está mais acelerado, mas o que acontece é que não tem mais diversificação dos sambas. Se olharmos para um período anterior, tínhamos diferenças, a gente conseguia identificar os estilos do compositor, da escola. As baterias tinham suas batidas características também. O Salgueiro com enredos afro, a Mangueira com enredos populares e de homenageados, o Império com enredos históricos. Hoje está padronizado, tudo tem o refrão igual, o mesmo tamanho. Não se tem mais criatividade melódica, é tudo muito chapado, muito parecido. E com uma batida muito acelerada, você não consegue florear a melodia – defende.

Segundo o compositor, escolas que cresceram por causa de seus sambas nas décadas de 70 e 80 são exemplos que dificilmente veremos novamente. "O samba-enredo perdeu importância e qualidade", lembra. Para Beto, a falta de memória das pessoas com relação aos sambas recentes é uma prova disso. "Todo mundo só canta sambas antigos, justamente porque os de hoje não têm qualidade, não ficam gravados na cabeça das pessoas", opina, lembrando que seu samba foi gravado após o carnaval com o áudio da Sapucaí, como prova de que a cadência mais lenta não atrapalharia o andamento da escola.

Ritmo acelerado é só ‘moda’

Consagrado na Vila Isabel, o compositor André Diniz tem outra opinião com relação às mudanças ocorridas nos sambas-enredo nos últimos anos. Apesar de concordar que o ritmo acelerado atrapalha o bom desenvolvimento do samba, ele acredita que isso é apenas "moda".

– Existem coisas que são moda, e moda passa. Há cinco anos, as alas vinham todas enfileiradas, hoje isso passou. Hoje estamos com comissões de frente com tripés, e daqui a pouco passa também. Para mim, a tendência é o samba desacelerar. O que a gente tem que ver é o que o samba sugere. Às vezes tem que ser mais acelerado mesmo. Em 2005, por exemplo, fechávamos o desfile, então escolheram nosso samba porque era mais acelerado. Hoje a gente já percebe alguns diretores trabalhando para reduzir esse ritmo. Para a gente facilitaria muito – defende.

Segundo André Diniz, um dos maiores desafios que se enfrenta hoje com essa fórmula de samba é a capacidade de ser explicativo e didático na letra. No entanto, para ele, quem tem que trabalhar para diminuir esse ritmo são os próprios compositores.

– O compositor hoje tem um grande problema que é ter que tirar cada vez mais letra do samba, tem que se contar dez histórias ao invés de uma. Antigamente, você ouvia o samba para entender o enredo. Hoje, você tem que ler o enredo para entender o samba. Tem enredos que passam por sete, oito setores. Explicar isso em 32 versos é muito complicado, deixa de ser explicativo. As "madeixas de Shiva", por exemplo, não fica perceptível para quem não conhece a história – diz, referindo-se ao trecho do samba da Vila para 2011, de sua autoria.