Dezenove anos sem o requinte de Viriato Ferreira

Há exatos 19 anos o carnaval carioca perdia uma de suas maiores referências históricas na criação de figurinos. Viriato Ferreira faleceu, vítima de insuficiência respiratória, no dia 12 de setembro de 1992, deixando uma legião de admiradores, saudosos com a ausência que as suas fantasias requintadas deixaram na retina dos admiradores do maior espetáculo da Terra.

Com passagem por Portela, Imperatriz, Tradição e Beija-Flor, Viriato teve sua consagração máxima com o título de 1980, conquistado pela Azul e Branco de Madureira em conjunto com Beija-Flor e Imperatriz. Uma das testemunhas oculares desta história, o compositor David Corrêa, que, em 1980,  compôs e foi um dos intérpretes do samba portelense na Avenida, conta como Viriato resolveu desenvolver o enredo ‘Hoje tem Marmelada?’.

– Em 1979, ano em que a Mocidade foi a campeã, o Viriato saiu gritando após a apuração que era marmelada, já que eles queriam dar o título para a escola por causa do Castor de Andrade. Depois disso, surgiu a ideia desse enredo. Foi uma reclamação pelo resultado injusto daquele ano. O Viriato era um cara muito bom. Uma pessoa de caráter e muito competente – lembra o poeta, que também falou sobre a postura do carnavalesco no trato com os compositores – Ele não se metia como alguns carnavalescos fazem hoje. Deixava os compositores livres para criar. 

Originário do teatro de revista, de onde herdou o estilo de criação de seus figurinos, Viriato começou no carnaval como destaque do Acadêmicos do Salgueiro. Laíla, que durante muitos anos conviveu com ele não só no Salgueiro, mas também na Beija-Flor, onde o artista concebia os figurinos, lembra com saudade do amigo.

– Vi dois grandes talentos que foram embora muito cedo: Viriato Ferreira e Fernando Pinto. Viriato tinha uma capacidade única para desenhar as fantasias. Ele contribuiu muito para a transformação das fantasias da Beija-Flor. Era um sujeito muito bom. Uma pessoa sem maldade no coração e super educado. Além disso, era muito humilde. Para ele não existia o eu. Sempre pensava no coletivo, o que é algo que sempre peço na Beija-Flor.

Perguntado se vê alguma semelhança no trabalho de algum carnavalesco atual com Viriato Ferreira, Laíla apontou Victor Santos, integrante da comissão de carnaval da Beija-Flor, como um exemplo. Já para o pesquisador e colunista do CARNAVALESCO,  Luis Carlos Magalhães, que lembrou não ter tido contato pessoal com Viriato, o artista parece-se, em parte, com outros nomes do carnaval atual.

– Viriato era um grande talento, mas era um ser não carismático. Foi um talento sem afirmação. Isso se deve a precariedade da crítica da época e a própria personalidade dele. Ele não soube ‘bater lata’. Tenho medo que isso aconteça com o Fábio Ricardo e o Alex de Souza. Eles têm um potencial absurdo, mas não ‘batem lata’. Acho necessário o carnavalesco fazer isso de vez em quando. O Viriato tinha um estilo único, muito sofisticado nas fantasias. Hoje em dia o carnaval é mais objetivo, mais pragmático.

Já o carnavalesco e comentarista da Radio Tupi, Luiz Fernando Reis, concordou sobre o estilo requintado de Viriato, mas lembrou que o artista preenchia outros requisitos importantes para a profissão.

– Ele era requintado, mas sabia dosar bem para adequar ao enredo. Não diria que o estilo dele faça falta, mas a figura dele faz muita falta. Carnavalesco não é somente saber desenhar e projetas alegorias, adereços e fantasias, ou desenvolver um enredo. Ele precisa ser um grande diretor artístico e isso, o Viriato era – revelou, reafirmando o temperamento introvertido citado por Luis Carlos Magalhães.

A versatilidade artística abordada por Luiz Fernando Reis também foi citada por Wagner Araújo, diretor de carnaval da Imperatriz, última escola de Viriato. Wagner trabalhou apenas um ano com o carnavalesco, mas o suficiente para perceber o talento multifacetado dele.

– O Viriato veio para a Imperatriz após a saída do Max para a Viradouro. Foi uma pena ele ter deixado o carnaval tão cedo. Ele fazia a união perfeita do teatro popular com a escola de samba. Se sobressaia nas fantasias, Vejo muitas coisas exageradas em termos de traje no carnaval. Com ele não havia isso. Transmitia a mensagem da fantasia de forma muito prática e elegante. Tinha grande fixação por carnaval.

A fixação por carnaval lembrada por Wagner, pode ter afetado ainda mais a saúde de Viriato no final de sua vida, já que o problema respiratório do artista se tornava mais agudo quando ele entrava em contato com alguns materiais tóxicos presentes nos barracões das escolas de samba. Fato é que, pelas mãos de Viriato, Rosa Magalhães, uma das carnavalescas mais identificadas com a Imperatriz, voltou à escola de Ramos no início dos anos 90.

– Eu conheci o Viriato por causa da Tradição. A Tradição foi criada em uma reunião na casa dele, no Flamengo. Lá estavam os dissidentes da Portela, fizeram um coquetel e nós fomos chamados para trabalhar na escola. Recebíamos o tema, o João Nogueira fazia os sambas e nós desenvolvíamos o carnaval. Depois ele saiu da Beija-Flor e foi para a Imperatriz. Quando ficou doente, me ligou para substituí-lo. Depois, voltou e trabalhamos juntos novamente. De repente, eu estava no sul trabalhando e me telefonaram para avisar que ele tinha falecido. Foi uma tristeza muito grande. Ele faz muita falta. Para quem tinha intimidade, era um cara muito engraçado e contador de piadas – lembra Rosa Magalhães.

Além da Portela, em 1980, Viriato Ferreira também é lembrado pelos desfiles da Imperatriz em 1991, terceiro lugar com ‘O quê é que a banana tem?’; e Portela 1979, também terceiro lugar com  ‘Incrível, Fantástico, Extraordinário’.