Dirigentes das ligas das escolas de samba do Brasil questionam ausência de força política e de incentivos fiscais para o carnaval

Daniela Lima Safadi. Fotos: Allan Duffes

carnavalia2017_dia2_07A tarde de inverno no Rio de Janeiro esquentou com a terceira mesa oficial do dia na Carnavália-Sambacon, que reuniu representantes de ligas de escolas de samba do Brasil para falar sobre o tema carnaval e crise. Fábio Botelho, presidente da liga das escolas de Florianópolis, a Liesf, roubou a atenção de todos e foi ovacionado com sua fala. Ele frisou que o samba precisa eleger representantes em todas as esferas do governo para ganhar respeito.

– Quem é nosso representante no Senado? E na câmara? Vocês aqui têm algum vereador que os represente? O carnaval não elege ninguém, então não somos nada! Precisamos eleger representantes do carnaval, aí vamos começar a ter respeito.

Durante o encontro que foi mediado pelo jornalista Leonardo Bruno, os presentes chegaram a uma conclusão: é preciso união. Eles se propuseram a conversar e buscar, juntos, uma melhor interlocução junto as esferas de governo para alcançar soluções para o carnaval no país.

Moacyr Oliveira, presidente da União das Escolas de Samba e Blocos de Enredo de Brasília, fez a plateia ficar plerplexa ao dizer que há três anos a capital do país não tem desfile de escolas de samba.

carnavalia2017_dia2_06– Vocês falaram que o carnaval na cidade de vocês está morrendo, eu me sinto um cadáver aqui, porque há três anos não temos desfiles de escolas de samba em Brasília, como pode? O governador gosta de carnaval, por ele já tinha voltado, mas as coisas são difíceis e olha que temos lei de incentivo ao carnaval lá – pontuou o dirigente que lembrou que todos os cidadãos além de educação e segurança têm direito a cultura.

– É dever do Estado prover a educação, segurança, saúde, mas também é dever preservar as manifestações culturais, isso está na Constituição. E o carnaval é a maior manifestação cultural do pais – defendeu Moacyr.

ICMS, Lei Rouanet e patrocínio

O presidente da Liga das Escolas de Samba de São Paulo, Paulo Sérgio Ferreira, mais conhecido como Serginho, propõe que as agremiações façam parte dos editais da Embratur, do Ministério da Cultura, entre outros. Além disso, ele acredita ainda que a Lei Rouanet também pode ser um bom caminho para as escolas de samba conseguirem verba.

carnavalia2017_dia2_05– Nós não estamos em nenhum edital da Embratur, do Ministério da Cultura, da Petrobras… de nenhum deles e precisamos estar. Precisamos também da lei do ICMS para o carnaval, acho que esse é o caminho. Sempre lutamos para conseguir reajustes e hoje estamos nos conformando se a verba se mantiver igual – afirmou Serginho.

Jorge Castanheira, presidente da Liga das Escolas de Samba do Rio, parabenizou São Paulo por estar à frente no que diz respeito a crise no carnaval. Lá, foi criado Programa de Ação Cultural (ProAC) na modalidade Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), em que 20% de tudo que é arrecadado no ano vai para o fundo de cultura ou carnaval.

– São Paulo está de parabéns, saiu na frente. Além disso, desde 2009, com Gilberto Kassab, as escolas são isentas de ICMS. Aqui recolhemos R$ 6 milhões em impostos direta de ICMS. Está faltando mais vontade política, não só desse prefeito – disse Castanheira, que já deu entrada na Lei Rouanet na tentativa de arrumar de recursos para custear os ensaios técnicos.

carnavalia2017_dia2_08Kaxitu, ex-presidente da Uesp, entidade que cuida das escolas dos grupos de Acesso de São Paulo, afirmou que o samba está perdendo o discurso da rua e que a crise é muito pior do que se imagina.

– Hoje vindo pra cá, peguei um Uber e o cara estava falando mal do carnaval. Disse que o prefeito estava certo e ele não está. Não pode fazer assim, vou cortar e pronto. O carnaval está perdendo apoio o discurso da rua. Nós, gestores do carnaval, temos que estar juntos, unidos somos mais fortes – apontou Kaxitu.

Outras formas de recurso

Bi Garcia, prefeito de Parintis, também compôs a mesa e deu seu relato sobre crise. Em 2016, o festival sofreu um forte golpe ao ficar sem verba da prefeitura, com isso teve que buscar outros meios para que a competição entre Boi Garantido e Boi Caprichoso, tradição da cidade não fosse cancelada.

carnavalia2017_dia2_04– Ano passado sofremos este golpe, não recebemos um centavo do governo e tivemos que buscar alternativas. A saída foi procurar a iniciativa privada, olhando para os setores que não estão em crise. Sim, há setores que não estão em crise – explicou o prefeito que acredita que o caminho é esse, conseguir apoio da setor privado.

Ao final da explanação dos convidados, o mediador da mesa levantou uma questão. Todos os presentes falaram como estão fazendo para alcançar recursos, mas ele questionou o que os gestores estão fazendo para buscar as pessoas de volta para o samba, para ter apoio da população. Jorge Castanheira explicou que no Rio, as escolas buscam se aproximar do público através dos ensaios técnicos na Sapucaí.

– Desde 2002 fazemos ensaios técnicos gratuitos no Sambódromo. Pagamos impostos e parte do que pagamos deveria ser aplicada no lazer público, quem faz isso são as escolas de samba, com os ensaios, que hoje sem verba não conseguiremos fazer.