Dona História e a primeira Copa do Mundo: bastidores

Desta vez quem ligou para D. História fui eu: "triiiiiiiimmmmmmm"

_Alô.
_ Oi, fala, sabia que era você!
_Sabia?
_Que outra pessoa tem meu celular?
_A senhora pode falar?
_Tem que ser rapidinho, estou aqui no camelódromo da Rua Uruguaiana.
_Camelódromo, D. História, até a senhora?
_Ué, por que "até eu", estou fazendo alguma coisa errada? Está tudo sendo vendido aqui, tanta gente comprando. Tô vendo daqui um fuzileiro naval, um soldado da PM e um marinheiro na mesma barraca que eu.
_Comprando o quê D. História?
_ Estou comprando uma camisa amarela e outra azul da seleção. Não estou conseguindo achar uma da África do Sul. Bem, vou desligar…
_D. História, só uma perguntinha, pode?
_Só uma pode, só uma …
_D. História, eu estava vendo aqui no jornal os números da Copa. A estimativa total de telespectadores está entre dois e três bilhões, superando a marca de duzentos países em todo o mundo. É muita coisa, D. História. Eu queria saber de onde, como foi que surgiu isso tudo? Como foi que tudo isso começou?
_Pô, eu vou levar duas horas para responder isto.  E não vai poder ser agora, aqui do Camelódromo. Foi uma baita confusão até chegarmos ao mundial de 30. Eu mesmo que estava lá perto não acreditei que pudesse ter acontecido.
_Baita confusão, já naquele tempo? Quando foi isso?
_Ah! Lá pelo começo do século passado.

_Tempo bom, tempo bom…
_Você tem que entender o seguinte: a única competição que possibilitava um enfrentamento de seleções de continentes diferentes eram os
Jogos Olímpicos, que era para atletas amadores, certo?
_Certo.
_Os jogadores ingleses, que praticavam o futebol há mais tempo, já estavam profissionalizados e já não participavam mais. Com o decorrer dos anos, os jogadores dos outros países europeus adquiriram o mesmo "status". Foi então
que alguns países resolveram fundar uma entidade que congregasse todos que já praticavam o futebol
"não-olímpico", digamos assim.
_ Mas era a Europa toda?
_Não, no começo, não: Bélgica, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Suécia, Suíça.
_E essa entidade, já era a tal de FIFA?
_ Já, já era a tal de FIFA.
_E a Inglaterra e os outros britânicos?
_Ah! Você acha que a Inglaterra ia se misturar? Mas eles deram o braço a torcer já no ano seguinte junto com a Alemanha, Áustria, Hungria e Itália.
_Onde foi isso?
_ Onde poderia ser? Paris, claro… E, respondendo sua pergunta. Foi aí que se falou pela primeira vez em Copa do Mundo. Posso ir?  Um abraço! Até outro dia.

Não aguentei nem cinco minutos e liguei de novo: triiiiiiimmmmmm!

_É você de novo? O quê foi desta vez?
_Não, D. História… não é nada não …é que…
_Desembucha, rapaz, pode falar. Rapidinho hein…
_É que eu fiquei mais curioso ainda. Queria saber como aconteceu tudo.
_Você não pode me ligar à noite? Ou amanhã, ou depois? Que tal você me ligar em agosto, depois da
Copa?
_Depois da Copa, a senhora acha que vou aguentar?
_Tá bom, tá bom … eu conto um pouco mais…onde foi que parei?
_Na fundação da FIFA e na adesão dos demais países europeus.
_Pois, é… foi assim. Isto, essa primeira reunião e a adesão posterior foram em 1904 e 1905, certo? A FIFA abriu as inscrições, mas foi um fiasco. E ficou nisso mesmo: só uma ideia, um desejo dos apaixonados do futebol.
_E depois?
_Depois…?! Rapaz, sabe que eu não sei! eu na verdade naqueles dias estava mais interessada era no que estava acontecendo muito longe
de Paris.
_Aonde, D. História?
_Você não pode imaginar… aqui no Rio de Janeiro. As coisas aqui estavam pegando fogo, muito animadas. A população da cidade depois
de sacudida pela Reforma Passos se virava do jeito que podia. A abolição era recente e todo aquele povo que veio da lavoura do vale do rio
Paraíba do Sul trazia na bagagem o som do jongo que embalou o alto dos morros e os buracos quentes dos subúrbios. Foi assim em
Oswaldo Cruz, no Salgueiro, na Mangueira e na Serrinha.

_Faço uma ideia…

_A revolta da vacina é dessa época?

_Exatamente. Eu via tanta gente morrendo de febre amarela, bubônica, varíola e sem poder fazer nada a não ser registrar. O povo revoltado contra a obrigatoriedade virou o centro da cidade de pernas para o ar, lembro direitinho.
_E o carnaval?
_A Avenida Central estava pronta e virou palco para o carnaval chic da cidade, desafogando a minha tão amada Rua do Ouvidor. A Praça Onze, a Cidade Nova não tinham sossego com a turma da Ciata e de Hilário Jovino: o Largo de São Domingos, Pedra do Sal, Largo de São Joaquim.
_E a senhora frequentava isso tudo?
_Não posso nem lembrar… bom demais…Sem falar naquele pic-nic depois, lá em Paquetá, a fundação do Ameno Resedá e os primeiros desfiles maravilhosos no nosso, quer dizer, do novo

rancho. Se bem me lembro foi a Corte Egipciana o primeiro enredo. Foi o maior sucesso. Ninguém estava acostumado com enredo, o tema com começo, meio e fim… nem mesmo eu poderia imaginar onde  tudo isso ia dar… Ah! Que saudade!
_Dona História, a senhora não era fácil, não, hein?
_Como é que você queria que eu pensasse em FIFA e em Copa do Mundo, rapaz?

_E como foi que tudo retomou?
_ Bem, tempos depois veio a guerra de 14, que durou até 18. Claro que ninguém pensou nem falou em futebol. Vai dizer que você está querendo que eu conte sobre a guerra também, só me falta
isso agora.
_Não, não, claro que não! Hoje só quero saber de Copa do Mundo.
_ Bem, toda essa história muda quando, em 1920, um francês chamado Jules Rimet assume interinamente a FIFA. Todo brasileiro já ouviu muito falar dele, ou não?
_Claro, claro.
_Pois foi ele que levou a ideia adiante. Só que àquela altura, 1920, o âmbito da entidade e da competição se tornara mundial com a adesão da África do Sul, da Argentina e dos Estados Unidos.
_África do Sul?
_É, a África do Sul aderiu em 1910. Olha só, rapaz, está fazendo cem anos.
_Que maravilha, é por isto que a Copa foi programada para lá agora em 2010?
_Olha, não sei não, acho que nós estamos descobrindo isso aqui e agora. Acho que está acontecendo uma tremenda coincidência, só isso.
_Que legal. Mas vamos lá, D. História, vamos lá.

_Vamos lá nada, meu caro, tá pensando o quê? Tenho muito que fazer agora. Essas greves gerais na Grécia, esse bafafá na zona do euro, tudo isto está fazendo uma luzinha acender na minha cabeça.  Eu, por mais que tenha milhares de anos nas costas, não consigo identificar na hora se o fato é local ou se é planetário. Não posso esquecer aqueles dias terríveis de 1929. A bolsa quebrando, países e pessoas indo pro buraco e eu no bem bom lá no Engenho de Dentro, na casa do Espinguela, vendo tudo começar ou no Largo do Estácio ouvindo sambas divinais. Não posso bobear, de repente o capitalismo está acabando lá pela Europa e eu aqui só falando de ranchos,
de jongo e de Copa do Mundo.
_Pô, D. História…  mas e o resto da história?
_Semana que vem você me liga de novo, prometo mais um capítulo dessa novela, tá?

Capítulo anterior: D. História: seus ratos, seus canarinhos e seus urubus; Próximo capítulo:D. História: a copa ameaçada e o pagode do trem.

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