Dona História: ingleses, operários, peladeiros e sambistas

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_TRIIIIMMMMMM…

_Alô…
_Olha vou logo pedindo desculpas pelo que falei. Preciso me explicar para vocês todos, sempre tão acolhedores e gentis. Quando eu disse que os brasileiros só me atrapalham não quis ser grosseira, mas é verdade. A minha vida seria muito mais fácil se eu nunca me envolvesse com nada, nem com ninguém. Mas aqui é impossível. Eu acabei me envolvendo com o carnaval e com o futebol. E isto só complica minha vida. Fica difícil desenvolver
minha missão de neutralidade, de isenção, entende?

_Ah! Agora estou entendendo, mas eu não fiquei chateado, não. Eu só forcei a barra porque a senhora cada vez me deixa mais curioso.
_Tá bom, então vamos em frente. Onde paramos?

_Bem eu perguntei sobre o gol olímpico e a senhora deixou todo mundo muito confuso.
_Está certo, vamos lá então: até 1924 ninguém havia marcado gol direto de "corner" simplesmente porque as regras e os árbitros não o reconheciam. Assim os juízes o invalidavam e mandavam cobrar "tiro de meta", como se o gol fosse feito por cobrança de "lateral",
entendeu? E foi assim que só a partir daquele ano as regras mudaram, reconhecendo o gol direto de escanteio Ou seja: passou a"valer"gol direto de escanteio.

_E quem fez o primeiro validado?
_ Há quem diga que um atacante escocês teria assinalado o primeiro gol em agosto de 1924, sem que ninguém o chamasse de gol olímpico, até porque as olimpíadas já haviam terminado em julho.

_Então, por que gol olímpico?
_ Depois, meses depois, em uma partida amistosa em que a Argentina derrotou o Uruguai, que já pousava de campeão olímpico, o ponta argentino Onzari bateu o "corner" direto e fez o gol. Foi aí então que os vencedores, para dar uma sacaneada nos topetudos campeões olímpicos, batizaram aquele gol como "gol olímpico".

_Agora entendi tudo, D. História. Estou satisfeito, se a senhora quiser pode ir cuidar das suas tarefas.
_Não vamos conversar mais um pouco, vamos continuar…

_Bem, então vamos fazer um resumo. A senhora mostrou como tudo aconteceu até as vésperas da primeira Copa em nível das seleções de todo o mundo.Falou da predominância do futebol uruguaio em competições internacionais. Mas, e aqui? Como estava o futebol por aqui lá
no comecinho de tudo até chegar à copa de 1930? Gostaria de saber também quando nosso futebol começou a despontar, quando passou
a ser respeitado.
_Ah! Meu filho, você hoje olha aqueles meninos jogando, não imagina quanto foi duro
subir cada degrau dessa escalada e ser respeitado, primeiro na América do Sul e depois no mundo inteiro. Mas não imagina também o quanto foi bonito e emocionante ver o futebol conquistar a preferência do povo e ser o instrumento maior de elevação de sua auto-estima.

_Isso…isso que eu quero saber, D. História.

_ No começo era o tempo dos ingleses, final do século XIX: o século dos ingleses. Por aqui
a economia do café, de início centralizada no vale do rio Paraíba do Sul, alavancava toda a formação da riqueza interna e a atração ao capital externo. Esse incremento econômico trouxe a diversificação social e cultural, inclusive com a chegada de grandes contingentes
de imigrantes. Daí, desse caldeirão, a introdução de hábitos estrangeiros.

_E o futebol entraria por aí, com os ingleses?
_ Praticamente todos os investimentos em infra-estrutura e em máquinas e equipamentos vinham dos ingleses: eletricidade, gás, esgoto transporte urbano e ferrovias. São Paulo era
o centro de atração desse capital. Para aquela cidade, para este país, veio a família inglesa do paulistano Charles Miller que por aqui nasceria em 1874 para marcar a trajetória do
futebol brasileiro.

_Ah! Sei… Charles Miller, já ouvi falar sim…
_Vinham muitos ingleses para cá, majoritariamente com plena qualificação profissional para implantação de tais atividades. Todos bem remunerados, todos já familiarizados com a prática do futebol.

-E por lá, como é que era o futebol?
_Na Inglaterra o futebol era jogado em meio à classe operária; a classe operária de um país que era conhecido como "a fábrica do mundo", filhos e netos da revolução indústria lá mesmo engendrada. Era o povo que jogava o futebol, nas ruas e nas fábricas.

_Ao contrário da origem elitista daqui?
_Sim, aqui eram trabalhadores qualificados ingleses e até membros das famílias importantes. Veja os exemplos de dois dos mais citados pioneiros do futebol no Brasil: Charles Miller e Oscar Cox. Ambos filhos de estrangeiros, ambos nascidos aqui, ambos matriculados em escolas lá da Europa quando jovens.

_Mas, havia tantos ingleses assim?
_Eles e mais os filhos da riqueza do café, lembra? A aristocracia paulistana nascia ali, meu caro.

_E quando ocorreu o primeiro jogo?
_Primeiro, primeiro, foi em São Paulo, isto se considerarmos as regras oficiais do esporte. Foi em 1895. Eu estava lá. Foi coisa do Charles
Miller. Uma partida entre funcionários da Companhia do Gás (The Gaz Company) contra a São Paulo Railway.
_E aqui no Rio?
_Aqui, já no século novo, em 1901 em um jogo em Niterói, mais uma vez os ingleses estavam na parada. Desta vez eram os sócios do Rio
Cricket que enfrentavam um time de jovens daqui com mais gente em campo que nas arquibancadas. Mas, nada, nada ainda oficial.

_Foi o primeiro?
_Que eu vi, foi. Parece que houve um em Petrópolis. Parece também que o pessoal que trabalhava na Fábrica Bangu também já andava jogando bola por aqui. Também nada oficial.
_ E oficial, mesmo?
_Já nos primeiros anos do século começaram a surgir os primeiros clubes específicos para
a prática do futebol, como o Fluminense Foot-ball Club, que é de 1902.

– Mas não havia campeonato?
_O primeiro foi 1906. O primeiro jogo foi Fluminense e Paissandu. Em São Paulo foi em
1902, no Velódromo paulista, a elite local em peso assistindo.

_E quando foi que o povão começou a tomar conta? Como se deu essa passagem?
_Ah! Isso demorou um pouco. A Liga foi formada em 1905. Eu comecei a estranhar que a
Liga cobrava muito caro dos clubes filiados, restringindo o acesso e tornando os jogos altamente elitizados para quem disputava e quem assistia. Fluminense, Botafogo, América, Bangu já integravam a liga, Vasco e Flamengo eram ainda do remo, concorridíssimo à época. Quando eu vi que em 1907 a Liga vetou a participação de atletas negros, eu joguei a toalha.

_Desistiu?
_Não, dei um tempo, fui olhar para outros lados, outros ares. Ver o quê estava acontecendo nas ruas, nas fábricas, deixei de lado esse lado oficial. Comecei a perceber que o futebol se espalhava por si só, mesmo sem equipamentos e materiais próprios. Mesmo sem obedecer a regras oficiais já então elaboradas pela Internacional Board.

_E aí?
_E aí é isto que você vê por aí, as histórias que os sambistas antigos contam. Lembra do Independente Futebol Club, que gerou a Mocidade? Assim foram tantos outros que tomaram mesmo rumo. Muito, muito antes foram surgindo de toda parte clubes não filiados a nada, incorporando jovens trabalhadores assalariados que mudaram completamente esse quadro.

_E o Bangu?
_Como o Bangu, começaram a surgir times e clubes diretamente vinculados às fábricas que proliferavam naquele período de grande expansão industrial. Na Cia. Progresso Industrial do Brasil, que é de 1889, foi fundado em 1904 o Bangu Athletic Club integrado, no início, por técnicos fabris ingleses. Depois, estimulado pela direção da fábrica, que via o futebol como fator de integração, o clube abriu suas atividades à participação do operariado em geral.

_E o que aconteceu?

_O Bangu foi a referência. Depois veio a Companhia de Tecelagem e Fiação Carioca e fundou o Carioca Foot-ball Club, na Gávea. E foi assim que vi barreiras sendo superadas uma a uma. O futebol ia tomando conta da cidade, inclusive com reflexos positivos na arrecadação dos jogos oficiais.

_E as seleções, como e quando começa a formação das seleções nacionais e suas participações em torneios com outros países?
_Foi um jogo entre uma seleção argentina que enfrentava um combinado de jogadores daqui. Isto se deu em 1908, eu me lembro bem. A repercussão foi enorme, mesmo com o resultado adverso de 3X2. Basicamente eram jogadores do eixo Rio -São Paulo.

_E depois, melhorou ou piorou?
_Outras derrotas vieram, algumas eu vi. Depois perdi um pouco o interesse. Talvez porque
já entrávamos na segunda década do século, a era de ouro dos ranchos… como eu gostava daquilo. Eu ficava encantada. O Jornal do Brasil patrocinava os primeiros desfiles em frente
a sua sede da Avenida Central toda iluminada por 50 mil lâmpadas. Um esplendor que
marcava o fim da era dos cordões carnavalescos.

_A senhora adora ranchos, já percebi.
_No ano seguinte foi engraçado. Com a morte do Barão do Rio Branco o carnaval era transferido para abril, acredita? Resultado: houve o carnaval normal e o de abril. Dois carnavais, eu adorei aquilo. Eu e todo o povo carioca.

_Onde eram os desfiles antigos?
_Eram no Largo de São Domingos, passando pela Lapinha da Tia Bebiana, da turma da Tia Ciata. Os corsos também estavam no apogeu.
A Avenida Central passava a se chamar Avenida Rio Branco, homenageando o barão falecido.

_Bons tempos, hein D. História… bons tempos…

_ Bons tempos, é verdade, mas até quando? Mal sabíamos o que estava por vir. Era a "belle époque" no mundo, aqui também, meu filho.
Ares parisienses, um requinte, tempos inesquecíveis. A um só tempo as sobras dos ares parisienses, para quem podia; por outro a luta do povo pressionado pelas políticas públicas, tão modernizadoras quanto excludentes. Uma luta, meu filho, uma luta.

_E o que aconteceu?
_Aí veio a guerra, meu filho, a primeira guerra mundial. Uma tragédia que durou de 1914 a 1918. E eu fiquei por conta dela durante quatro anos.

_E o que a senhora fazia, Dona História, quanta tristeza, né?
_Olha, meu filho. Vou lhe dizer a verdade: a única coisa que me dava conforto, que me enchia de esperança era saber que naqueles anos estava nascendo uma formidável geração de sambistas que um dia encheriam minha alma de alegria.

_Como a senhora conseguia prever isto?
_Aí você está querendo saber demais, desvendar meus mistérios. Na virada do século e naqueles primeiros anos até o início da guerra, nasceram tantos sambistas formidáveis que daria para formar pelo menos uma seleção de altíssimo nível como a da Hungria de 1954, as brasileiras de 1958, 1970 e 1982 ou a da Holanda de 1974.

_É mesmo? Diga aí um por um.
_Vamos lá. A primeira só com dirigentes, só para ficar nos dirigentes: no gol, Seu Maçu, o Marcelino da Mangueira; na defesa: seu China
de Vila Isabel, Casemiro Calça Larga, Antenor Gargalhada e Alfredo Costa. Meio de campo: Paulo, Caetano e Rufino. Ataque: Natal, Fuleiro e Saturnino. Agora preciso ir, meu filho, não posso ficar a vida inteira falando dessas coisas; quem me dera…

_Está bom, semana que vem torno a ligar.

Sugestão para ouvir (e ver) agora:
* Ô Abre Alas, primeira música (1899) composta especificamente para o carnaval; Autora: Chiquinha Gonzaga

Textos consultados:
* O Mundo das Copas, de Lycio Vellozo Ribas, editora Lua de Papel, 2009;
* O Futebol Explica o Brasil, de Marcos Guterman, editora Contexto. São Paulo, 2009;
* Revista de História da Biblioteca Nacional, ano I, nº 7. Texto: "Corações em Ação", de Leonardo Affonso de Miranda Pereira;
* Memória do Carnaval, texto e pesquisa de Hiran Araújo, Antonio de Pádua Vieira da Costa, Carlos Cesar Ribeiro, José Luiz Azevedo, Ivan
Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro, Oficina do Livro, 1991;
* Sambistas Imortais, de J.Muniz Júnior.

IMAGENS:
1)O gol olímpico, o legítimo, marcado pelo ponta argentino Onzari contra o Uruguai em 1924 (foto web);
2)Time do São Paulo Athletic, de 1904, com o pioneiro Charles Miller como centroavante. Foto extraída do livro "O Futebol Explica o Brasil", acima citado;
3)Torcedores na arquibancada do elegante Velódromo paulista, palco das tardes futebolísticas paulistanas. Foto extraída do mesmo livro acima;
4)Fazenda Bangu, adquirida pela Cia. Progresso Industrial do Brasil para a instalação da Fábrica Bangu que deu origem ao Bangu Athletic
Club (foto web);

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