Dona História: seus ratos, seus canarinhos e seus urubus…

Eu estava ali, diante da TV, e o Dunga só convocando. Aí eu peguei um papel e uma caneta e fiquei contando quantos "volantes" estavam
na lista: …6, 7, 8 … aí perdi a conta e comecei a contar de novo. Quanto estava no sexto, o telefone tocou e era uma voz conhecidíssima: Triiiiiiimmmmmm…

_ Alô!

_ Ora, mas não é que é D. História por aqui… já conheço esta voz de longe.

_ Puxa, mas eu só falei "alô" e você conheceu minha voz?

_ Claro, D. História, meu prazer é tamanho, eu espero tanto sua ligação que identifico sua voz de imediato.

_ Como estão as coisas por aqui?

_ Bem, D. História, não sei bem o que a senhora está fazendo por aqui, o carnaval está tão longe. Não sei se a senhora sabe, mas daqui a pouco começa a Copa do Mundo, sabia?

_ Claro que sei que a Copa vai começar. O quê você acha que vim fazer aqui nesta época do ano?

_ Ah! Quer dizer que a senhora gosta de futebol também, né?

_ Olha, eu acho que gosto mais de futebol que de carnaval. Quer dizer… não, eu gosto mais de carnaval  que de futebol. Ou será que não? Olha nem eu mesmo sei de que gosto mais.

_ Poxa, D História, não importa, por isto que às vezes acho que a senhora  é brasileira como nós todos.

_ Não é bem assim… não é bem assim…

_ Mas então a senhora veio para a Copa do Mundo?

_ Sim, claro, você acha que eu ia perder uma Copa do Mundo?

_ Mas, D. História, se a senhora veio para a Copa do Mundo, o que é que a senhora está fazendo aqui no Brasil, no Rio de Janeiro? Aposto que a senhora está agora em Oswaldo Cruz ou em Madureira.

_ Olha, já vai começar com esta história de novo? Vou desligar…

_ Não, não, eu paro, eu paro… Mas então me explica: se a Copa é na África do Sul o que é que a senhora está fazendo por aqui?

_ É claro que eu vim para ficar aqui, a Copa é lá, mas é aqui que quero ficar.

_ Ah! Sei o carnaval, a festa da vitória, né?

– Ah! Aqui que quero ficar, aqui que sempre fiquei em todas as Copas de que participei de verdade.

_ Como assim?

_ Você esquece que não sou igual a vocês que vivem só num único lugar e numa única época. Você sempre acaba esquecendo que eu sou a "História", que vivo todos os lugares, todas as eras, todos os tempos, esqueceu?

_ É eu sei… quer dizer, acho que sei…mas se a senhora quiser explicar de novo…

_ Eu posso estar em todos os estádios, assistir a todos os jogos, mas posso torcer para a seleção que eu quiser na cidade que eu escolher, entendeu agora?

_ Sei, acho que entendi. Por exemplo, a primeira Copa de 1930, no Uruguai, a senhora viu os jogos no Uruguai, mas veio para o Rio torcer pelo Brasil?

_ Mais ou menos, já vi que você entendeu, mas não é bem assim, ou melhor, não foi sempre assim.

_ Como então?

_ Nas primeiras Copas eu assistia os jogos de lá e ficava por lá mesmo porque eu não torcia por seleção nenhuma. Eu nem gostava de
futebol…

_ Quando então a senhora passou a torcer?

_ Comecei a prestar mais atenção na Copa de 1938. O Brasil tinha um timaço. Cheguei a pensar que íamos ganhar, quer dizer… cheguei
a pensar que vocês, o Brasil, iam ganhar.

_ Foi mesmo, D.História, eu nem pensava em nascer ainda.

_ É, eu sei, este é o meu problema quando converso com vocês, a vida de vocês é muito curta, acaba logo. Como é que eu vou conversar com vocês sobre a Copa de 38?  Um dia eu conto para vocês, prometo.

_ Mas continua aí, D. História… conta mais…

_ Onde que eu estava?

_ A senhora estava contado como é que começou a torcer pela Portel…quer dizer, começou a torcer pelo Brasil.

_ Ah! Torcer, torcer mesmo foi na Copa de 50.

_ Por quê?

_ Porque foi a primeira vez que eu vi os jogos e torci junto com o povo de onde eu estava, na arquibancada. E acabei envolvida, sem querer, sem perceber, sem poder resistir, na alegria daquela gente toda no Maracanã. Uma tarde inesquecível.

_ Alegria? 1950? Maracanã?  O quê é isso, D. História?

_Ué, você não sabe? Você não sabe o que aconteceu no jogo com a Espanha em 1950? Meu encantamento começou ali…

_ Não, não sei…

_ Eu estava lá. O Brasil vencendo de 3×0, 4×0, sei lá quanto, e todo mundo, aquela gente toda cantado "Touradas de Madri". Você é capaz de imaginar como era o nosso time… que dizer, a seleção brasileira dando um  show de bola e todo mundo, mas todo mundo mesmo cantando Touradas de Madri?

"PARARATIMBUM BUM BUM PARARATIMBUM BUM BUM"

_Pode crer… E a derrota para o Uruguai?

_Não quero falar disso, não! Não adianta, disso eu não falo. Eu não sou de carne e osso, mas também não sou de ferro.

_Tá bom, D. História, mas então foi assim que a senhora  passou a torcer pela seleção brasileira?

_Não, foi aí que eu comecei a gostar muito. Torcer mesmo foi na Copa da Espanha, em 1982.

_Poxa, essa eu vi. Chego a ficar arrepiado até hoje. Imagino como a senhora sofreu.

_Sofrer eu? Eu fiquei foi encantada com o que vi. Não sei nem sei se vou conseguir lhe contar. Quando nós perd… quer dizer quando a seleção perdeu e eu vi aquele jornal espanhol chorando nas bancas, eu achei o máximo…

_Que história é essa, D. História, jornal espanhol chorando?

_É! Foi! Isso mesmo. No dia seguinte ao jogo da Itália, diante daquilo tudo, de tudo que os Canarinhos vinham jogando, naquela sexta-feira feira um jornal espanhol, de Madri, estampava em sua primeira página por todas as bancas coloridas da Espanha:

"VAMOS TODOS EMBORA: A COPA ACABOU!

_ Olha só …

_ Quando eu vi aquilo eu não acreditei. Como pode aquilo? Que seleção tinha aquele poder de encantamento? Capaz de produzir aquele sentimento? A partir dali nunca mais permaneci neutra como é da minha obrigação ética, moral e milenar, História que sou.

_Puxa D, História, a senhora se emocionou agora… caramba!

_Um dia conto detalhes, agora estou com um pouco de pressa.

_Poxa, D. História, mas nós perdemos…

_E daí? Você por acaso viu o desfile da Beija-Flor em 1989? Há vitórias e vitórias.

_Vi, pela TV. Vi melhor no desfile das campeãs, no sábado, também pela TV.

_Pois é a Beija-Flor perdeu para a Imperatriz. Perdeu e deu um show de bola como os Canarinhos na Copa de 82.

A diferença é que a Imperatriz, a vencedora daquele ano, também estava linda, com um samba lindo, também deu
um show de bola, ao contrário da Itália que ganhou daquele jeito, feia daquele jeito, escondida lá atrás na defesa.

_D. História ?????

_É isso mesmo!

_Mas fala de 1989, de Ratos e dos Urubus, já que a senhora já falou dos Canarinhos.

_Falar o quê, não dá para falar. Quem viu, viu. Quem não viu, não viu.

_Pô, D. História, fala um pouquinho. Eu também fiquei maravilhado.

_Foi um desfile incomparável, emoção pura, imprevisão pura, surpresa pura, encantamento puro, imponderável, surpreendente, incontido, indomado, descontrolado, incontrolável.

_Foi isso tudo mesmo, D. História?

_Estou falando do sábado das campeãs. O desfile mesmo, da 2ª feira de carnaval, foi muito bom pela concepção do enredo, aquele protesto carnavalesco, lembra?

_Não, não me lembro. Na verdade daquele carnaval eu só lembro o Cristo proibido, o Cristo censurado, o Cristo coberto.

_Mas isto não foi no carnaval, isto foi no sábado das campeãs. Mas mesmo no carnaval foi muito bonito. Eu ainda me lembro de um texto que dizia mais ou menos assim, como era mesmo… hummmm…mais ou menos assim:

ENTÃO LANÇAMOS O GRITO:

ESTE ENREDO É UM PROTESTO.
PROTESTO A UMA GRANDE MALDADE
QUE ESTÃO FAZENDO COM A NOSSA TERRA COM NOSSA GENTE.
É OBRIGAÇÃO DE TODOS NÓS PARTICIPAR DESTE TRABALHO.
CADA UM DEVE AGIR A SUA MANEIRA.
NO NOSSO CASO SABEMOS FAZER CARNAVAL. É O NOSSO OFÍCIO.
QUE SEJA ATRAVÉS DELE ENTÃO QUE A GENTE PROTESTE. ESPERAMOS ASSIM CONTRIBUIR
PARA DESPERTAR O GIGANTE QUE SOMOS.

RATOS E URUBUS LARGUEM MINHA FANTASIA…

_ Este que era o abre alas?

_Não, o abre alas era a imagem do Cristo, ainda descoberto, cercado por mendigos que vinham de toda parte cantando e sambando aquele samba super cadenciado, gostoso de ouvir, de cantar e de dançar:

XEPA
DE LÀ PRA CÁ XEPEI
SE NA VIDA SOU MENDIGO NA FOLIA EU SOU REI

_Pô, Dona História, nunca vi a senhora falando assim…

_E tinha aquela alegoria-convocação sem luxo, sem riqueza nenhuma, apenas um painel escrito, só isto. Deve ter custado 10 merrés.

_Como é mesmo que vinha escrito, eu só lembro vagamente.
_ Ah! Eu acho que me lembro; como eu poderia esquecer aquilo. Acho que era assim: MENDIGOS, DESOCUPADOS, PIVETES, MERETRIZES,
ESFOMEADOS, LOUCOS, POVO DE RUA, TIREM DOS LIXOS DESTE IMENSO PAÍS RESTOS DE LUXOS… FAÇAM SUAS FANTASIAS E VENHAM PARTICIPAR DESTE BAL MASQUÉ.

_Mas, D. História, no sábado das campeãs o desfile ainda foi melhor? Como pode?

-Ah! Meu filho, por isto que eu amo tanto o carnaval. São essas surpresas, o imponderável, imprevisto.

_ ??????

_ Eu estava bem próximo às cabines de TV e foi ali que conheci aquele menino, o…o…o… como é o nome dele? Aquele da transmissão da
TV.

_Quem?

_Acho que é Fernando Plamplon, algo assim…

_Fernando Pamplona?

_É esse mesmo.

_ O quê  que tem o Pamplona?

_Ele estava transmitindo pela TV bem perto de onde eu estava. Ficou emocionadíssimo. Aquilo que aconteceu ali dificilmente se repetirá.
Não foi planejado para sair daquela forma. Foi uma "química" que se deu plena, de uma forma jamais vista. Quando o Cristo surgiu coberto
de preto na avenida, com aquela frase estupenda: MESMO PROIBIDO, OLHAI POR NÓS.

_ Acho que é a frase mais famosa da história do carnaval.

_Claro que é. Sei lá, foi muito forte, aquele Cristo preto, amarrado, o Cristo daquela gente ali, com suas roupas sujas, rotas, dançando e cantando em torno daquele Cristo proibido.

_E o Pamplona?

_O Pamplona não se continha com o que via. Quando o povo invadiu a pista  para tirar aquele plástico preto, o mínimo que o Pamplona disse é que iria para a cadeia com Joãozinho  se este fosse punido por desobedecer a sentença que proibia o Cristo.

_Falou mesmo?

_Disse muito mais. Alto, com aquele vozeirão, deslumbrado, incrédulo com tudo aquilo que via passar a sua frente. Dizia para os telespectadores como uma trovoada:

ESSE É O MOMENTO GLORIOSO… GLORIOSO. ACOMPANHEM PELO AMOR DE DEUS.
O POVO EM ÊXTASE …
Depois, muito sereno informava:

VOCÊS JAMAIS VERÃO UM ESPETÁCULO COMO ESTE!

_Puxa vida!

_E vendo o Cristo já descoberto por populares que, desafiando as autoridades, subiam e escalavam a escultura, Pamplona emocionado e sereno desafiou:

A POLÍCIA… A JUSTIÇA… ESSA JUSTIÇA FARJUTA ENTREM AGORA NO MEIO DO POVO. IMPEÇAM
SE TIVEREM CORAGEM.

_Caraca!

_Prosseguiu afirmando ter sido aquele o maior espetáculo por ele já assistido. Que era um protesto contra tudo que se fazia com o próprio
Brasil; que só as águas caudalosas do Amazonas poderiam lavar tanta sujeira.

_Ih!…

_Eu até hoje não sei como aquilo aconteceu, quem cobriu o Cristo, quem escreveu aquela faixa. Você conseguiu saber?

_Bem, D. História, o que eu soube é que o carnavalesco Joãozinho Trinta reuniu a imprensa e disse que teve a idéia de cobrir o Cristo e escrever a faixa.

_Ah! É?

_Pérai… depois eu assisti um vídeo em que o Laila dá a versão dele.

_Huuuummmm!!!

_É.  O Laila diz que ele estava na casa do Anísio quando soube que o Oficial de Justiça deixara no barracão uma notificação proibindo a imagem do Cristo. Disse até que a idéia do Anísio era usar o próprio João amarrado do Cristo.

_Como?

_Não sei, está lá no vídeo.

_Tá bom, mas continua contando.

_Aí o Laila disse que eles pegaram no caminho o túnel para o barracão ao encontro do  João. Foi então que ele, Laila, deu a idéia de cobrir a imagem e escrever aquela frase. E que assim foi feito. Disse  Laila que quando o João foi comunicado da decisão se afastou e mandou convocar a imprensa . Disse que ia cobrir a imagem e escrever aquela frase, como se a idéia e a decisão tivessem partido dele. O Laila conta isso sob juramento. "Pela felicidade dos meus netos", disse ele.

_Isso eu não sabia… interessante… bem, vou embora…depois eu ligo outra vez.

_D. História, só mais uma coisinha?

_ Diga.

_ E a Imperatriz?

_O quê que tem a Imperatriz?

_Foi ela quem ganhou, né?

_A Imperatriz fez a parte dela. Um belo desfile, um belo samba e ganhou o carnaval no dia do carnaval. A Beija Flor fez história no sábado das campeãs. Ali que aconteceu tudo isto. Se isto é uma vitória, ou não, depende de cada um. Para mim, é!

_Como os Canarinhos de 82???

_Sim, os Canarinhos de 82 não foram os campeões de nada, maravilharam a todos que veem o futebol como arte, que amam o futebol.

_ Pode crer, D. História, tô entendendo tudo …

_Esse negócio de ganhar, de vitória, é muito relativo. Para vocês que nascem e morrem em curto espaço de tempo tem que ser assim mesmo. Eu compreendo.

_ ???…

_ Para mim é diferente, a vitória está no encantamento, na magia, na emoção. Eu sei que é esquisito, mas nós também temos direito à beleza do mundo, por que não? Nosso troféu é outro, pode ser até de papel; pode até durar um só dia, como aquela manchete das bancas de jornal coloridas das coloridas ruas da Espanha.

_É verdade!

_Olha a seleção húngara de 1954, da Holanda de 1974, quanta beleza, quanto encantamento sem glórias; veja
Cruiff, veja Zico, veja Puskas ….olha a Beija-Flor de 89, a Mangueira de 88, a Portela de 1984…

_Mas, agora, D. História, me diga aqui na interna: a senhora está animada, está acreditando que seremos campeões?  Diga aí o que é que
a senhora gostaria de dizer para o Dunga nesta hora H?

_Olha, acreditar eu sempre acreditei, só acho que há muitos jogadores parecidos na mesma faixa de campo e poucas alternativas em outras. Os jogadores, ele é que tem que escolher. Só acho que podemos ficar engessados, sem alternativa. Mas vou torcer muito, muito mesmo.

_Mas a senhora falaria dessa preocupação, diria isso a ele lá no aeroporto, antes de o avião decolar para a África do
Sul?

_Não, eu não posso dizer nada, eu nunca digo nada: eu faço e pronto.

_O quê então a senhora faria?

_ Ah! Não sei, sei lá… tenho que pensar …acho que…  Olha! Quer saber?: Eu Iria para o aeroporto e cobriria o avião com uma faixa:

"MESMO COM TANTOS VOLANTES, OLHAI POR NÓS".

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