É o novo sambódromo que queremos?

Vivemos um momento histórico para o carnaval carioca. A prefeitura anunciou que vai "ampliar" o nosso sambódromo. Este é um sonho antigo de todo sambista, mas será que o projeto apresentado é aquilo que nós queríamos?

Começa errado por que a motivação das obras não é o carnaval e sim a olimpíada. Uma prova de que o carnaval, por si só, não tem força para motivar um investimento oficial. Também não fui informado sobre qualquer tipo de consulta às escolas de samba sobre suas necessidades em relação ao local onde desfilam.

O sambódromo pode ser usado por outras atividades, claro, mas ele foi construído para ser o palco oficial do desfile das escolas de samba
e elas deveriam ser sua finalidade principal. A obra é bem vinda, mas uma oportunidade como esta deveria ser aproveitada para que todos
os problemas do local fossem discutidos e resolvidos. E eles não são poucos!

Acessos – Algumas das grandes dificuldades de desfilantes e espectadores são as ruas que cercam a pista de desfile. Toda a região precisa ser reurbanizada, limpa, iluminada e os acessos têm que ser claros, bem sinalizados e policiados. Isso inclui concentração e dispersão.

"Monta e desmonta" – Na época da construção da Passarela o motivo principal era acabar com as estruturas tubulares. O tempo passou, a construção ficou obsoleta e hoje temos frisas, HCs e cabines de imprensa montados em cima das mesmas estruturas – além das passarelas dos setores pares. Estas últimas são as únicas que devem acabar, mas ninguém pensou em montar uma base definitiva para as frisas e cabines?

O lado "Ímpar" – Lá se vão mais de vinte e cinco anos sem que uma reforme fosse feita na estrutura já existente. Qualquer um que passe pelo local percebe o desgaste natural que o tempo causa. Não ouvi qualquer referência a reformas na parte já construída da passarela.

Conforto – Ninguém pensou em pedir a Oscar Niemeyer, enquanto ele ainda está entre nós, um projeto de cobertura para as arquibancadas
e frisas? O pessoal que lá fica vai continuar pegando chuva. A acústica não é problema, pois existem revestimentos que evitam a reverberação do som. Basta querer. Não seria viável também, pensar em assentos de plástico como os dos estádios de futebol para que cada um tenha seu lugar marcado e delimitado, além de não sentar no concreto? O desfile é um espetáculo internacional que dura a noite inteira. Não é justo expor os espectadores a estes constrangimentos.

Praça da Apoteose – É um absurdo assistir ao desfile daquele local. As pessoas que ali estão só enxergam a escola quando ela passa por
ali. E mesmo assim de muito longe. Aquelas arquibancadas precisam ser demolidas para dar lugar a outras mais próximas. Afinal, aquilo é
a Passarela do Samba e não uma casa para show de rock.

Arrecadação – Não fiz as contas, mas imagino que o número de camarotes irá diminuir consideravelmente com o fim do atual setor 2, apesar do novo desenho dos setores. Acho também que os novos lugares de arquibancadas e frisas não suprirão a arrecadação que se perderá com os camarotes, o que pode ocasionar um aumento no valor do preço dos ingressos para estes outros setores. Algo a ser checado. Vale lembrar que, para as escolas, a verba dos ingressos passa a ser ainda mais importante com o fim da subvenção.

É verdade que há também pontos positivos na "ampliação" da Passarela do samba. A "possibilidade de ver o arco por inteiro", citada pelo prefeito é o menor deles. O mais legal vai ser o fato de que na teoria teremos mais "povo" assistindo. Quem desfila sabe que um dos momentos mais legais é quando a gente passa entre os setores 4 e 11 porque há uma troca de energia entre o pessoal que está nas arquibancadas que esquenta bastante o desfile. Ter isso ao longo de toda a pista será fundamental para que as escolas reencontrem o
"calor humano" em seus desfiles.

Há também a questão técnica da acústica. O som agora se propagará com igualdade para os dois lados favorecendo as baterias e, quem sabe, diminuindo o volume ensurdecedor das caixas de som.

Outra coisa que me preocupa é a execução das obras. O que está lá foi feito em quatro meses, mas com a lentidão que a atual prefeitura trata o carnaval, temo que enfrentemos problemas para 2012. É importante que a obra fique pronta cedo – a tempo dos ensaios técnicos e dos testes necessários antes da festa maior desta cidade.