Eles ajudam a botar “os blocos” na rua

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Os olhos de Izaltino Gonçalves, presidente da Federação de Blocos, exalam nostalgia em sua forma mais bela e pura. É a saudade dos tempos dos "banhos de mar a fantasia" quando seu saudoso bloco, o Balanço da Mangueira, era campeão absoluto em todos os redutos carnavalescos da cidade de Sepetiba até o Lido. Era o campeão de blocos inclusive na Passarela do Samba em saudosos tempos que essa forma tão inocente de brincar carnaval tinha seu lugar no palco maior e sagrado do samba. Era nesse tempo que a Federação de Blocos Carnavalescos do Estado do Rio de Janeiro congregava em torno de 365 blocos de enredo e empolgação (um para cada dia do ano!) distribuídos de Santa Cruz a Paquetá em desfiles oficiais e competitivos de onde emergiam para a cidade do Rio De Janeiro os melhores, selecionados para a folia da Avenida Rio Branco e Marquês de Sapucaí no centro do Rio.

Hoje são 31 agremiações filiadas a instituição e que correspondem a categoria "Blocos de Enredo" uma espécie de estágio liminar, como chamamos na antropologia, entre blocos de embalo ou escolas de samba. Os blocos de enredo apresentam-se de forma organizada e processional com um enredo desenvolvido ao som de um samba-enredo, fantasias e uma alegoria como nas escolas. O encolhimento em um momento que o carnaval de rua é saudado como renascido na cidade explica-se por aspectos conjunturais. Primeiro é necessário voltarmos ao ano de 1988 quando um boicote contra a prefeitura tirou os blocos da Federação do carnaval da cidade. A resposta foi a desfiliação em massa com muitos deles entrando para a AESCRJ e permanecendo até hoje como escolas (casos da Acadêmicos da Rocinha, Boi da Ilha, renascer de Jacarepaguá, Canários das Laranjeiras…). E até hoje ela ainda sente os efeitos da "crise de 88".

E lá se foi o tempo dos banhos de mar a fantasia, proibido no final da década de 80, vejam só, pela FEEMA já que os mesmos poluiriam as praias. Não temos mais blocos na terça-feira gorda da Sapucaí lotando as arquibancadas como outrora. O carnaval de bairro nos subúrbios e regiões periféricas enfrenta crise persistente. Os blocos sofrem com rígido controle que impossibilita o surgimento dos mesmos em sua forma espontânea. A resistência do samba, no entanto, persiste e como um alento a Federação se reorganiza e volta a crescer. Hoje sua sede localizada no "coração do SAARA", no centro do Rio, é bem estruturada e conta com funcionários e diretores atenciosos e cuidadosos. As 31 agremiações filiadas levam o samba onde poucos ousam chegar. Um dos primeiros mergulhos no universo do carnaval que fiz, por exemplo, foi em um destes blocos: o Unidos de Tubiacanga, na Ilha do Governador. Quem conhece, sabe que o bairro de Tubiacanga é quase um recanto paradisíaco na Ilha do Governador onde até mesmo o transporte é escasso. Lá a Unidos de Tubiacanga funciona com organização de fazer inveja a muita escola.

Assim, a Federação prepara-se para um momento histórico: pela primeira vez atuará junto a AESCRJ promovendo a campeã do grupo I a categoria de "escola de samba". Portaria da RioTur e o regulamento da AESCRJ orientam que a mesma receba 4 escolas, tema polêmico (como tornar uma escola de samba, bloco?) que posso discutir em outra oportunidade. Posso adiantar, que em minha opinião é perverso querer varrer 12 escolas de samba do quadro competitivo sem aumentar o número de escolas no topo da hierarquia, ou seja, no Grupo Especial. Pior ainda é criar um funil onde apenas uma tem acesso ao "céu" por ano. Muita coisa o poder público imagina que pode gerir por decretos, mas cultura é a mais sensível de todas. Faltou ouvir os sambistas da base sobre o que eles pensam.

Quero agora, porém, homenagear essas agremiações. Essas são agremiações guerreiras que lutam para botar um carnaval na rua e levar alegria aos 450 componentes que desfilam em cada uma. Para tanto tem que trabalhar com a exígua verba de 15 mil reais por ano. Lutam ainda por sua visibilidade já que poucos veículos comparecem a Rio Branco no sábado de carnaval, que dirá a Intendente Magalhães ou a Cardoso de Morais. Tem ainda que enfrentar o desafio da onipresença, já que os desfiles acontecem os três no mesmo dia e hora. A indiferença do poder público ainda é vilã já que as condições estruturais na Avenida Rio Branco e na Cardoso de Morais deixam a desejar. Enfim, esses sambistas que vindos dos mais diferentes pontos da metrópole sonham em ser vistos pelo mundo.

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