Em busca do bicampeonato, Portela faz ensaio em alto nível técnico

Por Vinicius Vasconcelos e Allan Duffes

ensaio-de-rua_portela_2018_01O trecho inicial do samba-enredo da campeã de Madureira retrata com exatidão a qualidade do ensaio de rua portelense. Ficou claro no rosto dos componentes o frisson que a 22ª estrela causou. E que, se depender do canto e empolgação deles, a 23ª pode estar bem perto. A Estrada Intendente Magalhães, na altura da UPA de Campinho, ficou tomada por uma multidão de desfilantes e curiosos que acompanharam a escola do início ao fim. O relógio marcava 20h, quando a bateria Tabajara do Samba iniciou seu esquenta e em seguida o intérprete Gilsinho cantou o hino da escola. Durante os 70 minutos de ensaio, os componentes gritaram – sim, gritaram – o samba da escola, que apesar de não ser o mais elogiado dos últimos anos, funcionou o tempo todo.

ensaio-de-rua_portela_2018_31– Achei um ensaio muito bom. Mais um passo dado na direção do Carnaval 2018. A cada semana, a gente aprimora mais nossa evolução e harmonia, tanto na quadra quanto na rua. A escola está progredindo para chegar afiada no dia do desfile. Nós teremos cerca de 3.200 componentes. Aqui, neste ensaio, ainda não temos as alas coreografadas, que são duas, e nem as comerciais que não estão completas. Mas, a medida que os ensaios vão avançando, a escola vai ficando maior também. Acredito que sejam cerca de 400 das alas comerciais e o restante todas para a comunidade – disse Fábio Pavão, membro da comissão de carnaval.

Harmonia

Da primeira a última ala, passando por baianas, velha-guarda, passistas, casais e compositores o canto era uniforme. A direção de harmonia fez o dever de casa durante todos os meses de ensaio dentro da quadra e tudo deu certo na rua. Representando o cangaço brasileiro, a ala coordenada pelo ex mestre-sala Jerônimo foi o grande destaque. Além do canto afiado acrescentaram passo marcado em alguns trechos. Os passistas da Portela, mais uma vez, demonstraram samba no pé com muita elegância.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

ensaio-de-rua_portela_2018_21Como faz bem o retorno de Lucinha Nobre ao Grupo Especial. A elegância da porta-bandeira é algo que transcende a dança e vai muito além. O parceiro Marlon Lamar, que está indo apenas para o seu segundo ano no Rio de Janeiro, e primeiro na Portela, também foi o ponto alto da noite. Eles transmitem a emoção que o torcedor azul e branco espera de um casal de mestre-sala e porta-bandeira. A coreografia feita pelos dois, segundo Marlon Lamar, foi praticamente a oficial.

– Executamos a coreografia quase que completa aqui na rua. Até porque a Intendente tem a mesma dimensão da Sapucaí, e isso nos ajuda muito para termos referência da cabine de jurados. São apenas detalhes que deixamos guardado para dar o ar de suspense do dia oficial. É uma grande responsabilidade estar na Portela. É uma escola que ultrapassa barreiras. O casal anterior atingiu a nota máxima e nós estamos trabalhando arduamente para trazer o 10 novamente – declarou o mestre-sala.

ensaio-de-rua_portela_2018_15De forma clássica, como tem de ser o casal de uma escola de samba, a coreografia tem pontos fortes e ousados. O trecho final é o grande momento da coreografia. Lucinha desliza a bandeira no sentido horário e anti-horário de seu corpo. Segundo ela, tirar 40 pontos depende de muito estudo, tanto do que aconteceu de errado, quanto do que deu certo.

– Temos que ter muita calma, e ficar com a consciência tranquila de que o trabalho está bonito. Estamos ensaiando muito e daqui pra lá vamos ensaiar mais ainda. É uma coreografia bonita que compreende tudo que o casal precisa para dar a nota máxima. Fiquei dois anos longe do Especial, esse tempo serviu para estudar. Tenho trabalhado em cima de todas coreografias que tiraram 10 e também as que não tiraram. Não podemos cometer os erros que tiraram pontos e valorizo bastante as que deram nota. Tenho muito respeito pela dança do mestre-sala e porta-bandeira e pretendo cumprir todas as necessidades para que a nota máxima venha. Fazemos isso com alegria, tranquilidade e coração na mão – brincou Lucinha Nobre.

ensaio-de-rua_portela_2018_16Sobre a falta dos ensaios técnicos, Lucinha disse que esse ano o carnaval vai chegar do nada, sem o aquecimento semanas antes. Mas ainda assim, todas as escolas mostram suas forças em ensaios de rua, sem deixar a tristeza abalar.

– Faz toda falta do mundo. Não teremos a sensação de que está chegando esse ano. Vai apenas chegar do nada. O ensaio técnico vai nos dizendo que está chegando a hora. Nós sambistas, esse ano, tivemos muitas perdas que infelizmente atrapalharam um pouco, mas também mostram a nossa força. Todos componentes estão comparecendo aos ensaios de suas respectivas escolas. Somos sambistas, somos cariocas e estaremos aqui sempre, sambando – desabafou.

Samba-Enredo

ensaio-de-rua_portela_2018_60“22 vezes minha estrela lá no céu” é uma espécie de declaração de amor do torcedor para a Águia de Oswaldo Cruz e Madureira. Com um andamento bom de se ouvir e com todas as características possíveis de um samba com cara de Portela, foi muito bem executado pelo intérprete Gilsinho, seu carro de som e o time de cordas.

– Vai ser bem legal, o samba é muito bom e a comunidade está cantando bem – assegurou o cantor portelense.

Bateria

Mestre Nilo Sérgio tem a Tabajara do Samba na palma de sua mão. A tranquilidade com que o mestre a conduz, permite que ele fume aquele cigarrinho e tome uma gelada entre uma bossa e outra. Com diretores que se comunicam o tempo todo, a bateria mostrou um excelente rendimento por todo o ensaio técnico sem deixar o ritmo cair. Entre o trecho “Chega criança, homem, muié” e “na campeã das campeãs de Madureira” vai ter xaxado, forró, e paradinha. Tudo atribuído a uma coreografia que só vai ser mostrada por completo no dia do desfile, conforme explicou o mestre.

ensaio-de-rua_portela_2018_54– Foi um ensaio maravilhoso, a Portela fez um ensaio, semana passada, debaixo de chuva, e hoje tivemos muito êxito. Colocamos mais ou menos em prática o que vamos levar pra avenida. Teremos 280 ritmistas na avenida, com três bossas. A coreografia que mostramos hoje vai pra Sapucaí, mas ainda tem uma surpresa. Ensaiar aqui é como se fosse no Sambódromo. Lá, o nome mesmo diz, é técnico. É algo que procuramos não errar, ou errar o mínimo possível.

Evolução

Já são dois anos sem perder um décimo sequer no quesito, e parece que tudo de se encaminha para que seja mantido em 2018. As alas vem brincando carnaval.

ensaio-de-rua_portela_2018_56Os diretores de harmonia, ao invés de ficarem entre uma ala e outra, coordenam dos lados, deixando a área de desfile apenas para quem é de direito, os desfilantes. A única divisão entre uma ala e outra é a mudança de fantasia. É característica da Portela deixar o componente a vontade, a história da própria escola diz por si. O componente vai para a avenida sabendo do que tem que fazer, e que o caminho do título também passa por ele e sua organização na avenida.

Outros destaques

A rainha Bianca Monteiro, indo para seu segundo ano de reinado na Tabajara, estava elegante, com samba nos pés e na ponta da língua. Cantou do início ao fim, como é de se esperar de uma rainha da comunidade.