Em depoimento no Museu da Imagem e do Som, Max Lopes eterniza sua história no carnaval

Na tarde desta quarta-feira, com um clima bem alegre e descontraído que o carnavalesco Max Lopes gravou seu depoimento para o projeto ‘Depoimentos para Posteridade’, uma iniciativa do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, o ‘MIS’, criada em 1966 e que hoje já possui cerca de 1.200 depoimentos, sendo o primeiro dado por João da Baiana e o segundo pelo ilustríssimo Pixinguinha. O depoimento de Max teve coordenação de Rachel Valença, vice-presidente do MIS, e participação do compositor Altay Veloso, do presidente da Viradouro Gusttavo Clarão, o carnavalesco Mauro Quintaes, e Paulo Cesar Feital, autor, compositor, poeta e teatrólogo. O CARNAVALESCO esteve presente durante esse momento tão especial, onde Max Lopes falou de sua infância, juventude, as brincadeiras, os primeiros empregos, a descoberta da vocação artística; além de relembrar fatos marcantes de sua carreira como carnavalesco e artista plástico. Max se emocionou, riu, brincou, chorou, contou piada; e respeitando uma ordem cronológica eternizou sua história.

'Dava um dinheiro ao motorista do meu avô para me levar ao samba'

A família de Max abominava o carnaval. Com 13 anos, o menino brincalhão fugia de casa para subir o Morro do Salgueiro e ensaiar com a escola. Na maioria das vezes, quem lhe ‘ajudava’ na fuga era o motorista do avô, que no fim das contas era subornado por Max. Foi na Vermelha e Branca da Tijuca que Max deu seus primeiros passos no carnaval, como passista. Entretanto, já naquela época, as artes plásticas já estavam inseridas dentro da alma do menino, ele já pintava e esculpia.

'Comecei a esculpir dentes de porcelana e fui considerado o melhor do Rio'

Já adulto Max tratou de fazer uma infinidade de cursos ligados às artes plásticas. Através de um amigo, que veio da Bélgica, foi apresentado a um protético, na época único no Brasil, que esculpia dentes em porcelana. Max então começa a esculpir dentes de porcelana e em pouco tempo tornou-se o melhor do Rio de Janeiro. – Tem vários artistas, inclusive, políticos, e que eu não vou dizer os nomes, que estão lá rindo até hoje com os meus dentes – disse. A alma de sambista, e artista continuou batendo forte, e em 1970 faz sua entrada para o carnaval como ajudante de Fernando Pamplona, seu grande mestre junto com Arlindo Rodrigues.

'Pamplona me impunha: tem que tirar da cabeça o que não tem no bolso'

Assumindo sozinho seu primeiro carnaval na Unidos de Lucas, Max precisou aguçar ainda mais sua criatividade, uma vez que a agremiação não dispunha de grande situação financeira. – Pamplona me impunha: tem que tirar da cabeça o que não tem no bolso! Era difícil, mas a gente tentava de tudo. Fiz o carnaval dentro do mercado São Sebastião. Dormi em barracão, com rato, barata, mas foi muito bom como aprendizado. No fim, dava certo – contou. Na época, o carnaval foi muito comentado, e ficou explícito o gosto de Max por enredos afros, com cunho espiritual e também mensagens de paz. 

'Inseri novas cores em Mangueira, não vou colocar em outras escolas?'

Em 1977, Max é convidado por Luizinho Drummond e vai para já conceituada Imperatriz Leopoldinense. A escola é rebaixada com o enredo “Viagens fantásticas às terras de Ibirapitanga”; no ano seguinte, ele leva a escola de volta ao grupo principal com o enredo “Vamos brincar de ser criança”. – Na hora do desfile uma grávida começou a chorar e cismou que queria um doce, e eu dizia que era tudo de isopor. Até que lembrei que em uma alegoria havia umas jujubas, presas com cola plástica. Fui lá, arranquei e dei para grávida comer – recorda Max. No ano seguinte, por não concordar com a escolha do enredo, o carnavalesco sai da escola. Em seguida é anunciada sua contratação pelo Salgueiro. Para Max, uma história tão triste quanto o fogo na Viradouro, já que após um golpe político a diretoria da Vermelha e Branca é destituída e o tão sonhado, e já pronto, enredo sobre Lamartine Babo, é passado para a Imperatriz. Em 82, o carnavalesco ganha grande sucesso com o enredo “É hoje”, na União da Ilha, onde já brinca um pouco com as cores. O histórico supercampeonato da Mangueira, em 1984, com “Yes, nós temos Braguinha”, rende a Max o apelido de “Mago das Cores”. Ousado, ele inseriu no desfile da Verde e Rosa diversos tons de azul além de marrom, amarelo, bege, o novo rosa, o chamado fúcsia. 

'Liberdade, Liberdade, abra as asas sobre nós'

Max revelou em depoimento que teve participação em algumas escolhas de samba enredo, apesar de não achar justo que o cara que trabalha com arte escolha o samba. Ele relata que em “Liberdade, liberdade” (Imperatriz 1989) toda escola queria o samba do Dominguinhos, e ele o único que preferia o samba concorrente do Preto Joia. – Quando há respeito, o trabalho flui e já é meio carnaval andado, independente de dinheiro ou não. Na época, o Luizinho me chamou na sala dele e questionou: Max todo mundo quer um samba e você quer outro. Por quê? Aí eu disse: Luizinho olha só, a Imperatriz é a ultima colocada, pra ela ficar lá em cima ela precisa de um samba com apelo popular – explicou. Luizinho disse então que Max seria o responsável pela escolha. No fim, o samba-enredo virou praticamente um hino da Impertriz.

'O incêndio que marcou a Viradouro'

Após passar pela Imperatriz em 1992, Max chega à Viradouro. Nesse ano, um incêndio no último carro durante o desfile quase termina em tragédia, com o enredo “E a magia da sorte chegou”, a escola termina na nona colocação. – Quando pegou fogo eu fiquei desesperado, porque nós pensávamos que a escola viria pequena, as roupas eram ricas, caras, e a escola passou com quase 6 mil pessoas. Sofri muito com aquilo, mas a consagração que recebi da arquibancada no fim do desfile, não teve preço. No ano seguinte, a escola fica em sétimo lugar com “Amor sublime amor”.

Após passagens pela Vila Isabel, Estácio de Sá, Arrastão de Cascadura, Grande Rio, em 2002, Max retorna à Mangueira e conquista mais um campeonato do Grupo Especial com o enredo “Brasil com Z é pra cabra da peste, Brasil com S é nação do Nordeste”. Em 2003, a Mangueira é vice-campeã com “Os dez mandamentos – o samba da paz canta a saga da liberdade”. O carro criado por Max é o maior da história dos desfiles, com 87 metros de comprimento por 10 metros de altura. Em 2009, o carnavalesco estreia na Porto da Pedra, volta para Imperatriz em 2010, permanecendo lá até o ano de 2012. Volta para a Viradouro em 2013 e conquista o vice-campeonato no Grupo A. Já em 2014 faz parte da comissão de carnaval da São Clemente no enredo “Favela”. Em 2015 retorna à Vila Isabel. Com um carinho muito grande por Niterói, e principalmente pela Viradouro, Max aceita o convite e vai desenvolver para a escola o enredo “O Alabê de Jerusalém: a saga de Ogundana” para o Carnaval de 2016, baseado no espetáculo teatral e musical de Altay Veloso. 

'O carnaval nada mais é do que uma consagração da alegria'

Muito ligado ao lado social, inclusive, por ter aflorado um lado espiritual, Max se envolve muito com o sentimento e o querer das pessoas. Ele encontrou no carnaval uma maneira de imprimir um pouco do conhecimento e minha arte, expressando beleza, plástica e alegria. – O carnaval nada mais é do que uma consagração da alegria. Eu me esmerei mais nisso, por causa disso. Porque eu poderia ter me dedicado aos quadros e salões, mas não é minha praia. Acredito que essa coisa que envolve multidões, gente de todos os níveis sociais e culturais é mais importante pra mim. Porque através desse trabalho eu consigo agregar ainda mais. E nesses mais de 30 anos de carnaval eu consegui fazer de uma forma que eu sempre fui muito respeitado, não só em escola de samba.

'Não há mínima condição de seguir sozinho'

Finalizando seu depoimento, Max, que por muitos anos teve como parceiro de trabalho o também carnavalesco Mauro Quintaes, afirma a importância do trabalho em equipe e da passagem do conhecimento. – Hoje eu trabalho com o Jorginho, meu assistente direto, ele é ótimo, aquece minhas ideias. A minha cabeça é a arquiteta das ideias, mas sento com ele, divido, e a gente vai se desdobrando e entendendo. Hoje eu sou o cara que mais “desenvolveu carnavalescos“. É um egoísmo da minha parte ficar com as coisas só para mim, devemos formar outros para que continuem com os trabalhos. Porque eu ficaria guardando tudo para mim? 

Filho de José Maria Lopes e Alice Lopes, Max Lopes nasceu em 18 de junho de 1948, no bairro da Tijuca, mais precisamente no Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro, onde passou grande parte de sua vida. Criado pelos avós em um regime rígido, o estudante do Colégio Militar e coroinha, jamais imaginava que se tornaria um grande carnavalesco, artista plástico e membro da Academia Brasileira de Belas Artes.