Em entrevista ao CARNAVALESCO, Ivo Meirelles analisa sua gestão e faz balanço do carnaval

CARNAVALESCO: Vale a pena ser presidente da Mangueira? Mesmo tendo que passar por tudo o que passou no último mês…

Ivo Meirelles: Com todas as letras: NÃO! Aí voce me pergunta, por que tentar continuar? E te respondo: Pra concluir o que ainda não acabei. Estou há 3 anos, batalhando por um projeto de Mangueira que ainda não se concluiu. Por exemplo quero deixar uma grande reestruturação em nossa quadra. Quero concluir este sonho. Deixar esse legado para todos os mangueirenses. Depois disso, acho que encerro meu ciclo. Não pretendo atazanar a vida de outros presidentes, como alguns fazem comigo.

CARNAVALESCO: Seus opositores o acusam de ter mexido no estatuto da Mangueira para beneficiar-se. Como recebe essa acusação?

Ivo Meirelles: NUNCA mexi no estatuto! Eles sabem disso. Sigo o estatuto religiosamente, em todas as suas proposições. Pegue uma cópia do estatudo e veja a última data em que foi reformulado.

CARNAVALESCO: E a relação do tráfico de drogas com a escola. O que pode falar sobre ela antes e após o seu mandato?
     
Ivo Meirelles: Não repondo por administrações anteriores a minha. Agora, convivência é uma coisa, conivência é outra! Estou dando uma basta, à convivência, … Por isso estou sofrendo tanto.

CARNAVALESCO: Ivo, quando e como surgiu a vontade de ser presidente da Mangueira?

Ivo Meirelles: Desde sempre. Acho que foi um sonho que nasceu quando me entendi por gente e que foi ficando mais forte quando percebi que tinha uma verdadeira contribuição a dar pra minha escola. Em 1980, muitos ainda nem sonhavam em nascer, eu me candidatei à presidente da bateria… Em 1989, me candidatei à presidencia da escola, pela primeira vez.
     
CARNAVALESCO: E as diferenças de pensamento antes e depois de assumir o comando da Mangueira?
     
Ivo Meirelles: Mudou a maneira de agir. Na Mangueira, muita gente quer opinar. Fui aprendendo a conviver com estas interações a não desprezar a opinião até mesmo de gente que nunca foi à quadra… Este é um fato que todo mundo hoje comenta, nunca o acesso ao presidente foi tão aberto na Mangueira. É um trabalho a mais, este de escutar opiniões, explicar ações, que às vezes pesa no cotidiano, mas que aprendi ser um exercício necessário à democracia.
     
CARNAVALESCO: Como a comunidade passou a te ver depois de assumir a presidência da Mangueira? Antes você era um artista que levava a imagem do morro e da escola para o mundo inteiro, agora está à frente do maior símbolo do carnaval. Fale sobre isso:
     
Ivo Meirelles: Na verdade, continuo fazendo a mesma coisa. A Mangueira leva a imagem do morro e da cultura popular para o mundo inteiro. Na minha carreira artística busquei usar a minha bagagem de ritmista de samba e menino de morro para propor uma nova estética popular. Na presidência da Mangueira procuro trazer a minha visão do cenário da arte para enriquecer e renovar a tradição popular. São ações complementares que tem o mesmo sentido: valorizar a tradição e mantê-la viva pela renovação.
     
CARNAVALESCO: Desde que assumiu a presidência, você vem implementando uma série de mudanças que valorizam o chão da escola. O carnaval atual está precisando disso? É esse o principal objetivo da Mangueira?
     
Ivo Meirelles: Sim. Engana-se quem acha que o carnaval é só carro alegórico. Isso acabou virando um super quesito. As pessoas se esquecem, que tem outros importantes. E digo mais, esses outros, são mais importantes que apenas "o carro alegórico". Escola de samba são pessoas! Enquanto eu estiver por aqui, valorizarei as pessoas, sim, mais do que qualquer outra coisa. Vejo nossos passistas, ritmistas e bahianas, mais felizes a cada ano… Por que? Por que se sentem valorizados, dentro do processo, sabem que sua contribuição determina a qualidade da nossa escola mais do que o dinheiro investido em adereços e alegorias.
     
CARNAVALESCO: Onde você acha que a sua gestão pode melhorar?
     
Ivo Meirelles: Muita coisa. Agora estou mais experiente. Vejo pessoas se vangloriarem de terem dado 2 títulos, em 12 anos de gestão, com todo o patrocínio que receberam.

CARNAVALESCO: Indique o maior erro e o maior acerto da sua gestão na Mangueira

Ivo Meirelles: O maior erro foi segurar comigo os problemas que a Mangueira tinha, como dívidas financeiras, vulnerabilidades e inadimplências. Achando que preservava a escola acabei protegendo a imagem de quem não zelou por ela e paguei sozinho as consequências disto com mil dificuldades. O maior acerto foi sempre acreditar que é do âmago da Mangueira que sempre vieram e sempre virão nossas vitórias. Os desfiles emocionantes e históricos que fizemos são prova disto.

CARNAVALESCO: Qual a principal vantagem e a principal desvantagem de ter vindo do meio artístico para a presidência da escola?
     
Ivo Meirelles: A desvantagem é grande, porque você tem uma imagem pública constituída que é parte de uma personalidade artística e as pessoas tendem a te restringir a esta personalidade, fazendo um pré-julgamento. A vantagem é que tenho, através da minha trajetória, respeito e acesso a meios que extrapolam o universo do samba e que muito contribuem para o dia a dia da escola.
     
CARNAVALESCO: Tem a preocupação de formar alguém para substituí-lo e manter a filosofia de trabalho? Quem seria essa pessoa?

Ivo Meirelles: Muitas pessoas da minha equipe são valores da comunidade e da escola que nunca haviam participado da gestão da escola. Muitos tem a cabeça aberta e a capacidade de aprender. Não estou preocupado em alguém para me substituir, mas gosto de saber que o pensamento de hoje vai gerar frutos para amanhã. Depois volto a tocar meu repinique, no Funk'n Lata, e apenas amar minha escola como todo mangueirense.
     
CARNAVALESCO: Queria que você falasse sobre a escolha do mestre Aílton para comandar a bateria. Por que tomou a decisão há poucos dias do carnaval 2011?

Ivo Meirelles: Porque os diretores de bateria não acreditavam que aquele paradão, marcado com o pé direito, fosse dar certo. Com medo de uma insubordinação, durante o desfile, resolvi não arrsicar e mudei todo mundo.
     
CARNAVALESCO: Na apuração do ano passado, você foi protestar na arquibancada, ao lado dos torcedores. Qual foi a principal motivação para aquela atitude?

Ivo Meirelles: Não quis ir embora, para não parecer mau educado, nem quis ficar ali, assistindo aquela covardia contra minha Escola. Fui para a arquibancada porque percebi que ali a indignação era a mesma que a minha.
     
CARNAVALESCO: E a nota nove da bateria recebida em 2011, qual foi o seu sentimento ao ler a justificativa?
     
Ivo Meirelles: Quer saber? Não dou ibope para justificativa não… Escrever, todos nós escreveríamos qualquer coisa. Executar é que são elas. Aquelas justificativas, para mim, são pra justificar o injustificável. Se todos as escolas mudarem, por causa do que escrevem no mapa, o carnaval vai ficar mais chato e careta do que está. Está faltando coragem jornalística, para botar o dedo na ferida. O erro não está em um julgador que segue um roteiro, o erro está em ter um roteiro para julgar, um mapinha dos erros que se deve procurar e não a sensibilidade de valorizar a beleza e a arte.

CARNAVALESCO: O prefeito Eduardo Paes propôs ao Niemeyer que projetasse o Novo Palácio do Samba e ele aceitou. Como recebeu essa notícia? Como pretende gerenciar essa nova quadra? Acredita ser possível tornar a escola auto-sustentável somente com a nova quadra?
     
Ivo Meirelles: Me sinto muito agradecido ao prefeito e ao Niemeyer, só espero que este novo projeto não venha a atrasar o processo, pois há na própria instância da prefeitura um projeto todo pronto, faz um ano. E nessse projeto, nossa quadra será nossa maior fonte de renda, para transformar o carnaval da Mangueira. Precisamos disto com uma enorme urgência.
     
CARNAVALESCO: Acha que falta apoio das instâncias governamentais para as escolas de samba?
     
Ivo Meirelles: Prefeitura e Governo do Estado já cumprem muito bem o seu papel. Falta, apenas, um projeto que englobe a rede hoteleira, que fatura muito com a nossa festa e poderia encontrar formas de contribuir. Outras parcerias de imenso valor, poderiam agregar, para um engrandecimento maior, do espetáculo!

CARNAVALESCO: Você uma vez me disse que já está acostumado a administrar a miséria, quando perguntado sobre a situação financeira da escola. Gostaria, se possível, que você explicasse melhor isso. Qual é a principal fonte de renda da escola? Os gastos são muitos? Quanto a Mangueira gastou para fazer o Carnaval 2012?
     
Ivo Meirelles: Gastamos em torno de R$ 6 milhões. Nossa quadra, em 2011, teve a pior arrecadação dos últimos 30 anos. No meu primeiro ano de mandato, tivemos poucas parcerias, de empresas e muitas restrições de ação por conta da inadimplência fiscal da escola. Foram 3 anos que só Deus sabe, como pusemos carnaval. E o pior foi ainda ter que usar os poucos recursos que fizemos para pagar dívidas trabalhistas de anos anteriores à minha gestão, com multas altíssimas de INSS, que herdei… E outras coisitas mais. Mas daqui a pouco vai ter gente dizendo que invento tudo isso… Vem ver, de perto.

CARNAVALESCO: Uma das críticas que você sofre é a queda na qualidade plástica dos desfiles da Mangueira nos últimos anos. O que acha disso?
     
Ivo Meirelles: Dinheiro… Com dinheiro, se faz carros alegóricos impecáveis… Tivemos o resto. Mas o resto, para essa gente, não importa. Apenas o imponente carro alegórico… Fazer o que? Mas ninguém esquecerá os nossos sambas-enredo e o que propuzemos de novo para os desfiles… Isso ningém apaga. Uma pena, daqui a 10, 20 anos, as pessoas lembrarem disso e nos parabenizar… Tardiamente.
     
CARNAVALESCO: E as trocas de carnavalescos? O que aconteceu?
     
Ivo Meirelles: Não vai bem? Troca, uai…

CARNAVALESCO: Qual é o seu maior sonho na presidência da escola?
     
Ivo Meirelles: SALVE O NOVO PALÁCIO DO SAMBA!

CARNAVALESCO: Deixe um recado para a imensa torcida mangueirense:

Ivo Meirelles:  Para os verdadeiros apaixonados por essa escola? Continuem confiando na gente. E muito obrigado!

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