Em tempos de crise, blocos pedem mais apoio em abertura da 8ª edição do ‘Desenrolando a Serpentina

A oitava edição do "Desenrolando a Serpentina", evento promovido pela Sebastiana com o apoio da Riotur, para discutir o carnaval de rua e sua relação com a cidade, teve início na tarde desta sexta, no Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), no Flamengo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Antes da mesa que abriu os debates, alguns filmes com temática carnavalesca foram exibidos.

A mesa de abertura da oitava edição do "Desenrolando a Serpentina" debateu o crescimento dos blocos de rua e a relação deles com o poder público. Compuseram a mesa a mediadora e presidente da Sebastiana, Rita Fernandes, além do diretor de operações da Riotur, Luiz Gustavo Mostof, dos representante da Ministério da Cultura, Xico Chaves, do secretário de Cultura do município do Rio de Janeiro, Marcelo Calero, do representante da secretaria estadual de Cultura, Alexandre Pimentel e de Roberto Veloso, presidente da liga Folia Carioca, que representa os blocos de diversas regiões da capital fluminense.

Com a plateia recheada de representantes dos maiores blocos do carnaval carioca, o tom do debate se deu através do apelo dos blocos em maior apoio financeiro para desfilar, além de um pedido à Riotur e Prefeitura do Rio para que o carnaval de rua transcorra de maneira mais desburocratizada.

'É hora de todos pensarem juntos o carnaval de rua', destaca Rita Fernandes

A mediadora e organizadora do "Desenrolando a Serpentina", Rita Fernandes, usou um tom de cobrança para pedir ao poder público maior apoio para os blocos. – A gente vive um momento de crise muito forte e também de enorme incerteza, pois ano que vem temos eleições. Temos total apoio hoje do prefeito Eduardo Paes, mas como será depois de 01 de janeiro de 2017? Faço aqui um apelo à Riotur, nossa grande parceira, para que a burocracia seja reduzida ao se colocar um bloco na rua – salientou.

Rita se refere ao inúmeros pedidos de licenças e autorizações necessárias junto aos órgãos públicos para que um bloco tenha permissão de desfilar. – É hora da gente pensar junto. Entidades, blocos e sociedade. O carnaval de rua e seu crescimento são uma realidade. Do tamanho que é hoje não há como não discutir apoio. É um acontecimento importante para o país todo – destacou a jornalista, que também comanda o Bloco Imprensa Que Eu Gamo.

'O diálogo pode mudar as legislações, que precisam ser respeitadas', destaca Mostof

Para o diretor de operações da Riotur, Luiz Gustavo Mostof, a Riotur como parceira do carnaval de rua já atua no sentido de ajudar os blocos quanto à desburocratização das licenças. – Já conseguimos junto à Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros centralizar as autorizações pela Riotur. Reconhecemos que há ainda entraves, mas são nós que podemos desamarrar aos poucos – promete Mostof.

O dirigente alerta, entretanto, que é o diálogo entre sociedade e estado que pode ajudar a desatar esses nós. – Precisamos ter o entendimento de que existe uma legislação. Ela tem de ser respeitada. Mas eu acho que a mobilização da sociedade, através de um diálogo democrático pode mudar as legislações. É assim na democracia. Os blocos conseguiram muitas vitórias desde 2009 – lembra.

'O carnaval movimenta R$ 2 bilhões e as entidades não recebem quase nada', reclama Roberto Veloso

Representando os blocos no debate, Roberto Veloso, da Folia Carioca, ressaltou que a conta entre arrecadação com o carnaval e fomento financeiro aos blocos não bate. – O município arrecada R$ 2 bilhões no período de carnaval. Não queremos ser abraçados pelo poder público, mas apenas ajudados, pois quem faz o carnaval acontecer somos nós. Não vamos deixar de sair por conta da crise. Mas vale acreditar na gente – pediu.

O secretário de Cultura do Rio, Marcelo Calero, explicou que existem leis de incentivo cultural que os blocos e qualquer entidade carnavalesca podem buscar para ajuda financeira. – O carnaval precisa usar os fomentos de cultura. Não vejo as entidades apresentando projetos para buscar esse tipo de incentivo. Para as Olimpíadas, eu espero que hajam projetos. É essencial que usufruam dos 54 equipamentos culturais da cidade. A cultura quer estar presente na agenda do carnaval, mas também quer a via inversa – ressaltou.

O representante da secretaria estadual de Cultura do Estado do Rio, Alexandre Pimentel, saiu em defesa das dificuldades enfrentadas pelos blocos na busca de apoio financeiro e revelou que os editais são engessados. –  O edital de carnaval contempla o estado como um todo. É um recurso limitado que se tem acesso. O dinheiro sai todo ano, pois existe essa pressão. Dividir pelo número de blocos e ligas inviabiliza. É preciso pensar em ações. Se formos atender todos os blocos do município não haverá dinheiro. Tem de haver pressão para esse valor aumentar. O estado tem consciência que é pouco, mas existem diversos segmentos que se precisa atender. Mas só se conquista as coisas com luta – avaliou.
 
'Não se pode enquadrar o carnaval', pede Xico Chaves

Em cima das explicações dadas pelos representantes dos governos estadual e municipal, Rita Fernandes, usou um argumento importante. – Entendemos os trâmites naturais, mas é preciso considerar também que as pessoas que comandam os blocos e entidades não são produtores culturais em sua maioria com a capacidade de entendimento para esses editais – alertou.

O representante do Ministério da Cultura, Xico Chaves, jogou luz a uma importante situação recorrente no carnaval de rua do Rio desde o boom dos blocos. – Não é possivel enquadrar transgressão e anarquia. O poder tem de entender o carnaval como uma livre expressão produzida por uma sociedade. Ele é o próprio país e necessita de uma legislação específica. Existe um excesso de gestão dentro da cultura, isso não pode suplantar os processos criativos. É necessário descobrir a fórmula para respeitar transgressão e organização – finalizou.