Ensaios técnicos

O carnaval já foi um momento mágico onde o encantamento das luzes, o brilho e cores das fantasias e o ritmo da bateria mexiam com o coração. Faziam bater mais depressa, não por ansiedade; mas por prazer.

O desfile já foi uma ocasião na qual passar pela avenida acontecia de uma forma que deixava um gostinho de quero mais, quero muito mais.

Hoje, pode até deixar um sentimento de cansaço no desfilante e de vazio no público. Passar pela avenida já não é novidade.

Temos ensaios num ritmo, frequência e exigência dignos de peças teatrais. A diferença é que os atores não são remunerados. Muitas vezes até pagam para ensaiar e desfilar.

Os ensaios de comunidade saturam.

Ocorrem duas ou três vezes por semana; mais os dias de ensaios técnicos na Sapucaí; mais os dias de ensaios de rua. Na maioria das vezes cantando um samba chato que, por ser ruim, precisa ser cantado até que os ouvidos se acostumem.

Tem também aquele diretor de harmonia “mala”, dizendo onde o componente deve ficar e pedindo pra cantar mais e mais alto. Alinhado em fila indiana, como nos tempos de ensaio escolar para sete de setembro.

Que prazer isso dá ? É masoquismo, isto sim.

Se faltar, perde a vaga na Ala da Comunidade. Faça sol ou chova, tem que estar lá, se esgoelando e mostrando ”alegria”, sendo manipulado e tratado como gado. Só que o gado, conduzido pelos boiadeiros não tem que pagar passagem para chegar junto da boiada. Não tem que comprar água para não cair desidratado.

Ah ! Mas ganham uma camiseta do ensaio técnico na Sapucaí. E, o melhor de tudo, ganham a fantasia (bem pesada, por sinal) e o direito de passar pela mesma avenida no dia do desfile. Desde que em fila indiana, cantando aquele samba chato e aturando aquele diretor de harmonia mal educado. Tudo belo bem da agremiação do coração. Isso é uma tremenda exploração.

O presidente da escola de samba deveria lavar os pés de cada componente depois do desfile. Mas, cadê humildade pra isso ? Quando agradecem já é muito. Quando não dão bronca já é muito.

Tem ainda o intérprete com aquele jeito esquisito de cobrar: “cantem, cantem e cantem”. Ora! Cante você que ganha pra isso. Eu vou cantar o quanto eu quiser. Vocês deveriam escolher um samba melhor; que desse prazer e vontade de cantar. Deveriam incentivar a alegria, espontaneidade e sorriso do componente. Afinal, isso era pra ser folia.

Diante de todo o poder que demonstram os homens do poder no carnaval, mesmo com toda astúcia, toda argúcia, mesmo com toda pompa; falta uma coisa para esses homens do poder. É uma coisa tão simples mas, ao mesmo tempo tão essencial: se o lucro é deles e o suor é nosso, falta-lhes sensibilidade para entender que hoje, sem compromisso, sem relógio e sem patrão nós só queríamos é brincar o carnaval.

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