Entre paixão e razão, Viradouro está na briga pelo título da Série A no Carnaval 2018

Por Thiago Barros

viradouro_desfile_2018_23-4“Sou Viradouro, sou paixão” é um verso histórico da Viradouro, consagrado no samba de 1998 e repetido agora, 20 anos depois, para exaltar a relação de paixão entre seus componentes e torcedores com a agremiação. Afinal, a emoção é um componente que não é julgado, mas é fundamental no carnaval.

De fato, houve momentos em que a Viradouro enlouqueceu, arrepiou, tocou, pirou… A comissão de frente, com vários adultos virando crianças, as alegorias com concepção e acabamento impecáveis, enredo de fácil leitura, casal com bailado correto e samba com a cara da escola, pra cima, interpretado perfeitamente por Zé Paulo.

viradouro_desfile_2018_08Mas é preciso ter uma dose de razão e identificar que a apresentação da escola não foi perfeita e avassaladora. Houve falhas que podem descontar alguns décimos da escola na Quarta-Feira de Cinzas. O belo abre-alas, por exemplo, passou com a parte traseira apagada, houve buracos no fim do desfile e o casal teve dificuldades com o vento no segundo módulo de jurados.

Mesmo assim, a Vermelha e Branca de Niterói foi a melhor escola da Série A até agora. Pode não ter sido um grande sacode ou um desfile perfeito, mas foi uma apresentação bastante correta, um nível acima das agremiações que desfilaram até agora. Por isso, entre paixão e razão, a Viradouro continua, sim, favorita ao título e ao acesso.

Alegorias e Adereços

viradouro_desfile_2018_22-5O conjunto alegórico da Unidos de Viradouro foi o melhor da Série A até aqui. Foram quatro carros alegóricos com nível de Grupo Especial. Destaque para o gigante abre-alas, chamado “É ter na mente: a fábrica da loucura da criação”, dividido em duas partes para simbolizar a mente humana trabalhando.

Todo dourado, com detalhes em preto, muitas luzes na parte frontal e artistas fazendo piruetas em esferas na parte central do carro, ele causava uma bela impressão com a entrada imponente na Avenida. Entretanto, houve uma falha: a parte traseira teve sua iluminação apagada durante boa parte do desfile – e era possível ver ferros na frente.

viradouro_desfile_2018_38-6Fora isso, tudo perfeito. O segundo carro alegórico, com uma concepção bem diferente, era “Santos Dumont: em Paris, um Ícaro brasileiro”, que recriava a capital francesa e destacava uma escultura com a importância de Santos Dumont, que voou por 220 metros nos ares parisienses com o 14-Bis, também mostrado na alegoria.

“No castelo encantado da ficção, a gente vira a cabeça e pira o coração!”, terceira alegoria, que traz a ficção, representada por Frankestein, foi um show à parte. Um espetacular acabamento, parecendo que era mesmo um castelo, com gárgulas, e aquele clima bem assustador. Tons de preto, roxo, muito impressionante.

viradouro_desfile_2018_44Fechando o desfile, “A viagem do Corso Viramor na mais louca criação de todas!”, que inspirava-se no amor do Pierrot pela Colombina para exaltar a louca paixão da enorme comunidade niteroiense ao falar da Viradouro! Tons de dourado, rosa e esculturas muito impressionantes, especialmente a traseira, com o casal apaixonado bailando.

Fantasias

O belo trabalho de Edson Pereira foi visto também nas fantasias. A Viradouro foi muito bem vestida para a Sapucaí. Desde a simplicidade do Santos Dumont na Bateria até a maquiagem e o luxo da Ala 14, representando o Chapeleiro Maluco de “Alice No País Das Maravilhas”.

viradouro_desfile_2018_68A primeira ala, As Cores Que Dão Forma À Criação, também causava um belo impacto visual, formando um grande arco-íris à frente do carro abre-alas. As baianas vieram na Ala 7, e estavam lindas, com a indumentária Loucos Desde A Criação, com mistura de roxo, rosa e preto.

As passistas, 10ª ala, vinha com a fantasia Dando Asas À Imaginação. Outra das belas indumentárias feitas pelo carnavalesco. Seguindo a linha das baianas, com roxo, preto e rosa. Fechando o desfile, a Ala 20, Viramor, com direito a um coração simbolizando a paixão pela Viradouro, também foi de muito bom gosto.

Enredo

viradouro_desfile_2018_81Grande favorita de 2018 na Série A, a Viradouro desfilou com o enredo “Vira a cabeça. Pira o coração – Loucos gênios da criação”, de Edson Pereira. O enredo traçou aquele tradicional paralelo entre a genialidade e a loucura levando em consideração as criações, as invenções ao longo da história.

O desfile foi dividido em quatro setores: “Loucos Gênios da Criação”, “Descobrindo o teto do firmamento”, “Grandes alquimistas da ficção” e “Quem sabe se, metáfora do real, no fim, loucos também não criaram o carnaval?”. E, se muitas escolas optam por leitura ao invés de estética, a Viradouro teve os dois.

Diversos personagens bem conhecidos do público apareceram no desfile, como Isaac Newton e Albert Einstein no setor dos cientistas, Frankenstein e Alice na ficção, Santos Dumont em uma alegoria e na bateria… Da arquibancada mesmo era possível entender todo o desfile, sem precisar de roteiro. Ótimo trabalho de Edson.

Harmonia

viradouro_desfile_2018_61Zé Paulo se consolida como um dos maiores intérpretes do Carnaval 2018. O carro de som conduziu muito bem o samba-enredo, e a comunidade também fez o seu papel. A explosão na entrada da agremiação na Sapucaí foi incrível, e nas paradinhas em que a bateria “jogava pra galera” no verso “Sou Viradouro, sou paixão”, houve boa resposta.

Os componentes não chegaram a fazer um rolo compressor como muitos esperavam, porém apresentaram um rendimento regular durante todo o desfile. Não havia aqueles casos de alas com muita gente sem cantar, por exemplo. Entretanto, é possível citar várias alas em que todos cantaram em bom nível.

viradouro_desfile_2018_48No primeiro setor, destaque para a Ala 5 (Einstênio) e a Ala 6 (Ahoy). Vale destacar o canto forte dos passistas (Ala 10), assim como da Ala 20, que representou muito bem seu nome: Viramor. Ou seja, o amor pela Viradouro. É bem provável que a escola seja avaliada com a nota máxima no quesito.

Evolução

Em termos de movimentação e orientação das alas, a evolução da Viradouro não teve quaisquer problemas. Todos brincando carnaval, ocupando bem os espaços destinados dentro das alas, sem embolar grupos diferentes e fazendo uma apresentação corretinha – como se espera de uma escola desse tamanho.

viradouro_desfile_2018_38-9Houve, porém, problemas com buracos. Um espaço grande abriu-se após a dança do casal para a primeira ala no primeiro módulo. Foi rapidamente preenchido, entretanto ocorreu. No último módulo, na saída da bateria do recuo, a ala da frente andou muito rápido e acabou criando-se um novo buraco.

“Andar rápido”, aliás, foi algo que aconteceu no final do desfile. Talvez porque o início acabou ficando um pouco mais “travado”, provavelmente por conta da apresentação longa do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Ou seja, no geral, a Evolução pode acabar tirando décimos da Viradouro.

Samba-Enredo

viradouro_desfile_2018_23-2Zé Glória, Lucas Macedo, William Lima, Gugu Psi, Lico Monteiro, Lucas Neves e Matheus Gaúcho são os compositores da obra da Viradouro, que tinha um refrão bem forte: “É de enlouquecer, Viradouro!”. Muito bem interpretado por Zé Paulo, atual bicampeão do Estrela do Carnaval (2016 e 2017) como melhor intérprete da Série A.

Letra fácil, descrição perfeita do enredo e alguns versos com a cara da Viradouro – além de uma “paradona” da bateria que fazia a galera cantar justamente antes de ele entrar. No fim da segunda estrofe, “Sou Viradouro, Sou Paixão”, verso eterno na história da escola que se repetiu e deu muito certo.

A exemplo do que aconteceu na sexta-feira, com Porto da Pedra e Estácio de Sá, este não era um dos sambas mais comentados no pré-Carnaval. No entanto, funcionou bem no desfile. Novamente, não foi um sacode (como o “Orgulho de ser Niterói” foi), porém serviu corretamente para o desfile.

Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira

viradouro_desfile_2018_17Julinho e Rute, casal consagrado no carnaval, estavam fantasiados de “Tocou a alma, pirou o coração!”, com uma fantasia toda vermelha, representando o amor à Viradouro. E se a indumentária estava linda, a dança também foi em alto nível.

Julinho fez um bailado mais tradicional, mas sem perder sua característica de inovar. Em determinados versos, fazia movimentos mais lentos, girava em uma só perna e, claro, na conexão com Rute sempre esbanjando sorrisos, mandando beijos… Mas tudo de forma bem espontânea, natural e bem executada.

Rute mostrou a graça e leveza de sempre. Muitos sorrisos, um canto forte nos principais versos do samba e um desfile quase perfeito. Entrou muito bem no módulo 1, mas no no módulo 2, atrapalhada pelo vento, a bandeira enrolou duas vezes. Apesar disso, uma apresentação segura do casal no geral.

viradouro_desfile_2018_14Comissão de Frente

“De gênio e louco… todo mundo quer ser um pouco” foi a fantasia da comissão de frente de Márcio Moura, que traz ainda um elemento cênico, a Máquina da Juventude. Eram 23 componentes, sendo 22 homens e uma mulher. Era um grupo de excêntricos cientistas fazia de tudo para vender essa máquina, o sonho da humanidade.

Foi uma das comissões mais aclamadas da Série A. Na coreografia, os vendedores, em passos e interpretações bem humoradas, tentavam convencer uma média e dois ricos a comprarem a máquina. Para isso, primeiro mostravam que ela funcionava com plantas e depois testavam-na em seus companheiros que a construíram.

viradouro_desfile_2018_13E não é que dava certo? Pouco a pouco, eles, velhos, iam entrando, e saiam crianças – estava aí a surpresa dos 23 integrantes. Só 15 apareciam, como manda a regra, mas os outros estavam dentro da tal máquina. Um efeito bacana e que gerou muitos aplausos à escola – tanto dos julgadores como do público.

Público, aliás, que “fazia parte da coreografia”. Logo no começo, na hora de “ligar” a sua máquina, os componentes formavam uma corrente com seus braços e tinham a ponta de uma “tomada” que se conectava a alguém aleatório na plateia. Causava um rebuliço nos espectadores e gerava um efeito bem bacana.

Agora vai?

viradouro_desfile_2018_35A Viradouro teve muitas alas coreografadas no sei desfile. A Ala 1, As Cores Que Dão Forma à Criação, coloria o início da apresentação à frente do abre-alas. A Ala 8, Real Sonho Impossível, simbolizava balões e o sonho de voar. A Ala 15, Rainha de Copas, tinha as cartas do baralho também fazendo passos coreografados.

Quem também merece um destaque especial é a já tradicional fantasia de Zé Paulo, intérprete da escola. Todo ano, ele vem com uma indumentária bacana, bem diferente e mexendo com o público. Nesse ano, ele homenageou um gênio da “sua área de atuação”: Michael Jackson, com o carro de som todo de “zumbi”, em referência ao clipe Thriller. Sensacional!

E falando em Zé Paulo… “Chegou tua hora, Viradouro!”, diz o primeiro verso da sinopse do samba. Será? Afinal, a Viradouro bateu na trave em 2017, quando foi segunda colocada com o enredo “…E todo menino é um Rei”. Em 2016, ficou em terceiro lugar com “O Alabê de Jerusalém: A Saga de Ogundana”. E em 2018?

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