ENTREVISTA: Laíla é o nosso convidado da semana

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Admirado por uns, criticado por outros, o principal responsável pelo alto nível de desfiles mantido pela Beija-Flor nas últimas duas décadas é Luiz Fernando do Carmo, mais conhecido como Laíla. O diretor de carnaval recebeu o site CARNAVALESCO no barracão da escola e falou sobre diversos temas. Entre eles, a discussão que deu origem à conturbada saída de Alexandre Louzada da escola, as críticas que a Beja-Flor recebeu no aspecto plástico em 2011, Paulo Barros, e se o bom relacionamento de Anísio na Liesa tem influenciado nos últimos títulos da agremiação de Nilópolis.

Carnavalesco: Quem ensinou para o Laíla como comandar uma escola de samba?

Laíla: As pessoas que me conhecem desde o tempo do Salgueiro e que me acompanharam na minha adolescência já sabiam que tinha essa característica. Me aperfeiçoei quando passei ao quadro do Acadêmicos do Salgueiro em 1960. Quando eu comecei a trabalhar na harmonia do Salgueiro teve um cara que colocou no jornal que eu era o novo modelo de diretor de harmonia do Carnaval carioca, foi o Antônio Lemos, quando ele escrevia na Luta Democrática, se não me engano.

Carnavalesco: O que te dá mais orgulho na Beija-Flor?

Laíla: Cheguei aqui em 1976 e fiquei até 1980. Havia um outro estilo de trabalho. Eu trabalhava exclusivamente na parte harmônica, mas ficava também no barracão com o Joãosinho. O que mais me orgulha é que a Beija-Flor não tinha a comunidade que hoje tem. Se eu dependesse única e exclusivamente de ala comercial a Beija-Flor não seria a força que é no Carnaval de hoje. Meus maiores orgulhos na Beija-Flor são a excepcional comunidade e a fabulosa comissão de carnaval que montamos ao longo do tempo. Os garotos pensam, escrevem e desenvolvem. Não dependemos de um único carnavalesco para levar a Beija-Flor aos títulos.

Carnavalesco: Como foi a transição desse estilo? O que fez para implementar essas mudanças no estilo de trabalho da Beija-Flor?

Laíla: Nós ainda temos 17 alas de comunidades. Houve muita rejeição no início. A ala comercial tem um caminho dentro da escola que é aonde as pessoas ganham algum dinheirinho. Então enfrentamos resistência dos presidentes dessas alas, mas a tendência natural é diminuir.

Carnavalesco: A participação dessas alas no canto da escola é satisfatória?

Laíla: Não. Em escola nenhuma a participação dessas alas é satisfatória. Quem não ensaia, não participa, não tem o conhecimento da maneira de condução da escola não contribui. A gente briga muito. Temos nossos macetes para minimizar isso. Eu não tenho nada contra ala comercial, mas se participassem do ensaio, acompanhando o que a escola quer fazer pra mim não teria problema nenhum.

Carnavalesco: Antes de chegar na Beija-Flor qual era a sua visão sobre a escola?

Laíla: Vou te contar uma história… Eu estava em evidência no Salgueiro e conheci o Bira Quininho, ele era o cantor oficial da escola e eu trabalhava no Bola Preta e no Renascença, no comando da roda de samba. O Bira me pediu para apresentar um cantor que na época se chamava Neguinho da Vala, era um moleque bom e etc. Eu disse que não tinha problema. O Bira me levou o Neguinho e ele cantou no primeiro dia, quando foi no segundo dia eu contratei o Neguinho. Aí o Bira veio me falar que um dia eu trabalharia na escola dele, eu duvidei, na época era uma escola de segundo grupo. Tinha sido até sétima colocada no Carnaval anterior. Eu não acreditei na profecia dele. Mas aí eu e o João brigamos no Salgueiro. O João foi embora na frente e, na verdade, eu não desfilei em 1976. Ajudei o João a desenvolver, dei toda a cobertura para ele e escolhi o Pelé como mestre de bateria, participei de uma série de coisas naquele Carnaval. O João tinha feito um trato comigo de que se ele ganhasse o Carnaval ele diria para todos que eu o ajudei. O ganho que eu tive com o João naquela época foi ele ter dito que para ser bicampeão ele precisava do Laíla. Eu pensei bem, fui para as minhas macumbas e me deram autorização para trocar.

Carnavalesco: Essa briga que você e o Joãosinho Trinta tiveram com o Salgueiro qual foi o motivo?

Laíla: Porque nós não tínhamos autonomia para fazer o que nós pensávamos. Nós pensávamos numa escola de comunidade, de dar condições para os mais necessitados. Sempre fui garoto pobre do morro e queria dar oportunidades para as pessoas da comunidade.

Carnavalesco: A Beija-Flor hoje está do jeito que você quer?

Laíla: Ainda não. Ainda falta muita coisa, mas eu prefiro guardar (risos)… A grande realidade é a seguinte, a gente nunca pode achar que já chegou à perfeição. Temos que estar sempre aprendendo. Eu busco aprender sempre, principalmente em cima dos quesitos pertinentes à escola de samba propriamente dita: bateria, evolução, harmonia, samba-enredo. O enredo eu brigo para que ele tenha um desenvolvimento correto e nós não façamos o samba do crioulo doido. Nós ainda queremos ganhar muitos carnavais. Não estou querendo dizer que somos os melhores, mas estamos sempre nos policiando. A cada ano que passa temos um compromisso maior. Ano que vem a responsabilidade para tentar ser bicampeão será ainda maior.

Carnavalesco: E a saída do mestre Paulinho? O que realmente aconteceu?

Laíla: Não quero falar sobre isso.

Carnavalesco: Como está a bateria da escola hoje na sua avaliação?

Laíla: A bateria da Beija-Flor tem o mesmo número de elementos que tinha há 13 anos atrás. Os diretores de bateria já estão lá esse tempo todo fazendo a mesma coisa, procedendo da mesma maneira. Tiveram pequenas mudanças, mudou a batida de caixa, a afinação, as convenções estão em cima da harmonia do samba. Estou muito feliz com o Rodney, com o Plínio e com a rapaziada lá. Temos muita coisa pra dar.

Carnavalesco: Tem muitos desafetos no samba?

Laíla: Eu recebo muito tapinha nas costas e muita cara feia. Tem gente que me olha torto. Eu tenho 19 títulos do Carnaval carioca, quatro em Belém do Pará e um no Rio Grande do Sul. Como diretor de carnaval, eu sou cara que mais títulos tem.

Carnavalesco: É verdade que depois do desfile da Beija-Flor, antes do resultado do Carnaval, houve um desentendimento seu com o Anísio? Chegou a pensar em deixar a Beija-Flor?

Laíla: Não houve esse desentendimento. Nós nos reunimos aqui no barracão e ele me falou algumas sobre o cara que saiu (Alexandre Louzada) e eu bati o pé firme. Sabe porque eu bati o pé firme? Quem fez o carnaval estava comigo. O carnaval do Roberto Carlos quem fez foi essa garotada da comissão. Eles desenharam, fizeram o roteiro e executaram. Falei para o Anísio o que tinha que falar com relação ao assunto, mas desentendimento não teve. Eu nunca me desentendi com o Anísio. Em todos esses anos de Beija-Flor sempre houve conversa. O Anísio me respeita muito e eu respeito bastante ele também. Existe uma amizade muito grande. Não existe interesse financeiro e nem tirar nada do Anísio. Existe sim interesse em dar a ele aquilo que a gente sabe fazer: o melhor carnaval possível.

Carnavalesco: Qual a diferença dele para os outros patronos?

Laíla: Olha, rapaz… Muitas coisas. O Anísio tem um jeito especial de falar, ele não destrata ninguém. Cumpre religiosamente que trata. Nós não ganhamos uma fortuna, mas ninguém aqui passa fome. Nós não ganhamos a fortuna que ficam falando aqui no Rio de Janeiro, eu fico até assustado. Tem nego que diz que tira R$ 20 mil por mês, outro tira 15… Tem carnavalesco que diz que tira R$ 600 mil por carnaval. Eu vi isso e fiquei assustado. R$ 600 mil é 1% do que eu ganho por mês.

Carnavalesco: Comenta-se que o poder dele na Liga pode dar títulos a Beija-Flor. O que acha disso?

Laíla: O Anísio foi presidente da Liga durante três anos e a Beija-Flor não ganhou. Teria benefício se a escola não estivesse correspondendo, mas se você pegar todos os anos que ganhamos o carnaval vai perceber que o julgamento foi honesto. E até em anos que não ganhamos, merecíamos ter um resultado melhor. Nem por isso chamamos ninguém de ladrão. Colocamos a nossa violinha no saco e fomos embora. Se as pessoas conhecessem o Anísio não falariam mal. O Anísio faz bem para humanidade e ao povo dele. Ele trata seus funcionários e componentes da Beija-Flor com a maior lisura possível. Não deixa ninguém maltratar ninguém.

Carnavalesco: Como você recebe as críticas no aspecto plástico do desfile de Beija-Flor em 2011?

Laíla: Nós temos algumas coisas para serem mudadas. Ainda não conversamos com tanta profundidade porque ganhamos. É lógico que quando todo o carnaval tiver montado, a sinopse, o roteiro, nós vamos sentar e analisar as justificativas nos quesitos que perdemos pontos para saber qual é o caminho.

Carnavalesco: E o enredo sobre o Maranhão em 2012?

Laíla: Em 74, Rei de França na Ilha da Assombração, eu estava com João Trinta na nossa primeira carreira solo, Salgueiro campeã do carnaval. Nós fizemos Agotime, que pegou Casa das Minas e foi um grande carnaval. A Mangueira já fez Maranhão e a Grande Rio também. Nós temos que buscar caminhos completamente diferentes. É lógico que tem coisas básicas que você não pode fugir. Não dá pra falar do Maranhão sem as suas lendas e o seu folclore, mas nós já achamos o caminho e estamos muito felizes. Fizemos isso com a troca de ideias entre todos e, é lógico, com a minha orientação. As pessoas vão se assustar como se assustaram com o Roberto. Com o Roberto ninguém dizia nada e a escola conseguiu um bom caminho e um bom desenvolvimento do enredo. No dia 1 de junho, nós vamos lançar o enredo e entregar a sinopse aqui na quadra e podemos contar com a presença da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, mas já avisamos que não vamos tratar de política.

Carnavalesco: Vai ter patrocínio?

Laíla: Sobre isso a gente não fala. Somos responsáveis pela parte artística, não temos nem autorização para tocar nesse assunto.

Carnavalesco: Qual o melhor desfile desde que você chegou na Beija-Flor?

Laíla: Eu gosto de muitos, mas Agotime (2001) foi sensacional. A escola parecia um exército. Araxá (1999) também foi muito bom. A nossa média de desfiles é muito boa.

Carnavalesco: E o pior carnaval da sua carreira?

Laíla: Não foi nem aqui. Foi um ano que eu passei de raspão na Vila (1985). Não lembro o ano que era, mas o Max era o carnavalesco e, na feitura de um carro, eu disse que ia dar problema. Aí começou aquele negócio do carnavalesco de eu me meter aonde eu não devia, já que era responsável pela harmonia. Chegou na Avenida aquele carro atravancou e a culpa caiu na minha conta.

Carnavalesco: Fale sobre a sua infância no morro do Salgueiro.

Laíla: Sou cria do morro do Salgueiro com muito orgulho. Já passei por todo tipo de dificuldade, só não fui mendigo, mas sempre ganhei a minha vida com muita dignidade e nunca me envolvi com nada de errado, nem desonesto, me orgulho muito disso. O carnaval, a escola de samba, foram as minhas salvações, por isso amo muito que eu faço. Sobre a escola atualmente não posso falar muito. Acho o Renato sensacional. Ele é meu amigo particular. Fizemos Delmiro Gouveia juntos na Unidos da Tijuca em 1980, antes já tínhamos feito Macobeba, e aí houve lá um desentendimento comigo e preferi sair. Não que eu seja pavio curto. Eu não gosto é de sacanagem. Falar e não cumprir ou fazer e tirar o corpo da seringa, foi isso que aconteceu na ocasião. Eu considero o Renato Lage melhor carnavalesco em estética neste momento, mas não me envolvo nesse lado salgueirense não. Tenho meus parentes lá, mas cada qual procura seguir o seu caminho da melhor maneira que lhe convém.

Carnavalesco: Hoje se bate muito na tecla da interação com o público nos desfiles da escolas de samba. Como tem visto o carnaval de uma maneira geral?

Laíla: Nós nunca tivemos um título com grande participação popular. O único carnaval que isso aconteceu nós não vencemos, que foi Ratos e Urubus, em 1989, quando ocorreu uma interação muito grande entre arquibancada e escola mas não ganhamos. Acho que é importante essa interação. Conversei com os garotos da comissão de carnaval e vimos que era hora de uma mudança melódica no nosso samba-enredo. Este ano já conseguimos isso. A melodia foi muito boa. Já vimos as justificativas de que a parte poética havia sido prejudicada em razão das rimas, mas isso nós vamos corrigir. O único campeonato da Estácio, por exemplo, foi com a participação popular, em 1992.

Carnavalesco: E o Paulo Barros? O que acha do trabalho dele?

Laíla: Acho que ele tem que seguir o caminho dele. Não tenho nada contra o Paulo. Cada um tem o seu estilo. Se ele quiser permanecer com esse estilo que permaneça. Em função da colocação de determinados órgãos de imprensa ficou esse mal-estar entre eu e o pessoal da Tijuca. Cansei de almoçar junto com o Ricardo Fernandes e hoje não estamos nem nos falando. Achei que ele se excedeu no que ele falou e eu retruquei. Não deixei de gostar dele, mas estamos meio estremecidos em razão disso. As pessoas seguiram um outro caminho de pensamento. Dentro do samba não pode haver isso. É claro que é uma competição, todos querem ganhar, mas é preciso aprender a respeitar aquilo que as outras pessoas fazem. Não é do meu agrado o estilo do Paulo, não acho maravilhoso, até porque, se você prestar a atenção em alguns carnavais da Beija-Flor, vai constatar que já fazíamos muitas coisas diferentes. É normal, ele ganhou um título merecido e respeito o trabalho dele. Eu sempre tive algo na minha cabeça: não acompanho escola que foi campeã. Por exemplo, no Salgueiro fomos bicampeões, e todos tentavam nos imitar, mas não conseguiram. Na Beija-Flor, fomos tricampeões e a mesma coisa aconteceu. Cada um deve seguir o seu estilo, seguir a sua cabeça e fazer o melhor possível.

Carnavalesco: E o Alexandre Louzada?

Laíla: Esse eu também não gostaria de falar. Já foi, graças a Deus.

Carnavalesco: A pergunta seria sobre como começou o problema entre vocês.

Laíla: Bom, o problema começou quando estávamos desenvolvendo os protótipos. Os garotos da comissão tinham desenhado, eu tinha pedido uma fantasia menor e ele não entendeu isso. Mas fui relevando. A única conclusão que eu cheguei é que ele veio aqui com uma finalidade: terminar com a comissão de carnaval, eu penso dessa maneira. O trato dele comigo previa que ele viesse para dar ensinamento. Durante uma reunião geral entre a comissão e os garotos responsáveis por adereçar os carros eu comecei a falar algumas coisas e fui dando oportunidade para cada um colocar aquilo que queria. Aí, na frente de todo mundo, ele me perguntou o que eu tinha contra ele. O bicho pegou… Falei tudo que eu tinha que falar pra ele e não deixei ele fazer mais nada. Ele não fez nada! Ele deu uma declaração dizendo que a Beija-Flor precisava de uma mente sã igual a dele para escrever a sinopse, mas ele fez a primeira sinopse e eu não gostei, modéstia à parte, tem que passar por mim. Os garotos já tinham feito e ele pegou tópicos de cada um para montar a sinopse dele. Volto a te falar, a intenção dele era acabar com a comissão de carnaval.

Carnavalesco: E a gravação do CD oficial do Grupo Especial é o formato atual o ideal?

Laíla: Eu não sei precisamente o ano, mas fiz um disco que a imprensa definiu como Banda do Canecão. Fiz ele num estúdio, o que eu entendo de escola de samba: bateria, canto, harmonia e dança. Busquei trazer o coro mais pra frente um pouco e a voz do cantor num estágio mais ou menos misturado. O disco é sensacional. Tomei tanta porrada da imprensa que quase fiquei desempregado. Diziam muita bobagem. Aí depois mudamos. Fiz ao vivo no Teatro de Lona, devido a falta de verba não pôde se fazer mais, já que o custo era muito grande e o disco passou a vender menos. Chegou-se a conclusão de que era preciso fazer ao vivo, mas se você pegar a tal Banda do Canecão é bem parecida com o disco de hoje, com até mais qualidade. Eu quero te dizer uma coisa: quem foi a primeira pessoa a colocar ritmista para gravar um CD de samba-enredo? Laíla. O disco de samba-enredo era gravado por Lula, Marçal, o falecido Bezerra da Silva e outros, era um grupo fechado. Fui contratado para produzi-los. Trabalhei um ano com eles. No ano seguinte eu coloquei um ritmista de cada escola, eram 20, coloquei-os dentro do estúdio. Todo mundo disse que eu tava maluco. Tomei mais porrada, diziam que eu queria inventar, que eu era maluco. Fui o primeiro a botar maestro também no CD, outra vez falaram que eu tava maluco, mas eu te explico o motivo de eu ter colocado um maestro. Quem tocava em escola de samba não lia partitura. Por isso se levava cinco, seis horas para fazer uma base. No segundo ano eu já mudei isso tudo. Fiz um grande time de ritmista, mesclava também, trabalharam muitos anos comigo. As pessoas não falam isso, mas você pode pesquisar vai ver que eu fiz.

Carnavalesco: Chegou a tentar a vinda de algum carnavalesco para integrar a comissão de carnaval este ano?

Laíla: Eu conversei com o Renato. Ele me ligou, eu liguei pra ele. O Renato já havia demonstrado interesse em anos anteriores. Disse que um dia voltaríamos a trabalhar juntos e eu disse que sim. Em outras ocasiões também teve uma conversinha de Salgueiro e eu tirei o corpo fora. Nós começamos a conversar e eu falei que ele encaixava bem na minha comissão. Aí ele disse: "comissão não". Ainda falei que ele poderia dar ensinamento aos meus garotos, foi uma conversa franca. Em matéria de design ele é fantástico, mas ele me entristeceu um pouco no prolongar da conversa. Primeiro que o que ele ganha no Salgueiro, a Beija-Flor não vai pagar nunca. Segundo que trazer o modelo do Salgueiro para a Beija-Flor eu não quero. Eu quero uma coisa nova, assim como os garotos, sem ferir o estilo da Beija-Flor, estão conseguindo. Eu não quero o Renato Lage do Salgueiro, quero o Renato para contribuir e dar ensinamento. Ele é bom pra cacete, não é porque é meu amigo não.

Carnavalesco: E o Fábio Ricardo da São Clemente? Tentou trazê-lo para a Beija-Flor?

Laíla: O Fabinho fomos nós que indicamos para a São Clemente. Eu tenho o Renato da São Clemente como um irmão. Acho o Fábio Ricardo de um futuro fantástico. Levei até os garotos aqui da comissão para ver o barracão dele. Se você buscar dentro de todos esses anos de carnaval, a linguagem dele, é a linguagem do Arlindo Rodrigues. Limpeza nas alegorias. Acho que ele terá um grande futuro. O Fran-Sérgio tem um grande futuro, o Victor Santos também, espero que o André Cezari também se destaque. O Bira já tem um outro estilo, mas tem ideias bacanas. Eu não vou viver eternamente. A gente precisa de renovação no carnaval. Hoje são flores, amanhã são espinhos. Estamos aqui de passagem, embora eu queira contribuir efetivamente. Nós temos aqui um grande time. O Fran e o Victor gostaram muito do carnaval da Ilha também. Acho que surgirão bons nomes. A exigência do carnaval vai levar a isso é uma necessidade.

Carnavalesco: Vê alguém na equipe de harmonia da Beija-Flor com capacidade para te substituir?

Laíla: Tem um macaquinho lá que eu não abro mão dele (risos)… Digo macaquinho porque é meu amigo. O nome dele é Valber Frutuoso, é professor de Biologia e, em 1992, quando eu estava na Grande Rio, comecei a observá-lo. Quando fui para a Beija-Flor o convidei e ele está comigo até hoje. Não abro mão dele. Só abro mão se alguém chamá-lo para ele ganhar um dinheirinho, mas para trabalhar de graça não, fico com ele até o final da minha carreira, ele é primo do Almir Frutuoso, diretor de harmonia.

Carnavalesco: É possível unir samba no pé ao espetáculo, conforme você havia prometido após o carnaval?

Laíla: Nós já fizemos isso. É que as pessoas não observaram. Nós queremos mais que isso. Este ano eu observei as pessoas mais soltas, brincando o desfile. Não havia essa coisa de coreografia pra lá e pra cá. Eu tenho certeza absoluta, se nós conseguirmos um grande samba-enredo, que é a mola-mestra, faremos uma grande espetáculo.

Carnavalesco: Como é o Laíla fora do carnaval?

Laíla: (Risos) Sou caseiro, vivo na minha, não gosto de muvucada, sempre fui assim, desde menino. Trato a todos com muito respeito, gosto de receber meus amigos. Quem convive comigo no dia a dia sabe como eu sou. Eu valorizo muito a palavra. Palavra comigo vale até a morte. Eu tenho todos esses anos de carnaval, mas nunca fiz sacanagem e nem roubei ninguém. Durante muito tempo fui faxineiro, carregador de caminhão, trabalhei em feira, era assalariado, mas tinha certeza que um dia ia conseguir alguma coisa no carnaval. Quando eu era mais jovem, a minha família me mandou procurar emprego na Comlurb, mas não era isso que eu queria. Nunca fiz faculdade nenhuma, mas me julgo muito inteligente.

Carnavalesco: E dentro do Carnaval? Tem noção da sua contribuição para a manifestação cultural?

Laíla: Não, sou muito simples. De repente essa minha cara muito séria vem da minha simplicidade. Não me julgo mais que ninguém. Te digo de coração: não me vejo esse super que os amigos dizem. Sou um trabalhador. O carnaval é meu ganha-pão. Tenho que trabalhar para ganhar dinheiro e ter o que comer. Sou uma pessoa de personalidade forte, quando eu acho que não será não, mas eu explico os motivos para tomar uma decisão.

Carnavalesco: Fale como foram os momentos que antecederam a entrada da Beija-Flor na Avenida em 2011. A questão do óleo na pista.

Laíla: Amigo, foi complicado. É muito difícil você entender que um carro pequeno no final do desfile vá derramar tanto óleo quanto derramou. O Anísio me disse que eu tava acusando sem prova e eu disse que não havia acusado, apenas achei estranho. A penúltima escola entupir a Avenida de óleo da forma que entupiu. Pelo Aníso, a escola entrava daquele jeito mesmo. Eu disse que não. Ia ser um desastre. No final das contas eu disse pra ele que entraria, mas a responsabilidade caso alguém caísse não seria minha.

Carnavalesco: Acha que Claudinho e Selminha não deveriam ter sido julgados?

Laíla: Até acho que deveriam ter sido julgados sim. Acho que foi até uma nota excelente mediante as condições da pista. Eles são exuberantes. Nós estamos inserindo a comissão de frente ao casal de mestre-sala e porta-bandeira, já fizemos algo este ano e eu vou insistir nisso. Quando eu tirei o casal da frente da bateria todos falavam que eu queria inventar, que eu era burro, mas hoje todos fazem. Tenho meus motivos técnicos, não fiz por um acaso. Fiz em benefício do carnaval e do desfile das escolas de samba.

Carnavalesco: Concorda com as críticas sofridas pela comissão de frente da Beija-Flor em 2011?

Laíla: Eu acho que exigiram demais do Carlinhos. Se você ver, o estilo das comissões dele na Mangueira já mudou completamente, fico satisfeito com isso. Perdemos um décimo, tem gente que acha que poderia ter perdido mais, mas já tentamos fazer alguma coisa. A ideia do rádio eu achei genial, mas não aconteceu da maneira que imaginávamos. Em matéria de dança e coreografia está todo mundo indo pra esse estilo. Além disso, as pessoas estavam habituadas a ver a Beija-Flor com uma roupa exuberante de comissão de frente, este ano foi mais simples, se Deus quiser vai dar certo no ano que vem.

Carnavalesco: Qual a importância do ensaio técnico na Sapucaí?

Laíla: O ensaio técnico é pra corrigir, não é competição. Já saí de um ensaio técnico que a imprensa elogiou pra burro e eu perdi o carnaval. Eu não vou para ensaio técnico para ser melhor do que ninguém. Eles são de muita valia para você ver onde estão os erros e corrigir.

Carnavalesco: Você acha que o apelido de 'Rolo Compressor' define bem a característica da Beija-Flor?

Laíla: Se eu não tiver uma escola aguerrida, não digo nem com o desejo de ganhar, mas de fazer um grande trabalho na Avenida, uma ótima apresentação, de defender os quesitos de uma escola de samba, eu não fico satisfeito, talvez isso faça, na opinião de vocês, o Rolo Compressor.

Carnavalesco: Tem acompanhado o desfile do Grupo A? O que acha dos últimos resultados?

Laíla: Não tenho visto não. Não tenho tempo… Eu me planto aqui, principalmente na semana do carnaval, tenho que administrar a retirada dos carros e resolver alguns pequenos problemas que aparecem.

Carnavalesco: Se pudesse mudar algo no julgamento atual, o que mudaria?

Laíla: Já falei pro Anísio que há a necessidade de se mudar algo. Ele é muito aberto pra você fazer a defesa que bem entender. É muito fácil o jurado colocar maravilhoso, bonito, fantástico e dar 9,8. E aí? Algumas coisas escritas nas justificativas não condizem. Eu quero sentar com os caras para eles me convencerem. Falo isso que vou te falar agora com a maior propriedade: harmonicamente, melódicamente, ritmicamente, não me enganam, não adianta arrumar subterfúgio porque eu sou mais ou menos entendido no assunto.

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