ENTREVISTÃO com Jack Vasconcelos: ‘O regulamento engessa a sua criação. Deveriam nos deixar criar livremente’

Responsável pelo belo desfile da Paraíso do Tuiuti em 2016, campeão da Série A, o carnavalesco Jack Vasconcelos é o convidado de mais um “ENTREVISTÃO”. No bate-papo, ele conta a relação que criou com a Tuiuti, com a União da Ilha, fala do regulamento do carnaval, o trabalho artístico na folia e como será o desfile de 2017.

– Quando você descobriu que tinha dom para artes e como foi?

Jack Vasconcelos: “Eu desenhava na escola. Tentava imitar os traços do Daniel Azulay, que tinha um programa de TV e eu assistia muito. Comecei rabiscando, e no colégio eles viram que eu tinha aptidão para desenho. Mas nesta fase, nunca passou pela minha cabeça seguir essa área, e minha família não tinha nenhuma interação com o carnaval. Mas eu gostava da área de desenho, e só mais tarde passei a acompanhar carnaval, e fui gostando mais, investi na parte de desenho”.

– E como entrou no mundo carnavalesco?

Jack Vasconcelos: “Certa vez fui a Viradouro e o Joãozinho Trinta que me recebeu. Ele me mostrou os desenhos e foi quando eu vi que eu não desenhava nada. Ali eu pensei que precisava estudar mais desenho. Eu pensava que desenhava alguma coisa e saí de lá me sentindo humilhado. Ele me aconselhou a estudar, porque eu era novo, adolescente e eu quis investir muito nisso. E a área do carnaval me atraiu, eu achei que podia fazer. No mesmo dia que o João me falou aquilo, isso ali pelos anos 90, eu já estava me inscrevendo num curso de desenho artístico. Fiquei no curso por uns quatro anos, e foi um divisor de águas para mim. Eu me interessei por carnaval vendo o produto final dele, que é a parte mais fácil. Mas ele por dentro eu pensava que era uma coisa e era outra completamente diferente. E já não tinha como voltar atrás. Eu já estava apaixonado por esse universo”.

– Em casa, a família incentivou quando você disse que ia trabalhar em barracão de escola de samba?

jack_vasconcelos_1Jack Vasconcelos: “Minha família me apoiou completamente, desde sempre. Claro que havia preocupação, porque quem se envereda pelo lado artístico trabalha numa inconstância a vida toda. Na verdade, hoje em dia, nem ser concursado dá instabilidade; isso ficou lá atrás. O conselho do João foi crucial porque a gente as vezes pensa que está pronto para algo, mas a verdade é que a gente nunca está. Sou eternamente grato a ele. Eu tenho esse hábito de estar sempre estudando. Manter-se bem informado é um estudo. Se você tem hábito de se informar sempre, ler um jornal, é estar estudando. Eu gosto disso. Eu acabei me apaixonando pela área artística quando fui fazer Belas Artes, e acabei me interessando por outras áreas para saber como elas poderiam me ajudar no carnaval. Fiz teatro, fiz TV, então fui pegando as oportunidades que apareceram e isso foi me dando gosto. Meus pais trabalhavam com livros, então eu já era íntimo de sempre querer aprender, me informar sempre mais”.

– Você fez história na Ilha. Colocou a escola no Especial, fez ótimos desfiles e o do ano passado teve problemas da escola. Qual é o balanço do seu trabalho na Ilha?

Jack Vasconcelos: “Eu fiquei na Ilha de 2006 a 2009. 2007 enredo era meu, mas quem tocou o projeto foi o André Marins e eu fiquei na supervisão, e eu só saí de lá depois que a Ilha foi campeã. Eu costumo dizer que a Ilha me forjou, porque foi a escola responsável pela minha formação, pela carreira do Jack. Eu já tinha passado por outras escolas, como o Império da Tijuca, mas a Ilha me fez ser como sou hoje. Sou grato a escola porque senti que entrei criança e saí adulto, pronto para a vida. Me orgulha muito ter feito a Ilha ganhar, porque de campeonato na história da escola só tem eu e mais um, e é a União da Ilha, então o orgulho é maior. Escrevi meu nome numa escola que tem grandes nomes”.

– No Império Serrano, a passagem foi rápida. Por que não deu tão certo quanto todos imaginavam?

jack_vasconcelos_2Jack Vasconcelos: “As pessoas sempre buscam culpados, e o carnavalesco, quando entra no ramo, já sabe que será elogiado e xingado. Ninguém vai lembrar do seu passado positivo na hora de colocar em você uma conta que não é sua, ou não é sua totalmente. A gente estava com um enredo delicado na mão, o “Ser diferente é normal”, que já estava muito mal falado no pré-carnaval, e acho sim que foi um preconceito das pessoas em relação ao tema. E eu olho para trás e vejo que o carnaval, mesmo que tivesse sido feito de outra forma, ainda sofreria isso, porque a forma como o enredo foi recebido e julgado, não mudaria. Acho que as pessoas continuariam sendo injustas com o tema. Mas foi um risco que a escola assumiu, porque quando entre, esse enredo já estava escolhido. Mas tenho orgulho do que fizemos, gosto de rever, e acho que tudo te molda, sejam as coisas boas ou ruins. Faz parte da minha história a passagem por lá”.

– Já no Tuiuti, você parece que está em casa. Como foi a construção dessa relação?

jack_vasconcelos_3Jack Vasconcelos: “Já são 3 anos diretos aqui, mais uma passagem em 2012, e Tuiuti sempre me respeitou, respeitou meu espaço, me deixa criar, respeita meu espaço como criador. As coisas foram se adequando ao longo do tempo, e esse é um lado bom de estar há algum tempo no mesmo lugar, porque as pessoas sempre querem resultado imediato logo no primeiro ano, e não dá tempo para a equipe, em conjunto, estar acertada. Hoje, após mais de um carnaval, os profissionais que tenho foram se acertando, se conhecendo, se ajeitando. Hoje, o trabalho flui melhor e eu agora me sinto em casa aqui. E a escola me deixa trabalhar, e isso é muito importante, porque não há desconfiança. A escola mostra que confia no meu trabalho. Quando estou num lugar que eu planejo algo e ouço: “vou ver se aprovo”, já me desanima. Se eu sou o contratado para fazer o carnaval, quem tem que aprovar sou eu. E aqui eu posso criar. Eu ganho para isso. Eu que sei como é o projeto todo, então se alguém não concorda com um pedacinho, ela pode comprometer o todo, e o todo só está na minha cabeça, porque eu que criei”.

– Como você define seu estilo de fazer carnaval?

Jack Vasconcelos: “Eu tenho uma preocupação muito grande com cor. E esse enredo vai me proporcionar muito isso, e pode ser um perigo, porque trabalhar com cor é muito difícil. Até porque, quanto mais possibilidades você tem na mão, maior a chance de erro. Cor é sentimento. Você leva a pessoa para um lugar quente, frio, mais pacífico, traz um momento de contemplação, de solidão, tudo com cor. Meus setores, minhas passagens de enredo, são uma narrativa. Você em momentos da minha história que vão te mostrar sofrimento, outros dão alegria, e quem dá isso de imediato é a cor. As outras coisas vem depois. Mas o que te impacta de início é a cor. Eu gosto que os meus setores, as fantasias junto com os carros alegóricos, transmitam alguma coisa. Um exemplo é o “Boi Mansinho”. A gente entrou preto porque falava de solidão, de medo, de uma coisa acuada, porque as pessoas tinham uma fé exorbitante no que elas viam. Se eu não transpareço essa ideia do desespero, eu não estou contando essa história direito. Então a gente teve a primeira fase do isolamento, o medo da vida ruim, difícil. Depois, veio o momento seco, com o sol, o esturricado, tudo amarelado, laranja. E o terceiro momento, quando a vida surge, quando chove, tem comida, tem alegria, e a cor aparece e explode. Eu levo o espectador nessa viagem através da cor”.

– Na Série A, o Tuiuti fez grandes enredos culturais. Na volta ao Especial, você não se dobrou por patrocínios e apostou em um enredo seu. O quanto isso é mais fácil para produção cultural e o quanto é mais difícil para viabilizar?

tuiuti1Jack Vasconcelos: “Todo mundo precisa do dinheiro para fazer carnaval, porque é um espetáculo caro. Eu acho irresponsável pré-julgar enredo, se vendeu, se não vendeu, sem ver o trabalho feito. E “cada um sabe onde seu calo aperta”. A Tuiuti tem uma marca de fazer enredos culturais. E tanto Tuiuti quanto Império da Tijuca, todos os anos que eu fiz, foram enredos meus. Mesmo quando a ideia inicial não era minha, como o “viajar é preciso”, na União da Ilha, o desenvolvimento era meu, porque naquele ano a escola precisava vender o turismo para receber uma verba de algum lugar que não me recordo qual, mas que exigia que a escola falasse do turismo. Ou seja, a ideia não era minha, mas não era engessada. Dava para fazer algo cultural, como eu gostava, mas tinha que vender uma ideia no final. Então o patrocínio não me limitou. Ele não disse que queria exatamente A ou B. Quando aparece um patrocínio assim, que te dá carta branca para criar, é legal. O enredo autoral é mais bacana porque te dá carta branca para criar. Você fica mais a vontade. As vezes um enredo patrocinado te vende uma ideia que você acha que não vai dar em nada e, durante o processo de pesquisa, você acha aquele enredo um máximo, sobre algo que você nunca faria se fosse da sua vontade. As vezes é a oportunidade que faltava. Você as vezes gosta de um enredo que no papel é bonito, mas você precisa pensar se dá para contar ela numa avenida, e como ela será contada. Quando a escola define um enredo, eu viro funcionário do enredo, porque ele me obriga a fazer coisas, eu goste ou não, porque a história exige. Tudo dentro de um senso estético meu, mas que o enredo me manda fazer”.

– E por que a Tuiuti optou por esse enredo?

gravacao_tuiuti059_171016Jack Vasconcelos: “Ele surgiu por acaso. Eu li uma notinha, acho que em uma revista, que falava: “ano que vem – no caso, 2017 – o governo da Bahia vai homenagear os 50 anos da Tropicália, e será o tema do carnaval de Salvador”. Achei legal, lembrei do disco que eu tenho, mas sem dá qualquer importância maior para isso. Nem passou pela minha cabeça nada relacionado a carnaval. E a gente aqui já estava trabalhando em cima de outra ideia de enredo, com possível patrocínio, e que acabou não rolando. Em uma conversa com o Thor, presidente, quando o então enredo caiu, eu comentei com os presentes, sem pretensão alguma, sobre isso que li dos Tropicalistas. Dizia: ‘você lembra fulano disso, e daquilo?’ E ficamos conversando sobre, e o Thor disse: ‘isso pode dar um bom enredo’. E eu disse: ‘poder, pode’. Mas eu não estava preparado para ouvir isso dele. Então pedi uns dias para levantar um material e ver se eu me enquadrava ao enredo, porque é uma preocupação também saber se o artista fica bem no tema proposto, porque o Thor já percebeu que isso influencia sim no resultado final. O artista estar a vontade no enredo se reflete sim no resultado final, e o Thor sabe se preocupar com isso. O nosso enredo é um grande manisfesto contra a caretice e contra a ditadura. Ele já nasceu em formato de manifesto. Nossa sinopse, o formato dela é no formato Manifesto Antropofágico, do Oswald de Andrade, então a gente já deixava essas mensagens ali naquele texto. Nós todos somos plurais, multifacetados culturalmente, morfologicamente. A gente não cabe numa crença só, numa música só, numa cor só. Nós somos misturas. E há uma tentativa sistemática de se fechar numa coisa só e não dá certo”.

– Você tem algum enredo que sonha em fazer e não conseguiu? Qual é e por que não fez?

tuiuti2Jack Vasconcelos: “Eu pensei em fazer o Boi Mansinho e pensei que ninguém nunca ia dar bola para a história de um boi do interior do Ceará. E o Thor topou de primeira. Me surpreendeu. Eu não estava preparado para ouvir um sim para essa história. E eu consegui. E eu tenho muita vontade de fazer um enredo sobre morte, mas as pessoas até se benzem quando eu falo isso. Acho que ninguém vai topar, mas quando penso que o Thor topou o boi, já não arrisco dizer que não topariam. Eu gosto desses enredos que, a princípio, parecem estranhos. Eles podem surpreender. As pessoas estão ficando encaretadas em muitas coisas, e chega a ficar chato. Tem tanta coisa legal que a gente pode falar. Eu adoro enredo histórico; faço feliz da vida, porque eu gosto de história, gosto de ler, mas tem tanta coisa do contemporâneo que a gente poderia desenvolver, mas eu sinto uma resistência de que você não pode falar disso ou daquilo, porque pode desagradar. A gene já pensa nas críticas. Mas carnaval não é para zoar, brincar? Isso aqui é uma manifestação cultural. E as vezes o poder público, por dar uma subvenção, pode achar ruim. Mas o dinheiro vem do povo. Mas se até o povo acha que o governo é o dono, fica difícil dialogar”.

– Abrir o domingo de carnaval é uma tarefa ingrata. A Ilha foi a última que abriu e ficou. É duro para um artista ser julgado não só pelo seu trabalho? E como superar esse desafio?

Eu nem penso sobre isso. Minha única preocupação é fazer o melhor carnaval da Tuiuti. Eu não tenho como evitar ou induzir ninguém a nada. A gente se engana as vezes. E os jurados mudam, a cabeça deles mudam, e as vezes a gente apresenta sempre na mesma linha e o cara já cansou daquilo, não gosta. As pessoas mudam, então julgamento é uma incógnita. Eu faço o melhor para o enredo. Penso na melhor maneira de desenvolver um enredo, então eu confio no meu trabalho e na escola. Fiz um trabalho que é o melhor possível para desenvolver esse enredo”.

– Recebeu convites após o belo desfile de 2016 do Tuiuti? O que te fez ficar?

Jack Vasconcelos: “A minha permanência no Tuiuti já estava subentendida. Quem acompanha o cotidiano das escolas consegue perceber quando o ciclo está acabando ou quando ainda está em curso. Era natural eu continuar aqui. Tanto que eu fiz a Ilha com o Paulo ano passado e eu não fui dispensado pela Ilha, nem pedi dispensa da Ilha; a saída aconteceu de forma natural. A Tuiuti subiu e meio que todos entendemos que seria assim: eu vou me dedicar a Tuiuti e a Ilha vai continuar o caminho dela”.

– Se pudesse o que você mudaria no julgamento dos quesitos Alegorias e Adereços e no quesito Fantasias?

tuiuti_ensaiotecnico_2017_44Jack Vasconcelos: “Eu acho chato a gente ter que levar ao pé da letra ter seis ou sete alegorias. Para mim, quem quiser fazer cinco, que faça. Se a gente tem limite de tempo, que possa planejar livremente nosso espetáculo dentro disso. Se eu quiser usar um carro de 70 metros, porque eu não posso subdividir essas informações em vários tripés interligados, integrados com as alas? Quem acompanha o desfile, especialmente das frisas, nem ouve o som quando o carro gigante passa. E se a gente não precisasse fazer cinco gigantes para fazer outras coisas espalhadas pela avenida? A escola que arque com essa decisão. No Acesso tiraram o tripé dizendo que as escolas se enrolavam com o tempo. Se a escola se enrola, o problema é dela. Ou a escola aprende a andar com o tripé ou não faz o tripé, mas deixa ela escolher. Tem que parar com essa desculpa patriarcal de “estou cuidando de você”. E as pessoas reclamam que as escolas estão muito parecidas, mas é por causa disso. O regulamento engessa a sua criação. Eu não sei para onde o carnaval vai, até porque ele já está bem diferente. Esse ano eu pesquisei mais profundamente alguns desfiles antigos porque estou falando do Fernando Pinto no fim do enredo, e fui ver desfiles dele e vi como tudo mudou. E a transmissão televisiva também mexe, mas é necessário porque ajuda a manter a mágica, porque existe toda uma população em território nacional, mundial, que só tem na TV a oportunidade de ter acesso a isso aqui. Não dá para ignorar a importância desse espaço. Sinto apenas que falta diálogo. Eu ou meus colegas carnavalescos nunca foram convidados a opinar cada vez que TV e liga tomam uma decisão sobre alguma coisa. Não teve diálogo nem quando construíram a Cidade do Samba, porque senão a gente teria reclamado da quantidade de pilastra que tem aqui dentro, ou da abertura do quarto andar que é tão pequena que as esculturas nem passam aqui para baixo. Mas a gente se adapta e vai fazendo”.

– Em 2016, você teve problema com a iluminação no abre-alas. O quanto é importante esse trabalho de iluminação e como evitar que não aconteça esse tipo de problema?

Jack Vasconcelos: “A gente tinha trocado, no ano passado, o fornecedor dos geradores. No carnaval anterior era uma empresa, e deu tudo certo, e no ano seguinte a escola mudou, e tivemos problemas com duas alegorias na verdade. Então, este ano, voltamos a trabalhar com o anterior, porque a gente confia e já conhece. A iluminação é importante porque é cor também, e eu trabalho com o Paulinho da Luz há alguns anos e a gente conversa muito. E o especialista é ele. Eu digo o que penso, como o projeto está na minha cabeça, e ele me diz se é viável, se as cores combinam, porque o profissional da iluminação é ele e eu respeito isso. Tem que haver sempre diálogo, com todos os meus profissionais. Uma pessoa que passa horas do seu dia trabalhando só com aquilo é o especialista. Eu não sou louco de não ouvir o que ele tem a me dizer.”

– Qual artista é sua referência? E o motivo?

rp_rosa.jpgJack Vasconcelos: “O João (Joãozinho Trinta) mudou a minha vida com o conselho que ele me deu. Eu nunca tinha visto um carnavalesco, e logo quem foi o primeiro que conheci. Isso no início, quando eu nem estava no carnaval. Mas eu cresci vendo o “embate” da Rosa (Magalhães) com o Renato (Lage), na época Imperatriz com Mocidade. A minha mãe é da Imperatriz, baiana, e a gente desfila lá há anos. É a escola onde comecei a desfilar e tive o primeiro contato com esse mundo e, por isso, o trabalho da Rosa se tornou modelo a seguir. Eu fui fazer Belas Artes por causa dela. Não foi minha professora porque ela havia se aposentado quando entrei, mas fui com essa intenção. Eu tenho minha maneira de criar, de trabalhar, mas me inspirar na Rosa é daquelas coisas que você diz: ‘isso não sai de você’. Eu ainda acho ela a melhor de todas. No ano que a Rosa está muito ruim, ela ainda está melhor do que mais da metade da galera. Eu gosto quando alguém vê uma fantasia dela e fala assim: “nossa, não gostei, não vai funcionar”. Porque ela pensa no todo, então quando junta a galera, acende o carro, vem a ala toda, aí você entende que a visão dela é do todo, do espetáculo, e não da fantasia sozinha. Ela dá um tapa na gente. Ela já vê lá na frente, como se diz, “rindo da sua cara”. Ela é a maior mestra.

– Qual sua maior alegria e maior tristeza no carnaval?

tuiuti_ensaiotecnico_2017_76Jack Vasconcelos: “Uma grande alegria minha foi o meu primeiro campeonato, na Ilha, “Viajar é preciso”. Mas eu tenho muito orgulho de ter trazido o Tuiuti para o Especial, porque eu ainda acho que as pessoas não olham para essa escola como ela merece. E eu, quando entrei aqui, via que tinha gente da própria escola que não enxergava o potencial dela, e me dava uma irritação ver isso, confesso. Eu acho que hoje isso melhorou demais, e ainda tem muito que melhorar. A Tuiuti é grande, muito forte, com componentes dedicados. É uma escola que merece ser olhada com ainda mais respeito. A própria série A é vista com olhar seletivo. As pessoas olham para aquelas com mais tradição midiática e ignoram as outras que estão ali, evoluindo. E com a Tuiuti foi assim. As pessoas ficam centralizadas nessas que tem nome, mas não saem do lugar, e se não veem outras crescendo, se desenvolvendo, e avançando mais rápido. Por isso a nossa escola surpreendeu quando chego no Especial. Essas pessoas que não estavam analisando ela se surpreendem dizendo: “o que essa escola está fazendo aqui”? Estude os carnavais anteriores dela e você vai entender porque ela está aqui. A gente usa aqui o exemplo do carnaval do “Hans Staden”. A escola fez, possivelmente, o seu melhor carnaval, e a escola ficou em quinto. A gente não viu ninguém ir para a internet falar nada. Ninguém foi para porta de lugar nenhum com nariz de palhaço dizendo que jurado rouba, ou que a Lierj é comprada, que a escola foi roubada. Não houve essa comoção. Se fosse alguma outra escola com uma “bandeira mais pesada”, como algumas pessoas gostam de afirmar, tinha tido uma revolução. A gente não teve esse apoio, e a escola ficou quieta. A gente tem plena consciência dos nossos erros, tanto é que consertamos eles no ano seguinte e ganhamos. Mas fizemos um carnaval que nos credenciava ao menos para brigar pelo campeonato. A minha maior decepção no carnaval foi o “Rainha Jinga”, no Império da Tijuca. Foi um desperdício, porque foi um carnaval muito difícil de se colocar na rua. O Império daquela época, é preciso dizer, não é a mesma escola de hoje. Império melhorou muito. A escola naquela época não tinha consciência do seu potencial. Ela ainda se via como pequena, e a gente tinha um projeto que podia mudar o rumo da escola naquele momento. Ela fez isso anos depois, mas poderia ter feito isso naquele ano. Mas no “Rainha Jinga”, mesmo que os rumos ainda não tenham sido mudados ali, a escola tomou consciência de que precisaria fazer isso, mesmo que só tenha feito anos depois. Foi um desfile muito prejudicado internamente. O que as pessoas viram não era o projeto que deveria ter ido para a pista. Tanto é que depois que saí tudo mudou. A escola investiu mais na comissão de frente, tinha ateliê para fazer suas roupas, outra para fazer as roupas do casal de mestre-sala e porta-bandeira, o que na minha época se fazia no próprio barracão. Mas frustra que foi preciso jogar fora um enredo lindo para ela aprender. Para mim foi um desperdício porque perdi um grande tema. Eu até posso refazer ele, mas alie era o primeiro”.

– O que o Jack pensa no tal carnaval de “fácil leitura”, mas menos rico em materiais ou sem plumas e patês?

Jack Vasconcelos: “Isso depende do que você conta. Não precisa estar sem pluma ou sem brilho para que as pessoas entendam o enredo. Ruim é quando se usa isso como cortina de fumaça. As vezes a fantasia não é nada, não tem nenhuma informação que explique o que ela é, e você enche ela de plumas, de espelinho, de brilho, e as pessoas estão achando bonito. Mas o jurado não pode dar dez, e isso que me chateia. Porque o olhar dele não pode ser de “pessoa comum”. Ele precisa analisar dentro de um contexto específico: o enredo. Aquilo é pertinente ao enredo? Ajuda a contar a história? O julgamento dele tem que ser analítico e diferenciado. A escola precisa contar uma história e passar uma mensagem”.

– E qual é essa mensagem que a Tuiuti quer deixar esse ano?

Jack Vasconcelos: “A escola quer mostrar sua força, porque ela tem e já se convenceu disso. A escola não chegou aqui atoa. É uma escola que não tem nem patrono. Se ela não chegou aqui por competência, eu não sei o que é. A grande mensagem que a gente vai deixar ao final é que, quando se tem foco, você consegue. Você tem um propósito, tem foco, então você consegue. A gente trabalha aqui no barracão com muita gente da comunidade, eu ouvi uma menina lendo o nome da escola, que fica no alto, na entrada, e falando assim: “eu nunca pensei que nunca veria isso na minha vida”. Isso é incrível. As coisas são possíveis. No enredo, a escola quer contar a nossa vocação para o pluralismo. É um enredo que pega a obra dos tropicalistas como exemplo para dizer que nós somos um povo miscigenado, misturado, e é algo bem atual, até demais. É apavorante pensar que isso é algo que ainda precisa ser falado”.