Entrevistão com Jorge Castanheira: ‘A cabine dupla de jurados é experimental. O bom do desfile é o desafio’

Ele parece ser mais de uma pessoa. Passam por sua mesa as decisões mais importantes do carnaval. Deliberar sobre os jurados, administrar o ego de 12 dirigentes das maiores escolas de samba do carnaval, negociar contratos milionários, presidir uma entidade que transformou o desfile de escolas de samba no maior espetáculo da terra. Jorge Luiz Castanheira parece não dormir e nessa época do ano quase não o faz mesmo. Ele recebeu a reportagem do CARNAVALESCO para uma entrevista franca e sem rodeios. Confira o bate-papo com o presidente da Liesa na série Entrevistão.

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Qual é o impacto da crise econômica na estrutura do carnaval?

Jorge Castanheira: “De uma maneira geral impacta inicialmente a preparação do espetáculo, organização do desfile e as escolas. Sem a viabilização de patrocínios, a situação é difícil. No ponto de vista da venda de ingressos, estamos há cinco anos sem aumentar. Isso tem um impacto brutal no orçamento, pois o poder de compra das escolas fica prejudicado. É um fato de perda. As mercadorias vão acompanhando a inflação, mas nós não corrigimos. As agremiações estão buscando fora do Rio produtos mais baratos, em busca de viabilizar novas ideias”.

Muitos carnavais pelo país estão sendo cancelados. Alguns governos defendem o fim da ajuda financeira pública. O que aconteceria com o carnaval do Rio?

Jorge Castanheira: “Acho que o prejuízo para o espetáculo seria enorme. Posso falar que um terço da verba vem do município. Se houver esse declínio certamente vai impactar na qualidade do espetáculo. Um esvaziamento do desfile impactaria naturalmente no turismo. Se você reduz investimento automaticamente você perde arrecadação. O nível de investimento perto do potencial de arrecadação não é exagerado, hoje ele está aquém do necessitado. As escolas recebem uma subvenção, contando prefeitura, TV, ingressos, de aproximadamente R$ 6 milhões, mas um carnaval competitivo no Grupo Especial não sai por menos de oito”.

O prefeito irá na Lavagem do Sambódromo? Ele já informou que não estará na Avenida?

Jorge Castanheira: “O fato de ele não estar no carnaval é um direito dele, caso não queira ou não possa. Temos de compreender, não há nenhum problema nisso. É uma decisão muito particular. Em relação à lavagem não sei se caberia em sua agenda. O mais importante é o apoio da Riotur, a consciência da força do carnaval para o Turismo. Respeitamos a religião do prefeito e saberemos conversar com ele na hora certa”.

Como o carnaval pode atrair empresas para expor a marca nos ensaios técnicos e desfiles e assim ter uma nova fonte de renda?

Jorge Castanheira: “Nos ensaios técnicos e desfiles percebemos uma diminuição de patrocínio em função da crise. Não é uma coisa setorizada. Nos próximos anos vamos programar um trabalho conjunto de captação com a Riotur. Tem sido penoso para a Liga realizar esses ensaios totalmente gratuitos, embora seja gratificante constatar que o público tem sido bom”.

Não é um caminho longo ficar sem jurado do setor 6 ao 10 e do 10 até a faixa final?

Jorge Castanheira: “É mais ou menos a mesma distância do setor 3 ao 6. Só o recuo de bateria que deixa esse espaço um pouco maior. Vamos fazer um laboratório esse ano, uma situação em caráter experimental. Se não der certo voltamos ao modelo antigo para o próximo ano”.

Um buraco na entrada e saída do segundo recuo deve ser visto pelo quarto módulo?

Jorge Castanheira: “Depende. Se for um problema pequeno acho que o julgador vai levar em consideração que é uma coisa natural. Se for algo longo é para punir. Essa é a orientação que demos no curso”.

Existe uma confiança grande das escolas em você. Mas deve ser bem cansativo. Qual é o limite do Jorge Castanheira?

Jorge Castanheira: “Outro dia nasceu um sobrinho neto meu e ainda não o conheci. Só converso pelo telefone com meus familiares, ainda mais nessa época. Não consigo estar com eles. O único dia que estive com a família foi na noite de Natal. Você faz uma série de renúncias, mas as pessoas compreendem. Temos uma equipe pequena, pois não estamos estrutura financeira para aumentar o quadro de funcionários. O Elmo, Edson Marcos e demais diretores também vivem essa situação. É uma condição de abnegação em prol do carnaval. As escolas se esmeram no espetáculo e nós nos dedicamos ao carnaval, na gestão série e correta”.

Nessa ideia de dinamizar os desfiles a TV Globo começará a transmissão a partir de que ponto da Avenida?

Jorge Castanheira: “Ela vai transmitir a partir do módulo duplo”.

Muita gente critica à pouca atuação da Liesa nas redes sociais. Pensa em mexer mais com isso, inclusive, transmitindo eventos como faz a Liga SP?

Jorge Castanheira: “Eu até penso, mas os veículos já fazem essa cobertura. A Liga não tem porque concorrer com os veículos especializados”.

Como você pensa que será o julgamento nas cabines duplas. Acredita em distorção de notas? E se tiver como justificar para escolas?

Jorge Castanheira: “Vai ser polêmico sim. Mas foi um pedido das próprias escolas. Poderíamos fazer ou no setor 6 ou no 8. Mas se fosse no 8 ficaria muito distante do primeiro módulo. Escolhemos ali e agora vamos analisar o desempenho. Se eu quisesse uma nota igual eu colocaria só um julgador e não seis. Tem quesitos que não devem variar ali. Agora o que for subjetivo vai variar sim. O bom do desfile é o desafio, esse é mais um para o sambista”.

Falando da imprensa. Vivemos um momento que a Internet é fundamental para o carnaval. Como a Liga pode estimular isso? É a crise das rádios assusta não ter transmissão?

Jorge Castanheira: “Essa questão das rádios assusta muito. Primeiro pelo serviço que o veículo sempre prestou ao cidadão. A aproximação com o ouvinte em relação a vários temas e o carnaval está inserido nesse contexto. É um instrumento fundamental para a comunicação. Com relação aos sites especializados, eu vejo que é um conjunto de esforços. A geração de conteúdo deve ser interligada. A velocidade da informação na era da internet é galopante. Não posso esperar para ter a informação, todo mundo busca a internet, de maneira permanente. O volume de conteúdo é muito grande. As empresas estão caminhando para esse conjunto de esforços, não dá para dividir por área. Os sites devem ter um volume de acesso grande. As empresas parceiras do carnaval são fundamentais estarem próximas dos veículos especializados de internet”.