ENTREVISTÃO: mestre Ciça comanda o Bonde do Caveira e abre o coração sobre sua vida no carnaval

O convidado da semana para a série “Entrevistão” do site CARNAVALESCO é o popular mestre Ciça. Atualmente, na União da Ilha do Governador, o mestre conversou com nossa equipe sobre os mais diversos assuntos durante todos esses anos no comando de importantes baterias do carnaval carioca.

O que o carnaval representa na vida do Ciça?

Ciça: “Posso falar que representa tudo. Eu não me vejo fora da Sapucaí, apesar da idade. Enquanto tiver saúde estarei lá. Isso pra mim é fascinante. Sou um apaixonado pelo carnaval, vai ser difícil quando eu parar, é até complicado falar. Por enquanto, eu ainda tenho alguns anos que sei que posso contribuir por um bom tempo. Vai depender muito da saúde. As vezes cansamos um pouquinho também e desanimamos. Mas quando vai se aproximando que antecede o carnaval parece que toma uma vitamina e estamos prontos novamente. Sinceramente, não sei como viver fora”.

Se não fosse “mestre Ciça”, o que seria?

cica_capaCiça: “Fui mecânico de automóvel por muitos anos, trabalhei em várias concessionárias e tive uma oficina. Seria um mecânico de automóvel. Desde 1991 trabalho só com carnaval, foi quando vi que não dava pra conciliar as coisas. Era da Estácio e ainda tentei trabalhar nos dois lugares, sempre deixava minha profissão em falta com meus patrões, eles até entendiam. Quando chegava mais perto do carnaval eu ficava até um mês sem ir pra cuidar da bateria. Em 1988 quando comecei como mestre eu ainda trabalhava como mecânico. Em 1990 já vi que não dava. Era show, organizar bateria. Foi um período de organização das baterias, com outra filosofia, os próprios presidentes de escola de samba se envolviam mais. A bateria naquela época era meio complicada, achavam que tudo de ruim estava dentro dela. Tinha muito envolvimento de muitas pessoas que todos sabem quem são. Foi o momento de transição e eu peguei isso. Tive um aprendizado com grandes mestres da época e tive que largar a profissão focando só no carnaval”.

Como foi a infância e adolescência do Ciça?

Ciça: “Sempre gostei de brincar, tive uma infância maravilhosa. Vejo hoje essa criançada que tem aí que não tem como brincar como nós fazíamos na época. Hoje não se vê ninguém jogar bola de gude, rodar um peão, é tudo na tecnologia, celular, tablet. Sinto saudade pra caramba daquelas coisas. Sou muito chato com isso. Falam que o Ciça é antigo e realmente sou. Assisto filmes antigos, acredite se quiser. Tenho vários CDs de filme, procuro aqueles da década de 40 e 50. Não que o modernismo não seja bom, mas a coisa se modernizou de uma tal maneira que as crianças parecem que não vivem hoje. Na minha infância fiz tudo que podia fazer, vi tudo que podia ver. Meus pais sempre me ensinaram isso, me incentivaram. Eu brincava carnaval já naquela época. Meu irmão é um dos maiores percussionistas do carnaval e no samba, grava com diversos músicos. Vem de família, meu pai era um apaixonado até mais que eu. Ia de bicicleta pra Sapucaí pra ir me assistir como passista. Fui passista por muito tempo, vim de uma infância no carnaval, tanto bloco quanto escola de samba, tenho maior saudade daquilo”.

Sempre afirmou que nunca vai pra avenida para fazer o feijão com arroz. Acha que essa é a maior motivação?

cica2Ciça: “É a minha motivação. Todas as baterias são boas hoje. O nível técnico não só da bateria, mas dos mestres é muito alto. Alguns estudam música e partitura, a rapaziada nova sabe muito. Naquela época que comecei eu não me liguei muito e não estudei, mas conheço de bateria. Sempre tenho que ir pra avenida fazer algo diferente, tenho ideias para o ano que vem, o próximo e por aí vai. O que as vezes me incomoda é que nem toda escola tem coragem de levar para o desfile. Mas eu gosto os desafios, isso me motiva. Fazer algo novo na avenida me fascina. Lógico que tem de haver a preocupação com ritmo, pois é onde sou julgado. Mas gosto da participação, de interagir com povão, sempre preocupado com ritmo. Se juntar as duas coisas e der certo acho que fica legal”.

O que você sente falta nas baterias atuais? E no carnaval?

Ciça: “O carnaval mudou muito, o samba em si mudou. Cada vez mais as coisas estão mais enxutas, tem que se perguntar o que pode fazer. A mudança foi essa, tínhamos mais liberdade no passado. Hoje somos mais vigiados. A internet colaborou muito com isso, todo mundo pega um celular e filma. As coisas antes eram muito mais guardadas, dava pra manter o segredo até o dia do desfile, hoje é impossível. As vezes estou na quadra fazendo algo novo mas sempre tem um que vai e filma. Isso é normal, mas gostava mais como antigamente. Já as baterias, como falei, evoluíram muito. Na década de 80 quem desfilava na Estácio, desfilava na Estácio. Quem desfilava no Salgueiro, desfilava no Salgueiro. E assim era em todas escolas. Hoje uma turma sai aqui comigo, outra sai com uma turma em outra escola. E assim vai. Hoje todo mundo desfile em tudo que é lugar. Naquela época as pessoas tinham mais amor aquela escola, não saia em outra escola”.

É possível ser amigo de outros mestres? Ou antigamente a amizade era mais forte?

Ciça: “Nós temos amizade, continuo falando com todos os mestres. Tem até um grupo no whatsapp. Uma vez dei uma declaração que achava os mestres eram mais unidos, mas de uns três anos pra cá mudou. Hoje nos falamos mais, somos mais unidos. Costumo dizer que a Olimpíada contribuiu muito pra isso. Pois juntou todo mundo, voltou essa amizade. Uniu tanto mestres quanto ritmistas, porque depois dos ensaios todo mundo tomava cerveja junto. A gente comentava entre os mestres que os Jogos Olímpicos serviram muito pra unir a rapaziada”.

Você lidou com o presidente Acyr, na Estácio, e Monassa na Viradouro. Como foi a convivência com os dois? E com outros presidentes?

cica3Ciça: “O Acyr era um cara que conhecia muito carnaval, sempre falei isso com ele. Se ele tivesse a grana que muita gente tem aí a Estácio seria sempre campeã ou vice. Naquela época não tinha essa estrutura toda como Cidade do Samba. O Monassa era um baita administrador, além da situação financeira que ele tinha. Ele era um cara muito correto, como outros presidentes também são. Mas havia algumas diferenças. Ele era mais centralizador, vigiava mais, o Acyr me deixava um pouco solto. Trabalhei um ano com o Fernando Horta, ele é um baita administrador e presidente. O Ney é um excelente administrador, uma escola que não tem patrono e ele mantém a Ilha nesse patamar que estamos hoje não é fácil. Aprendo um pouquinho com cada presidente, fora os que conheço e tenho amizade. Cada um tem sua qualidade e seu conhecimento. São cartolas que estão no samba há muitos anos”.

Qual foi seu melhor trabalho?

Ciça: “Fiz um trabalho na Estácio, onde iniciei, que foi bem legal. Na Viradouro foi meu grande momento. Dez anos lá. No meu primeiro ano lá me deu vontade de ir embora. Pensava a todo instante o que tinha ido fazer lá. Como fiquei anos na Estácio passar pra outra comunidade é muito difícil, outro ambiente. O trabalho lá foi muito bem feito. Quando passei pra Grande Rio, acho que o primeiro ano foi muito bom. Confesso que fiquei devendo uma coisa melhor no segundo ano, não sei o que houve. Achava que poderia ter passado melhor. Aqui na Ilha nós iniciamos um grande trabalho pensando no futuro. Acho que a escola está amadurecida em termos de bateria, com ritmistas para 10 ou 15 anos. Isso é bacana demais. Existe uma escolinha na quadra que dou um apoio. É importantíssimo porque tem uma garotada que vai se manter pro futuro, escreve o que eu to falando, com todo esse resgate. Mas com toda sinceridade, o grande trabalho, reconhecido, foi na Viradouro. É importante eu falar que nos 10 anos na escola, foram com os mesmos marcadores. Eu não trocava, só se alguém não tivesse condições. Mas minhas primeiras, segundas e terceiras, de olhos fechados eles já sabiam o que eu queria. A confiança era enorme. Podia trocar uma caixa, um repique, um tamborim, mas a marcação sempre se manteve nesses 10 anos. Fazer esse trabalho de longo tempo garante uma rapaziada boa. Vamos fazendo uma seleção e o rumo é progredir”.

Algum trabalho foi decepcionante?

cica4Ciça: “Na Grande Rio, no meu primeiro ano foi excelente. Posso dizer que foi espetacular. No ano da superação, eu me senti um pouco decepcionado, mas não comigo mesmo. E sim das notas que eu recebi dos jurados. Sempre me cobraram para cadenciar a bateria e eu fiz um trabalho, enxuguei bastante o número de ritmistas, e a bateria passou muito bem na avenida, tenho consciência disso, mas a nota não foi boa e isso me decepcionou um pouco. No ano seguinte as notas também já não foram boas. Não vou culpar a, b e c e nem jurado. Pra mim estava bom, mas as pessoas não entenderam assim”.

No período da Luma de Oliveira na Viradouro foi o seu auge de relação de amizade com rainha?

Ciça: “Somos amigos até hoje. Quando ela não quis ser mais rainha e veio a Juliana Paes também teve uma integração muito boa. Sou um cara que sempre tive sorte com rainhas. Juliana Paes, Camila Pitanga, Cris Vianna, Cristiane Torloni, Paloma de Oliveira, Carla Prata, Bruna Bruno, Bianca, Tânia, Monique Evans. Costumo dizer o seguinte. Rainha não basta ser famosa, falava pra todas elas. Ela tem que ter participação, tem que se entregar para bateria. Tem que participação e comprometimento, não basta ficar sambando feito uma louca. Eu ensaiava com a Luma de madrugada, com todas sempre aconteceu isso. Ela faz parte do conjunto, tem que saber até o sinal da bossa para entender o que vou fazer. A Luma era muito profissional, a Juliana também. Tinham a preocupação e me perguntavam qual o sinal, se envolviam com as nuances e etc. Apesar de rainha não dar ponto, se a escola põe uma pessoa representando o coração, eu acho que tem que ter essa ligação com bateria. Cansei de falar para as rainhas que fecharia a quadra de madrugada para fazer certos ensaios e elas iam. Quando não podiam, pediam para filmar. Como eu disse, não carregam ponto mas ajudam a abrilhantar o desfile, e o povo quer isso. Se não tiver rainha lá o povo reclama, pode ter certeza disso”.

cica6É verdade que seu instrumento favorito é a caixa?

Ciça: “Eu comecei tocando agogô de duas bocas na Unidos de São Carlos, depois fui pra tocar segunda, depois toquei tarol e aí gostei da caixa. É um instrumento que sempre dominei bem, toco todos, mas a caixa colaborei com muitos ritmistas que aprenderam a tocar”.

O que representa a Estácio de Sá na sua vida?

Ciça: “É a minha escola de coração, onde aprendi tudo. Não nego isso. Fui passista na São Carlos, já fui pra arquibancada na época de garoto para torcer. Na década de 60 fui pra desfilar na bateria e consegui uma vaga. Para você pra tocar na São Carlos tinha que primeiro aprender o agogô de duas bocas, isso era uma filosofia da escola. Os caras lá eram feras e me ensinaram muito. Ao longo dos anos isso se perdeu. As coisas foram mudando e dominei a caixa. Não era diretor de bateria, nem mestre em 87, mas me deram uma posição de ser o responsável pelo naipe de caixas. O mestre falou que eu deveria escolher 70 caixas. Meu trabalho era esse por dois anos. Até que me colocaram como diretor e mestre, não queria aceitar, mas acabei aceitando”.

Qual sua opinião sobre o andamento da bateria Medalha de Ouro?

Ciça: “Isso é uma tradição da bateria e eu acho que tem que respeitar. As pessoas comentam as vezes, mas não sabem do histórico. A bateria da Estácio sempre foi assim e nota 10. Eu colaborei com isso também. Correr é uma coisa, tocar pra frente com suingue é outra. A Estácio toca pra frente suingando, é uma característica e acho que precisam respeitar a de cada escola. As pessoas não devem fazer comentários que tal bateria corre, porque cada uma tem sua tradição. Elas sabem o que fazem. A escola está lá, e todos aprenderam a tocar lá. O andamento já vem de 20 anos e não adianta querer mudar agora”.

O que você pensa sobre o metrônomo?

Ciça: “Não gosto muito. Ou você vai pelo metrônomo ou você vai pela bateria. As vezes alguns colaboram, mas eu não sou muito favorável, trabalho mais no ouvido e na intuição. Se você ficar ligado no metrônomo não sabe se cuida da bateria ou se presta atenção nele. Agora todo mundo tem um metrônomo no celular, bota o aplicativo e ficam enchendo falando toda hora. Tem vez que eu tenho que pedir para pararem, cada um é diferente um do outro. É importante eu falar para o CARNAVALESCO, que cada que tem um metrônomo, se eu pegar cinco pessoas aqui, lanço esse desafio. Cada metrônomo vai estar diferente um do outro. Porque o cara pra usar tem que ter conhecimento de divisão de bateria e as vezes tem os caras que não possuem. Na realidade, a gente não sabe o que está certo é meio complicado, por isso eu não esquento a cabeça com isso. Tem vez que gente até da frisa no ensaio técnico está apontando para o celular e enche o saco. Eu não me ligo muito, prefiro botar uma pessoa minha de confiança que conheça o que é bateria com o metrônomo. Esse vai me dar a orientação certa”.

Como é sua relação com os carnavalescos na hora de escolher a fantasia?

cica5Ciça: “Já tive problemas com carnavalescos, briguei muitas vezes. O carnavalesco sempre pensa na parte artística, falam que nós queremos tirar a “criação” dele. Eu já tive problema com o Joãosinho na Viradouro, ele tinha feito uma roupa pra bateria, aí o Monassa mandou um empregado dele vestir a roupa, e perguntou o que eu achava. Respondi que tinha que tirar isso, aquilo, aquilo e mais aquilo. Tinha capa, e muita coisa. O Joãosinho 30 não gostou muito e falou ele tinha criado e eu queria tirar tudo. O Monassa foi ao meu favor e falou que o mestre era eu e minha opinião prevaleceu. Achei muito bacana essa atitude. Hoje está muito diferente, os carnavalescos estão ouvindo mais os mestres de bateria, se você reparar nas roupas são muito mais leves, há uma preocupação para o ritmo sair melhor dentro da bateria e sobrepor. Porque com certo tipo de roupa o ritmo fica abafado, e percebo hoje que os mestres estão brigando mais e os carnavalescos estão atendendo. Antigamente, a gente brigava muito, hoje não. Eles sentam com a gente, desenham dois ou três roupas e perguntam o que achamos. Me parece que todas as escolas estão com esse propósito”.

A sua maior ousadia como mestre foi ter colocado a bateria em cima do carro alegórico. Valeu a pena?

Ciça: “Valeu pelo espetáculo, mas se você me perguntar se eu tenho vontade de fazer de novo, eu não faria. Eu fiquei no patamar do carro, na mesma altura do jurado. O que ele ouvia, eu ouvia também. E o som tava meio esquisito. O tamborim que é muito agudo entra de uma maneira no seu ouvido e a coisa complica. De cima do carro eu falava com meu diretor pra segurar, porque a coisa tava vindo com tudo no ouvido. Foi um risco total, não faria de novo. Foi bacana, marcou, não fomos campeões do carnaval, mas as pessoas esquecem isso. Foi bacana para abrilhantar o espetáculo, a Viradouro veio para buscar título aquele ano. Mas não faria de novo”.

O que você gostaria de fazer no carnaval que ainda não fez por falta de apoio necessário?

Ciça: “Tenho muitas ideias, não posso falar porque são segredo. Depende muito do enredo, eu gosto muito dessa brincadeira com responsabilidade. Eu acho que quando a pessoa faz algo diferente o público gosta. Quando a Mangueira colocou duas baterias na avenida achei espetacular, muito bonito. Eu gosto quando as pessoas arriscam. Como falei, as baterias são todas boas, quando alguém faz coisas diferentes acho muito legal. Se eu tiver o apoio vou fazer sempre. Tenho uma equipe que trabalha comigo há bastante tempo. Ninguém faz cara feia, todos compram a ideia. Um inventa e me passa, outro também, não sou só eu, trabalhamos em conjunto. Tanto diretores como ritmistas, ninguém é forte sozinho. O sucesso é da bateria”.

O que você mudaria no julgamento das baterias?

Ciça: “Hoje o mestre da bateria não tem contato com jurado. Antigamente, o jurado visitava as baterias, a gente falava nossa característica, como a bateria toca, toque das caixas, dos repiques, hoje não tem mais. Vão para avenida e julgam. Acho que podiam se aprofundar mais. Eu mesmo quando encontro algum por aí chamo para ir assistir aos ensaios, sentir como está a bateria e ver como é. Agora colocar um jurado na pista no dia de carnaval é complicado, ritmistas iam ficar nervosos e outras coisas, não daria certo. O julgamento é deles, às vezes fazem algumas coisas que nos chateiam, prefiro deixar do jeito que está. Se estão lá em cima e veem algum defeito é com eles”.

Muita gente duvidava do seu sucesso na Ilha. Porque é uma bateria que tinha conflitos internos e alguns outros problemas. Como você fez para conquistar em tão pouco tempo os ritmistas?

Ciça: “O primeiro ano foi uma luta. Algumas pessoas falaram que a mudança das caixas foi porque trouxe ritmistas de fora e isso não é verdade. Eu mudei porque coloquei caixa 14 polegadas, resgatei o que é a Ilha. Conversei com os ritmistas antigos e os mais novos também. Agora, quando cheguei a bateria estava muito dividida e eles sabem disso. Não é que eles entravam na porrada, mas havia divisão. Os próprios ritmistas falavam comigo que tinha o grupo do Odilon, o grupo do Riquinho e etc. Eu consegui unir 90% do pessoal. Falei que a bateria não era minha, não sou dono de ninguém. Convido eles pra desfilar até hoje, Paulão desfila comigo, Riquinho já esteve também, já chamei Odilon. Existe uma amizade. A Ilha precisava de alguém e eu conseguir unir a rapaziada. Conseguimos unir um grupo de trabalho lá que não foi fácil, as pessoas não acreditavam nesse resgate e nós mostramos que deu certo na avenida. A bateria passou muito bem no primeiro ano para um trabalho de 7 meses. Mudança de instrumento, uma série de coisas. Amigos que tocavam caixa em cima e tiveram que se adaptar tocando embaixo. Tem uma garotada nova chegando também, que não tem essa “bandeira” de mestre de bateria. Costumo dizer o seguinte: ‘a gente passa pela escola, mas a bateria está sempre lá, não é minha, não é do Paulão, não é do Odilon, não é do Riquinho. É da União da Ilha do Governador’. Isso que o ritmista tem que entender, se amanhã ou depois eu não estiver na Ilha, ele pode até me seguir, mas não deixa de tocar na sua escola. Quando eu saí da Viradouro e fui pra Grande Rio, no meu primeiro dia lá, tinha mais gente da Viradouro do que de lá. Chamei todos no canto e falei: ‘adoro vocês, sei que um outro vai desfilar aqui, é um lugar longe e eu peço um favor, não desfila aqui não. Porque a Grande Rio tem o povo dela, e vocês estão vindo pra cá porque gostam de mim, e não podem abandonar a Viradouro’. Eles tinham abandonado a escola, acontece muito disso por terem afeição aos mestres. Até hoje falo isso por meus ritmistas, não importa o mestre que vai passar por lá”.

Como surgiu o bonde do caveira? Você gosta dessas brincadeiras?

Ciça: “Eu ficava meio bolado quando me chamavam de caveira. Já fui até preso, porque um cara me chamou de caveirinha na Avenida Brasil. Eu vinha do mercado São Sebastião, aí vi um carro atrás de mim. Pra pista que eu ia, o cara me seguia. Quando chegaram mais perto colocaram a sirene pra fora e pediram pra eu parar. Chegaram perto e falaram: ‘chega pra cá caveirinha, é você que estamos procurando’. Perguntei que caveira? Desenrola daqui, pega telefone de lá, até que normalizou. Sempre fiquei muito bolado com isso. O próprio Fernando Horta me chamava, Eurico Miranda também. Na Ilha, meu diretor Marcelo falou que iam criar o Bonde do Caveira em minha homenagem. Quando vim pra Ilha já falaram que eu ia ficar puto com esse apelido, mas foi uma coisa que dominou a bateria. Fizeram camisa, máscara, boné, é tudo caveira agora. Como eu não coloquei o nome da bateria porque já tem, existe o bonde. No começo fiquei meio assim, mas deixa do jeito que está, não vai fazer mal a ninguém. Não tenho mais o que esquentar a cabeça”.