ENTREVISTÃO: Wagner Araújo, o criador do desfile técnico da Imperatriz Leopoldinense

O convidado da série “ENTREVISTÃO” é o diretor de carnaval da Imperatriz Leopoldinense, Wagner Araújo, responsável pela criação do desfile técnico, que deu muitos títulos para agremiação da zona da Leopoldina.

Você está hoje na Imperatriz, onde já passou, inclusive, pela presidência. Tem uma carreira bastante sólida. Como chegou até aqui?

wagner1“Eu estou com 66 anos, sou economista, trabalhei no mercado financeiro, operando sempre no risco, fui goleiro de futebol de salão, e parei após o nascimento do meu primeiro filho. Em 83, eu parei de trabalhar, o mercado financeiro não estava interessante mais, e passei a frequentar a Vila Isabel em 84, onde minha mãe tinha uma ala. Nessa época, assumiu a escola o Capitão Guimarães. Conheci ele e a diretoria dele, e após umas quatro semanas frequentando, fui convidado a ajudar mais de perto a escola. Foi assim meu começo no carnaval. No carnaval de 88, Capitão larga a Vila para assumir a Liga. Tínhamos feito um belo desfile em 87 – “Raízes” -, e fui com Max no ano seguinte para a Ilha fazer “Aquarilha do Brasil”. E o resultado do carnaval de 88 na Imperatriz tinha sido muito ruim. E eu tenho um defeito, ou qualidade, talvez, de que quando estou em um lugar, uma escola, me interesso por ela e não me atenho a nada que acontece em nenhuma outra. Eu quero apenas caprichar na escola onde eu estou. E fui para Imperatriz num momento muito ruim, onde ela iria ser rebaixada com a Cabuçu, e achamos uma brecha no regulamento e a escola ficou no Especial, e ganhamos o carnaval seguinte com “Liberdade, Liberdade”. E eu apanhei muito a época porque criei um sistema de desfile que é o que hoje todas as escolas fazem, mas que na época foi chamado de “desfile militar”, com alas e tudo mais. E era um período sem internet, que a mídia abraçava mesmo as escolas, torcia, e discutia-se muito carnaval na TV, na rádio, e eu apanhei demais de todos, porque falavam que era uma estrutura militar, e não era; era apenas organização, sem perder a espontaneidade e a alegria. Tanto é que a escola ganhou e, no ano seguinte, foi a terceira colocada. Depois veio um bi campeonato em 94 e 95, um tri, e hoje todo mundo faz esse mesmo tipo de desfile”.

E o que falta conquistar?

“Eu gostaria de vencer dois carnavais: um não tem mais chance, que é o de 96, porque em meus 29 anos de Imperatriz, foi o desfile mais perfeito que uma escola de samba possa ter feito, e perdemos o título para a Mocidade. E o segundo que quero conquistar é o desse ano, ainda mais com toda a discussão em cima dele, eu gostaria muito de ganhar esse carnaval. A gente está trabalhando muito para fazer um grande desfile”.

Você sempre foi muito cobiçado por muitas escolas e não saiu da Imperatriz. É lealdade ou amor?

“É um pouco de tudo, inclusive, de egoísmo. Eu não acho que seja difícil você trabalhar em um lugar onde todos têm o mesmo objetivo. O que muda é o tratamento. E vejo que, no carnaval, há um surto de vaidades, e eu, aqui, sinto uma situação tranquila”.

Muita gente confunde isso e diz que você se acomodou. Existe isso? Ou você ainda sente muita vontade de pisar na Avenida e mostrar que é um dos melhores do ramo?

“Esse tipo de crítica é feita quando as pessoas não querem ver os resultados e as mudanças que a escola passou. Quando a mudança dá errado, a escola muda novamente e vai procurar outro. Quando dá certo, a escola mantém. A escola também acredita, até hoje, no meu trabalho. E tem resultados que não dependem de nós, e que são discutíveis. A emoção de pisar na avenida ainda é a mesma, assim como a postura: de frieza total, até para você poder resolver os problemas. Não dá para ter paixão, porque ela atrapalha o ser humano em qualquer segmento da vida: relacionamentos, criação de filhos, emprego. Ma minha posição na escola, não dá para ter emoção. E, na verdade, quem chega já ouviu falar de mim: que sou antipático, grosso, mal educado, mas nunca ouviu falar que sou incompetente e não sei o que estou fazendo. A pessoa nova chega e eu preciso mostrar que estou até hoje aqui pela minha competência”.

Vamos falar de desfiles. Em 2014, a Imperatriz estava com o título na mão. Dizem que o problema na alegoria foi sabotagem. Qual é sua análise?

“Nada disso. Todos diziam que a Imperatriz disputaria o título. Não digo que ganharíamos, mas todos falavam que estaríamos ali na frente, na disputa do título. Mas não aconteceu isso porque um carro morreu na boca da avenida, porque o motorista atropelou um componente da Velha Guarda da Portela, um erro do motorista. E ele se apavorou e o carro morreu. E esse chassis, como a maioria desse tipo, são de ônibus antigos, e só funcionam quando o motor de arranque esfria, e estava quente, e era o último carro. Foi uma gritaria, gente com cabeça quente para resolver. E depois dessa confusão toda, o buraco já tinha sido feito, o carro desfilou empurrado, e exatamente na dispersão, o carro ligou. O carro terminou o desfile e veio para o barracão no motor. Tudo isso deixa de ocorrer com planejamento. Eu soube depois que o mecânico estava na dispersão, quando devia estar na concentração”.

E como evitar que erros, como aquele que você disse do mecânico mal posicionado, ou carro quebrar na concentração, não se repitam?

“Erros sempre podem se repetir, porque se trata de máquinas. Você testa aqui no barracão e lá pode acontecer de tudo. Já no aspecto humano, o posicionamento é diferente, porque como você já passou por aquilo, você já confere no dia. Já que aconteceu, é uma preocupação a mais que eu confiro no dia do desfile. Pode acontecer um erro novo, mas repetir erros não repetimos, a não ser de natureza mecânica, mas, mesmo assim, testamos tudo antes justamente porque nada pode sair errado”.

A sua relação com o presidente Luizinho Drumond é de extrema confiança. É coisa de pai para filho? Brigam? 

“Essa nossa relação de confiança surgiu no dia a dia. Acho que você quando contrata uma empregada para a sua casa, ela vai ganhar sua confiança pela postura dela. Vai chegar um dia que você vai sair antes dela chegar e vai deixar a chave para ela; você vai viajar e deixar a chave da casa com ela. A escola de samba é uma empresa, gerida na base da confiança. Mesma coisa a minha relação com outros segmentos da escola. Meu diretor de bateria hoje, que é altamente confiável, meu cantor, que desempenha seu bom trabalho, são apostas baseadas na confiança”.

Se um dia o Luizinho não presidir mais a Imperatriz, você voltaria a ser presidente? Ou prefere sair da escola se um dia ele não estiver mais aqui?

“Eu não raciocínio sobre hipóteses, até porque eu posso estar ausente da escola antes dele. A lei natural da vida surpreende. Não sabemos que vai primeiro, ou o que pode acontecer. Tudo é possível. Não tenho porque pensar naquilo que não sei se vai acontecer”.

A Imperatriz tem uma quadra nova, mas você ainda gostaria de fazer alguma obra na quadra? Sentiu falta de algo?

“A nossa quadra é um espaço às vezes muito grande, em outras é muito apertado. Acho que o maior problema dela é o entorno: falta de transporte, iluminação. Você que não tem um carro, sai do ensaio domingo, meia noite, e fica esperando ônibus que demora a passar. Em outras ruas, há árvores que impedem a iluminação e propicia assalto, roubo. A quadra atende as nossas necessidades”.

Como cativar ainda mais o povo da Zona da Leopoldina e do Complexo do Alemão para participar da Imperatriz?

wagner2“Depois que a prefeitura fez a reforma, fizemos um acordo com ela para que o nosso espaço fosse usado também para sediar atividades e projetos escolares. O contrato de cinco anos já venceu, e os projetos continuam, porque a quadra é de todos. Até porque a gente tem consciência, mesmo com as críticas que o carnaval recebe, que o nosso trabalho não é só diversão e nem é só em fevereiro. A mulher muitas vezes, e cada vez mais, trabalha fora, cria filhos, e precisa de lazer. A quadra é lazer de muitas delas. A zona da Leopoldina tem cinema apenas no shopping Carioca, e não é barato. Não há mais teatro aqui. Resta como lazer a escola de samba, e esse lado as pessoas ignoram. As pessoas só discutem colocação, dinheiro investido, e a contrapartida, o lado social? O que a gente oferece é distração, dança, canta, lazer, alegria. Talvez, hoje, o que mais me move em estar em escola de samba é saber a missão social que nós temos. Eu, sendo operador de bolsa, dinheiro, com mordomias, conheci um lado que eu não conhecia e que é a maioria da população. Eu acho que na hora da crítica, as pessoas deveriam pensar mais na missão que temos, porque no Brasil não se valoriza trabalho; as pessoas enxergam segundo lugar e último do mesmo jeito, e ignoram o quanto o segundo colocado lutou para ter chegado ali. A gente tem sim que estar pronto para ganhar e para perder, mas deve haver um cuidado com o tipo de crítica que se faz. A nossa quadra é ponto de lazer para quem só tem isso para se distrair. É isso que nos move”.

A escola se viu em meio a discussões polêmicas sobre o enredo, mas se manteve firme quanto a proposta inicial. Em meio a isso, o que, afinal, a escola pretende deixar de mensagem na avenida?

“A escola quer mostrar, através da visão do índio, a realidade, que está diariamente sendo discutida: a recuperação das matas, a vida do índio hoje, as suas demandas, desmatamento, invasões de terras. E isso tomou um rumo equivocado, porque a gente não está “descobrindo a pólvora”. Estamos falando de algo que é real, tanto é que hoje há um grande apoio a Imperatriz. A escola passa a ter ainda mais responsabilidade em relação a esse tema por causa da visibilidade que ganhou. Não podemos decepcionar depois de tal alarde”.

Os autores do samba de 2017 disseram em entrevista ao CARNAVALESCO que a composição deles passava um clamor, a dor do índio. Por isso, você diria, que o samba casou tão bem com o enredo da escola?

“Sim. E o samba realmente casou, porque mostra bem o que a escola vai levar para avenida. Enfatiza os pontos que pedidos, como o grito de guerra deles “Kararaô”, e, inclusive, foi um dos pontos que nos levou a escolher este samba”.

Vamos falar de preconceito. O setor do agronegócio atacou demais a Imperatriz. Mas isso pode ajudar também. O samba no site ganhou mais de 15 mil visualizações em duas semanas. Acredita nesse efeito contrário?

“É curioso que chamou mais a atenção para o enredo da escola, mas aumenta também a cobrança, e isso que eu tenho passado constantemente para a escola. São mais olhos nos enxergando e precisamos fazer um desfile ainda mais cuidadoso, e a altura da responsabilidade do enredo. É uma realidade. E quando essa onda de críticas começou, a frequência da quadra aumentou, e temos que aproveitar isso para o desfile”.

E qual é a resposta que a Imperatriz vai dar na Avenida para quem acusou a escola de caluniar o agronegócio?

“Não não temos essa preocupação. Não mexemos em nada do nosso desfile. A escola está mais grandiosa este ano, e algumas alegorias nossas, quando entrarem na avenida, vão chamar a atenção e ajudar a escola. Vamos fazer um desfile muito colorido, tomando todo o cuidado com as referências, porque tem cor que eles não usam, ou estilos de pinturas que não se usa em determinada região”.

E para o Carnaval 2017, a escola está preparada para as novas regras, incluindo as cabines duplas de julgadores?

“Para mim não muda nada. Cabine dupla, por exemplo, eu simplesmente vou ter dois julgadores num lugar onde tinha um”.

O que você mudaria no regulamento do carnaval?

wagner3“Todo ano a gente discute regulamento, e ideias aparecem, mas a gente chegou num nível de excelência da festa que nos permite muito pouco explorar. Será que já não era a hora de se liberar para cada escola fazer a quantidade de alegorias, de alas que quiserem? As escolas sabem quanto tempo elas tem para desfilar, criariam de foram livre seu espetáculo dentro desse cronograma. A Comissão de Frente, que hoje é um grande espetáculo, com carros da comissão que se tornaram camarim. Acho que vai chegar um momento que todo o espetáculo terá que ser repensado. O desfile é uma grande locomotiva financeira, e alguns parceiros abandonaram o barco com a crise. E não podemos mexer em preços de ingressos. Então, hoje, mais que nunca devemos explorar a criatividade. E assim, você economiza no material, traz efeitos cênicos “bombásticos” gastando menos. Todo ano a gente discute o regulamento, o espetáculo. A gente sabe que é difícil pedir aos julgadores que não se comuniquem entre si, e é difícil achar apenas pessoas confiáveis para julgar. Ou seja, as vezes regulamento atual incomoda, e com internet, todos são jurados, sambistas, até quem nunca entrou numa quadra de escola de samba, mas hoje a gente está sujeito a tudo, e vai se adequando, entendendo, e aceitando as regras do jogo”.

A Imperatriz formou grandes diretores, inclusive de carnaval. Qual é o segredo?

“Diretores a escola formou vários, e é até complicado falar sobre isso porque todos eles passaram pela minha mão. E todos aqueles que batalharam, tiveram curiosidade de aprender e se esforçaram no trabalho, cresceram no carnaval, ganharam nome e ficaram conhecidos. Alguns acharam que bastava fazer três perguntas e ficar comigo só um dia por semana que ia aprender. Não é assim. Eu não ensaio, eu respondo. O cara que quer aprender corre atrás, em qualquer área. Até porque até eu, com experiência, me deparo com situações inesperadas: em 89, o cara que seria o Caxias ficou com medo de subir no carro. Aí colocamos um cara fantasiado de general e foi um sucesso. O carro que quebra na boca da avenida. Se você não corre atrás, fica dependente de outros, e não resolve nada. E a escola teve grande diretores de carnaval, mas não me espelhei neles, porque a minha história com carnaval vem de uma família que adora carnaval. Eu venho do carnaval de rua, já saí vestido de mulher. Minha família vem daí. Meus filhos não, mas meus pais e tios sim. E quando cheguei na Vila, vindo da Bolsa, vi que gastava-se dinheiro sem controle, e eu queria colocar meu conhecimento de finanças na administração da escola. E no início foi difícil, porque as pessoas achavam que a gente queria interferir. Tenho uma trajetória que veio me “formando” para exercer essa tarefa hoje”.

Quando que o gresilense voltará a gritar é campeão? Falta investimento?

“Eu gostaria que fosse esse ano, como estou fazendo tudo pra isso. Algumas pessoas acham que eu tenho uma atitude passiva quanto a isso, porque as pessoas cobram que o diretor de carnaval tem que dançar, cantar, vibrar, e não é isso. Acho que isso é tarefa para a harmonia, para os componentes, carro de som, bateria. A minha posição, e pouca gente entende, inclusive alguns carnavalescos, é uma só: colocar a escola na avenida para desfilar, da forma que for. E para isso é preciso ter frieza e calma, e estar apto para resolver problemas que surgirem antes, durante e depois do desfile. Investimento não falta. Alguns segmentos nós erramos, mas investimento não falta”.

Em harmonia e evolução, a escola ganhou o apelido de tecnicamente perfeita. Isso foi bom ou ruim para Imperatriz?

“Isso é natural. Um bom diretor de harmonia vira animador de auditório quando a escola vira a curva – e me perdoem aqueles que discordam. E quando você tem uma harmonia que entende isso, ela obtém bom resultado. Porque o componente se inspira em você que está vibrando e cantando. Ele pensa: se nem o diretor da escola está cantando, porque eu, carregando esse peso na cabeça, essa “cangalha” toda, vou cantar? Um dos nossos maiores acertos é o nosso diretor geral de harmonia, Júnior Escafura, e ele entende bem a função dele e da harmonia. A escola vai fazer o que eles estão fazendo”.

O torcedor sonha com o enredo sobre a Rosa Magalhães; o Cahe também. E você? Gostaria?

“Falar da Rosa era uma possibilidade, mas ela não topou, até porque ela estava em outra escola. Se um dia ela não estiver mais, de repente, a gente volte a conversar. Ela até sugeriu que fizéssemos sobre Arlindo Rodrigues, que também tem uma grande história dentro da Imperatriz”.

Qual o seu maior aprendizado com a Rosa?

“Que conhecimento é fundamental em tudo. Você ler bastante, pesquisar, é crucial. Rosa é um ser humano raro, que tem uma sabedoria enorme. É prazeroso conversar com ela. Ela tem um humor inglês, daquele que você faz uma graça, alguns não entendem , mas ela ri por dentro sozinha. Ela não leva aborrecimento para casa. Ela é engajada no trabalho, como eu: brigo no trabalho, porque tenho objetivos a cumprir, e depois minutos depois estou com você numa barraca tomando um guaraná”.

Qual é seu melhor desfile?

“1996, porque foi perfeito em tudo. Primeiro pelo samba, incrível, cantado pelo Domingunhos. Depois, a primeira ala de damas, com uma roupa de neve, tudo fantástico. Naquele ano, eu era presidente, e o patrono estava afastado. E a escola me respeitou como presidente. E me surpreendeu o respeito do patrono por mim. E, enquanto eu estava na presidência, o patrono me deixou fazer tudo da forma que eu desejei. Ele me respeitou. Foi um dos carnavais mais fáceis de serem feitos”.

A Imperatriz abriu uma nova era nas comissões de frente e hoje vivemos o espetáculo. Naquele época qual era sua comissão predileta?

“Rosa entrou na escola para fazer o carnaval de 92. O Viriato tinha feito a “banana”, em 91, e Rosa veio, a princípio, para ajudar, mas ele não chegou ao carnaval de 92. E a gente tinha uma comissão que vinha da Vila, e eles se reuniam, naquela época, e resolviam o que iam fazer. E a Rosa quis mudar e resolveu chamar um coreógrafo. Conversou com o então presidente, o Luis, e a comissão naquela época disse que “coreógrafo era para viado”, e todos largaram a escola. Mas a escola se manteve firme, montou uma nova comissão de frente, e aí começou a história dessa “nova comissão de frente”. O Fábio, coreógrafo, junto com a Rosa, fizeram história. Mas havia uma “deficiência” nessa comissão: eles não eram bailarinos. Mas a gente aproveitou muito disso, tanto que uma das maiores comissões de frente que a gente teve foi das bruxas, e era fantástico”.

E o que pensa das comissões de frente de hoje?

“Eu não sei se sou contra ou a favor. Acho que o espetáculo levou a isso e a gente precisa se adequar. O que eu acho que as escolas as vezes exageram são nas alegorias, que as vezes chamam mais atenção do que a comissão”.

O Leandro Vieira, atual carnavalesco da Mangueira, foi auxiliar do Cahe por muito tempo. Era possível perceber nele todo esse talento?

“Eu não posso falar pelos outros, mas eu já via, porque ele é inteligente e muito interessado. Acho que ele até extrapola, porque ele é daqueles que quer participar de tudo, ele quer palpitar em tudo, e as vezes ele é até radical nisso. Mas ele foi se acomodando. E eu já via esse talento dele. Tanto é que, quando ele foi convidado para fazer o Acesso, ele vinha me consultar, e nós é que escolhemos a escola onde ele ia começar. Ele é muito capacitado e tem futuro garantido. Acho que a Imperatriz marcou ele e tenho certeza que um dos sonhos do Leandro é ser carnavalesco da Imperatriz. Eu acho que aqui ele teve estrutura, ordem, comando, compromisso, e para quem trabalha, isso tudo é primordial”.

Com sua trajetória no mercado financeiro, você deve dar ainda mais valor as finanças da escola, tomando cuidado com cada dinheiro investido, não?

“Quando eu disse que algumas pessoas não entendiam a função do diretor de carnaval, já digo também que eu não me permito entrar na parte artística do espetáculo, porque eu não entendo disso e não é minha área. Vejo outros que brigam com carnavalesco, e acho que não é isso. A parte artística é do artista. O diretor dá palpite quando vê que a fantasia está muito pesada, o chapéu não está prático para a evolução; ainda assim, deixando ele modificar do jeito dele. E na parte financeira, eu muito pouco negocio para a escola, porque o presidente faz questão de cuidar disso, o que eu acho justo, porque se precisar injetar mais, quem fará isso será ele. Acho importante ele cuidar disso para estar a par da situação. Mas entendo que é necessário, mais e mais a cada ano, ser atento a questão financeira, porque o mercado de carnaval está monopolizado, então é preciso procurar bem para pesquisar preços, baratear os custos”.

Qual é a maior alegria do Wagner no carnaval?

“A maior alegria foi ajudar a tirar uma escola do último lugar e levar para primeiro. Aquilo foi fantástico. E esse carnaval teve tudo para não ser assim: tivemos um sapateiro que entregou os sapatos na boca da avenida, com a escola quase desfilando. Sai todo mundo correndo para calçar sapato, os fogos já no céu. Um samba que há 15 dias do carnaval quase foi cortado; uma concentração que, durante a tarde, alguém colocou todos os carros lá sem pensar no resto da escola. Na hora de concentrar toda a escola não tinha espaço. A ala mirim então dava até pena porque era uma xícara na cabeça que não tinha nem espaço; Quase que a gente via criança sendo sugada e saindo em cima, na xícara. Tinha tudo para dar errado, e foi incrível”.

E com toda essa experiência, o que a Imperatriz tem para aproveitar do Wagner?

“Eu fico frio, a paixão não toma conta, e sei lidar com as situações adversas. Mas não quer dizer que não me emociono. Se o título vier esse ano, prometo tomar um porre. Vai ser muito legal. A gente está merecendo porque temos feito grandes desfiles. E a emoção de ganhar é enorme, mas a emoção de ver seu componente feliz é maior ainda. Você ganha abraços, beijos, gente que você nunca viu e te agradece como se você tivesse dado a ele o maior presente da vida. Essa alegria é maior do que ganhar o campeonato. Pessoas com todo tipo de história e você dar essa alegria a eles é marcante. E se for com esse enredo, ainda vai chamar a atenção para a causa do povo xinguano. É um carnaval importante. Eu gostaria muito mesmo de ganhar esse ano, por todos esses aspectos”.