ENTREVISTAS: Cara a cara com Paulo Vianna

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Presidindo a Mocidade Independente de Padre Miguel há oito anos consecutivos, Paulo Vianna, mais uma vez, é candidato à reeleição no pleito que acontecerá no próximo dia 17 de abril. Em entrevista exclusiva ao Carnavalesco, o dirigente revela o que pretende fazer no novo mandato, levanta suspeitas quanto ao resultado do Carnaval 2011, fala sobre o envolvimento de Rogério de Andrade na escola e diz que já foi até ameaçado de morte.

Carnavalesco: Qual a avaliação desses oito anos de mandato?

Paulo Vianna: Bom, primeiro eu ganhei a eleição em 2001 e fiz o Carnaval de 2002, quando tiramos quarto lugar com o ‘Grande circo místico’, do Renato Lage. Depois me afastei da escola. Pedi licença, pois assumi outro cargo público. Quando retornei fiquei esses últimos oito anos. Quando peguei a escola ela estava com dívidas astronômicas. Uma escola com uma dívida de R$ nove milhões é uma coisa complicada. As escolas não têm recursos próprios. Elas vivem de subvenções, patrocínios, recursos da quadra… A minha primeira opção foi sanear as dívidas. Não adiantava eu sonhar ser campeão. Pra você pagar R$ nove milhões e fazer carnaval é muito complicado. Nossos resultados não foram bons, e nem poderiam ser. Eu sempre fui muito cobrado pela torcida da escola, mas quem está de fora é muito fácil. Quando se assume a presidência de qualquer escola você tem dificuldade. Na época que tínhamos um patrono que bancava era fácil. A escola teve muitas ações trabalhistas e tive que mandar muita gente embora. Pessoas que se usavam a escola eu tive que afastar. Não posso deixar que pessoas se aproveitem da Mocidade e aumentem sua dívida. O meu objetivo na reeleição é acabar com essa dívida nesses quatro anos e deixar a escola saneada, além de buscar resultados. Já venho há dois anos melhorando o carnaval. Já que diminuiu bastante a dívida, consegui investir mais no carnaval. Quero buscar um campeonato para a escola e deixar a quadra nova pronta.

Carnavalesco: Quanto é a dívida da Mocidade atualmente? Como pagar?

Paulo Vianna: Ainda tem dívidas. O pior é isso, mas já pagamos quase tudo. Dos R$ nove milhões, estamos devendo R$ um milhão e meio no máximo. Fizemos adequações no nosso orçamento e conseguiremos acabar com a dívida até o fim do novo mandato.

Carnavalesco: Como passou a conviver no mundo do samba?

Paulo Vianna: Comecei no samba com 10 anos de idade. Meu pai foi fundador da Mocidade juntamente com o pai do Macumba, que foi o primeiro presidente da escola. Meu pai que deu o nome de Mocidade Independente de Padre Miguel. Antigamente a escola se chamava Mocidade de Padre Miguel e ele fazia o carnaval do bairro. Então comecei nessa época. Ainda era garoto e depois, o Gaúcho, que foi presidente durante muito tempo, foi posto pelo meu pai como presidente da escola. Ele era motorista do meu pai e eu ia com ele aos desfiles e ensaios. Participei de todos os campeonatos da Mocidade. De carnavais, praticamente todos. Alguns eu deixei de participar por questões familiares e profissionais, mas já sai até de passista e na comissão de frente várias vezes. Fui também vice-presidente em diversas gestões, com quase todos os presidentes da escola. Fui vice-presidente do Conselho e presidente do Conselho e depois fui escolhido pela maioria de sócios para ser presidente. Nós sempre procuramos fazer o melhor pela escola. Trabalho aqui com amor, dedicação e carinho. Não estou na Mocidade para a queda. Venho acompanhando o desenvolvimento da escola. Nos anos 60, quando o Osman assumiu a escola, nós começamos a fazer um trabalho para a Mocidade ser campeã. Fizemos Carnavais memoráveis como ‘Festa do Divino’, ‘Mundo encantando do Uirapuru’ e fomos ser campeões com um tema que várias escolas já tinham trazido para a Sapucaí, que é o ‘Descobrimento do Brasil’, e o Arlindo Rodrigues fez um grande trabalho. A escola veio toda branca, muito linda. Participei também, ainda garoto, do primeiro título da história da Mocidade. Ainda no segundo grupo, em 1958. Um desfile na Rio Branco. A Mocidade é uma das quatro escolas do Grupo Especial que está até hoje. Todas as outras já desceram e subiram, mas Mocidade, Mangueira, Salgueiro e Portela nunca desceram.

Carnavalesco: Em que momento sentiu que estava pronto para presidir a Mocidade?

Paulo Vianna: Quando o José Roberto Tenório foi chamado para ser presidente, o Paulo de Andrade, filho do Dr. Castor, me chamou e me disse que queria que eu assumisse a escola. Naquela ocasião eu disse a ele que não poderia, tinha outros compromissos. Eu era funcionário público e exercia a presidência do DETRO-RJ. Participava também da administração de algumas empresas de ônibus. Então ele me levou até o pai dele e propôs me colocar como presidente da Mocidade. Eu não aceitei. Ainda não me via como presidente da escola. Achava que outras pessoas tinham que ocupar esse posto. Depois, quando me aposentei e tive mais tempo para me dedicar à escola resolvi assumir. Lancei uma chapa e ganhamos a eleição com o voto dos sócios. Não foi nada imposto.

Carnavalesco: Uma vez você comentou que era perigoso ir no ensaio de quadra. Ainda pensa isso? Qual o motivo?

Paulo Vianna: Ela não oferece nenhum tipo de segurança. É público que existe um grave problema de segurança ao lado da quadra. Já tive compositor que morreu baleado, presidente de ala e funcionário da escola baleados. Eu não quero continuar nessa situação. Tenho uma escola mirim com 1.500 crianças. Fico preocupado com esses ensaios. Graças a Deus estou ali desde pequeno e conheço todo mundo. Estamos sempre pedindo que haja respeito com a entidade e muitas das vezes somos atendidos. Infelizmente para o local vamos ter que sair dali, mas felizmente para a escola. Muita gente me diz que não vai na Mocidade porque tem medo. Não vejo porque não sair de lá. Será uma emancipação da escola. Vamos sobreviver melhor com uma quadra na Avenida Brasil.

Carnavalesco: Quando vai acontecer a mudança?

Paulo Vianna: O prefeito já nos mandou um documento oficializando a obra na quadra. Acho que esse será o grande avanço da Mocidade. Nos tornaremos totalmente independentes. Uma quadra na Avenida Brasil, com 40 mil metros quadrados. Se fossemos comprar esse terreno, o valor seria de quase R$ 70 milhões. Ela será não só uma nova quadra, mas um pólo de desenvolvimento cultural da Mocidade e da Zona Oeste. Muita gente é contra deixarmos a atual quadra, mas se ali tivesse condições econômicas eu jamais sairia dali, até porque comecei minha vida na escola ali. Hoje nós temos uma quadra deficitária. Antigamente se tirava dinheiro da quadra e levava para o barracão. Atualmente se faz o contrário.

Carnavalesco: O que queria fazer antes de assumir a escola e não conseguiu?

Paulo Vianna: Sempre quis levar a Mocidade de volta ao grupo das seis primeiras. Em 2011 até conseguimos, mas perdemos no desempate. Em 2002 eu era presidente, mas de lá pra cá os resultados não foram favoráveis. Quero, é claro, buscar um campeonato para a Mocidade. Isso tem que ser o sonho de qualquer presidente. Estou fazendo um trabalho nesse sentido.

Carnavalesco: O que achou da forma que a Mocidade foi julgada em 2011?

Paulo Vianna: Muita gente me censura. Falo na radio, na imprensa, na Liesa, mas não posso concordar com o que está errado. Se as pessoas acham que está certo o julgamento feito este ano com a Mocidade eu não posso concordar. Eu falei isso com o presidente da Liga. Primeiro pedi desculpas a ele por às vezes ter me expressado de maneira um pouco rude. O julgador que julgou bateria já tinha julgado a Mocidade em 1994 e deu nota 5 pra gente. Se não tivéssemos tirado essa nota seríamos campeões do carnaval. Esse mesmo julgador volta anos depois e dá 9,2 à nossa bateria. Foi maldade, assim como outros julgadores. Pelo o que observei das notas, os jurados mais antigos, exceto esse senhor, deram notas boas para a Mocidade. Os novos é que penalizaram mais a escola.

Carnavalesco: O que você mudaria no julgamento do carnaval?

Paulo Vianna: Primeiro acho que os jurados não podem ser divulgados um mês antes. Eles tinham que ser sorteados na véspera do Carnaval. Outra coisa é o envelope do desfile de domingo ficar aberto e só ser fechado na segunda-feira. Acho isso uma temeridade para o julgamento. Se ele deu a nota dele tem que fechar o envelope e pronto. Dizem que é para não dar empate. Ótimo! Vai melhorar o nível do Carnaval havendo empate. Teve uma determinada pessoa que disse pra mim: "Um bom cabrito não berra, Paulo". Mas, eu digo que sou um bom cabrito que berra. Não gosto de ver as coisas erradas.

Carnavalesco: Até hoje poucas pessoas entenderam. Qual foi o motivo da Mocidade aceitar trocar seu dia de desfile com a Portela?

Paulo Vianna: Foi benéfico para a escola, mas ruim para a torcida. Foi ruim também para as pessoas que desfilam e que saem de outros estados para assistir o desfile. No momento em que me foi proposto isso, imediatamente, perguntei qual seria a medida tomada para atender essas pessoas que já tinham comprado o ingresso. O presidente da Liga deu a solução. Mediante isso, não vi problema para mudar a data de desfile. O que se alegou é que as três escolas afetadas pelo incêndio desfilariam no mesmo dia. Eu não estou aqui para prejudicar o Carnaval. Estamos aqui para engrandecê-lo.

Carnavalesco: Como é o relacionamento do Paulo Vianna dentro da Liesa?

Paulo Vianna: Tenho um relacionamento muito bom com o presidente da Liesa. Muitos dizem que eu sou queimado lá, mas não acho não. Provavelmente tem gente lá que não gosta de mim por eu ser franco. O que preciso falar, falo na cara, não falo por trás. Talvez algumas pessoas não gostem disso, preferem ser apunhaladas pelas costas. Converso muito com o Castanheira. Ele me escuta e eu escuto ele. Acho que ele tem bons propósitos. É uma pessoa inteligente e conhece tudo de carnaval, mas existem outros interesses que todos sabem e muita gente tem medo de falar. Essa é a realidade. Esses interesses que prejudicam o carnaval. Tenho grandes amigos na Liga e que me dou muito bem, mas tem pessoas lá que não gostam de mm. Não preciso deles. Tenho minha vida independente, graças a Deus. Estou lá para defender os interesses da Mocidade e do carnaval não para defender A,B ou C. Eu fui eleito presidente da Mocidade para defendê-la. Não sou homem de defender outros interesses, mas existem homens que são assim.

Carnavalesco: Se sente satisfeito com a divulgação ao longo do ano do trabalho das escolas e com a transmissão feita pela TV?

Paulo Vianna: Na reunião que tivemos com a TV Globo, eles colocaram que as escolas teriam toda a cobertura necessária. Eu reivindiquei algumas coisas. Pedi que eles fizessem uma cobertura maior da escolha do samba-enredo. O Boninho até ajudou nessa questão, mas achei a transmissão da minha escola péssima, horrível. Começaram a transmitir o desfile da Mocidade com 26 minutos. Passaram a filmar a Mocidade quando a escola estava na metade da pista. Nós já tínhamos reclamado no ano passado. No ano anterior eles colocavam aquelas entrevistas até a metade do desfile. Acho um desrespeito com as entidades e o público deles. Quem está ligado na TV Globo quer assistir o desfile e não outras coisas. Eles precisam respeitar os telespectadores. A TV Globo tem um contrato com a Liesa e com as escolas de samba para transmitir o desfile. Isso tem que ser feito direito. O próprio presidente da Liga reclamou disso também. Nós ainda não tivemos uma reunião, mas isso com certeza vai ser falado. Não foi só a Mocidade prejudicada não, outras também foram. A campeã teve todo o tempo necessário.

Carnavalesco: No início do mandato atual você imaginava que se candidataria novamente? Porque tomou essa decisão?

Paulo Vianna: A minha previsão era de que esse seria o meu último mandato, mas fui procurado por várias pessoas que me pediram para continuar, como tem as que não querem que eu continue também (risos)… Mas a grande maioria dos sócios-proprietários tem me procurado e elogiado o trabalho de base que eu tenho feito. A quadra nova valorizará o título de sócio-proprietário da Mocidade. Lá teremos atividades sociais. Vamos ter uma Vila Olímpica em volta da quadra. Então acho que os sócios estão pensando no futuro da escola. Eu não queria continuar. Acho que já estava na época de descansar, mas eles acham também que não há outra pessoa capaz para comandar a Mocidade. Pela minha família eu já não estaria mais aqui. Meus filhos pedem isso. Já fui ameaçado de morte várias vezes. Tenho que andar com segurança. Não sou homem de recuar. Sou homem de enfrentar. Sempre digo que vou morrer um dia, mas não sei se morrerei de doença, de velhice ou de tiro. Se me derem tiro vão levar também. Não tenho medo de enfrentar. Só acho que temos o propósito de deixar a Mocidade saneada e entregá-la para alguém de responsabilidade acima de tudo. Não adianta deixar a escola bem financeiramente, com uma nova quadra e deixar vir pra cá um ladrão para encher a Mocidade de dívida de novo. Sempre participei de aquisições feitas pela Mocidade. Eu e mais duas pessoas compramos um terreno atrás da quadra e eu e mais cinco ajudamos financeiramente na ampliação dos camarotes da quadra da Mocidade. Tudo o que eu pude tirar dos meus recursos para ajudar a escola eu fiz e faço até hoje. Sou aposentado do Tribunal de Contas e tenho um salário tranquilo para a minha sobrevivência. Temos que escolher uma pessoa que permaneça a escola saneada e continue fazendo grandes carnavais.

Carnavalesco: É uma missão do novo mandato formar um sucessor?

Paulo Vianna: Sem dúvida. Além da quadra, do saneamento financeiro e da busca do campeonato.

Carnavalesco: Como lida com as muitas críticas que recebe dos torcedores da Mocidade e também da oposição?

Paulo Vianna: Eu acho que toda crítica construtiva é aceita. Aceito qualquer crítica, desde que seja construtiva e benéfica. O que não aceito é crítica que ofende a sua moral e a sua família. Ofendem a própria escola. Se eu sou presidente da Mocidade e sou ofendido de certa maneira, as pessoas não percebem que estão denegrindo a imagem da escola. Já tomei algumas medidas judiciais. Com o advento da internet, tem pessoas que se escondem atrás de fakes para falar o que querem. Hoje já existe uma delegacia especializada e nós já tomamos várias providencias. Estou processando a Google do Brasil e a Internacional também, por permitir esse tipo de coisa. Tenho que defender os interesses da Mocidade e, como presidente, me sinto ofendido. O meu advogado já está com uma ação internacional contra essas empresas que deixam as pessoas entrarem em seus sites e falarem o que querem. Porque se esconder atrás de Fake? Bota a cara pô! Quem acusa tem que provar, acima de tudo. Se você perceber nos orkuts das torcidas 90% é fake. Aqueles que não são, não ofendem. Tem medo porque sabem que eu processo. Eu busco a justiça. Sou católico, mas filho de Xangô e busco a justiça. Quando a crítica é construtiva eu bato palmas, sem problemas.

Carnavalesco: Conhece as propostas da oposição?

Paulo Vianna: Eu assisti uma palestra do candidato que se diz da oposição (Claudio Corrêa) e não vi nenhum plano ou projeto. A única coisa que ele diz que tem é trazer de volta determinadas pessoas que foram afastadas da escola, mas não diz o motivo dessas pessoas terem sido afastadas. E nem ele mesmo. Não tem coragem de dizer. Eu também nem gostaria de falar porque é algo muito grave. Algumas das pessoas que eu afastei e que ele diz que vai trazer de volta saíram por coisas graves. Estavam levando dinheiro, se vendiam para determinadas entidades para divulgar coisas que aconteciam aqui dentro da escola. Cabe a mim defender a Mocidade. Eu tenho um projeto, mas não vi da parte deles. Mas, qualquer um pode ser candidato. É democrático. Publicamos o edital em jornal. A relação dos sócios-proprietários da escola está registrada desde o ano passado, registrei em março do ano passado no cartório de pessoas jurídicas. Tudo que fazemos aqui está dentro do estatuto da escola. Não faço nada que não for dentro das regras. Eles falam que eu sou ditador, mas sou ditador dentro do estatuto. Se o estatuto me diz isso ou aquilo ou outro eu faço. Ele foi criado por uma comissão que o próprio candidato da oposição fez parte. Está aqui o nome dele (Paulo Viana mostra no estatuto o nome de Claudio Corrêa). Fala-se muito que eu não posso ser reeleito, mas o estatuto da escola não diz que a reeleição não é permitida. Inclusive o próprio pai do candidato da oposição foi presidente durante 13 anos, com oito mandatos consecutivos.

Carnavalesco: Acredita em vitória com larga vantagem no dia 17?

Paulo Vianna: Sim. Tenho recebido muitas ligações e apoio dos sócios. Estou até admirado pela maneira que as pessoas estão me tratando.

SRZD-Carnavalesco: Por que a decisão de marcar as eleições na Cidade do Samba?

Paulo Vianna: Nós já tínhamos feito aqui uma assembleia geral ordinária para definir isso e, na época, a oposição conseguiu uma liminar e nós caçamos a liminar. Fiz isso baseado na violência existente nas imediações da escola. Eu não posso colocar os sócios-proprietários a mercê de tiroteios e outras complicações. Hoje nós temos ao lado da escola uma cracolândia. Uma das coisas mais absurdas… Mas quem tem que combater isso é o poder público. Não sou justiça e nem polícia. Eu peço e eles não mandam. Sou obrigado a pedir respeito às pessoas para que nada de errado aconteça e eu possa fazer pelo menos um samba no sábado. A quadra às vezes fica vazia porque as pessoas tem medo de ir na Mocidade. Quem caçou essa liminar foi um desembargador que me deu o mérito e a razão pelo o que foi apresentado. Apresentamos vários documentos que as pessoas poderiam ter problemas lá. Já até citei os acontecimentos violentos lá. Acima de tudo preciso dar garantia para as pessoas que vão votar. Elas virão aqui. Aqui é sub-sede da Mocidade. O carnaval é todo operacionalizado no barracão. Eu não administro a escola na quadra, mas sim no barracão, Aqui eu tenho condições de segurança e de conforto. Gostaria muito que a quadra tivesse condições, mas, infelizmente, não tem.

Carnavalesco: E as novas contratações feitas? Qual o objetivo?

Paulo Vianna: Nós fomos buscar nomes para alavancar a escola cada vez mais. Nós tivemos três anos do Cid Carvalho. Eu acho o Cid um grande carnavalesco, mas não deu bons resultados, principalmente nos quesitos dele. Nos três anos nós tomamos pancada em alegorias e adereços, enredo e um pouco em fantasia. Acho que não posso insistir no erro, como todo o respeito ao profissional. Sou até amigo particular dele. Independente de ser presidente ou não. Chegou o momento de mudar para melhor. O Alexandre Louzada, com todo o respeito aos demais carnavalescos, é de ponta. Na minha opinião está no nível do Paulo Barros e do Renato Lage. Foi campeão no Rio e em São Paulo. Apesar de não ter feito o carnaval da Beija-Flor, ele fez o enredo. Com o Luizinho Andanças é a mesma coisa. Tive dois grandes intérpretes aqui: o Nêgo e o Richahs. Mas, tive algumas dificuldades com os dois e vi que era o momento de mudar de intérprete. O Luizinho é um dos melhores. Ficou cinco anos seguidos no Porto da Pedra de uma maneira sempre elogiada por todos. Fui buscar o melhor casal de mestre-sala e porta-bandeira do Grupo A. Nós até temos cursos de formação de mestre-sala e porta-bandeira, mas é uma missão complicada e eu acho que não temos ninguém lá, no momento, em condições de assumir o posto. Vamos melhorar ainda mais. No próximo Carnaval quero que a escola brigue pelo título, ou no máximo ficar entre as quatro primeiras.

Carnavalesco: Vai fazer mais alguma mudança nos segmentos da escola?

Paulo Vianna: Vamos ver ainda. Não tive a oportunidade de conversar com o Louzada sobre a estrutura da escola. Vou conversar com o Ricardo Simpatia (diretor de carnaval) também pra gente analisar juntos. Estou esperando as justificativas para não cometer nenhuma injustiça. A partir daí vou fazer outras mudanças na estrutura da escola.

Carnavalesco: Pensa em doar quantas fantasias para comunidade no desfile de 2012?

Paulo Vianna: Quando assumi a escola em 2002, a Mocidade não tinha ala de comunidade. Naquela época sofri muita pressão de pessoas dentro da escola para não fazer isso, mas criei duas alas de comunidade. Hoje temos 21 alas de comunidade. Fora bateria, baianas e passistas, que são alas próprias da Mocidade. Acho que isso tem dado um bom resultado para a escola, apesar do custo não ser pequeno. A comunidade participa com muita garra e emoção e a Mocidade tem dado uma demonstração de canto muito grande. Isso tudo é graças às alas de comunidade. Quem implantou alas de comunidade na Mocidade fui eu.

Carnavalesco: Uma das críticas que você recebe é a possível perda de identidade da escola nos últimos anos. Você acha que essa questão passa pelo fato da saída do Renato Lage, um carnavalesco que ficou muito tempo na escola, ou isso passa mais pelos problemas financeiros, que acabam prejudicando a manutenção dos desfiles luxuosos tradicionais da escola?

Paulo Vianna: Eu acho que a Mocidade tem a identidade dela. Como todas as escolas, nós temos que buscar outros recursos. O Renato Lage ficou 13 anos aqui. Fazendo um tipo de Carnaval que ele hoje faz no Salgueiro. Nós tivemos Arlindo Rodrigues, Fernando Pinto entre os carnavalescos que despontaram. Eu acho que o Fernando Pinto foi o grande inovador do carnaval carioca. Até esse negócio de alegorias vivas foi iniciado por ele. No carnaval de 1985 ele fez isso. Fernando Pinto não copiou, ele criou. A Mocidade teve uma identidade com Arlindo Rodrigues, com Fernando Pinto e teve outra com o Renato Lage, cada um dentro das suas características. Passaram vários carnavalescos aqui depois disso. O Alex de Souza, o Mauro Quintaes, o Cid Carvalho e, agora, ao meu ver vamos buscar uma nova identidade com o Louzada. Ele inova muito na concepção do Carnaval. As identidades mudam. Acho que teremos uma concepção bem adequada com o Louzada. Muita gente acha que devemos ter uma identidade própria a vida toda. Assim você cai na mesmice e perde o rumo do Carnaval. Tá arriscado até levar uma porrada maior, principalmente sem recursos. A Mocidade é muito forte a nível de torcida. Recebo quase nove milhões de acesso no site da escola. Eu assumi a Mocidade numa outra época e sou muito cobrado. A Mocidade teve a época Castor, onde tínhamos mais condições financeiras. Eu já disse, peguei a escola num buraco sem fundo e, agora, acertando as dívidas, com certeza a Mocidade vai voltar a brigar pelo título. Já demonstramos melhoras nos últimos dois desfiles, mas não fomos compreendidos. Tivemos alguns problemas. A Mocidade às vezes perde para ela mesma, por questões internas. Temos cobranças inadequadas de algumas pessoas, que falam coisas que atingem a escola. Se sou julgador, entro num site e vejo a torcida esculhambando a própria escola como vou julgar essa escola? Algumas dessas pessoas contribuem negativamente com a escola. Se dizem torcedores apaixonados, mas essa pressão desenfreada prejudica a escola. Estamos num bom caminho, não tenho dúvidas disso.

Carnavalesco: A Mocidade tem uma torcida numerosa e bem jovem. Os torcedores da escola mostram-se apaixonados e criativos. Passa pela sua cabeça trazer pessoas assim para o departamento cultural?

Paulo Vianna: Eu até mudei o vice-presidente cultural. Hoje quem está lá é o Édson, que entende muito desse lado e está há um ano fazendo um belo trabalho. Tem ideias brilhantes. Acredito que com o tempo o departamento cultural da escola assumirá uma posição de maior destaque.

Carnavalesco: Quais são os projetos sociais da Mocidade? O que pensa em fazer?

Paulo Vianna: Hoje mesmo tive uma reunião com a presidente da Liga da Defesa Nacional. Ela nos trouxe um grupo de pessoas que tem trabalhos sociais grandes. Ela quer implantar isso na escola. Já temos trabalhos sociais bem interessantes na escola. A Estrelinha da Mocidade é um exemplo. São 1.500 crianças que precisam estar estudando e passando de ano para desfilar. Distribuímos bolsas de alimentos para a comunidade também. Às vezes somos obrigados a parar por falta de recursos, porque a situação financeira ainda não está sanada. Temos vários diplomas oferecidos pelos trabalhos sociais que a escola realiza. Com a mudança para a Avenida Brasil, a quadra atual se transformará num grande centro social para atender à comunidade. Já temos conversas com entidades não governamentais que nos ajudarão nesse sentido.

Carnavalesco: Em 2011, a Mocidade contou com a verba do CNA. Como foi aplicado esse dinheiro? É realmente muito diferente um desfile patrocinado de um desfile sem patrocínio?

Paulo Vianna: Foi o meu primeiro ano com enredo patrocinado. Neste Carnaval nós gastamos mais de R$ 9 milhões. Graças a ajuda do CNA com R$ 2,5 milhões. Nós pudemos melhorar as fantasias das alas de comunidade, das composições das alegorias, comprar materiais de alta qualidade para a decoração dos carros, não atrasar o pagamento, coisa que já aconteceu, não estou aqui para tapar o sol com a peneira. Esse patrocínio do CNA para nós foi muito importante. Fizemos um Carnaval nem melhor para a escola.

Carnavalesco: O enredo de 2012 será autoral do Louzada ou a Mocidade espera algo patrocinado?

Paulo Vianna: Já estamos conversando, temos quatro enredos propostos. Um deles passa por Tocantins, mas não é só isso. O Louzada também um enredo muito interessante sobre Portinari, mas tem patrocínio. A ideia é fazer um enredo patrocinado também em 2012. É uma maneira de disputar o título e do carnavalesco trabalhar mais tranquilo.

Carnavalesco: O Rogério de Andrade vem ajudando a escola? É verdade que ele participará mais ativamente do novo mandato, caso você vença a eleição?

Paulo Vianna: Qualquer ajuda é bem vinda. Nós temos pessoas como o Anísio na Beija-Flor e o Luizinho na Imperatriz que ajudam suas escolas. Não vejo problema nisso. Não julgo ninguém. Cada um tem o seu negócio. Ele tem demonstrado que quer ajudar a escola. Eu aceito de bom grado. O Rogério acima de tudo é Mocidade. Não vejo como rejeitar essa ajuda dele, até porque não tenho nada contra ele.

Carnavalesco: Como foi a entrada da Andrea de Andrade como rainha de bateria? A efetivação dela passa por esse processo? Ela ajudou financeiramente na aquisição da roupa da bateria?

Paulo Vianna: Não. Ela teve uma boa presença e é uma pessoa querida na escola. Consegui cativar os componentes. Eles me pedem para mantê-la. Acho bacana isso. Na Mocidade isso não é fácil. O pessoal lá é muito exigente. Ela é muito alegre, muito simpática. Não usamos esse precedente da rainha de bateria ajudar na roupa da bateria. A fantasia foi paga integralmente pela escola e muita cara por sinal (risos).

Carnavalesco: Qual quesito considera a cara da escola hoje?

Paulo Vianna: Quero que todos sejam a cara da escola. Acho que sempre fomos muito felizes em um quesito, que não vem tendo bom rendimento em razão dos maus julgamentos, que é a bateria. A Mocidade tem uma tradição muito grande. Criou várias coisas. Tem uma característica própria e é a cara da Mocidade. Vem desde os anos 50 da mesma maneira. Hoje existe uma má vontade de algumas pessoas com a bateria da escola. Em 2011, a bateria não errou em momento nenhum. A meu ver foi mal julgada. Não tenho medo de falar isso. Você percebe isso pela própria reação dos ritmistas. Quando acabou o desfile eles choravam e se abraçavam. Emocionados com a bela apresentação que tinham feito. Quando algo dá errado eles saem na porrada, discutem, se xingam, mas isso não aconteceu. Só vi duas escolas sendo aclamadas como campeãs no desfile: a Tijuca e a Mocidade.

Carnavalesco: O que pensa sobre o estilo Paulo Barros?

Paulo Vianna: É um grande carnavalesco, não há dúvida disso, mas está se tornando repetitivo. Alguns carros dele já passaram em outros anos na própria Tijuca e em outras escolas. Não sou muito a favor desse tipo de Carnaval. Gosto mais do Carnaval tradicional, uma coisa mais espontânea, mas é o estilo dele, é preciso respeitar. Ele vai pra Disney, vê lá o que ele acha mais interessante e o que tem a ver com o enredo dele e copia, traz pra cá. Faz isso com muita propriedade, mas não é algo autêntico.

Carnavalesco: Nesses anos todos desfilando pela Mocidade qual o momento que você considera inesquecível com a escola na Sapucaí?

Paulo Vianna: Quando fui campeão pela primeira vez em 1979. Participei ativamente daquele Carnaval. O Osman era o presidente e foi muito emocionante. Guardo com muito carinho uma foto com o mestre André (aponta para um quadro pendurado na parede), quando fomos receber o troféu. Foi o primeiro campeonato da Mocidade. Depois conquistamos mais quatro títulos. Fruto de um bom trabalho que teve origem nessa época. Perdemos alguns títulos por besteiras e erros, outros por injustiça, mas vamos voltar a fazer grandes carnavais.

Carnavalesco: Para encerrar, gostaria que você deixasse uma mensagem aos torcedores da Mocidade:

Paulo Vianna: Eles podem ter certeza que o nosso propósito é o mesmo deles: ser campeão. Infelizmente não temos conseguido alcançar, mas vamos brigar muito por isso. Se Deus quiser vamos alcançar tudo o que eles querem. Acima de tudo sempre fui um torcedor da Mocidade. Nunca saí da Mocidade. Sempre participei dos desfiles e de todos os setores da escola. Estamos brigando muito e vamos fazer um grande carnaval.

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