ENTREVISTAS: Nilo abre o jogo

Contestado por muitos torcedores, o presidente da Portela, Nilo Figueiredo, não se omitiu. Recebeu no barracão portelense a reportagem do Carnavalesco. Falou sobre as críticas que a escola vem recebendo por estar, supostamente, com o barracão atrasado. Contou como chegou à Portela, falou sobre o episódio com a velha-guarda em 2005 e rechaçou a hipótese de ser presidente da Liesa. Confira e entrevista na íntegra:

Carnavalesco: Como o senhor começou no mundo do samba e de onde vem a identificação com a Portela?

Nilo: Talvez, eu tenha chegado no samba sem estar voltado para isso, mas vim para ajudar, através de um pedido de um irmão de criação meu, para ajudar ajudar a Portela, isso aconteceu entre 1966 e 67, e acabei me enraizando nisso aí. Em 1971 houve uma nova eleição, continuei ajudando. Depois, virei sócio da Portela e ia na quadra quando queria  e podia, até voltar em agosto de 2004 como presidente. Sou Portela, gosto do samba e tenho orgulho de dizer que durante esse tempo todo só vesti essa camisa

Carnavalesco: Sua experiência na vida militar lhe ajuda para impor mais disciplina na Portela ou ela acaba te atrapalhando para lidar com algumas questões do Mundo do Samba?

Nilo: Eu estou na reserva há muito tempo e desde jovem eu já fazia parte de escolas militares, aprendi o que é a disciplina. A gente precisa entender que uma organização para ir em diante precisa ter comando. Se alguém não está satisfeito com a forma com que dirijo a Portela, talvez esse alguém não saiba o que o melhor para a escola. A Portela de um tempo pra cá, é uma escola que vai para a Avenida de forma disciplinada e ao meu juízo desfila muito bem. As pessoas podem até não gostar do Nilo, mas a disciplina que a gente impõe elas tem que gostar.

Carnavalesco: Quando se candidatou à presidência da Portela encontrou resistência dentro da sua família ou dentro da própria escola?

Nilo: Dentro da família não. Procuro sempre dar um rumo à minha vida. Dentro da Portela sim. Havia outro lado, os opositores. Sabíamos que não ia ser fácil a eleição, mas as nossas ideias poderiam progredir com a Portela. A escola estava há muitos anos sem estar na mídia e quem não é lembrado é esquecido e desrespeitado. Essa briga, no bom sentido, nós ganhamos. Um fato que deve ser lembrado é a visita do presidente Lula, que foi noticiada em diversos lugares de todo o Brasil. Foi a primeira vez que um presidente no exercício de seu mandato foi a uma quadra de escola de samba.

Carnavalesco: Como foi enfrentar aquele problema no desfile de 2005 logo em seu primeiro ano de mandato?  

Nilo: Naquele ano, eu não dei ordem para que se fechasse o portão, até porque quem fecha o portão é a Liga. O carro teve um problema no motor e quebrou, Além disso, a direção não era hidráulica e ele ficou emperrado na porta da Avenida. Era a nossa maior alegoria. Havia 21 integrantes da Velha-Guarda e 42 crianças, que choraram muito, porque era a primeira vez delas na Sapucaí e não puderam. Tudo se voltou para tratar só do problema da Velha-Guarda, mas as crianças foram muito importantes naquele momento. Quando o carro não podia mais entrar na Avenida, Jorge Perlingeiro me perguntou se aquela alegoria entraria e eu disse que não tinha condições, vou fazer o quê? Olhei para o relógio e só havia mais 18 minutos para o carro passar na Avenida.

Carnavalesco: Se pudesse fazer algo de diferente a preparação da Portela para aquele desfile, o que faria?

Nilo: A Portela fez um esforço muito grande. Era um enredo que já havia sido escolhido quando assumi a escola e era um compromisso por escrito, firmado com o secretário-geral da ONU. A Portela não recebeu recurso de lugar algum. Tinha que fazer o Carnaval com os recursos que viessem da Liesa e da venda de ingressos. Não havia o repasse de verbas federal, nem estadual, veio depois porque tive chance de chegar junto ao presidente da república e ele disponibilizou um milhão para cada escola. No ano seguinte, criamos uma nova forma de chassi para as nossas alegorias.

Carnavalesco: Temeu ficar marcado negativamente na história da Portela após a repercussão dada pela televisão ao fato?

Nilo: Deram aquela dimensão inteira ao fato sem vir me perguntar antes. Se tivessem falado comigo eu teria dito a verdade. Quando fui alertado do problema, o carro estava a cem metros do portão de entrada. Até corri e ajudei a empurrar a alegoria, coisa que nem cabe a eu fazer, não tenho mais idade para isso, mas não teve jeito.

Carnavalesco: Muitas pessoas falaram que a Portela merecia ser rebaixada naquele ano, o que pensa sobre isso?

Nilo: A Portela tinha feito um grande desfile até aquele momento, foi uma fatalidade o carro quebrar.

Carnavalesco: O senhor conseguiu muitos patrocínios importantes para todas escolas e foi elogiado por outros presidentes, como fez para conseguir isso?

Nilo: Simplesmente cheguei junto ao presidente Lula e pedi o que eu estava querendo e ele deu. Depois, juntamente com o deputado Noel de Carvalho, obtivemos com a ex-governadora Rosinha Garotinho, o primeiro repasse de verba estadual para o Carnaval. O novo governador assumiu e nós conversamos com ele para que mantivesse e ele concordou.

Carnavalesco: E os projetos sociais que a Portela desenvolve?

Nilo: Nós lançamos esse projeto há quatro anos. Foi lançado inicialmente no barracão com o objetivo de lançar jovens para a indústria do carnaval. Depois ele se estendeu para a quadra e conseguimos obter junto à secretaria de Ciência e Tecnologia um apoio para que as crianças tivessem acesso à informática. Temos também, como todas as outras escolas, um consultório odontológico completo. Hoje, na quadra, são mais de 300 crianças envolvidas em projetos sociais. Alguns trabalham até aqui no barracão.

Carnavalesco: E a Feijoada da Portela? Como conseguiram alcançar o sucesso de hoje?

Nilo: Isso foi um projeto do Marquinhos de Oswaldo Cruz e do Serginho Procópio. Quando cheguei lá, se tivessem mil pessoas era muito. Fomos aos poucos ajudando e divulgando na mídia e, hoje, a Portela coloca dez mil pessoas dentro da quadra. Uma coisa que precisa ser dita é que sempre fizemos questão que aquilo fosse um lugar para família, tanto que o nome é Feijoada da Família Portelense.

Carnavalesco: Certa vez o senhor disse que fazer Carnaval no Grupo Especial do Rio sem patrocínio era horroroso. Como anda a vida financeira da Portela para o Carnaval 2011?

Nilo: Ainda estamos brigando para ver se conseguimos algo novo, mas por enquanto, só tem promessa, não saiu nada. Fazer Carnaval hoje é muito complicado. Com a Cidade do Samba, os carros aumentaram, os carnavalescos se expandiram e a tecnologia passou a fazer ainda mais parte dos desfiles. Quando vejo o tamanho de alguns carros chego a me assustar, mas temos que acompanhar essa evolução que está aí. O Carnaval das escolas deve estar beirando uns R$ 7 milhões.

Carnavalesco: Esse é o valor que a Portela vai gastar?

Nilo: Não sei, ainda não sei. Ainda não fechamos. Mas, no Carnaval, tem que se buscar a ajuda que conseguir.

Carnavalesco: Durante os anos que o senhor está no comando da Portela, quantos desfiles foram patrocinados e qual foi valor recebido pela escola?

Nilo: Não me lembro, mas patrocinado foi muito pouco. Só quando os governos federal e estadual resolveram ajudar que melhorou um pouco.

Carnavalesco: O senhor acha que o poder público poderia colaborar com mais dinheiro?

Nilo: Não é só isso não. É necessário que se pense no Carnaval como a preservação do samba, que é algo nosso. Tem gente por aí que anda inventando. Fazendo batida funk no samba. Não tenho nada com isso, mas temos que fazer com que o samba não tenha a sua história maculada. Os governos precisam oferecer às escolas condições para que elas não precisem de outras coisas para fazer seus carnavais.

Carnavalesco: A Portela é a maior vencedora do Carnaval e possui uma das maiores torcidas. Existe algum plano de ação de marketing para aproveitar esse potencial?

Nilo: Sim, isso tem que ser feito, mas através de uma empresa de marketing. Parece brincadeira, mas ainda estamos engatinhando em termos de estruturamento. A Portela precisa de uma empresa de marketing, podemos até ter um diretor aqui para cuidar dessa área, mas ligado a profissionais que saibam trabalhar com isso.

Carnavalesco: Há cerca de dois anos, Eduardo Paes teria dito a interlocutores que gostaria de ver o senhor na presidência da Liesa, pois ele não se sentia a vontade para negociar com pessoas ligadas à contravenção. O que pensa sobre isso? Tem vontade de assumir a LIESA?

Nilo: Em primeiro lugar, ele nunca me falou isso. Ele não vai tratar desse assunto comigo. O que eu pretendo é levar a Portela no lugar dela. No dia em que conseguir isso, terei realizado o meu sonho. Não estou aqui para ser presidente da Liga. Vou ser presidente da Portela enquanto eu puder ser.

Carnavalesco: E a relação do senhor com os outros presidentes?

Nilo: Sou igual a todos. Se tiver algum que não gosta de mim, precisa botar a mão na cabeça e ver que eu consegui muitas coisas para o Carnaval. Eu não cobro nada, nem financeiramente, muito menos um muito obrigado, mas trato todos bem.

Carnavalesco: E os valores gastos no Carnaval de hoje. Acha benéfico?

Nilo: Só sei da minha escola. Não me intrometo em quanto as outras gastam. Alguns presidentes, que são meus amigos, conversam comigo e contam quanto gastaram no Carnaval. Acho que não é benéfico para o Carnaval. Se continuarmos a avançar dessa forma, vai ter escola de samba que vai ter que parar.

Carnavalesco: Se pudesse mudar algo no regulamento. O que mudaria?

Nilo: Eu to cansado de dizer isso lá na plenária. Com eu já sei que o assunto é nebuloso, prefiro não falar sobre isso. Não consigo ver a minha ideia ser vitoriosa.

Carnavalesco: O que houve na disputa de samba da Portela entre a bateria e o Gilsinho?

Nilo: Eu fui no palanque da bateria e mandei que o Nilo Sérgio descesse porque eu achei que a bateria não estava tocando da mesma maneira para todos os sambas. Isso não pode acontecer. Eu chamei o Nilo e falei com ele, não foi o Gilsinho. O mal entendido aconteceu porque eu estava conversando com o Gilsinho quando o Nilo chegou perto. Coitado do Gilsinho, ele não tem nada a ver com isso.

Carnavalesco: Falando em disputa, como o presidente avaliou a disputa entre o Diogo Nogueira e o Junior Scafura?

Nilo: É importante dizer que a Portela mantém sua ala de compositores fechada. Isso possibilita o surgimento de novos valores e mesmo os antigos voltam a fazer samba. Se abrirmos, vem gente de tudo o que é lugar, sem compromisso com a Portela, ganha a disputa e como fica quem está lá os doze meses do ano?

Carnavalesco: Por que a Portela não fez o enredo sobre o Paulo da Portela? Não teme ficar marcado como a Mangueira que não fez sobre Cartola?

Nilo: Ainda não sei. O enredo a gente trata no momento em que tem que se definir. Na próxima feijoada faremos uma homenagem à Clara Nunes, vamos construir um busto dela na Portela. Outros também mereceriam estar lá, mas ainda estão vivos.

Carnavalesco: Após ficar em quarto e terceiro, os portelenses pensavam que a escola ia disputar o título. Só que o desfile de 2010 não foi bom? O que aconteceu?

Nilo: Você acha que a Portela merecia o nono lugar? Como eu não posso discutir nota, fui ver a justificativa. Teve jurado que disse que viemos com muito branco. Eu acho que o grande problema foi que fizemos um carnaval diferenciado. Fomos falar de processamento de dados e internet, coisa que muita gente que estava julgando não entendia, mas foi tudo dentro do contexto. Eles queriam que nós viéssemos de vermelho?

Carnavalesco: Sobre barracão, o mundo do samba sempre fica preocupado com o andamento do trabalho na Portela. Dizem que o presidente Nilo gosta de fazer tudo faltando um mês. Isso é verdade? Os materiais não ficam mais caros?

Nilo: Cada um tem a sua maneira de fazer Carnaval. A Portela faz um Carnaval com muita escultura, isso é importante e difícil de fazer. Não se pega qualquer um para fazer isso. Nós preparamos primeiro todas as esculturas. Algumas precisam colocar ferro dentro, fibrar ela. Temos profissionais aqui que são verdadeiros artistas. Eu não tenho que discutir isso. Todo ano é essa história, aí quando a Portela chega na Sapucaí todo mundo diz que está espantado. Quem tem que ficar espantado sou eu.

Carnavalesco: E a sucessão presidencial? Pensa em alguém para sucedê-lo?

Nilo: Não quero falar sobre isso. Sou o presidente da Portela e só pretendo sair quando a escola puder andar com as suas próprias pernas.

Carnavalesco: Quando a mídia não coloca a Portela entre as favoritas. O que o senhor pensa?

Nilo: Isso me chateia profundamente. Quando olho o jornal falando de fulano, beltrano e sicrano, eu não sou cego. Considero-me um conhecedor de desfiles. Não sei fazer alegoria e nem samba, mas, meu amigo, eu tenho um ouvido… Quando um samba não está bom eu digo na hora e sei o que estou dizendo. Algumas coisas me irritam profundamente. Quando vejo as notas da bateria da Portela, por exemplo. Temos dado um show com a nossa bateria e tomamos nota baixa. Não digo nada, mas, por dentro, machuca muito.

Carnavalesco: Falando de portelenses ilustres, o que o presidente sente quando vê o Zeca Pagodinho desfilando pela Grande Rio?

Nilo: É um direito dele. Ele sai também na Portela e do meu lado. Não posso proibir ninguém de desfilar em outras escolas. Não faço juízo de valores.

Carnavalesco: Qual a importância do Nilo Figueiredo para a Portela?

Nilo: Acho que trouxe o respeito de volta à Portela e muitos portelenses que estavam afastados da escola. Além disso, percebo que o número de simpatizantes e torcedores da Portela tem crescido, e numa faixa etária onde as pessoas não viram a Portela ser campeã. Tem algo nessa escola que fascina. Não sei se é a Águia ou o Azul e Branco. Esse danado desse bicho é o único ser vivente que encara o sol. Não é a toa que muitas coisas importantes usam a Águia como representação. Sou um portelense apaixonado.

Carnavalesco: Por que contratar o Szaniecki? Qual a concepção plástica pretendida?

Nilo: Isso que está aí no barracão. Se você ver as alegorias desenhadas por ele e que estão se materializando, vai entender.

Carnavalesco: Na sua administração, a Portela quase todo ano troca de carnavalesco. Por que isso acontece?

Nilo: Alguns pediram para ir embora, outros foram contratados por outras escolas. Ta aí o Cahê na Grande Rio e o Amauri na Renascer e em outras escolas.

Carnavalesco: Pensa em alguma nova reforma para quadra?

Nilo: Eu não. A Prefeitura vai fazer a obra. O edital já está na rua. É uma promessa do prefeito.

SRZD-Carnavalesco: Qual o quesito que o senhor acha a cara da Portela hoje?

Nilo: A harmonia trazida pela nossa comunidade maravilhosa. Ela participa de uma maneira invejável. Por isso fazemos um esforço muito grande para vestir a escola inteira. A Portela dá fantasia para toda a comunidade.

Carnavalesco: A bateria de mestre Nilo Sérgio é apontada como uma das melhores do carnaval. Como o presidente avalia o trabalho do mestre? Tem receio de ele ser contratado por outra escola como foi o Átila com o Império Serrano?

Nilo: Que ele não bobeie porque tem muita gente boa vindo de lá. Estão sendo formados ótimos ritmistas. Não temo que ninguém saia da Portela. Castelo Branco dizia que o cemitério está cheio de imprescindível.

Carnavalesco: Existe algum profissional do Carnaval que sonha levar para a Portela?

Nilo: Não vou falar isso não. Está todo mundo empregado aí e amanhã vão dizer que eu estou puxando o tapete dos outros.

Carnavalesco:  Qual escola será a maior concorrente da Portela em 2011?

Nilo: Sempre a Beija-Flor. É uma grande adversária, mas tenho grandes amigos lá.

Carnavalesco: Qual a maior alegria e tristeza do carnaval?

Nilo: A maior tristeza foi ver aquele carro quebrar na Avenida em 2005. E a maior alegria é ver a Portela fazer um belo desfile e ouvir aquele povo gritar: É Campeã! Mesmo que os jurados não nos deem o título.

Carnavalesco: O presidente já imaginou como será o dia que a Portela ganhar novamente o carnaval?

Nilo: Vou agradecer toda aquela comunidade.