ENTREVISTAS: Regina Celi abre o coração

Única mulher a presidir uma escola do Grupo Especial atualmente, Regina Celi, comandante do Salgueiro, revelou com exclusividade ao Carnavalesco que já renovou o contrato de todos os segmentos da escola. Ela garantiu também que irá se candidatar para mais de três anos de mandato na Academia do Samba e em nenhum momento mencionou o nome do ex-marido, o ex-presidente da escola Luiz Augusto Duran, o popular Fu. Confira:

Carnavalesco: Quando passou a frequentar o Salgueiro imaginava que um dia pudesse dirigir a escola? Quando começou a pensar nisso? Sentiu medo?

Regina Celi: Medo não. Eu sempre gostei muito de Carnaval. Tinha um sonho de criança de um dia ter muito dinheiro e ajudar uma escola. Comecei a frequentar a escola com 14 anos, depois fiquei íntima da direção. A história de ser presidente começou com uma brincadeira. Algumas pessoas falavam isso pra mim. Depois comecei a pensar nisso e resolvi colocar uma chapa. A escola estava pedindo e eu resolvi encarar.
 
Carnavalesco: Presidente ou presidenta? Como prefere ser chamada?

Regina Celi: Para mim pouco importa. O importante é ser de fato presidente ou presidenta.

Carnavalesco: Como entrou no samba?

Regina Celi: Frequento escolas de samba desde pequena, e no Salgueiro através, do meu ex-marido (Luiz Augusto Duran – o Fú).

Carnavalesco: No período em que esteve no Salgueiro e não participava da diretoria, aprendeu mais a fazer certas coisas ou não fazê-las?

Regina Celi: A não fazer certas coisas. Eu aprendi a respeitar os outros. Muitas vezes as pessoas têm poder e acham que podem menosprezar e pisar nos outros. Eu aprendi nos bastidores. Ali você sabe de coisas que muita gente nem imagina. Eu gosto de dar respeito às pessoas, por isso que minha presidência deu certo. Estendo o respeito a todos: diretoria, componentes, jornalistas, até mesmo pessoas importantes já foram expulsas do nosso camarote e eu não pude fazer nada. Era simplesmente a mulher do presidente e hoje não. Boto e tiro quem eu quero.

Carnavalesco: Qual foi o principal problema administrativo que enfrentou ao assumir o Salgueiro?

Regina Celi: O Salgueiro vive do que ele arruma na quadra e o que vem da Liesa e da Prefeitura, além dos amigos que nos ajudam. Ás vezes nem é muito, mas um pouco do que cada um dá já faz a diferença.

Carnavalesco: Quando resolveu se candidatar à presidência, enfrentou resistência entre familiares e amigos?

Regina Celi: Não, todos sabem que eu amo o Carnaval. Nem ia adiantar.

Carnavalesco: No que a mulher leva vantagem sobre o homem na hora de administrar uma escola de samba?

Regina Celi: Não digo que seja pelo fato de eu ser mulher. Acho que a diferença, até é uma coisa que eu considero errado, mas não consigo ser diferente, é que eu boto muito o meu coração na administração. Trato a todos como se fossem meus filhos.

Carnavalesco: Como é a vida de uma primeira-dama de uma escola de samba?

Regina Celi: Não sei se o que valeu para mim vale para todas, mas não tenho a mínima saudade dessa época. Via certas coisas e não podia fazer nada. Sofri muito.

Carnavalesco: Você é a segunda mulher a presidir o Salgueiro. Por que na história do Carnaval tão poucas chegaram a este posto?

Regina Celi: Acho que é falta de oportunidade mesmo. Não acredito que o sexo seja determinante para alguém dirigir algo.

Carnavalesco: E nas plenárias da Liesa? Sentiu algum preconceito por parte dos outros presidentes?

Regina Celi: Nunca. A Liesa é o lugar onde me sinto mais a vontade e protegida. Tenho o respeito de todos.

Carnavalesco: Logo em seu primeiro ano de mandato, você conquistou um titulo que não vinha há 15 anos para o Salgueiro. O que fez de diferente na preparação para aquele desfile?

Regina Celi: Mais respeito e alegria. Voltou o Salgueiro alegre na Avenida. Não o militarismo que a escola estava mostrando. Eu disse para a comunidade que tínhamos que passar alegria para o público e para o jurado, além de cantar o samba. Isso fez a diferença.

Carnavalesco: Esperava estrear vencendo?

Regina Celi: Não. É claro que fazemos um trabalho para obter o melhor resultado, mas estrear vencendo foi um baque. Apesar disso, foi merecedor. O desfile foi perfeito.

Carnavalesco: E em 2010? O que deu errado?

Regina Celi: Os jurados foram perfeitos. Ficamos na posição onde deveríamos ficar. Não foi um Carnaval para ser campeão. Temos ciência disso. Tanto que este ano estamos fazendo um Carnaval mais digno. As pessoas que vão ver terão essa certeza. Se o desfile deste ano fosse feito no ano passado, poderíamos ter bastante chance de se bicampeão.

Carnavalesco: Como é a vida financeira do Salgueiro? Quais são as principais fontes de renda da escola? O título de 2009 veio só com a subvenção comum?

Regina Celi: Fizemos o desfile de 2009 só com o dinheiro que fazemos na quadra e as subvenções. Além de pagar contas que tínhamos que pagar. Nossa vida financeira não é tranqüila, mas fazemos um cronograma bem pés no chão. Se recebemos R$ 4milhões, não podemos gastar R$ 10 milhões. É assim que se trabalha aqui.

Carnavalesco: E o enredo sobre a Itália? Quando sai?

Regina Celi: Tem uma negociação sim. As pessoas se interessaram e conversaram conosco, mas não tem nada fechado. Até agora já arrumaram uns dez enredos, mas te garanto que não há nada fechado.

Carnavalesco: E o enredo de 2011? Foi o prefeito que sugeriu? Tem patrocínio?

Regina Celi: Foi sim. Ele nos indicou e nos interessamos. Eu até brinco. É um prefeito perfeito! Tenho muita admiração por ele. Tem um valor sim, mas não posso revelar. Tenho que esperar.

Carnavalesco: O Salgueiro é uma escola que tem muita entrada na mídia e um trabalho forte de marketing. O que fazer para não perder a essência de bons desfiles de chão da escola? Fazer com que o componente não se deixe levar pelo sucesso da escola.

Regina Celi: Todo mundo sabe que temos três partes no desfile: o início, o desenvolvimento e o final. Na Avenida que se ganha o Carnaval. Ás vezes você tem tudo de bom, mas nada acontece na Sapucaí e, o contrário também acontece. Preciso ter os componentes cientes que precisam cantar na Avenida. O resto quem decide é o júri.

Carnavalesco: E os shows e eventos que o Salgueiro costuma fazer? Dá pra colaborar com o faturamento da escola?

Regina Celi: Muito pouco. Temos que pagar os profissionais também. É só pra não deixar de fazer o evento. Se você cobra muito caro, corre-se o risco de não fazer. Além de ser um dinheiro para os ritmistas e demais integrantes. Eles precisam.

Carnavalesco: E o Departamento Cultural do Salgueiro. Como é feita essa ponte entre os carnavalescos e este setor da escola?

Regina Celi: Eles são maravilhosos, perfeitos! A integração entre o departamento cultural e o Renato Lage é um casamento que deu certo.

Carnavalesco: Passa pela cabeça da direção da escola criar um museu do Salgueiro?

Regina Celi: Com certeza. Tenho três anos de mandato e acho que você não tem que fazer só o Carnaval. É preciso ter um projeto e, em três anos, você não consegue fazer muita coisa. O Salgueiro tem que ter um patrimônio. Um Centro Cultural Acadêmicos do Salgueiro. Onde poderemos receber as pessoas e guardar tudo sobre a escola. Colocar o acervo inteiro da escola aqui. A família salgueirense merece muito mais do que eu já fiz aqui.

Carnavalesco: Recentemente o Leonardo Bessa e o Serginho do Porto foram oficializados como intérpretes ao lado do Quinho. Como foi tomada essa decisão?

Regina Celi: O Quinho foi quem fez o convite. As pessoas não sabem o que acontecem na escola e falam demais. Se o convite tivesse sido meu, eu falaria.

Carnavalesco: E esses boatos que vira e mexe surgem? A que se devem?

Regina Celi: É fruto da oposição que eu tenho aqui dentro. Vou ser bem franca. A vida pessoal não interessa a mais ninguém. Se você faz um bom trabalho não tem que ser cobrado pela sua vida pessoal. As pessoas que freqüentam o Salgueiro há anos percebem a diferença. De 12 anos pra cá, desde a época do ex-presidente, se você pegar os últimos três, muita coisa mudou no Salgueiro. Não quero ficar eterna no Salgueiro, mas acho que os presidentes têm que servir a escola, não se servir dela. Nós vamos passar e a escola vai ficar. Sei que o dia em que eu sair as pessoas vão lembrar bem de mim. Eu respeito o Salgueiro. Eu sou escola, sou comunidade, sou do povo! Não sou aquela de ficar em camarote. Se bobear eu fico na quadra e deixo o camarote pra todo mundo. As pessoas que estiveram no lugar onde eu estou, sabem que a vida pessoal não tem nada a ver com a escola e ficam inventando essas coisas. Fico triste com isso.

Carnavalesco: E a chegada do mestre Paulinho? Como aconteceu?

Regina Celi: Foi o próprio mestre Marcão quem convidou. Sou a presidente, mas tenho os responsáveis pelos segmentos, confio neles. O mestre Marcão sabe o que tem que fazer na bateria. Ele tem total respaldo para isso. O Jô da harmonia a mesma coisa. Se for algo muito sério eu entro em cena.

Carnavalesco: Você pretende chamar o Marcão para ser vice na sua chapa nas eleições?

Regina Celi: Não tem nada decidido ainda. Vou pensar na eleição quando acabar o Carnaval. A minha diretoria hoje continua a mesma. Depois que vou conversar para ver se alguém entra ou sai. É uma coisa que deu certo. Não posso mudar. Todos os segmentos da escola  já estão com os contratos renovados. Todos. Eles vão entrar na Avenida cientes que já estão contratados. Eu sei que eles são bons. Se acontecer algo de errado na Avenida é obra do acaso. Enquanto eu for presidente o Marcão continua como meu mestre de bateria.

Carnavalesco: Qual a sua opinião sobre enredos patrocinados?

Regina Celi: O enredo sendo bom tudo bem. Eu tive um enredo, não vou falar porque é uma coisa chata, que era um bom dinheiro, mas um enredo fraco. Conversei com o Renato e decidimos não fazer. Não adianta fazer um Carnaval rico e passar com um enredo fraco.

Carnavalesco: Quanto o Salgueiro vai gastar neste Carnaval?

Regina Celi: O Salgueiro vai gastar um dinheiro forte. Ainda não sei o valor, porque está no contador, mas estou vindo para brigar pelo titulo. É um Carnaval de primeira. Três meses para fazer uma roupa de uma composição, toda bordada a mão. Meu abra-alas é caríssimo. O julgador vai olhar e ver que o nosso trabalho é de qualidade. Tenho ótimos profissionais no barracão.

Carnavalesco: Acha que o poder público poderia ajudar mais financeiramente?

Regina Celi: Não. Acho que eles já fazem a parte deles. Nós não podemos cobrar sem sermos cobrados. Se cada um fizer a sua parte tudo dá certo.

Carnavalesco: É a sua vontade que a escola volte a ensaiar na Conde de Bonfim?

Regina Celi: É sim. Mas já existe a Império da Tijuca ensaiando no local. Fica difícil. É muita gente. Tem muita briga. É preciso fazer um aparato de segurança entre todos os setores para dar certo. Eu quero fazer. Depois do Carnaval quero fazer com que o Salgueiro desfile de fantasia na Conde de Bonfim, como era antigamente.

Carnavalesco: Recentemente houve um problema envolvendo os presidentes dos Conselhos Fiscal e Deliberativo. Eles entregaram os cargos após a apresentação das contas do Salgueiro de 2009 e 2010. O que houve exatamente neste caso?

Regina Celi: Foi um problema interno. Eu respeito os dois, mas eles preferiram se afastar. Não adianta eu divulgar isso. Nós aceitamos o pedido deles de afastamento.

Carnavalesco: Existe algo no regulamento dos desfiles que você mudaria?

Regina Celi: Como foilã e amante do Carnaval, gostaria que aumentasse um pouquinho o tempo de desfile (risos). É tão pouco tempo. Passa muito rápido. Mas, falando sério, não mudaria nada não. O regulamento está bom.

Carnavalesco: Vai se candidatar novamente à presidência do Salgueiro? O que pretende fazer de novo?

Regina Celi: Vou sim. Eu tive três anos de mandato e sei que como estava a casa. Tenho um projeto de ter uma creche no morro do Salgueiro. Correr atrás de mais patrocinadores. Construir o Centro Cultural do Salgueiro. Trazer patrimônio para a escola. Não penso só em fazer o Carnaval de junho a fevereiro. Tenho folha salarial para cumprir todo mês, contas para pagar. Preciso fazer renda para pagar as coisas. Não posso pensar só no desfile, mas nas crianças, nos adolescentes que ficam na rua, nas mães, que vão trabalhar e não tem onde deixar os filhos. Não dá pra fazer tudo isso só em três anos. Tenho que falar também que não faço nada sozinha. Agradeço a toda minha diretoria.

Carnavalesco: O que é melhor e o que é pior em comandar o Salgueiro?

Regina Celi: O melhor é ver a vontade do componente de vencer. A união da escola. A nova cara do Salgueiro. O pior são as traições. Eu aceito qualquer coisa, menos a traição. Sou amiga pro resto da vida, mas se você me trair pode me esquecer.

Carnavalesco: Pretende continuar revelando os votos na final de samba-enredo? Como decidiu fazer isso?

Regina Celi: Sim. Todos que chegaram a última final do Salgueiro eram nossos amigos. Quando alguns componentes passavam por eles ficavam sem graça de falar qual era o seu samba preferido. Isso dá expectativa aos compositores. Se fosse só eu que escolhesse o samba falaria, mas isso não acontece. Eu até brinquei. Porque não posso dar nome aos bois? Se você votou tem que assumir a responsabilidade.

Carnavalesco: Essa imagem sempre alegre que você passa já foi alvo de críticas?

Regina Celi: Não. Ás vezes os componentes me veem um pouco tristes pelas maldades que falam de mim, mas é aquilo que eu falo: a expectativa da oposição do Salgueiro é desestruturar o Salgueiro achando que vai me atingir, mas fazendo isso eles estão prejudicando a própria escola. O meu papel está feito. A escola na Avenida sem nenhuma dívida no mercado. O Salgueiro já acabou o Carnaval sem dever ninguém. Para mim isso é um orgulho. Eu não tenho curso de administração. Era dona de casa e em três anos de mandato o Salgueiro não tem dívidas.

Carnavalesco: Como consegue renovar todo ano com o Renato Lage?

Regina Celi: Todos sabem que o Renato é excelente. Ele tem liberdade para fazer o Carnaval. Eu pago ele para criar. Porque vou ficar me metendo no trabalho dele?  O Renato Lage faz o que ele quer dentro do trabalho do Salgueiro. Eu tenho relação íntima com a família dele. Amo todos eles.

Carnavalesco: O que houve na saída do Tavinho? Porque o Salgueiro não apostou em mais ninguém para a direção de Carnaval?

Regina Celi: Não tenho nada contra o Tavinho. Respeito muito o trabalho dele, mas ele saiu porque teve um problema com o Marcão. Na época, o Marcão me disse que não continuaria caso o Tavinho ficasse na escola. Não que ele tenha me colocado contra a parede, mas fiquei sabendo de outras coisas sobre o Tavinho também que não me agradaram. Como presidente, optei pelo Marcão. Se você tem duas laranjas, uma podre e uma boa, você não vai ficar com a podre. Até acho o trabalho dele bom, mas pro Acadêmicos do Salgueiro não serve. Quero que ele seja feliz, mas não o quero mais aqui.

Carnavalesco: E saída do Ronaldinho?

Regina Celi: Foi uma decisão dele sair. A Gleice e o Sidclei são a coisa mais linda do mundo dançando. Estou muito satisfeita com eles.

Carnavalesco: Tem algum profissional do carnaval que sonha contratar?

Regina Celi: Se eu fosse contratar as pessoas que admiro teria que ter umas três escolas. Admiro muito o trabalho do Cahê Rodrigues, o adoro como pessoa. O Alex de Souza também. O próprio Paulo Barros. São vários profissionais bons e respeitáveis. Tem o Marcelo Misailidis, a Lucinha Nobre, a Selminha, o Laíla, mas estou satisfeita com os meus profissionais.

Carnavalesco: Qual a escola que será a maior adversária do Salgueiro em 2011?

Regina Celi: Enquanto não passam todas, todas são adversárias. Só na Avenida é que vamos saber.

Carnavalesco: Qual a maior alegria e a maior tristeza vivida no Carnaval?

Regina Celi: A maior alegria foi o campeonato de 2009 e ouvir uma pessoa da velha-guarda, que tem mais de 40 anos de Salgueiro me falar, que quem não fez quando pôde, não fará quando puder. A maior tristeza do carnaval é a traição. Essas fofocas não vão levar ninguém a nada. Daqui a pouco todos esquecem e ninguém fala mais nada.