ENTREVISTAS: Ricardo Fernandes, da Unidos da Tijuca

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Considerado um dos profissionais mais competentes quando o assunto é colocar uma escola na Avenida, o diretor de Carnaval da Unidos da Tijuca, Ricardo Fernandes, recebeu a reportagem do CARNAVALESCO no barracão da escola, na Cidade do Samba, e falou, entre outros temas, sobre as críticas que a Tijuca recebe pela maneira como evolui na Sapucaí. Ricardo também mostrou-se muito contrariado com algumas notas dadas para escola do Borel e revelou qual é a reação quando Paulo Barros apresenta suas ideias.

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CARNAVALESCO: Ricardo, gostaria que você falasse sobre o seu início no samba.

Ricardo Fernandes: Comecei como integrante de ala na Imperatriz em 1980. Fiquei na escola durante 22 anos. Eu era componente da ala da Garra e tinha um grupo de pessoas muito grande que levava para desfilar. Já chegava com essa pessoas todas organizadas. O Carlinhos, que era dono da ala, viu isso e me colocou como diretor da ala dele. O pessoal da harmonia me viu trabalhando e chamou para ser diretor de harmonia. No meu primeiro ano como diretor de harmonia, demonstrei muita vontade de aprender. Perguntei ao Wagner Araújo se poderia ficar vindo ao barracão para aprender mais e no ano seguinte passei a ser o diretor geral de harmonia da Imperatriz.

CARNAVALESCO: Em que ano isso aconteceu?

Ricardo Fernandes: Isso foi antes do Carnaval de 1999. Em 98, o então diretor geral de harmonia, o Ailton, estava muito debilitado de saúde e eu e um companheiro da harmonia, o Raul, já íamos muito ao barracão e resolvíamos muitas coisas. Então em 99, eu assumi a direção geral de harmonia. Fiquei na Imperatriz até o Carnaval de 2002. Em 2003 vim para a Unidos da Tijuca ser diretor harmonia e em 2004 fui também diretor de carnaval. No ano seguinte, o Alexandre Louzada me convidou para trabalhar no Porto da Pedra. Foi um grande desafio, mas a escola pontuou em todos os nossos quesitos. Em 2006, fui campeão na Vila Isabel com praticamente a mesma equipe que havia feito o trabalho no Porto da Pedra no ano anterior. Em 2007, fiz Candaces no Salgueiro. Em 2008 e 2009 voltei para a Vila, com o Alex de Souza, e depois voltei para a Unidos da Tijuca, onde fomos campeões no ano passado.

CARNAVALESCO: Por que acha que foi convidado para ser diretor de harmonia na Imperatriz?

Ricardo Fernandes: Porque via o carnaval de uma maneira diferente. Sempre tive vontade de aprender. Quando eu era pequeno e, depois, como desfilante, ficava me perguntando como uma escola andava daquele jeito, como fazia para a bateria parar no lugar certinho, como o casal tinha que parar em tal lugar. Sempre me fascinou esse lado técnico-tático de uma escola de samba. A minha formação militar na Aeronáutica também ajudou muito. O fato de tudo ter que estar sempre organizado sempre foi muito latente na minha vida e acabou sendo um facilitador para gerenciar pessoas no Carnaval.

CARNAVALESCO: Mas e a diferença de desfilar como folião e ter a responsabilidade de organizar uma escola na Avenida?

Ricardo Fernandes: Acho que já ter sido folião me ajuda bastante. Entendo perfeitamente o que o componente pensa. Quais são as dificuldades que ele passa. Eu sei que algumas coisas que tenho que cobrar, quando eu era folião achava um saco, mas hoje tenho consciência que essas coisas são importantes para alcançar um bom resultado. Existe a competição. Você precisa cumprir o regulamento da competição. Tem o Manual do Julgador. Se ele é certo ou errado é outro tópico, mas temos que cumprir uma cartilha para conseguir a nota máxima. Talvez, hoje eu tenha a maleabilidade necessária para fazer as coisas darem certo.

CARNAVALESCO: Quem é o seu espelho profissional?

Ricardo Fernandes: Sempre fui muito colado no trabalho do Wagner Araújo. Foi com ele que eu aprendi várias coisas. Ele me deu a primeira oportunidade. Até hoje converso com ele sobre algumas coisas. A ligação profissional foi rompida, mas a amizade continua até hoje. Lógico que quando saí da Imperatriz, eu adaptei o meu trabalho às características das outras escolas. Nada é engessado, mas a metodologia de trabalho veio da Imperatriz.

CARNAVALESCO: Algumas pessoas criticam o estilo moderno da Tijuca desfilar. Falam sobre as coreografias e a forma como a escola evolui. Como você recebe essas críticas?

Ricardo Fernandes: As coreografias nas alas existem quando desenvolvimento do enredo pede isso através do carnavalesco. Quando o carnavalesco planeja o carnaval, algumas coisas precisam ser coreografadas para valorizar uma fantasia ou uma ideia. Na Tijuca, as pessoas fazem os movimentos de ala espontaneamente. Quando vocês veem as pessoas levantarem as mãos para um lado e para o outro não é a gente que pede. As pessoas criam a sua própria coreografia e vão passando de uma ala a outra. É espontâneo. Nós permitimos isso. Se cria muita polêmica e falam demais com relação a algumas coisas. Quantas esculturas estáticas passam na Avenida? Quantos índios? Quantas esculturas afros que retratam a mesma coisa? Se estamos sendo repetitivos, isso acontece de pouco tempo para cá. É uma característica em que a escola aposta.

CARNAVALESCO: Atualmente, a Tijuca é a escola da moda. Muito comentada até em meios que não são relacionados ao carnaval. O que fazer para que os componentes não se deixem levar por esse momento e criem identidade com a escola?

Ricardo Fernandes: O filtro principal é a qualidade do trabalho. Enquanto a escola estiver fazendo um bom trabalho ela estará na moda. É natural que quando a qualidade do trabalho cai as pessoas que não torcem tanto para a escola se afastem. Isso acontece em qualquer lugar. Mas nós temos uma comunidade extremamente forte. Ela é a principal razão de ser da Unidos da Tijuca. Esse é o grande ponto da Unidos da Tijuca. Aqui as pessoas são sempre bem recebidas. É claro que há a cobrança, mas ela é feita de maneira equilibrada e educada. Não estamos aqui para destratar ninguém, mas existem regras a serem cumpridas. A Tijuca é uma escola tradicional e que não vai sair da moda. O carnavalesco e eu somos pessoas irriquietas em relação a isso. A palavra acomodação para gente passa longe.

CARNAVALESCO: A Unidos da Tijuca foi a escola mais aguardada no último carnaval. Acha que a escola é alvo de ciumeira das outras agremiações? Por que isso acontece?

Ricardo Fernandes: Acho que a Unidos da Tijuca procurou o seu viés e acabou achando. Temos uma forma de trabalhar diferente. Se isso gera ciúme nas pessoas não sei. Acho que as outras escolas que sentem isso precisam se reinventar. Se reinventar não significa você copiar o estilo do outro. É sair da faixa de acomodação e se questionar artisticamente. Nós aqui nos questionamos sempre. Todos os anos fazemos isso. Acho que o grande segredo de sucesso da escola é esse. Depois do carnaval nós analisamos o que funcionou e o que não funcionou. Fazemos isso sem melindre. Existe uma amizade muito grande entre o Paulo (Barros, carnavalesco), o Fernando Costa, diretor de harmonia, e eu. Nós formamos uma equipe coesa. Um aceita a crítica do outro. Existem escolas em que há competição entre carnavalesco e diretor de carnaval, um quer ser mais do que o outro. A minha função é comprar a ideia do carnavalesco e criar meios para que essa ideia funcione na Avenida. A função do carnavalesco é viajar e colocar as ideias para fora. O carnavalesco não é conhecedor da parte técnica da Avenida, mas tanto o carnavalesco quanto eu somos obrigados a conhecer um pouco a área do outro. Isso tem que acontecer de uma maneira respeitosa. Saber ouvir é uma virtude. Nós acreditamos numa Tijuca forte, unida, coesa. A gente bota isso em prática.

CARNAVALESCO: Como é trabalhar com Paulo Barros? Qual a reação quando ele apresenta para vocês todas ideias dele?

Ricardo Fernandes: A gente brinca muito… Ele chega na nossa sala e fala assim: amigos, tive uma ideia… E a gente: fala, Paulo. Quantos fios de cabelos vamos perder agora (risos)? Mas fazemos tudo sempre no intuito de dar força para que ele faça mais. Eu não posso ter medo de ousar e nem de ter mais trabalho em relação a infraestrutura de levar a escola para a Avenida. Não posso correr esse risco. Eu tenho que fomentá-lo. A relação é a melhor possível. De lá para cá também. Ele tem certeza que tudo aquilo que planejar nós vamos nos esforçar ao máximo para colocar em prática. Nós só conseguimos fazer as coisas acontecerem porque temos um presidente que é presidente. Eu tenho ele dentro do barracão todos os dias. Não preciso ficar catando ele para resolver as coisas. Ele nunca mediu esforços para me dar todas as condições de estrutura para levar a escola para a Avenida. O grande mérito do sucesso da Unidos da Tijuca é do Fernando Horta. Ele trouxe as pessoas certas para os lugares certos e deixa as pessoas trabalhar. Trabalhar aqui é extremamente confortável. O presidente dá toda a autoridade que você precisa para tocar o carnaval.

CARNAVALESCO: Você percebe algum tipo de rejeição dentro da Unidos da Tijuca ao trabalho feito por vocês?

Ricardo Fernandes: Em todo o lugar existe rejeição. Já diz o ditado: toda unanimidade é burra! Quando você mexe em algumas coisas que estão acomodadas, isso arranha a pintura de alguma forma. O que eu posso te dizer é que a metodologia de trabalho dá certo. A escola só chegou onde chegou pelo tipo de trabalho imprimido. Uns torcem a cara, outros não gostam, mas dá certo. Eu não dou ouvidos a conversas de esquina, fofocas. O problema é que algumas pessoas discordam e fazem disso fofoquinha e historinha. Eu não me incomodo em escutar uma sugestão. Deus nos deu dois ouvidos e uma boca, então temos que escutar mais do que falar sempre. Talvez rejeição não seja a palavra correta. Rejeição é quando você tem algo imposto. Aqui se conjuga o verbo na primeira pessoa do plural. Aqui não se conjuga o verbo na primeira pessoa do singular. Quem conjuga o verbo na primeira pessoa do singular está acima de Deus… Carnaval é uma obra de equipe. É claro que na dúvida eu vou na minha opinião. Ocupo um cargo de confiança e preciso tomar decisões, mas, antes disso, eu converso, debato. Ouço ideias de todo mundo. Desde o porteiro ao presidente.

CARNAVALESCO: E as notas dadas para a Tijuca em harmonia e evolução neste carnaval?

Ricardo Fernandes: Deixa eu pegar aqui para não sermos injustos (pega o mapa das justificativas sobre a sua mesa)… Um julgador diz que o tom é mantido, que o ritmo está bem entrosado e isso me parece uma justificativa padrão, porque ele começa todas as explicações dizendo isso. Aí depois ele falou que quatro alas não cantaram… É muito subjetivo quando você pega e diz que quatro alas não cantaram aos tantos e tantos minutos, você não está vendo. Não posso questionar isso. Tenho que acreditar na idoneidade do julgador, apesar de achar que está errado. Tenho uma escola maciçamente de comunidade. Fizemos os melhores ensaios técnicos na Marquês de Sapucaí. Quer dizer que as minhas alas passam nas duas primeiras cabines cantando horrores e chegam na terceira caladas? São 50 metros de uma cabine para outra. Ele fala em ausência de canto nas alas. Quer dizer: a ala inteira não cantou, não foi nem parte da ala, mas sim ela inteira. Essas alas devem ter passado mudas na Avenida. Uma dessas alas é até temática, tinha um capacete, será que foi por causa do capacete que ele deu a nota? Se foi isso seria um absurdo. Aliás, isso já até aconteceu. Em 2007, uma escola do Grupo Especial foi penalizada porque a ala vinha com uma máscara. É uma representação artística! É muito complicado isso. Quem tem que analisar isso é o presidente da Liga. Ele é o responsável pelos julgadores… O outro julgador diz um absurdo. Fala que em duas alas a máscara não permitiu a visualização das bocas dos componentes, comprometendo a avaliação da harmonia. Se ele vê a boca ele julga a harmonia, se ele não vê a boca ele não consegue julgar. O julgamento de harmonia é visual e não auditivo? Ele ainda diz que as referidas alas pareciam não cantar com regularidade… Pareciam! Pareciam! Quer dizer, ele não julga com certeza. Ele penaliza a escola na dúvida. É brincadeira! Isso é um trabalho de oito meses e o cara na hora de analisar ignora isso. Por último tem uma pérola. Essa é uma pérola. O julgador diz que com uma hora e seis minutos de desfile houve falta de sincronia entre o canto e conjunto instrumental em relação a bateria. Ou seja, o julgador diz que por nove minutos estava uma bagunça. Nessa hora a bateria estava dentro do box. Ele não julga o que está na frente dele, julga pelo retorno, o que não é a orientação. Além disso, ele diz que os outros quatro julgadores são incapazes, pois os outros não sinalizam nada em relação a isso. Quero saber como fica a minha escola nessa hora. O presidente da Liga é que tem que resolver isso. É dele a responsabilidade. Ele tem que se embasar tecnicamente. Acredito até que ainda teremos uma reunião para tratar desse assunto. Em evolução, amigo, eu te falo que algumas coisas são questionáveis e outras nem tanto. Tem escola que passa correndo na Avenida e ganha cinco dez. Teve escola que o último carro alegórico levou de 11 a 12 minutos na Sapucaí, mas mesmo assim ganhou nota dez. Eu te garanto que a minha escola evoluiu bem. Por motivos técnicos, eu tive que mudar um pouco a evolução no momento que a escola veio para a minha mão, da metade para o final do desfile. Mas não passou nem perto da forma acelerada que algumas escolas passaram na Avenida e ganharam nota máxima. Isso é algo que precisa ser discutido internamente numa esfera maior.

CARNAVALESCO: Acha que os jurados poderiam avaliar o canto da escola melhor se estivessem no nível da pista?

Ricardo Fernandes: Poderia ser uma tentativa. Eu acho que tudo que for bom para melhorar o julgamento pode ser testado. É lógico que se um julgador estiver na beira da pista ele vai ouvir o canto da escola melhor, mas desmembrar o corpo de julgadores, colocar um na pista e outro lá em cima pode ter influência no resultado. Precisam ver se isso é prático. Que medidas serão adotadas para isolar esse julgador das outras pessoas? Lá embaixo também ele vai ver dez componentes de uma ala. É algo que tem que ser estudado com calma.

CARNAVALESCO: Qual o ponto do desfile da Tijuca que você reprova em 2011?

Ricardo Fernandes: A evolução da escola poderia ter sido melhor. É algo que já conversamos internamente. Tem uma parcela de culpa minha nisso. Quando digo isso não é em relação a "puxada" da escola. Algumas brigas de propostas que nós aceitamos, mas posso dizer que chamo a responsabilidade para mim. O sucesso faço questão de dividir com todo mundo, mas quando a coisa não vai muito bem planejada eu faço questão de assumir sozinho. Não permito que os que trabalham comigo sejam afetados. Não que a evolução tenha sido ruim, mas em função de algumas propostas que nós aceitamos, que eram apostas, essas apostas não aconteceram. Isso deu reflexo na evolução.

CARNAVALESCO: A demora para a saída do abre-alas da Sapucaí foi um dos problemas que influenciou na evolução?

Ricardo Fernandes: Isso influenciou quando eu tive que meter a mão na escola de uma maneira um pouco diferente do meio para trás do desfile. A demora do abre-alas para sair não aconteceu por nenhum erro operacional da escola. Um funcionário da dispersão que meteu a mão errado no abre-alas e puxou ele reto, antes de desacoplar, são coisas que as pessoas não sabem, por isso que tivemos de acelerar a escola, mas, volto a te falar, essa aceleração é menor do que algumas escolas que tiveram que passar na Avenida rápido para caramba e pontuaram notas máximas.

CARNAVALESCO: Acredita em favorecimento no resultado do Carnaval?

Ricardo Fernandes: Você há de convir que o mundo do Carnaval é pequeno e as pessoas se conhecem, mas tenho que acreditar na idoneidade do julgador. Ele pode ser incorreto no critério de julgamento. Errar é do ser humano, mas você nunca pode desconfiar da honestidade dele. Se ele errar muitas vezes precisa ser substituído. Não vejo que exista favorecimento. Não sou veementemente contra as notas que foram dadas para Tijuca. O que acho errado é o excesso de notas dez dadas a algumas escolas em comparação com a Unidos da Tijuca. Tão ruim quanto penalizar uma escola é dar nota máxima quando ela não merece. Gostaria de entender algumas notas máximas que foram dadas a outras agremiações.

CARNAVALESCO: E o enredo para 2012? Como está a definição?

Ricardo Fernandes: Se for patrocinado é algo pertinente ao presidente da escola. É algo que ele vai resolver. É lógico que ele conversa com a gente, mas a decisão é dele. Se for enredo autoral, tem algumas possibilidades que o Paulo Barros já conversou com a gente, mas não tem nada definido ainda.

CARNAVALESCO: Já aconteceu do Fernando Horta indicar algum enredo patrocinado e vocês irem contra?

Ricardo Fernandes: Não. Nós nunca vamos contra ele. O presidente conversa bastante com a gente, mas ele tem uma característica muito positiva. O primeiro requisito para um enredo patrocinado vingar na Unidos da Tijuca é ele ter qualidade. O presidente nos ouve nesse sentido. Ele tem essa consciência.

CARNAVALESCO: Tem mágoa de alguém no Carnaval? Alguma pessoa que não trabalharia mais?

Ricardo Fernandes: Sinceramente, não tenho tempo para ter mágoa. É lógico que se houvesse alternativa de trabalhar com outras pessoas em detrimento daquelas que eu não quisesse eu faria uso, mas tenho que ser profissional. Não posso misturar o campo pessoal com o campo profissional. Eu posso não gostar da pessoa, mas se ela for boa para a escola, eu tenho que passar por cima disso. Acima de mim, existe a escola em que estou. A escola não pode ser prejudicada por uma pendenga pessoal. Sou muito prático com relação a isso. Já me decepcionei sim com algumas pessoas. Já depositei confiança em algumas pessoas e me decepcionei.

CARNAVALESCO: Você tem interferência nas contratações que a Tijuca vai fazer?

Ricardo Fernandes: Sentamos e conversamos, mas a palavra final é do presidente. Mostramos para ele o motivo da indicação, mas a decisão final é dele.

CARNAVALESCO: Sabe se a obra na Avenida Venezuela vai se estender até o período que a escola começará a fazer os ensaios de rua?

Ricardo Fernandes: Isso é algo que nos preocupa. Não vamos poder ensaiar na Sapucaí também, ela estará em obras. O Maracanã, que é a Sapucaí, está fechado. E o Engenhão também, que é a Venezuela (risos). Já estamos procurando uma alternativa para não ficarmos enrolados. Existe uma opção pelo Centro, mas não há nada confirmado, seria prematuro falar. A sub-prefeitura ficou de nos dar alguma opção. O ensaio da Tijuca no Centro virou uma grande atração. A Venezuela era a Lapa do samba na quinta-feira. Acredito que no início de junho já tenhamos alguma posição.

CARNAVALESCO: Acha que Salgueiro e Unidos da Tijuca se beneficiaram por ensaiar no Sambódromo?

Ricardo Fernandes: Não acho. No carnaval se você faz algo diferente todo mundo fica com uma ciumeira porque você está fazendo aquilo. Não foi o caso do Salgueiro, eles também estavam sem local para ensaiar. Cheguei até a escutar de um diretor de outra escola que eles haviam liberado a Avenida para nós. Pelo amor de Deus! As escolas precisam se ajudar. Nós não tínhamos espaço pra fazer recuo de bateria, andávamos menos metros do que na Av. Venezuela e a única coisa de diferente era o contato com a Sapucaí, mas não levou nem mais nem menos gente. Os ensaios na Venezuela eram um formigueiro humano. Para gente foi mais preocupante. O trabalho que fizemos em cima dos componentes antes do último ensaio foi muito forte. Martelamos muito. As pessoas que acham que tivemos muita vantagem, não olham mais à frente.

CARNAVALESCO: Acha que a Tijuca teve o mesmo rendimento de canto do que o mostrado em 2010?

Ricardo Fernandes: Para os julgadores não. Teve julgador que queria ver dinossauro cantar. O rendimento foi muito bom. Cria-se um engano. De ano para ano os sambas são diferentes. Às vezes um samba tem uma região de canto mais alta do que a outra. São sambas diferentes, tonalidades diferentes, isso tudo pode influenciar. O componente cantou bem foi um rendimento parecido com o de 2010.

CARNAVALESCO: Algumas pessoas criticam que os sambas da Tijuca são somente usuais para o desfile. É uma estratégia da escola? Concorda com isso?

Ricardo Fernandes: Qual samba que não tem prazo de validade nos padrões atuais? Todos eles são assim. Mudou a disseminação do samba nas radios. Há 20 anos atrás o presente de Natal de todo mundo era o disco das escolas de samba. Chegou a vender 2 milhões de cópias. Tivemos uma invasão de outros ritmos musicais nas radios. O samba de 2003 da Tijuca foi considerado um sambaço. Quem escuta ele nas rádios? Quem escuta o samba de 1999? Os sambas da Imperatriz foram sambas maravilhosos nos últimos carnavais, mas ninguém os ouve. Não é culpa das escolas de samba. É o formato. Qual música do Roberto Carlos recente faz sucesso? Nenhuma… Os críticos só criticam samba-enredo. Porque eles não avaliam o mercado. O perfil artístico da Tijuca mudou, então os sambas mudaram também. É claro que se aparecer uma grande obra nós vamos escolher. O perfil mudou, não só em termos de samba-enredo, mas em todos os ritmos.

CARNAVALESCO: E a reforma do Sambódromo?

Ricardo Fernandes: É necessário que se faça algo para valorizar a acústica do Sambódromo. O som precisa se propagar melhor. Ele não pode ser alto para umas escolas e baixo para outras (risos).

CARNAVALESCO: E no regulamento? Mudaria algo?

Ricardo Fernandes: É uma questão muito ampla. Na verdade, o que reza o julgamento é o Manual do Julgador. O regulamento rege as obrigatoriedades e deveres das escolas, mas acho que isso precisa ser conversado com calma. Se fosse para abrir discussão em cima dessa questão, as pessoas que colocam a mão na massa para fazer o carnaval teriam que ser ouvidas. Essa discussão não pode ser meramente administrativa, mas sim operacional, de quem opera o carnaval.

CARNAVALESCO: O que você acha do nível dos desfiles atualmente? Acha que o valor do ingresso é compatível com o que é visto na pista?

Ricardo Fernandes: Acho que sim. O público paga o mesmo valor para ver um espetáculo e na Sapucaí, ele vê seis espetáculos de 82 minutos cada. É justo.

CARNAVALESCO: Muitos presidentes consideram impossível fazer um carnaval de bom nível no Grupo Especial sem patrocínio. A Tijuca, mesmo sem patrocínios oficiais, vem provando o contrário? Qual o segredo?

Ricardo Fernandes: A Tijuca tem muitos amigos. Pessoas e empresas que ajudam o presidente a viabilizar o processo do carnaval. São parceiros de longa data. Patrocínio você tem por um ano e parceiro por toda a vida. A parceria não é só injeção de dinheiro. A parceria pode oferecer algumas coisas que te ajudam a não gastar a verba da subvenção com outras coisas que não seja para o carnaval. Esse trabalho feito pelo presidente foi primordial para a Tijuca ter chegado aonde chegou. Ele tem uma escola administrada na mão. Nós aqui temos consciência disso. Nós não usamos elevador no barracão. Nos banheiros existem mensagens para economia de água. Substituímos todos os refletores por lâmpadas mais econômicas. Essas pequenas coisas ajudam a enxugar o orçamento da escola. Temos que criar caminhos e meios para ajudar a sustentar a agremiação.

CARNAVALESCO: Qual o seu ano inesquecível na Marquês de Sapucaí?

Ricardo Fernandes: 2010. Este título marcou várias superações. Superações até pessoais. A escola, merecidamente, pôs fim a um jejum. Foi campeã de forma unânime. Neste caso, a unanimidade não foi burra (risos). Fomos para a Avenida com muita garra. Eu queria muito que aquele desfile desse certo.

CARNAVALESCO: Qual gostaria de esquecer?

Ricardo Fernandes: É uma pergunta difícil… É engraçado… O carnaval de 2007, por exemplo, de Candaces, foi um carnaval tão bacana, tão bonito, que todos elogiaram e nós saímos da Avenida com a sensação do dever cumprido e esperançosos no título, mas nem voltamos para o desfile das campeãs. Talvez esse eu gostaria de esquecer, mas foi muito bacana para esquecê-lo. Eu acho que não tem não. Todos os carnavais, de certa forma, me serviram de aprendizado. Até aqueles em que eu não fui feliz. Prefiro me lembrar dos inesquecíveis, como de 2010 e o de 1999, na Imperatriz, quando fiz minha estreia como diretor geral de harmonia sendo campeão. Naquela época meu filho tinha acabado de nascer também. Estava muito feliz.

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