ENTREVISTAS: Wagner Araújo, da Imperatriz

Duas décadas de comando na Imperatriz Leopoldinense, seis títulos conquistados e muito respeito no Mundo do Samba, esse é o currículo de Wagner Araújo, que recebeu a reportagem do Carnavalesco no barracão da escola na Cidade do Samba e falou sobre os mais diversos assuntos. Wagner admitiu a postura antipática no dia-a-dia dentro da escola e revelou detalhes do modo de desfilar que deu títulos à Rainha de Ramos. O diretor de carnaval comentou as críticas que a agremiação recebe e a queda no nível dos desfiles da escola na última década.  Comente a entrevista no Twitter do Carnavalesco. É só usar @tercarnavalesco

Carnavalesco: Como chegou na Imperatriz? Faça um resumo de sua história no Carnaval.

Wagner: Eu entrei no Carnaval pela Vila Isabel em 1985. O presidente era o Capitão Guimarães e eu freqüentava a escola. Ele me convidou para participar do grupo que administrava a Vila Isabel. Não tinha nenhuma experiência de administração de Carnaval. Eu sou economista, trabalhava no mercado financeiro e nos primeiros meses que participei percebi que a escola de samba era um movimento cultural que movimentava uma quantidade enorme de dinheiro. Esse dinheiro muitas vezes era perdido. Não no sentido de ser desviado, mas na compra indevida de alguns materiais e etc. Fiquei a Vila até o Carnaval de 1987 e, no ano seguinte, o Capitão Guimarães assumiu a presidência da Liga. Todos os diretores dele saíram da Vila Isabel e eu fui ajudar no Carnaval da União da Ilha, que tinha o Peixinho como diretor de Carnaval na época. Em 1988, a Imperatriz fez um péssimo desfile e o presidente Luiz Pacheco Drummond me convidou para trabalhar na escola. Já fiz 23 Carnavais na Imperatriz e ganhei seis títulos, além de muitos vice-campeonatos a alguns terceiros lugares. Ajudei também algumas escolas a subir para o Grupo Especial, como a Viradouro, a Renascer, a Rocinha.

Carnavalesco: Você é apontado como um dos principais responsáveis pela perfeição técnica mostrada pela Imperatriz na década de 90. Como chegou a esse estilo de desfile?

Wagner: Na verdade, eu havia visto o desfile da Imperatriz de 1988 e, naquele ano, a escola não foi nada bem. A Imperatriz seria rebaixada junto com a Cabuçu. A Imperatriz era uma escola que as pessoas já observavam, pois havia sido campeã em 1980 e 1981, além de outros bons Carnavais. Quando cheguei na Imperatriz achei que a escola precisava criar algo forte para marcar sua identidade. Nós concorríamos, e isso acontece até hoje, com escolas de poder de torcida muito forte: Salgueiro, Mangueira, à época Mocidade. Essas escolas faziam a pista vibrar antes do desfile começar. Eu precisava mostrar algo diferenciado, que chamasse a atenção para a escola na competição. Observando pela televisão eu via que as alas naquela época eram muito desorganizadas. Havia verdadeiros rombos entre as alas e até dentro delas. As alegorias a mesma coisa. Tinha alegoria que ficava dez, 15 metros pra trás no desfile. A imagem da televisão acentuava isso. Eu pensei em organizar isso, estruturar essa parte. Tive muitos problemas no início. As pessoas não entendiam isso. Era uma mudança radical e algo que exigia disciplina e obediência dos desfilantes. Naquela época as escolas de samba eram muito parecidas com fundo de quintal, as pessoas faziam o que queriam. O presidente me deu força, segurou a barra. O meu posicionamento não é muito agradável no dia-a-dia. Sempre fui uma pessoa antipática e grossa, mas mal-educada não. Eu precisava chamar atenção para explicar e passar para as pessoas o que eu queria. Em escola de samba é complicado trabalhar com democracia. É uma gama heterogênea de pessoas e você não pode ter um discurso para cada um. Eu sempre achei possível as pessoas sambarem, se divertirem, cantarem o samba, de maneira organizada. Deu certo. Nós ganhamos o Carnaval em 1989. Saímos do último lugar para o título.

Carnavalesco: Como foi a reação da mídia especializada na época?

Wagner: Na época a mídia vestia muito camisa de escola de samba. Era algo muito amador. Havia muita paixão. Tomei muita porrada por causa disso. O pessoal dizia que era um exército, um desfile militar, mas ganhamos mais três títulos na década de 90, além de disputar todos os outros. A nossa pior colocação na década de 90, quando ficamos em sexto lugar.

Carnavalesco: Acha que a Imperatriz continua mantendo o nível técnico dos desfiles da década de 90?

Wagner: Tecnicamente sim, mas não podemos esquecer que é preciso acertar no aspecto plástico-visual, ter um samba que empolgue o seu componente e, que é o mais importante, ser melhor do que as outras. Hoje acontece algo diferente. As escolas que investem pesado na comunidade se dão melhor. Hoje não se vende mais fantasia como antigamente. O carioca que gosta de samba não compra mais fantasia. Ele prefere curtir, de forma mais longa e mais econômica, as quadras. Atualmente, é muito mais divertido quatro, cinco horas dentro de uma quadra do que você colocar uma fantasia, muitas vezes incômoda e que custa caro. Em determinadas escolas você passa em 15, 20 minutos na Avenida. A própria situação de vida do brasileiro mudou isso. Será que vale a pena você pagar setecentos reais numa fantasia? Ou o dobro, se for um casal, ou o triplo se você quiser presentear um amigo… Talvez seja melhor viajar, ou fazer uma grande compra de supermercado e curtir de agosto a fevereiro as quadras, sai muito mais barato. O que vem pra gente em alas comerciais são os componentes de última hora. Você não sabe se esse componente sabe cantar o samba, se ele está disposto a obedecer ordens da direção de harmonia, se está disposto a não tirar fotografia. Nós pegamos justificativa de jurado que pune porque o componente vem conversando durante o desfile, apontando para os famosos… As escolas que investem na comunidade já saem na frente. Os últimos resultados do Carnaval nos mostram isso. Eu também faço isso, mas ainda tenho quase 40% da minha escola que chega no dia do desfile. Nesses últimos anos a Imperatriz não teve resultados muito bons. Talvez nós tenhamos acordado muito tarde para as transformações que o Carnaval sofreu. Não é muito diferente do que acontece com algumas outras escolas. Existem escolas que já tiveram suas grandes décadas e hoje não conseguem ter resultados expressivos. Esta foi a década da Beija-Flor. Estamos reestruturando a escola. Procurando nomes novos. Trazendo novamente a escola ao lugar em que ela se acostumou a ocupar.

Carnavalesco: Alguns torcedores da escola se queixam de que o investimento feito hoje não é o mesmo do feito na era dos títulos. Isso realmente acontece?

Wagner: Isso não é verdade! O que pode ter é investimento mal feito no aspecto plástico-visual. É importante que as pessoas que criticam isso saibam que a escola de samba não tem fins lucrativos. Não se faz Carnaval para sobrar dinheiro. Se você tem patrocínio, você faz uma iluminação melhor, coloca mais gente da comunidade… Se você não tem patrocínio, é obrigado a usar o dinheiro da subvenção, o que vem da Liga e o faturamento de quadra, que, no caso da Imperatriz, é muito pouco. Às vezes as pessoas desconhecem isso, criticam e não vão à quadra. Pensam que a Imperatriz está com a quadra lotada e cobra um absurdo de entrada, o que não acontece. Para se ter ideia, tinha escola cobrando 50 reais de entrada em fevereiro e eu cobrava dez, com muito sacrifício. Só encho a minha quadra no domingo com ensaio técnico. Pessoas que te carteirinha e vão lá ensaiar. Culpa da escola? Não. Culpa do entrono, da estrutura. A nossa quadra fica em um local que depois de meia-noite não tem mais transporte. A Zona da Leopoldina sofreu muitos anos com insegurança. Isso é difícil inverter. Nossa quadra não tem mulheres maravilhosas e artistas em seus camarotes, isso chama público. Eu garanto que essas críticas financeiras não têm nenhum fundamento.

Carnavalesco: Outra crítica que a escola sofre por parte de mídia especializada é o fato de estar acomodada no Grupo Especial, até por ter uma boa relação com a Liesa…

Wagner: Esse negócio de boa relação com a Liga todas as escolas têm. Tudo lá dentro é discutido, apesar de algumas pessoas acharem que algumas escolas têm ascendência sobre a Liesa, isso não acontece. Se algum presidente não se pronuncia é um problema da escola. Todos os presidentes têm liberdade para fazer. Não há acomodação. O que há é uma resposta parecida com a última pergunta. A crítica normalmente vem em cima dos resultados. Assim é muito fácil. Porque eu não tirei nota máxima na minha comissão de frente e algumas escolas, com comissões duvidosas, ganharam? Prevaleceu a camisa da escola ou outros interesses? Para citar um exemplo: não vou citar o nome do jurado, mas quando eu fiz o Carnaval de Santa Catarina, eu trouxe uma comissão de frente que usava duas bigas e, que, em alguns momentos, subiam dois rapazes em cada biga. O julgador, preso ao regulamento e até com alguma razão, me tirou alguns décimos por que ele dizia que apenas um elemento poderia subir na alegoria. Em 2010, e também em 2011, o regulamento dizia que comissão de frente era o primeiro contingente a pé e fantasiado de uma escola de samba, teria que ter o mínimo de dez e o máximo de 15. Eu vi, em três ou quatro comissões das mais premiadas, apenas um integrante aparecer. Esse mesmo julgador que me tirou ponto deu nota máxima para essas comissões. E aí? Cadê a mídia que me critica para falar isso? Eu respeito o trabalho da imprensa, até porque não entendo nada de jornalismo, mas na minha opinião algumas pessoas da mídia não entendem nada de Carnaval. Existem pessoas com interesses. A minha cabeça fica confusa como diretor de Carnaval. Em alegorias e adereços teve julgador que me puniu pela parte de trás das minhas alegorias. E já vi escolas de nome passar com alegorias quebradas e não serem penalizadas. Não estou criticando nenhuma escola, até porque não são elas que dão notas. Mas quero que os críticos me digam, por exemplo, o que vou fazer na minha comissão de frente no ano que vem. Não sei se faço algo onde pessoas não fiquem aparentes. Teve um julgador este ano, que disse na justificativa que eu não consegui levar para a Avenida um clima hospitalar na minha comissão de frente. A única coisa que eu posso entender é que ele não entendeu nada. Quis levar os doutores da alegria para a Avenida, que é algo altamente carnavalesco. Aí na minha cabeça fico pensando: será que essa nota é encomendada? Será que esse cara não entendeu nada mesmo? A pessoa que é formadora de opinião na imprensa deveria ter mais responsabilidade e conhecimento um pouco maior sobre aquilo que está falando. Ainda vejo pessoas de sites e jornais chegando aqui no barracão na semana do desfile e perguntando quem é o carnavalesco. Não estou nem querendo defender o Wagner não. Se estou aqui tenho que sofrer críticas mesmo. Estou defendendo o evento. Alguns críticos ficam levantando hipóteses… Ah está desleixado, está gastando menos dinheiro, ah é roubado. As coisas não são assim.  

Carnavalesco: Como está a vida financeira da Imperatriz neste momento?

Wagner: A escola está limpa. Não deve um centavo sequer a ninguém. Nós administramos a Imperatriz de maneira rigorosa. Também sou presidente administrativo da Imperatriz. Não fazemos absurdos. Se há algum contrato de patrocínio este dinheiro é usado integralmente no carnaval. Além disso, como todos sabem, se falta alguma coisa, a figura do patrono cobre as necessidades. Portanto, se há maus resultados, o problema é outro. Financeiramente estamos impecavelmente em dia.

Carnavalesco: Quanto a escola gastou em 2011?

Wagner: Não temos fins lucrativos, gastamos em torno de R$ 4,8 milhões. Tudo aquilo que nos foi repassado.

Carnavalesco: Como é o relacionamento do Luizinho Drummond com você e o restante da escola?

Wagner: É a melhor possível. Ele está há mais de 35 anos na escola. Gerindo, administrando, participando. Tem algumas opiniões que, às vezes a gente não concorda, mas ele é acessível a discutir as decisões. Não é nada radical. Não impõe nada.

Carnavalesco: Existe oposição dentro da Imperatriz hoje?

Wagner: Tem sim. Todo o lugar tem oposição. Todo comando gera uma imposição. O que eu preferia era que essa oposição fosse mais inteligente. Não uma oposição de vaidade, de querer estar na posição que você está. Sei que muita gente não gosta de mim dentro da Imperatriz. Reprovam as atitudes que eu tomo, mas se esqueceram que com atitudes até mais radicais a escola já teve muito sucesso. Você precisa saber conviver com isso. Ter ouvido de mercador. Escola de samba tem muito papo de esquina. Bobos que acha que sabem muito, mas, na verdade, não sabem nada. Há muitos aproveitadores, que acham que estando no seu lugar vão se beneficiar financeiramente. Opiniões estapafúrdias, ideias inacreditavelmente burras, sugestões patéticas. Gostaria que a oposição procurasse a escola querendo ajudar e não se beneficiar.

Carnavalesco: Você acha que o estigma de escola fria atrapalhou a Imperatriz na última década?

Wagner: Com certeza. Isso foi uma preocupação nossa. A Rosa falava que precisávamos desmistificar isso. Eu falava pra ela que só íamos fazer isso com resultado. Mostrando desfiles em que a escola tivesse bom desempenho. Não é num estalar de dedos que você vai ter uma escola empolgada, não é assim. Você precisa ter um bom samba, um bom enredo, o componente precisa se animar com aquilo que vê na concentração. Acontece do samba não funcionar na Avenida e a escola se entrega, não é só na Imperatriz não. O componente precisa entender que ele é o artista. Às vezes ele pensa que o artista está na arquibancada, no camarote. Se o público não reage num primeiro momento, tem puxador que se entrega, não brinca com o público, não passa energia, vibração. A escola de samba precisa entender que ela deve cantar e evoluir muito para ter uma boa reação da arquibancada, mas são pessoas humildes, não estão acostumadas com o palco, com o espetáculo. São vários fatores que influenciam no desfile. Em 2011, eu desfilei com 3.200 pessoas no chão. Destas 3.200, 1.120 chegaram na hora. Tem gente que quando entra na Avenida e vê aquela imensidão fica nervoso, começa a chorar. As pessoas nos criticam de uma forma que muitas não entendemos. É preciso entender que a nossa situação é mais teórica do que prática. Na teoria vai tudo perfeito, mas na hora acontecem coisas que fogem do seu controle. Em 2010, por exemplo, o meu desfile foi profundamente prejudicado pelos tripés do abre-alas. As rodas foram testadas aqui, o ferreiro garantiu que estava tudo bem, mas chegou na hora deu problema. Naquele ano eu estava com uma escola maior do que o comum e fantasias pesadas. Eu tinha que fazer um desfile dinâmico. Colocar a escola na Avenida e fazer o componente esquecer do peso daquela cangalha que ele carregava, passar de uma vez só.

Carnavalesco: E a Rosa Magalhães? Como foi o processo de desligamento dela da escola?

Wagner: Culpa da falta de resultado. A escola não estava conseguindo resultado e depois de ela estar aqui há 17 anos o presidente resolveu fazer uma troca, investir num carnavalesco que já havia passado pela escola e de muito nome. Não houve briga ou confusão. O regime na Imperatriz é presidencialista. O presidente tem o direito de fazer o que ele pensa e o que acha melhor para a escola. Não tem maldade. Tem a vontade de acertar, ganhar. Ninguém quer ficar tirando oitavo, nono lugar. O trabalho da Rosa é muito inteligente, de uma cabeça, de uma cultura impressionante, muito bacana. Às vezes as pessoas achavam ela meio malucona, meio doidona, mas ela é de uma inteligência e clareza impressionante. Ela segurou alguns pepinos aqui também. Pegou muito enredo difícil de fazer Carnaval.

Carnavalesco: Qual era a opinião do Wagner no caso dela?

Wagner: O regime é presidencialista. O presidente resolveu trocar e trocou. Não há esse espaço.

Carnavalesco: E a saídas do Chiquinho e Maria Helena. Com foi a decisão de afastá-los?

Wagner: Eles não foram afastados. Simplesmente deixaram de ser o primeiro casal da escola. A Maria Helena sempre desfilou num carro e o Chiquinho na diretoria. Este ano ele veio como mestre-sala num carro. O respeito ao casal continua. O que aconteceu foi que eles deixaram de ganhar notas máximas e a escola achou por bem mudar. A Maria Helena passou a ter problemas de saúde e ela sabe que teria que se cuidar. A Maria Helena talvez seja a porta-bandeira que mais carregou peso na história do Carnaval. Ela sempre gostou de roupas muito pesadas. Gostava deste sacrifício. Duvido que alguma porta-bandeira hoje carregue alguma fantasia que ela carregou. É a competição que te leva a fazer isso. Você acredita que pode buscar alguém que tenha acompanhado as transformações do evento. O Chiquinho tem uma boutique dentro da Imperatriz, se beneficia disso. A Maria Helena está lá em todos os ensaios. Mudamos também a direção de bateria e o coreógrafo da comissão de frente, que ficaram um longo tempo na escola e tiveram sucesso.

Carnavalesco: O que mudou para a Imperatriz com a pacificação dos Complexos do Alemão e da Penha?

Wagner: Nada. A Imperatriz continua sendo a mesma. Nunca fomos atrapalhados e importunados por nada. O que nos incomoda é a falta de condições da Zona da Leopoldina: ruas escuras, transporte ineficiente. Só quem não vai lá é que critica. Vai na rua Uranos, que é a principal do bairro e fica esperando o ônibus meia-noite pra ver se chega.

Carnavalesco: E a reforma na quadra? A Imperatriz gastou algo? O que melhorou?

Wagner: A obra foi orçada inteiramente pela Prefeitura. Melhorou algumas coisas referentes a saídas de emergência, que o Corpo de Bombeiros nos exigia, acesso aos portadores de deficiência física, pintura, revisão na cobertura, que era antiga e me preocupava muito. Foi muito positivo.

Carnavalesco: Com relação ao faturamento na quadra? Melhorou?

Wagner: Não. Arrecadamos praticamente a mesma coisa.

Carnavalesco: Passa pela cabeça da diretoria mudar o de ensaios para sábado ou sexta?

Wagner: Já fiz isso. Quando cheguei na Imperatriz passei o ensaio para sábado e não deu certo. Depois para as sextas, para fugir da concorrência. O domingo foi o dia que nos encaixamos melhor.

Carnavalesco: A escola fica numa região rodeada de comunidades carentes. É satisfatória a participação dessas comunidades dentro da escola?

Wagner: Existe a ideia de pode vestir mais gente. A nossa intenção é vestir toda a comunidade, este é o ideal, mas é necessário mais dinheiro. Essa mesma comunidade vai nos cobrar se, mesmo vestindo muita gente lá, fizermos alegorias fracas. Não pensem as pessoas que não damos mais fantasias porque queremos economizar. Se gastarmos muito dinheiro em fantasia, vai faltar para fazer as alegorias. Em 2011, doamos mais ou menos 60% das fantasias à comunidade.

Carnavalesco: Muito se falava sobre a frieza da Imperatriz, mas nos ensaios técnicos a escola é sempre uma das que mais cantam e evoluem bem. Você acha que os ensaios estão ajudando a desmistificar a fama de escola fria?

Wagner: Eu não tenho no ensaio técnico as alas comerciais completas, só as de comunidade. Eu espero que sim, mas ainda tem gente que acha isso. Na verdade eu não estou querendo culpar os presidentes das alas comerciais não. Acho que eles têm dificuldade para comercializar as fantasias. Acredito piamente que o carioca não quer mais desfilar. Ele descobriu a quadra da escola de samba. Era uma coisa muito discriminada. Coisa de malandro, de comunidade carente. Hoje é algo freqüentado por gente de toda a cidade e das mais diferentes classes sociais. Ir à quadra de uma escola de samba é prazeroso. Tem azaração, é um clima legal, alegre. Se há uma confusão as escolas rapidamente acabam com ela. O desfile pra ele é torcida pela televisão. O próprio preço dos ingressos é caro e tem que ser assim, as escolas precisam.

Carnavalesco: Você já falou um pouco sobre isso, mas gostaria que falasse mais sobre o resultado do Carnaval 2011…

Wagner: É chato falar em resultado. Fica parecendo que estou criticando escola de samba e não é isso. Achei que muitas notas não foram merecidas. Uma escola fica parada seis, sete minutos na frente do jurado não pode ganhar dez em harmonia, evolução e conjunto. Isso foi passado pelo presidente da Liga. As pessoas lembram só das notas baixas, mas esquecem das notas dez que premiam quem não merece. Não gostei do resultado do Carnaval. Algumas escolas não se preocuparam muito com a entrada e saída do Sambódromo. Houve um repetição do que aconteceu no ano passado com o meu abre-alas. Muitas fantasias e alegorias sofríveis foram premiadas com notas dez. Tem muito julgador se emocionando e pesando isso na hora de nota de conjunto, evolução. Tá faltando pé no chão, frieza no julgamento.

Carnavalesco: E a reforma do Sambódromo? Alguma sugestão?

Wagner: Acho que tem que melhorar a acústica do Sambódromo. Acho ótimo aumentar a capacidade do Sambódromo. A largura da pista também está ok. O setor 2 estava impraticável. É importante se preocupar com o conforto de quem paga aquele ingresso.Gostaria que eles se preocupassem também com a concentração e a dispersão. Vejo que corremos o risco do desfile engarrafar  e isso não é bom. Isso aconteceu tanto na chegada quanto na saída da Sapucaí. Eu, por exemplo, saí da Cidade do Samba com as minhas carretas para a Sapucaí às três horas da tarde no dia do desfile. Teve uma escola que não estava saindo daqui de dentro. Não cabe a mim citar os nomes, não é necessário. Na volta para o barracão aconteceu a mesma coisa, demorei muito para colocar os carros pra dentro. A dispersão na Cidade do Samba não é punida, mas você usa gente, material, isso deveria ser mais respeitado. Eu sou diretor da Liga e também não posso me eximir de culpa. Temos que ver isso em conjunto com a Prefeitura. Vou dar mais um exemplo: ao lado da Cidade do Samba está sendo construída uma sede do Banco Central. Nós ficamos de madrugada concentrados aqui. Quer dizer, Banco Central, com caixa lotado, de madrugada, é complicado. Tem que ver isso aí. Não só pelo nosso lado, mas pelo lado deles também. Se tivermos que sair daqui direto para a Sapucaí teremos que contar com uma boa vontade da Prefeitura. Parece que o Banco Central ficará preso em 2013. A esmagadora maioria das pessoas que participam do Carnaval se preocupam somente com a fantasia, mas tem muita coisa acontecendo antes durante e depois.

Carnavalesco: E o regulamento para 2012? Existe algo que gostaria de ver diferente?

Wagner: Não adianta sentar e discutir após fortes emoções. Então a Liga está dando um tempo para cada escola analisar as justificativas para depois conversar e ouvir as sugestões. Acho que o regulamento não tem muito o que mudar, mas os jurados precisam ser reavaliados. De que modo o corpo de jurados está vendo o Carnaval. Tem coisas nas justificativas verdadeiramente absurdas. Onde pesa camisa de escola de samba, onde pesa amizade, erros de observação, análises completamente descabidas.

Carnavalesco: Acha que o caminho do Carnaval moderno é a aposta cada vez maior na interação com o público?

Wagner: Acho que esse é o caminho de todo evento, principalmente se esse evento é cada vez mais caro. Eu estava ouvindo uma matéria no radio sobre a venda de ingressos para o show do Paul McCartney. No primeiro dia, em três horas, todos já haviam sido vendidos e, meia hora depois, já tinha cambista vendendo. Na matéria, falou-se em ingresso caro e a jornalista recebeu uma mensagem de um cara do Chile, que dizia que o ingresso lá custava R$ 3.200 e o mais caro aqui custava R$ 700. Ela até fez uma brincadeira dizendo que era mais fácil ele pegar um avião no Chile e vir assistir o show no Brasil. A exigência em cima de eventos caros é a mesma no Brasil e no exterior. Se o Paul McCartney chegar bêbado, rouco e cair no palco ele ninguém compra o ingresso dele se ele voltar daqui a um mês. Nós temos que nos preocupar com o evento. A exigência do público que paga ingresso para um evento longo como o nosso cada vez aumenta mais. O desfile de escolas de samba está, entre aspas, defendido até 2016, pela própria campanha que haverá durante a Copa do Mundo e a Olimpíada. Nós não podemos, em razão disto, deitar em berço esplêndido. A Liga tem que cobrar sempre das escolas de samba a qualidade do evento.

Carnavalesco: O que acha do estilo Paulo Barros?

Wagner: O Paulo Barros foi desfilante da Imperatriz. Ele acompanhava uma destaque da escola. Me dou muito bem com ele. Inclusive quem indicou o Paulo para a Renascer fui eu. Acho o Paulo Barros um excelente artista. Mas, acho também, não é uma critica, diria isso a ele, que em pouquíssimo tempo ele será colocado numa encruzilhada. As pessoas vão começar a dizer que está repetitivo, que está copiando e ele terá que adaptar mais uma vez a capacidade dele para o que ele pensa sobre desfile de escola de samba. Vejo nele capacidade para superar esse desafio.

Carnavalesco: Queria que você falasse sobre o trabalho do Max Lopes. Alguns torcedores criticaram a diretoria quando o nome dele foi anunciado de volta na Imperatriz…

Wagner: Não é muito ético ficar falando de uma pessoa que você está trabalhando, mas eu acho que o Max é um artista de renome no Carnaval e procura se manter dentro de sua história de uma maneira positiva. Quando ele voltou encontrou uma Imperatriz disposta a mudar algumas situações referentes ao tamanho das alegorias, mas, nós, e eu não me eximo de culpa, pois sou diretor de Carnaval da escola, erramos na mão. Este ano fizemos um Carnaval mais leve e descompromissado, mas parece que os jurados não entenderam. Agora ele está se ajeitando, assim como nós procurando o entrosamento perfeito. Tenho certeza que ele faz o máximo que pode.

Carnavalesco: E o mestre Marcone? Hoje a escola é também lembrada pela excelente bateria que tem. Como foi essa descoberta?

Wagner: Só dois jurados não acharam né(risos)! O Marcone foi uma ideia minha. Eu conheci o Marcone na ala mirim com nove anos. Acompanhei o crescimento dele. Conheço pai, mãe, irmã, o irmão dele que faleceu num acidente na plataforma da Petrobrás, os problemas que ele teve, que a família dele teve. Acompanhei os problemas que ele teve com outros diretores de bateria, até por questões que não dizem respeito à bateria. Achei que nós poderíamos investir na qualidade do Marcone. As escolas de samba precisaram evoluir suas baterias para o lado espetáculo. Eu via isso no Marcone. Apesar de ter 27, 28 anos quando assumiu a bateria, ele já tinha essa noção. Insisti com o presidente e ele comprou a ideia. O Marcone mudou a idade da bateria. A responsabilidade dos ritmistas aumentou. Hoje nós temos mais freqüências entre os ritmistas, isso estava um pouco largado. Ele provou que é possível ser novo e trazer um bom resultado para um segmento tão importante quanto a bateria. O Carnaval precisa disso. Precisa de renovação, não só a bateria. Algumas escolas procuram nomes que não estão em condições de dar aquilo que já deram antes. Eu não perco um desfile de sábado e de terça-feira. É preciso arriscar, procurar novidades.

Carnavalesco: Este foi o padrão para contratar o Phelipe Lemos e a Rafaela Theodoro?

Wagner: É mais ou menos o mesmo caso do Marcone. Fui buscar o segundo casal da Vila, que é muito jovem, mas já demonstra muita qualidade. Se burilarmos mais os dois serão profissionais de primeiro nível.

Carnavalesco: Como fazer para valorizar esses profissionais?

Wagner: É sempre uma decisão deles. Nós cumprimos o que tratamos. Damos estrutura e confiança a eles. É claro que no lado financeiro algumas escolas podem chegar com uma boa proposta, mas não acredito que haja outra escola disposta a dar a mesma tranquilidade para trabalhar do que a Imperatriz. Nós não somos chatos. Somos restritos. Os profissionais não precisam ficar preocupados com fofoquinhas. Eles podem ser assediados por outras escolas. É o mercado de trabalho. A competição te leva a usar dinheiro para ter bons profissionais.

Carnavalesco: O que aconteceu realmente no desligamento da Verônica e do Bira?

Wagner: Foi uma decisão do presidente em função de algumas ausências, o não cumprimento de alguns compromissos e historinhas mal contadas. Vimos que não valia mais a pena investir no casal.

Carnavalesco: E o trabalho do Alex Neoral? Este ano a comissão de frente da Imperatriz voltou a ser bastante elogiada…

Wagner: É mais uma aposta. Ele fez a nossa comissão no último ano da Rosa, em 2009. Foi um grande trabalho.  Havia o desconhecimento da parte dele sobre Avenida, mas sempre se mostrou muito interessado em aprender. Eu valorizo muito isso. Acho muito importante essa humildade. Se alguém mais experiente que você quer te ensinar algo você deve no mínimo ouvir. Ele não teve um bom resultado no primeiro ano porque foi atrapalhado por um trem da comissão de frente. Esse trem foi a primeira coisa da escola que ficou pronta. Depois o Carnaval atrasou e esse trem ficou encostado. No final das contas não conseguimos colocar os efeitos inicialmente imaginados nele e as maiores pancadas que o Alex recebeu nas justificativas foram causadas pelo trem . Depois, houve a troca de carnavalesco e quisemos respeitar a opinião do Max, trouxemos um outro coreógrafo, que não foi bem e resolvemos trazer de volta o Alex. Eu conversei com ele sobre a ideia inicial da comissão. Ele achou ótimo e fez um excelente trabalho. É uma pena que um profissional do quilate dele fique rotulado para algumas pessoas por culpa de uma nota estapafúrdia e uma explicação pior ainda. Nós vamos insistir com ele. É extremamente promissor. Tem uma vontade muito grande sugar informações.

Carnavalesco: Como está a questão do Dominguinhos?

Wagner: Aí foi um problema de saúde. A gente está esperando para ver quais serão as consequências do problema dele.

Carnavalesco: Existe um limite de espera?

Wagner: Não, ainda tem muito tempo pra gente ver isso. Daqui a pouco vem disputa de samba de agosto até outubro. Além do mais, a Imperatriz não tem como filosofia invadir terrenos dos outros. Se não der para contar com o Dominguinhos, a Imperatriz vai sentar e conversar para chegar a um novo nome.

Carnavalesco: Muitos presidentes consideram impossível fazer Carnaval competitivo sem patrocínio. Como você faz carnaval sem patrocínio?

Wagner: Fazendo… É assim, aqui existe uma palavra que é respeitada em tudo que se lida com dinheiro: planejamento. Quem se planeja não tem surpresas desagradáveis no final. Não da para abraçar com braços e pernas aquilo que não pode. Você não pode ter cinco para pagar oito. Vejo muito isso acontecer por aí e isso caba prejudicando quem trabalha direito. O comerciante já acha logo que é coisa de escola de samba e prejudica todo mundo.

Carnavalesco: E o enredo sobre o Jorge Amado?

Wagner: Esse enredo já estava definido desde novembro. Pedi ao presidente para anunciar logo, porque sabia que mais alguém ia querer falar sobre o centenário de Jorge Amado. É um enredo popular. A reação dos componentes e da mídia foi muito positiva. Acho até que nunca tivemos uma resposta dessas após uma escolha de enredo, mas é preciso tomar cuidado. Existe muita informação em torno do Jorge Amado e algumas delas não são tão carnavalizáveis. A história dele na Academia Brasileira de Letras e o lado político talvez não sejam o caminho, mas você tem o lado religioso, a literatura, as mulheres, a própria Bahia.

Carnavalesco: Você acha que o poder público deveria ajudar mais as escolas de samba?

Wagner: Olha, pobre sempre quer mais (risos). O necessitado quer sempre mais, mas entendo que o Poder Público faz o que pode. O governador, o prefeito e, espero que a presidente, fazem o que podem. Acho que eles pensam sempre em poder fazer mais. O político vive do bem estar da população. Entendo que qualquer político busque o melhor para a sua administração. O Carnaval é o melhor para a cidade do Rio de Janeiro. Algumas cidades do mundo estão diretamente ligadas a ritmos musicais. Por exemplo, Valsa-Viena, Tango-Buenos Aires, Jazz-New Orleans, Samba-Rio de Janeiro. Você ouve falar em samba no Rio de Janeiro o ano inteiro e a locomotiva disso é o desfile das escolas de samba. Não vejo porque criar barreiras. A partir do momento que puderem fazer melhor vão fazer. É claro que as pessoas cobram o dinheiro destinado ao Carnaval, mas nunca pensam no retorno que o Carnaval dá. O prefeito é fanático por escola de samba e é muito inteligente por definir publicamente suas preferências.

Carnavalesco: A Imperatriz tem levado belos sambas para a Sapucaí nos últimos anos, mas um fenômeno que atinge não só a Imperatriz é o fato de os sambas atuais não serem cantados após o Carnaval. Por que acha que isso acontece?

Wagner: Essa é uma discussão longa. Envolve mídia, dinheiro, pirataria, inocência, o público era mais inocente. Havia programas de rádio nas quadras, programas de samba na radio. Hoje, você sabe melhor do que eu, que para ter um programa de samba na radio é preciso um patrocinador que te banque o ano inteiro. Antigamente tínhamos também nos grandes programas de televisão os sambas-enredos tocando, isso não acontece mais. Hoje tudo é dinheiro. Se a escola de samba for pagar para o samba ser executado da maneira que acontece hoje não sei se seria vantajoso. Antigamente não havia a concorrência que há hoje, de outros ritmos, de gravadoras que pagam para o artista tocar na radio. A pirataria te atrapalha um pouco, se bem que prejudica todos os ritmos. Um cd de escola de samba em sua concepção é igual a todos os outros cd´s, mas não tem uma música de trabalho, não podemos ter, senão uma escola leva vantagem sobre a outra. Essa é uma discussão que várias pessoas precisam sentar na mesa e opinar.

Carnavalesco: Nesse tempo todo de Imperatriz, o que você fez que não repetiria jamais?

Wagner: Algumas vezes eu não concordei com algumas idéias de desenvolvimento de desfile, mas por respeitar acabei aceitando. Talvez tenha ficado calado demais em alguns momentos. Depois vinha o resultado e o arrependimento.

Carnavalesco: Qual o ano dos seus 23 de Imperatriz que prefere esquecer?

Wagner: 2010. Esse daí não gostei, porque via que não tinha como, não era prático, não era Carnaval!

Carnavalesco: Dos seis títulos conquistados por você na Imperatriz, qual foi o mais especial?

Wagner: Do jegue, em 1995. Achei aquele Carnaval muito bacana. A Rosa foi felicíssima. Tínhamos um samba ótimo e o desenvolvimento foi perfeito. Em 1989, foi muito bom, mas deu muito trabalho colocar aquele Carnaval na Avenida. Havia muita gente contra o nosso trabalho dentro da escola.

Carnavalesco: Qual o recado para os torcedores da Imperatriz?

Wagner: Acho que o nosso recado foi deixado durante toda a entrevista. O que eu gostaria que as pessoas entendessem é que a minha postura profissional não pode ser confundida com a minha postura pessoal. Se eu às vezes chego na quadra e não cumprimento ninguém, se falo mais alto, se agrido verbalmente, nunca com palavrão, mas usando um tom mais alto, mais brusco, se eu não dou atenção a algumas pessoas que querem me contar questões de sua vida pessoal porque estou sem tempo, que entendessem que isso nunca teve, não tem e jamais terá o lado pessoal envolvido. Eu trabalho para a escola e não tenho nenhum interesse em prejudicar a Imperatriz. Tudo o que eu achar que for bom para a Imperatriz eu aproveitarei, mas preciso que as pessoas entendam que tem muitos absurdos, muita besteira, muita bobagem. Gente que quer se beneficiar e não ajudar a escola. Sou um profissional da Imperatriz. Tenho obrigação de colocar na Avenida o melhor para a escola. Aqueles que não concordam comigo, que esperem eu me afastar e coloquem as ideias que julguem boas. Eu trabalho em prol do sucesso da Imperatriz e não depende só de mim. Fica muito fácil julgar o diretor de Carnaval, jogar toda a culpa em mim. É uma covardia fazer isso. Existem outras pessoas que também erram, mas o erro delas também é o meu. Não tenho nenhum rancor contra ninguém na Imperatriz.