ENTREVISTAS: Wilsinho

Aos 26 anos de idade, Wilson da Silva Alves, o Wilsinho, é o mais jovem dirigente de escola de samba no Grupo Especial. Filho de Wilson Vieira Alves, o Moisés, ele é o superintendente da Vila Isabel. Com a prisão do pai, coube a ele a missão de dar continuidade à administração da agremiação, ofício que já desempenhou em outros carnavais.

Porém, agora o desafio é maior, já que hierarquicamente ocupa o cargo de maior poder na agremiação. Wilsinho recebeu o Carnavalesco em sua sala, no barracão, na Cidade do Samba, para uma entrevista, que você pode acompanhar abaixo:

Carnavalesco: Como a sua família entrou no carnaval?

Wilsinho: "Minha família entrou no carnaval a convite do Mestre Mug. Ele convidou o presidente Moisés para ser o patrono da bateria da Vila Isabel para o carnaval de 2002. A gente começou a frequentar a escola. Eu já tinha camarote na Avenida. O Evandro Bocão, que era o presidente da Vila na época, aceitou a vinda do meu pai. A escola estava no Grupo de Acesso. Meu pai ajudou a bancar a roupa da bateria. Na época, fizemos uma festa para a bateria. A situação da quadra era muito precária. Meu pai começou a se sensibilizar com a comunidade, que estava carente de uma administração que pudesse reestruturar a escola".

Carnavalesco: Nesses anos de administração, o que mais deu certo na Vila e o que pode ser melhor?

Wilsinho: "Conseguimos implementar uma gestão empresarial. A Vila hoje é uma empresa de retorno para quem investe. A prova esta aí com os contratos de patrocínio que nós assinamos e os nossos parceiros nos últimos anos, além da reforma na quadra. A Vila Isabel deixou de ser uma escola mediana para ser uma agremiação de ponta, que disputa título. O que pode dar certo é que a quadra ainda pode passar por melhoras. Já existe uma promessa verbal do prefeito para melhorar a acústica, pois o local é muito grande. Ainda quero melhorar o local, transformando em uma casa de shows. Em termos de estrutura, a Vila é muito organizada".

Carnavalesco: Como resolver a questão da acústica?

Wilsinho: "A telha da quadra tem um revestimento acústico que acabou não suprindo. Existe a promessa da prefeitura do Rio para que após o carnaval, provavelmente, a obra tenha início".

Carnavalesco: Vila e Beija-Flor são rivais fora da Sapucaí?

Wilsinho: "Negativo. A escola que eu mais admiro no carnaval é a Beija-Flor de Nilópolis. Pela organização, pelos títulos, pela maneira de desfilar, pela comunidade. Eu sou da Baixada Fluminense, tenho um apreço pela Beija-Flor. É a escola que mais me inspiro para fazer parecido. Imagina ter uma escola que desde 1997 não sai do desfile das campeãs. É o que eu sonho para a Vila Isabel. E nós estamos conseguindo isso. Aconteceram algumas situações, como o presidente Moisés não gostar da gravação do CD e da Vila Isabel ter sido campeã no ano em que a Beija-Flor tentava o tetracampeonato. Mas, sinceramente, a Vila Isabel ainda tem que galgar alguns degraus para ficar no patamar da Beija-Flor. Hoje em dia a Vila disputa título com a Beija-Flor, mas a constância e a estrutura são o que eu almejo".

Carnavalesco: Depois de 2006, a Vila não conseguiu mais o título e esbarrou em problemas. O que aconteceu nesses anos?

Wilsinho: "Depois de 2006, apenas um ano a Vila não voltou no desfile das campeãs, no ano do enredo ‘Trabalhadores do Brasil’. Em 2007 pecamos na parte artística, talvez no enredo e muitos problemas na comissão de frente. Em 2008 tivemos problemas nas alegorias. Foi o ano em que quebrou um dos nossos carros. Eu fiquei um tempo afastado da escola por discordar de alguns detalhes do presidente Moisés. Somos pai e filho, mas discordamos de muitas coisas. Na época, a safra de samba da escola foi muito ruim. Eu disse a ele para mandar os compositores refazerem suas obras, mas o presidente discordou. Nos desentendemos e eu fiquei afastado no carnaval de 2008. A parte que eu faço muito na Vila é teste de alegria. Fico aqui no barracão de madrugada, entro nas alegorias e as dirijo. Sou o cara que mais testa alegoria. Dou voltas na Cidade do Samba. Isso é a minha paixão. Em 2009, com todo respeito ao Salgueiro, Beija-Flor e Portela, que ficaram na frente da Vila Isabel, eu saí da Avenida campeão. Fui para a apuração pensando que seria campeão, mas os jurados foram muito rigorosos com a Vila Isabel no ano em que homenageamos o Theatro Municipal. Fizemos um desfile difícil de ser igualado em canto, fantasias, alegorias e comissão de frente. Fiquei em quarto lugar muito decepcionado e triste. Em 2010, sobre Noel Rosa, faltou uma inspiração maior ao nosso carnavalesco, pois havia estrutura, mas alegoricamente a Vila foi ruim. A escola não foi feliz. Isso depende muito do enredo. A homenagem a Noel não foi fácil no ponto de vista plástico-visual, mas mesmo assim fizemos um desfile correto".

Carnavalesco: E o carnaval da junção de estilos do Alex de Souza com o Paulo Barros.

Wilsinho: "Tem pessoas que não podem ficar fora do carnaval. O Paulo Barros ficaria fora do carnaval naquele ano. Mesmo a escola já tendo um artista, que era o Alex de Souza, eu resolvi chamar o Paulo. Ele representou uma inovação no espetáculo muito positiva, na minha opinião. A reinvenção dos outros carnavalescos passa pelo que o Paulo tem feito. Não que eu prefira o Paulo a outro carnavalesco. O estilo de carnaval que eu gosto de assistir é muito mais o da Rosa Magalhães, do Renato Lage e do Alexandre Louzada. Mas acho que o Paulo Barros foi importante para esses outros carnavalescos buscarem algo novo, dar uma renovação nos efeitos. O Paulo é muito meu amigo. Passou aqui pela Vila e deixou saudades. Um dia ele vai trabalhar na Vila novamente. Toda a contratação da Vila Isabel ao longo dos anos foi sempre indicação minha. O presidente Moisés acredita nas minhas ideias. Se a Vila hoje tem esta equipe, é porque eu sempre analiso as outras escolas. Gosto de ir nas quadras e vejo os desfiles desde criança. Já viajei para a Bahia no carnaval, mas voltei durante a noite para ver os desfiles das escolas de samba que eu gostava".

Carnavalesco: O som da Sapucaí em 2010 atrapalhou. A Vila já sabe quem errou e o que houve?

Wilsinho: "É complicado. A Vila foi a 11ª escola a desfilar. O som só falhou nos primeiros 25 minutos do desfile da Vila Isabel. No meio do carnaval, a gente sabe que a largada tem que ter pegada, começar bem. Mas a escola começou sem nenhuma interação com o público. O samba-enredo era muito bom, mas a plateia não o escutava, nem os componentes. Não foi descoberto o que houve. A Vila acha muito estranho, mas prefiro exaltar o que a escola fez. Mesmo sem som por 25 minutos, a Vila foi nota dez em harmonia. Perdemos apenas um décimo em evolução, que não perderíamos se a escola não tivesse sido atrapalhada. Foi um lamentável episódio".

Carnavalesco: Martinho da Vila, presidente de honra da Vila, fez duras críticas ao enredo de 2011. O que você pensa sobre isso?

Wilsinho: "Só tenho a dizer que o Martinho é presidente de honra da escola. Se o Martinho quiser participar, ele vai participar como presidente de honra. Se quiser ficar afastado, como ele está, vai continuar afastado. Ele é uma figura querida, mas a escola tem uma administração. Se nós achamos por bem desenvolver este enredo, cabe ao Martinho como componente da escola, ser mais solidário com a Vila. Ele é artista. E artista fala essas coisas".

Carnavalesco: Novamente, o Martinho está afastado da escola. Por que essa relação tão conturbada?

Wilsinho: "Não sei o motivo pelo qual ele está afastado. Provavelmente, por trabalho, shows fora do Brasil. Realmente, ele está distante. Com certeza será convidado para desfilar. O terno dele estará pronto, como sempre. Espero que esteja conosco no desfile, pois será uma bela apresentação da Vila".

Carnavalesco: O samba dele em 2010 não era muito arriscado para ser escolhido devido à melodia e andamento?

Wilsinho: "A Vila Isabel tem várias ousadias. É uma escola tradicional, mas de vanguarda. Nesse último ano, nós resgatamos um samba mais cadenciado, que contava bem o enredo sobre Noel. Deu certo. Daria mais certo se o som da Sapucaí não tivesse atrapalhado. A escolha foi arriscada, mas se mostrou acertada, ainda mais pelas notas máximas que conquistou. A inspiração do Martinho valeu a pena".

Carnavalesco: Como está sendo este primeiro ano como "presidente"?

Wilsinho: "Em 2007, o carnaval do Metamorfoses, foi o primeiro ano em que eu assumi a direção de carnaval da Vila. De lá pra cá, sempre cuido desta área aqui, mesmo quando o Ricardo Fernandes voltou. Me sinto preparado, pois estava ao lado da administração do presidente Moisés. As pessoas da escola me dão apoio. A vila é muito organizada. É sanada financeiramente. Já estou acostumada com esse lado de administrar".

Carnavalesco: Você pretende continuar caso o seu pai retorne? É uma profissão que pretende seguir?

Wilsinho: "Não é profissão. Cargo de presidente de escola de samba não é remunerado. Sou estudante de direito. Na realidade, a Vila me ‘atrapalha’ nos estudos. Este ano precisei parar com os estudos para me dedicar ao carnaval da escola. Mas quero dar continuidade ao trabalho. Minha família faz muito bem à Vila, tanto no carnaval como nos projetos sociais".

Carnavalesco: Seu pai tem conhecimento sobre o que acontece no barracão? Como isso acontece?

Wilsinho: "Apenas por meio de cartas. O presidente Moisés confia muito no filho que tem. Sabe que eu sou uma pessoa muito justa e firme. Eu morava fora do país, estava fazendo faculdade, quando meu pai me chamou, em 2003, para me comunicar que faríamos a administração da Vila Isabel. Outras pessoas da escola também se correspondem com ele através de cartas. Ele fica orgulhoso com os elogios que eu recebo".

Carnavalesco: Você já imaginou como será o desfile deste ano sem a presença do seu pai na Sapucaí?

Wilsinho:"Ainda não passou pela minha cabeça. Acho que vai ser uma perda para a Vila Isabel, mas a escola está com um carnaval muito grande também. Acho que a presença dele fará falta como liderança. Mas caso ele não esteja presente, a motivação dos componentes será ainda maior, como tem sido visto nos ensaios. Prefiro não pensar negativamente. Sou uma pessoa positiva".

Carnavalesco: Como está sendo o primeiro ano de trabalho com a Rosa Magalhães?

Wilsinho: "Acho que pintaram uma imagem da Rosa completamente diferente do que eu estou vendo aqui no barracão. A Rosa está muito animada. Eu vou usar as palavras do Mauro, que é assistente dela. Ele não vê a Rosa tão animada assim há alguns anos. Ela foi feliz no desenvolvimento das fantasias e alegorias, além do acabamento dos carros. A Vila dá toda estrutura para que ela faça carros grandiosos e de diferentes estéticas. Ela é uma pessoa tranquila, aceita opiniões. Não é uma artista difícil".

Carnavalesco: A polêmica entre o Mug e o Átila acabou?

Wilsinho: "O Mestre Mug, quando era diretor da bateria, diversas vezes não conseguiu finalizar os ensaios na 28 de setembro e na Sapucaí porque tinha um grave problema de saúde. Eu o levei algumas vezes ao médico. Chegou um ponto que falei para o meu pai que não dava mais para mantê-lo no cargo. Não pela sua capacidade, mas pelos problemas de saúde. Apresentei o nome do Átila, que foi contratado. Quando há uma mudança assim, é normal algumas rusgas, mas isso ficou lá no início do ano passado. O que houve agora é que eu chamei o Mug, que estava cuidando da saúde, para ele participar, pois é o presidente de honra da bateria, tem diversos ritmistas que é da família e a representatividade de mais de duas décadas à frente da bateria da Vila Isabel. O problema dele é que às vezes se expressa de forma errada. E foi o que aconteceu recentemente. A bateria da Vila não tem que mudar o ritmo em nada. Se tiver que mudar, haverá uma reunião interna para falar sobre o assunto. Já conversei com ele sobre isso. Ele pediu desculpas ao Átila. É um grande amigo, mas o trabalho na Vila tem que ser organizado. O Átila deu uma organização para a bateria da Vila Isabel. No nosso último ensaio a bateria foi show de ritmo, cadência, movimentação… Taí a resposta para quem achava que há algum problema na bateria da Vila".

Carnavalesco: Por que há tanta gente na escola que torce o nariz para o Átila como diretor de bateria da Vila?

Wilsinho: "Quem torce o nariz para o Átila é quem não se adaptou a organização que ele implementou na bateria da Vila. Só pega instrumento quem está cadastrado, uniformizado e ensaia. Estava bagunçado. O Átila é uma pessoa organizada. Quando você tira uma pessoa gera uns burburinhos. Ele é um excepcional mestre de bateria. Não precisa provar mais nada a ninguém. Excelente mestre de bateria. As pessoas que foram afastadas da bateria não se enquadraram na proposta do Átila. Quem faz parte da bateria, não torce o nariz para o Átila, pelo contrário, gosta muito dele".

Carnavalesco: O que você destaca do último ensaio técnico da escolana Sapucaí?

Wilsinho: "Destaco o meu casal de mestre-sala e porta-bandeira, sensacional os dois. O Julinho é mais uma contratação da escola que foi indicado por mim. O canto da nossa comunidade foi forte, além da alegria, pois doamos todas as nossas fantasias. Isso tem sido uma marca da escola nos últimos anos".

Carnavalesco: Continua com a ideia de voltar a comercializar fantasias em 2012?

Wilsinho: "Eu falei para o SRZD-Carnavalesco que eu acho que a Vila tem que se abrir. Já passou o momento de reformulação da escola e da sua comunidade. Ainda hei de analisar. É tão bom ver a escola ensaiando sem alas comerciais, mas talvez uma pequena parte da Vila eu volte a comercializar no ano que vem. Vamos pensar primeiro no carnaval 2011".

Carnavalesco: Quanto o fabricante de tinta de cabelo está investindo no carnaval da Vila?

Wilsinho: "É uma multinacional. A Procter & Gamble que está patrocinando a Vila Isabel, explorando a marca Pantene. Está sendo bem interessante o aporte financeiro, pois não há ingerência sobre o trabalho da Rosa Magalhães, nem sobre o samba. É um investimento que visa retorno de imagem. Compraram cota de propaganda de carnaval da TV Globo. A Vila vinha de dois enredo não patrocinados, apenas com parceiros. Este ano, mesmo sendo patrocinado, não tirou nossas tradições. Não posso falar em valores por causa da cláusula de confidencialidade".

Carnavalesco: As exigências da Gisele Bündchen não são exageradas para desfilar na Vila?

Wilsinho: "É a primeira vez que vou abrir a boca para falar sobre a Gisele Büdnchen. Não está fechado que ela virá para o carnaval da Vila. A chance da Gisele desfilar é de 99%. O contrato pode ser assinado em breve, mas eu nunca afirmei que ela virá para o carnaval. Se joga muita informação gratuita, fofoca… É provável que ela venha. A fantasia dela está sendo feita, mas o contrato com a patrocinadora ainda não está assinado".

Carnavalesco: E a noticia de que ela teria barrado cabeleireiros de desfilar na mesma alegoria que a dela?

Wilsinho: "Quem não quis foi eu. Porque vários cabeleireiros tentaram surfar na onda da Vila Isabel. Só desfila aqui quem senta para conversar comigo e vejo que está comprometido com a escola. A Vila não terá cabeleireiro que não sente para conversar comigo. Como nenhum deles conversou comigo, nenhum deles desfilará. Não tem espaço no carro da Gisele para desfile de cabeleireiro, pois não foi essa a concepção da Rosa Magalhães. Caso a Gisele desfile, será na última alegoria".

Carnavalesco: Como surgiu a ideia de coroar Sabrina Sato como rainha de bateria?

Wilsinho: "Ela é um amor de pessoa. Uma grande surpresa pra mim. Muito querida e simpática. A Sabrina tem um carisma próprio. Tem um milhão e meio de seguidores no Twitter. É uma máquina de mídia espontânea. Essa gestão empresarial que estamos implementando na escola passa por isso. Para trazer alguém que não seja da comunidade, essa pessoa precisa ser carismática, bonita e comunicativa. Acho que a Vila precisava de uma artista que gerasse mais mídia. Por isso, convidamos outros artistas para desfilar na escola. Nunca descaracterizando a nossa comunidade. A Sabrina vai continuar na escola".

Carnavalesco: E essa abertura da Vila Isabel para as celebridades. Qual é o objetivo?

Wilsinho: "Atrair parceiros econômicos, visibilidade para a escola e transformar a Vila em uma agremiação ainda mais querida e popular. A Vila carrega essa tradição de berço do samba e pode mesclar isso com os artistas. As pessoas gostam de ver as celebridades. Acredito que temos capacidade para fazer isso sem desprestigiar os segmentos".

Carnavalesco: Os problemas de bastidores que a escola vem enfrentado, por causa da prisão do Moisés, podem ofuscar o carnaval da Vila?  

Wilsinho: "De maneira alguma. Nunca houve um momento tão bom na escola. O problema da minha família é uma coisa, a Vila Isabel é outro assunto. Graças a Deus a administração da Vila está sanada. Vamos fazer um excelente espetáculo. Sentimos falta do nosso presidente, mas o título, se vier, será para o nosso presidente. Espero que ele esteja aqui conosco. Nada, nem ninguém vai ofuscar o carnaval da Vila Isabel. Pode passar o presidente Moisés, o Evandro Bocão, o Wilsinho, o Mestre Átila e o Mestre Mug, mas a Vila é maior do que todos nós, afinal ela é cultura e patrimônio cultural do Brasil".

Carnavalesco: Você pretende se candidatar à eleição presidencial da Vila Isabel este ano?

Wilsinho: "Ainda não sei. É uma possibilidade para dar continuidade ao trabalho que está sendo feito. Ainda preciso conversar com a minha família. É uma vontade de grande parte dos segmentos, pois administrar a estrutura grandiosa da Vila só para quem tem experiência de administração. Mesmo jovem, essa experiência não me falta".