ESCOLAS DE SAMBA: dona de ‘Os Sertões’, Em Cima da Hora faz 50 anos

No dia em que completa 50 anos, a Em Cima da Hora recebe uma justa homenagem do Carnavalesco. Começa nesta segunda-feira a série de reportagens "Escolas de Samba", que vai dar destaque a algumas agremiações que marcaram época no carnaval carioca. Tradicional escola da Zona Norte do Rio de Janeiro, a azul e branco de Cavalcanti chega ao seu jubileu de ouro sonhando alto. Ao menos é essa a pespectiva do presidente Heitor Fernandes. Há apenas dois anos à frente da escola, o dirigente acredita que a marca pode estimular a Em Cima da Hora a atingir o principal objetivo: voltar ao Grupo Especial.

– A Em Cima da Hora tem que voltar ao lugar de onde nunca devia ter saído. Para isso, temos que valorizar quem já passou pela escola. Estou tentando trazer de volta quem se afastou nos últimos anos e resgatar grandes nomes. Não que eu não saiba, mas todos que se destacaram como baluartes aqui dentro sabem muito mais que eu. A comunidade já está voltando e isso é muito bom – avaliou Fernandes.

Mas antes de atingir o sonho, é preciso encarar a realidade. Hoje no Grupo C, após dois anos no D, a Em Cima da Hora tenta voltar a desfilar na Avenida Marquês de Sapucaí – ainda que na terça-feira de carnaval. Para isso, conta com um investimento de mais de R$ 250 mil, de acordo com o presidente, que garante ainda que a escola está com todas as contas em dia.

Bons tempos e consagração

O cenário atual não lembra o que a escola vivia há quase 40 anos. De 1972 a 1976, foram cinco participações consecutivas no Grupo 1 (atual Grupo Especial). A série culminou com a apresentação de um samba que entrou para a história. Os Sertões, de Edeor de Paula, emocionou e tornou-se uma obra considerada por muitos especialistas como um dos melhores sambas de todos os tempos. A obra é homônima do livro de Euclides da Cunha, de 1902, que trata da Guerra de Canudos, conflito ocorrido no sertão baiano nos anos de 1896 e 1897. O episódio foi um dos mais dramáticos da história do Brasil com cerca de 30.000 mortes.

Os Sertões foi um enredo desenvolvido pelo carnavalesco Sebastião Souza de Oliveira, o "Tião", que assinou também outros 11 carnavais pela escola. Como recorda o ex-presidente Francisco dos Santos, o "Chiquinho", que dirigiu a escola no ano de Os Sertões, Tião chamou a atenção dos patrões no jornal O Globo, onde trabalhava como faxineiro. Seu talento com artes, descoberto na decoração de natal da redação, fez com que tivesse seus estudos pagos na Escola Nacional de Belas Artes, onde desenvolveu seu talento, até chegar em 1976 e fazer Os Sertões.

No entanto, Chiquinho recorda do desastre que bateu sobre a escola naquele dia. Apesar do lindo samba, a Em Cima da Hora caiu para o Grupo 2, devido aos problemas causados pela forte chuva nas alegorias. Apaixonado pela escola, Chiquinho, hoje morador do bairro do Flamengo viveu por muitos anos em Cavalcanti, terra natal da agremiação. Tempo suficiente para inspirá-lo a escrever um livro sobre o bairro.

– Os Sertões foi maravilhoso. Pena que teve o maior temporal de todos os tempos. Nos concentramos às 16h e desfilamos só às 21h, debaixo de um temporal que já havia destruído tudo. Mas sou um apaixonado pela Em Cima da Hora. Tão apaixonado, que resolvi escrever um livro. Muitos capítulos são sobre a escola, sobre os compsositores, os sambas. Ainda hoje me sinto presidente, me sinto dentro da escolas, porque as pessoas me chamam, falam comigo, e isso é muito gratificante, muito gostoso – diz o autor de "Cavalcanti dá um livro", nome criado após a frase dita por Baianinho em uma conversa informal.

A Em Cima da Hora é também reduto de nomes de peso do carnaval. Entre eles estão o jornalista e escritor Sérgio Cabral e Baianinho, um dos fundadores, que hoje vive na Região dos Lagos. Outro que carrega o nome da escola no coração é o coreógrafo Carlinhos de Jesus. Foi ele o responsável por desenvolver a comissão de frente do desfile que teve como enredo o pai do atual governador do Rio, em 1997. Criado na quadra, ele lembra emocionado dos momentos que lá viveu.

– A Em Cima da Hora não pode fugir da minha lembrança. Foi lá que constitui minha formação cultural, desenvolvi a dança de salão. Com apenas dez anos desfilei na Em Cima da Hora e tenho até hoje uma foto sensacional daquele dia. Minha primeira comissão de frente foi lá. No desfile que o Sérgio Cabral foi enredo, fiz uma das comissões mais importantes da minha vida. Levei amigos do personagem e nomes consagrados do jornalismo, intelectuais do samba. Foi demais. E meu primeiro Estandarte de Ouro, em 1985, foi na Em Cima da Hora, como passista – recorda Carlinhos.

Para a fundação, só uma versão

A Em Cima da Hora, que teve outros carnavais que entraram para a história como 33 – destino D. Pedro II, de 1984, de autoria de José Leonídio e Regina Céli, tem também uma confusão com relação a sua fundação. Uma das versões trata de uma reunião, terminada às 3h, quando um dos presentes teria dito que já estava "em cima da hora" de ir embora. No entanto, Chiquinho rechaça essa versão, e afirma que a real é outra.

– Começou com o Leleco e o Baianinho, no Catumbi. Depois virou "Bloco do Leleco" e em seguida, quando foi batizada pela Portela, é que virou azul e branca e ganhou o nome que tem até hoje. Tudo o que for diferente disso aí é mentira – conta.

No total, a Em Cima da Hora soma sete participações do grupo de elite do carnaval carioca. A última delas foi em 1985, com Me acostumo mas não me amanso, dos carnavalescos Sid Camilo, Edson Mendes e Sérgio Amarildo. No entanto, a última colocação a pôs novamente no Grupo de Acesso. "Nunca grande, sempre média", nas palavras do próprio Chiquinho, a Em Cima da Hora mantém a tradição, apesar de ser considerada hoje pelo ex-presidente como "pequena". No entanto, ela nunca deixará de ser uma agremiação querida e, acima de tudo, "de família".