ESCOLAS DE SAMBA: Lucas guarda glórias do ‘Sublime Pergaminho’

É como se a vida imitasse a arte. Ou o criador, a criatura. O grande samba de todos os seus 44 anos de história fala sobre o martírio, o sofrimento, ou ainda o sacrifício vivido pelos negros que viajavam ao Brasil para em seguida tornarem-se escravos. Já a dona desta obra imortal vive há alguns anos a angústia e, por que não, o sofrimento de não conseguir voltar a ser o que foi um dia. Acontece que no "Sublime Pergaminho", de 1968, como o próprio nome sugere, há uma redenção, e aqueles negros martirizados tornam-se livres. Já a Unidos de Lucas não conseguiu atingir seu momento de libertação – libertação de uma tristeza, que sequer tem a ver com o espírito verdadeiro da escola.

A última vez em que a agremiação do Subúrbio do Rio de Janeiro esteve no Grupo Especial foi em 1976 (quando ainda era chamado de Grupo 1). De lá para cá, o Galo de Ouro da Leopoldina amarga um longo jejum de participações na elite do carnaval carioca. E pior, nos últimos anos teve que conviver com uma sequência de dois rebaixamentos consecutivos, chegando ao Grupo E.

Os maus resultados, é claro, deixam um dos baluartes da escola cabisbaixo. No entanto, nada que tire o saudosismo do discurso de Anatólio, ex-presidente da escola. Aos 78 anos, hoje ele atua como diretor da Associação das Escolas de Samba e é cidadão-samba vitalício do Rio. Além de ter comandado a Unidos de Lucas, Anatólio foi também diretor de carnaval da escola. "Só não fui tesoureiro", brinca o baluarte.

– Guardo todas as lembranças da escola com carinho, porque participava efetivamente de tudo. Fui presidente de 72 a 76, e a gente fica meio triste com os acontecimentos recentes, mas também sabe das transformações que aconteceram no mundo do samba. Hoje a escola está acabada, antes o povo era mais unido. Claro que temos que lamentar pelo o que temos hoje, porque não queríamos ver isso. Deixei ela (a escola) no auge, mas depois decaiu. Vamos torcer para que tudo melhore. Hoje contribuo diretamente com o presidente e tento ajudar no que dá – explica.

Problemas existem, é preciso enfrentá-los

Ciente das dificuldades que hoje passa a escola, o presidente Anivaldo Fernandes da Silva lamenta todos os problemas estruturais. Berço de muitos bambas e nomes que fazem sucesso no carnaval, a Unidos de Lucas é como um filho para ele, que participou da fusão entre a Aprendizes de Lucas e a Unidos da Capela, em 1966, fundando a escola.

– A realidade é que Lucas já foi uma grande escola, mas não se estruturou. Não tem patrono, sofre com problemas financeiros e se apequenou. Era uma escola que botava cerca de três mil componentes na Avenida, agora luta para botar 400, 500 pessoas. É uma escola que tem tradição no samba, mas sofre com o problema da falta de investimentos em escolas de base. Se você for em qualquer escola do Grupo Especial, vai encontrar alguém que saiu aqui de Lucas. A Selminha Sorriso é um exemplo – lembra.

Aos 60 anos, Anivaldo trabalha também na direção de harmonia da Mangueira há 32. Sua volta para a escola de Parada de Lucas se deu há dois anos, para ser vice de José Luiz Davalle. Mas há quatro meses assumiu o cargo de presidente. "Acompanhei a ascensão e a queda. Não há como negar que a gente vê esse momento hoje com tristeza", comenta. Com tanto tempo de agremiação, ele recorda os momentos mais marcantes que viveu ali.

– Tenho na memória dois momentos. Um foi quando a gente desceu pela primeira vez, em 69. E o outro quando voltamos, junto com a Ilha, em 71. Ela (Ilha) conseguiu permanecer, mas a gente não resistiu. O Sublime Pergaminho é também marcante, porque foi um samba apoteótico, mas desfilamos naquela chuva que praticamente acabou com o carnaval do Rio. Mas mesmo assim todo mundo gritando "Já ganhou", aquilo foi demais – conta, emocionado.

Esperança que vem da juventude

Enquanto a velha guarda da escola chora pelos momentos ruins e exalta os grandes dias da Unidos de Lucas, a nova geração entra querendo mudar. Aposta para o carnaval 2011, o carnavalesco Leandro Mourão quer seguir os passos de outro grande nome do carnaval: Max Lopes. Max assinou pela primeira vez um trabalho solo em 1976, justamente no Galo de Ouro – assim como Leonardo, em 2011. Agora é a vez do novato, com o enredo "Um amor de carnaval".

Na Avenida, ele pretende contar a história de Pierrô, Arlequim e Colombina desde a visita de Dom João VI aos bailes de carnaval de Paris, Veneza e Portugal e, em seguida, sua vinda ao Brasil, onde quis repetir o que viu pela Europa. Para encaixar bem no tema, vale ressaltar o amor do mestre-sala pela porta-bandeira, do passista pela passista e tudo mais. Esse é o primeiro passo. Para alçar vôos mais altos, ele sonha lá na frente.

– Estou feliz e nervoso ao mesmo tempo, porque sempre fui assistente, e agora é diferente. Pelo tempo que trabalho, sou praticamente um bebê no carnaval, mas sempre vivi nesse meio. Às vezes fico meio assustado, porque as pessoas lá na quadra me cobram muito, mas tenho certeza de que, com esse trabalho sério, vamos chegar lá. Minha meta é Sapucaí. É um trabalho longo, mas vamos subindo degrau a degrau e vamos conseguir. É um trabalho de resgate da comunidade, estamos chamando quem estava afastado, as pessoas da Velha Guarda estão chegando junto, compositores se empenhando. Estamos mudando – afirma o empolgado carnavalesco.

Leandro trabalha também na Alegria da Zona Sul há cinco anos. Lá, começou com Marquinhos, que hoje é presidente. Atualmente, divide tarefas com o diretor de carnaval da escola de Copacabana, Flávio Mello. Para 2011, ele garante estar com 60% do trabalho pronto. Quem quiser participar dos ensaios na quadra da Unidos de Lucas e dar aquela força para a escola, pode aparecer na Rua Cordovil, 333, toda sexta-feira, às 22h.

CONFIRA A LETRA DO SUBLIME PERGAMINHO, DE 1968

Quando o navio negreiro
Transportava negros africanos
Para o rincão brasileiro
Iludidos
Com quinquilharias
Os negros não sabiam
Que era apenas sedução
Pra serem armazenados

E vendidos como escravos
Na mais cruel traição
Formavam irmandades

Em grande união
Daí nasceram festejos
Que alimentavam o desejo
De libertação
Era grande o suplício
Pagavam com sacrifício
A insubordinação

E de repente
Uma lei surgiu
E os filhos dos escravos
Não seriam mais escravos
No Brasil

Mais tarde raiou a liberdade
Pra aqueles que completassem
Sessenta anos de idade
Ó sublime pergaminho
Libertação geral
A princesa chorou ao receber
A rosa de ouro papal
Uma chuva de flores cobriu o salão
E o negro jornalista
De joelhos beijou a sua mão
Uma voz na varanda do paço ecoou:
"Meu Deus, meu Deus
Está extinta a escravidão"