ESCOLAS DE SAMBA: Ponte amarga seu pior momento, mas mantém a ‘popularidade’ em alta

O símbolo é um aperto de mão. Mas bem que poderia ser um abraço. Uma das mais queridas escolas de samba do Rio de Janeiro, a Unidos da Ponte começa a contagem regressiva para seus 60 anos. Mas nada em ritmo de festa. Criada em novembro de 1952, a escola amarga o pior momento de sua história. Hoje no Grupo C – desfilando na Intendente Magalhães – a agremiação ainda guarda admiradores atentos à fase difícil.

Na verdade, a Ponte nem é do Rio de Janeiro. Mas é como se fosse. Fundada pelas famílias Macário e Oliveira, a escola de São João do Meriti chegou ao carnaval carioca em 1959. Antes, nos anos de 1954, 55 e 56, desfilou em sua cidade natal, sagrando-se campeã de todos os desfiles. A Ponte sempre foi diferente e inovadora. Tanto é que a responsabilidade de trazer a escola à capital foi de uma mulher: Carmelita Brasil, autora dos enredos e também dos sambas-de-enredo da agremiação de 1959 a 1964 e a primeira mulher presidente de uma escola de samba.

Hoje na presidência da Ponte, Nelson Pontes de Oliveira Filho, o Nelsinho, tem uma relação íntima com a escola. Lá desde 1979, ele é nascido e criado em Madureira, terra do samba, e filho de uma ex-porta bandeira. Nelsinho foi convidade por Edson Tessier, eleito presidente naquele ano, para dar um ritmo mais dinâmico à escola, que teria sua quadra transferida do bairro de São Mateus para o centro do município da Baixada Fluminense, dando mais visibilidade à escola. E, com a ajuda de antigos dirigentes e novos adeptos, conseguiu.

– A Ponte nunca abandonou sua comunidade e nem o contrário. Essa escola já distribuiu muito sambista bom para outras agremiações, até do Grupo Especial mesmo. Aqui é um celeiro de sambistas e compositores. Você vê sambas antológicos de escolas menores, como é o caso da Unidos da Ponte – lembra Nelsinho. No entanto, o dirigente sabe das dificuldades que hoje vive a escola – Agora, vivemos um momento difícil. Esse ano vai ser muito complicado, mas temos que levantar a cabeça e tocar em frente, sempre respeitando as co-irmãs. Estou sentindo que as coisas vão mudar – acredita.

Dificuldades financeiras assolam os projetos

De acordo com Nelsinho, as escolas do Grupo C recebem apenas R$ 60 mil reais, o que, segundo ele, dificulta muito a realização de um grande carnaval. "Não conseguimos vender fantasias e temos que pagar reboque, empurrador, todos os profissionais. É muito gasto e pouco retorno, mas contamos com a ajuda de amigos. A prefeitura de São João não ajuda há 3 anos", afirma.

Outro que é ciente dos problemas enfrentados pela agremiação hoje é Dom Chico, diretor de carnaval e representante da Ponte na Associação das Escolas de Samba. Há somente três anos na escola, apesar de ser nascido e criado em São João de Meriti, ele sabe que esse ano será difícil.

– Esse é um ano ainda mais complicado. Com eleição, a liberação de recursos públicos fica ainda mais difícil, e, na Baixada, a política é muito cruel. Mas vamos tentar fazer um grande carnaval, com dois carros alegóricos, cerca de 700 componentes, 15 alas. Já estamos com praticamente 70% pronto e temos confiança na força da nossa escola – diz.

Grandes momentos para a escola da Baixada

Fora os problemas de hoje, a Ponte teve momentos marcantes em sua história. O ápice foi a conquista de uma vaga no Grupo Especial, em 1983. No ano seguinte, no entanto, acabou rebaixada, mas em 85 venceu o segundo grupo e chegou novamente à elite em 86, onde se manteve até 89. Naquele ano, com o enredo "Vida que te quero viva", a escola não conseguiu repetir as atuações dos três últimos anos e acabou descendo de novo. Mestre-sala em 89, Ronaldinho, ex-Salgueiro e hoje na Ilha, lembra como foi o desfile.

– Aquele era um time muito bom, e a escola tinha um clima muito agradável, além de ter uma comunidade muito fiel, muito forte. Você sente que as pessoas gostam da escola. Minha passagem por lá foi muito importante para mim, tenho lembranças muito boas daquele desfile, porque eu estava representando uma comunidade onde eu nasci, que é a Baixada. Foi um desfile emocionante, mas infelizmente não deu. Guardo lembranças das pessoas de lá, volta e meia eu as encontro em outras quadras – recorda o mestre-sala, que no ano seguinte foi desfilar na Caprichosos de Pilares.

Em 1990, o enredo foi de autoria de Alexandre Louzada, atual carnavalesco da Beija-Flor. O resultado foi muito bom, mas o terceiro lugar não foi suficiente para garantir à escola o acesso ao Grupo Especial. Passaram-se dois anos e, em 1992, novamente com Louzada na criação, a Ponte conquista a vaga na elite.

– Era uma escola que tinha uma maneira muito peculiar de fazer carnaval, com apresentações bem resolvidas e que contribuiu muito para a história do carnaval carioca com grandes sambas. Lembro do "Robauto, uma ova" (1990), um enredo muito inusitado, que saiu um pouco do nada, de pura criatividade. Mas ressalto a qualidade de grandes sambas como "E eles verão a Deus" (1983) e "Dez nota dez" (1985).

Louzada assinou pela última vez na escola no enredo sobre a cantora Alcione (Marrom – Da cor do samba, 1994). Torcedor da Ponte, ele lembra dos amigos que lá fez.

– Sempre tive uma relação de carinho com a escola desde que eu era componente e presidente de ala da Portela, quando frequentava a antiga quadra. Era muito amigo do Geraldo Cavalcante, que vinha com a Ponte desde os desfiles na Rio Branco. Sempre gostei muito das pessoas, dos compositores, tem muita gente que era da Ponte e hoje é da Beija-Flor – conta.

Para 2011, a Unidos da Ponte aposta no enredo "Orixás", do carnavalesco Ricardo Paulino. Enquanto aguarda a volta dos bons tempos, a escola ao menos mantém a sua "popularidade" em alta.