ESCOLAS DE SAMBA: Vizinha Faladeira, a precursora da irreverência no carnaval carioca

Foram cinco desfiles, mas que valeram por muitos. A contribuição da Vizinha Faladeira para o carnaval carioca é indiscutível. Na década de 30, quando foram realizados os primeiros desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro, lá estava ela. Mas quis o tempo – e os jurados do carnaval de 1939 – que a agremiação desse um tempo. Só não precisava ser tão longo assim…

Quase 40 anos depois, a Vizinha é reinventada. No entanto, por maior que tenha sido o carinho e a dedicação de quem participou desse ressurgimento, a escola da Zona Portuária nunca mais foi a mesma. De lá para cá, foram cinco participações no Grupo A (a segunda divisão do carnaval) e uma coleção de idas e vindas entre os grupos B e C.

Em sua estreia, em 1934, o enredo "Malandro Regenerado" trouxe novidades nunca antes vistas nos desfiles da Praça Onze – o suficiente para chamar a atenção do público. No ano seguinte, "Samba na Primavera", com os melhores cenógrafos da época, a agremiação levou para o desfile o que seria o primeiro carro alegórico. Em 1936, com "Ascensão do Samba na Alta Sociedade", a bateria veio fantasiada de malandro e com instrumentos mais modernos que os de outras escolas.

Do céu ao inferno: título e fim das atividades

Tanto luxo, sofisticação e criatividade dariam à escola em 1937 seu primeiro título. Em "Uma só bandeira", a Vizinha iluminou a Praça Onze com luzes bem mais sofisticadas que a de outras escolas e ficou com o campeonato. Mas a pausa nos desfiles no ano seguinte foi o divisor de águas.

O que tinha para ser um espetáculo transformou-se em tragédia para a escola em 1939. No maior carnaval da década de 30, a Vizinha apresentou o enredo "Branca de Neve e os Sete Anões", com destaques luxuosos e, pela primeira vez, uma ala de crianças. Mas foi então que aconteceu o que ninguém esperava. Os jurados entenderam que, por ser um tema estrangeiro, a escola deveria ser desclassificada. Revoltados, os integrantes voltaram a desfilar em 1940, mas com protestos. Passando por trás dos julgadores, levantaram uma faixa com os dizeres: "Devido às marmeladas, adeus Carnaval. Um dia voltaremos". Era o fim da Vizinha.

Reestruturação da escola

Passam-se quase 40 anos, e um grupo de sambistas da comunidade do Santo Cristo, alguns do Morro do Pinto, outros da Providência, se reuniram. O ano era 1988, e os integrantes eram vindos de quatro blocos da região: "Eles que digam", "Independentes do Morro do Pinto", "Fala meu louro" e "Coração das Meninas". Como a tradição do desfile de blocos estava enfraquecida, veio a ideia de resgatar a Vizinha Faladeira. "Foi uma coisa muito legal, conseguimos trazer algumas pessoas da década de 30, inclusive a porta-bandeira da época, Manuela", lembra Paulinho Carioca, um dos que participaram do movimento, hoje radialista da Ação FM.

Nome chave na reestruturação da escola, Valdir Paim lembra como surgiu a ideia de juntar as pessoas para o resgate da Vizinha Faladeira. Na época, ele tinha apenas 20 anos.

– Eu fazia faculdade de Geografia e História. Um dos trabalhos foi sobre o bairro da Gamboa, e todo mundo que eu entrevistava falava da Vizinha Faladeira. Na pesquisa, iam aparecendo documentos que estimularam a gente a reerguer a escola, Mas isso tudo sem ter quadra, bateria, nada. Foi um trabalho árduo, que envolveu muita gente. Conseguimos juntar gente dos quatro blocos e foi uma luta, porque não tínhamos dinheiro – recorda.

Para Paulinho Carioca, foram três os principais personagens desse resgate: Valdir Paim, Jorge Nova (o carnavalesco) e Regina Célia. Em 89, a primeira participação na Avenida. Foi junto com a União da Ilha, madrinha da escola e que esteve na festa de reinauguração, no desfile das campeãs. Nesse tempo até 89 muita coisa mudou. Inclusive a bandeira. Primeiro, a escola virou tricolor, mas os integrantes garantem que nada tem a ver com a Ilha, e sim porque eram dois blocos vermelho e branco, e dois azul e branco, o que simbolizava uma homenagem aos blocos. Além disso, a bandeira com as duas sereias foi escolhida porque significa a miscigenação (uma loura e uma morena), e também porque a escola fica perto do porto.

A Vizinha passava por dificuldades financeiras, mas como lembra Paulinho, "era uma família, ninguém ganhava nada, e o pagamento era cerveja".

– A gente precisava de um lugar para ensaiar, então conseguimos a escola municipal Benjamin Constant para usar aos sábados. Começávamos a montar na sexta-feira a noite e tínhamos que desmontar no domingo de manhã, porque já tinha aula na segunda. Em troca disso, nós prestávamos serviços para as crianças – recorda Paulinho, que dava aulas de voz e música, porque na época já era locutor.

Apesar do esforço, a bonança que não volta

Mas tanta dificuldade tinha que dar também prazer. Para Valdir Paim, ver o carnaval na rua em 1990 foi uma emoção sem igual. "Foi demais. Imagina resgata uma coisa sem dinheiro nenhum? Foi muito legal", repete, quase sem palavras.

Em 92, com no enredo "Quem é do mar não enjoa", a escola aproveitou algumas peças da Mocidade de 91, já que Regina Célia era de lá, e o enredo era parecido. Nos anos de 94 e 95, a Vizinha contou com o ainda iniciante Paulo Barros como carnavalesco, ao lado de Henrique Celibe. Depois de 97, foram apenas mais duas participações no Grupo A, e em 2008 a escola amargou seu rebaixamento para o RJ-2, hoje Grupo C, onde permanece desfilando na Intendente Magalhães. No entanto, o momento não desanima Paulinho Carioca.

– Ver a escola como estava nesses últimos anos entristece, mas desde que o Ney assumiu está sendo feito um trabalho legal e a escola está vindo bem – defende.

Para 2011, o carnavalesco Jorge Castro apresenta o enredo "Vizinha Faladeira dá as cartas". Será mais uma oportunidade para a agremiação da Zona Portuária tentar começar a reescrever a linda, porém meteórica trajetória, que teve entre os anos de 1934 e 1940.