Especial 30 anos do Sambódromo: personagens contam detalhes do desfile da Mangueira de 84

 

 

Um marco para a história do carnaval. A frase foi repetida por todos os entrevistados da matéria do especial do site CARNAVALESCO sobre os 30 anos do Sambódromo. Não é para menos. Afinal de contas, só existe uma agremiação que pode bater no peito e dizer que é supercampeã do carnaval. E essa agremiação é a Estação Primeira de Mangueira. 

O ano é 1984 e o carnaval marca o início da história do maior palco da folia. Batizado oficialmente de Avenida dos Desfiles e posteriormente Passarela Professor Darcy Ribeiro – uma homenagem ao antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro, grande mentor do empreendimento -, é popularmente conhecido como Sambódromo. Ironia ou não, uma alcunha de autoria do próprio Darcy Ribeiro.  

Pensado para abrigar a maior expressão popular do Brasil, fez jus ao conceito de um espaço de manifestação do povo logo no primeiro ano em que abrigou os desfiles das escolas de samba. E a Verde e Rosa de Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Neuma, Zica e tantos outros, no papel de escola mais popular, foi a grande protagonista.

No último carnaval do Grupo Especial organizado pelo Poder Público, as escolas desfilaram pela primeira vez distribuídas em dois dias. Era a grande novidade, além da disputa de um supercampeonato no sábado seguinte. Ao contrário de hoje, as 14 escolas que compunham à época a elite do carnaval se dividiram entre o sábado e o domingo. A apuração foi feita no formato de grupos. As três primeiras de sábado e as três primeiras de domingo disputariam o supercampeonato no sábado, dia 10 de março de 1984. Além das seis classificadas, as duas primeiras do Grupo de Acesso – então chamado de Grupo 1B – desfilariam pelo inédito troféu.

Desta forma, Mangueira, Portela, Mocidade, Império Serrano, Beija-Flor, Caprichosos, Cabuçu e Acadêmicos de Santa Cruz passaram pala Marquês de Sapucaí naquele sábado, que seria o embrião do futuro Desfile das Campeãs. Como a história nos conta, a Verde e Rosa sagrou-se a supercampeã com dois pontos de vantagem para a Portela de Contos de Areia, mas o que pouca gente sabe é que o mítico desfile em que a Estação Primeira literalmente foi e voltou no Sambódromo, arrastando o povo que a consagrara, não ocorreu no supercampeonato, mas sim no domingo anterior, quando foi a última escola a desfilar.

O desfile

Era tudo novo para as escolas de samba. Pela primeira vez desfilariam num palco construído especialmente para abrigar o show que faziam todo ano. No final da pista de 730 metros, uma praça, a Praça da Apoteose, que no conceito idealizado por Darcy Ribeiro serviria como um espaço para que as agremiações fizessem um show para o público dos setores – hoje, 06 e 13 – mais afastados do centro da pista. E a Mangueira não só fez o show, mas arrastou, convidou o público para participar.

– Foi uma ideia do diretor de carnaval da Mangueira na época, o Pedro Paulo, que era filho do Juvenal Lopes. Não foi uma ideia que surgiu na hora. Já era algo pré-determinado para que a Mangueira pudesse desbancar a Portela. Foi uma batalha de titãs e a Portela tinha carros e fantasias melhores, ganhamos no chão, na garra. Era ritmista, tocava caixa e não vi, mas ouvi dizer que eles usaram uma corda para que a escola não fosse invadida pelo povo, que gritava e vibrava com aquilo. Foi muito emocionante. Lembro de ter chorado, gritado e saí com a mão sangrando. Foi algo indescritível. A consagração desse desfile foi primordial para que a Mangueira fosse supercampeã depois – disse Elmo José dos Santos, ex-presidente da escola e atual diretor de carnaval da Liesa. 

A  Mangueira não estava entre as favoritas. Pelo contrário, vivia o seu mais longo jejum de títulos. Havia ganho seu último caneco em 1973 e no período chegou a amargar uma sétima colocação em 1977, além de uma quinta colocação em 1983,já com o desfile assinado pelo carnavalesco Max Lopes. Álvaro José dos Santos, o Alvinho, que também foi presidente da Verde e Rosa, era recém-chegado a ala de compositores da escola. Naquela época, era necessário dois anos na ala até que o poeta pudesse participar da disputa de samba. Impedido de participar por esse detalhe, conta que desde o início torceu pelo belo samba assinado por Jurandir, Hélio Turco, Comprido, Arroz e Jajá.

– Me mobilizei por esse samba. A final foi no Maracananzinho e há um detalhe interessante. O Jurandir, que era um dos autores e cantava o samba, acabou ficando com a voz prejudicada para gravar no disco oficial no dia seguinte e a gravação não ficou legal. Isso fez com que o samba não fosse tão bem cotado no período pré-carnaval. Quando foi para a Avenida na voz do Jamelão, as pessoas perceberam que se tratava de um grande samba. A atmosfera daquele desfile foi impressionante. Já no Setor 1 percebemos a energia que a Mangueira estava passando para as arquibancadas – afirmou.

Ainda sobre a gravação da obra, outro ex-presidente mangueirense conta uma história interessante. Ivo Meirelles, que na época vivia o seu primeiro carnaval como presidente da bateria, revela que providenciou outra versão para que as rádios pudessem divulgar a obra em homenagem a Braguinha.

– Lembro bem daquela final no Maracananzinho. A Dona Zica até desmaiou bastante emocionada… Na época eu fui trabalhar na Radio Cidade e convenci o Kléber Pereira a gravar mais uma vez o samba da Mangueira. Ele gostou tanto que fez versões com outras escolas também. Peguei aquele cartucho e fui rodar as radios para que eles pudessem tocar, já que a outra gravação nem tocava. A partir daí as pessoas passaram a ver o samba com outros olhos. E na Avenida funcionou de forma maravilhosa. Diria que o maior destaque do carro de som não foi nem o Jamelão, mas sim o Darcy, que era um dos caras que davam sustentação ao samba.

O carnavalesco

Figura importantíssima no desfile da Mangueira de 1984, o então jovem e promissor carnavalesco Max Lopes conta que quase abandonou a folia após a passagem da Verde e Rosa na Avenida.

– Foi um carnaval de muito sacrifício e dificuldade. O nosso barracão não tinha cobertura e estava situado na Praça Onze, próximo de onde a Mangueira tem um galpão hoje (NR: Atual barracão de Paraíso do Tuiuti e Viradouro). Com o tempo, arrumaram uma lona, mas teve um temporal e essa lona caiu por cima das alegorias, quebrando tudo e nos obrigando a refazer o carnaval todo. Tivemos que virar noites e o pessoal do Balança Mas Não Cai reclamava e nos jogava coisas. Tive um problema sério de saúde e cheguei a dormir em pé em cima de uma alegoria. Fui parar no hospital e jurei que nunca mais trabalharia no carnaval. Tanto que mesmo com o belo desfile e a ótima repercussão eu saí da Mangueira. Só depois de alguns meses é que a Vila Isabel me convenceu a trabalhar lá.

O enredo da Mangueira em 1984 homenageava Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, também conhecido como João de Barro. Braguinha se notabilizou pela composição de famosas marchinhas de carnaval. Ele também integrou ao lado de Noel Rosa o Bando dos Tangarás. A ideia de homenageá-lo partiu do próprio Max Lopes, que revela histórias interessantes referentes ao assunto.

– Essa ideia de falar do Braguinha me ocorreu depois de perder um enredo sobre Lamartine Babo. Esse enredo era nosso no Salgueiro e por uma questão política acabamos perdendo para a Imperatriz. Achava que o Braguinha tinha uma história linda e relativamente parecida com o Lamartine. Na época pesquisei sozinho o enredo e me lembro que o Braguinha não queria participar. Em cima da hora ele apareceu com a roupa que eu pedi para ele desfilar, um terno branco, e o posicionei numa alegoria, sentado em um banco ao lado de uma mangueira dando frutos. Quando ele viu o público saudando a presença dele, ficou em êxtase. Lembro também que estava sentindo câimbras e nós providenciamos um pedaço de isopor, o pintamos de verde rapidinho, para que o Braguinha pudesse apoiar as pernas – revela o Mago das Cores.

– Tudo foi apoteótico naquele desfile. O samba, o enredo, a garra e a atitude da escola em voltar pela Avenida. Já voltaríamos por dentro do Sambódromo para retornar ao barracão, mas da forma que foi se tornou ainda mais especial. Foi uma consagração para mim. Estava começando a minha trajetória no carnaval e propus uma mudança radical nas tonalidades de verde e rosa, o que gerou certa resistência, as pessoas não estavam acostumadas, mas ajudou a deslumbrar o Sambódromo – acrescentou Max, atualmente na São Clemente.

A bateria

Impulsionar o samba com uma pegada forte, linear e sem muitos floreios. Estas foram as principais características da bateria da Mangueira em 1984. Na presidência da ala pela primeira vez, o então jovem Ivo Meirelles, que, bem a seu estilo, chegou promovendo algumas mudanças que encontraram resistência num primeiro momento, mas deram resultado durante o desfile.

– Foi o primeiro ano que uma bateria desfilou com uma rainha com faixa e coroa. A Ednéia de Oliveira, uma mulata do morro e também uma princesa, a Jureminha – ressalta Ivo, que acrescenta detalhes importantes na preparação para aquele carnaval.

– A bateria da Mangueira não tinha ala de tamborim. Era algo vergonhoso e que me deixava muito chateado. Desfilavam 20 tamborins, sendo que 15 caras eram do Império Serrano. Pouca gente fala isso. Muitos tem até vergonha de admitir, mas essa era a verdade. Esses caras iam um sábado sim e outro não na quadra, o que gerava uma situação constrangedora até com o público. Assim que assumi a presidência, eu cortei esses caras e fomos fazendo uma triagem nos outros instrumentos. Para quem tinha mais dificuldade e não estava fazendo a batida correta de caixa ou tocando surdo fora do tempo, nós dávamos a opção de aprender a tocar tamborim para não ser cortado da bateria. Para a minha surpresa, vários jovens do morro apareceram para tocar e conseguimos formar uma ala. Até tive que reconsiderar alguns cortes – conta.

Tendo no comando mestre Taranta, os 300 ritmistas da Verde e Rosa passaram na Avenida tocando num andamento digno de aula, com média de 130 BPM(Batidas Por Minuto), de acordo com medição feita pelo site CARNAVALESCO.

– A minha preocupação foi em cima das caixas. A batida da Mangueira é muito perigosa e fácil de se errar. O tempo da rufada tem que ser o certo, se não embola e perde a identidade. Trabalhamos forte em cima disso e se você analisar friamente tem gente que faz errado até hoje. O andamento que colocamos naquele desfile foi maravilhoso também – disse Ivo Meirelles.

Um detalhe curioso referente a bateria da Mangueira em 1984 é o fato de ter sido julgada, assim como as outras escolas, por Luiz D´anunciação, o Maestro Pinduca, que em 2011 deu nota nove para a escola. Em 84, a nota foi dez.

O bailado

Desde os nove anos de idade desfilando como passista na Verde e Rosa, Índio da Mangueira é um verdadeiro símbolo da Estação Primeira. E uma de suas grandes consagrações na carreira aconteceu também em 1984, quando ganhou o Estandarte de Ouro como melhor passista masculino.

– Na época eu tinha 24 anos e estava voando(risos). Foi um desfile muito marcante, não só por eu ter ganho o Estandarte, mas também pelo que a Mangueira fez na Sapucaí. Na concentração já sentíamos que ninguém tiraria aquele título de nós. Fui o primeiro passista masculino da Mangueira a ganhar em uma época em que só sambistas de fato ganhavam. Lembro que estava recém-casado e trabalhava de noite no Jornal do Brasil. Ligaram para a casa do meu vizinho, porque na época eu não tinha telefone, e larguei tudo quando me contaram. Peguei meu filho, que na época tinha dois anos, e fui para o Maracananzinho acompanhar a apuração. Quando cheguei lá tive mais uma felicidade com o título da Mangueira e fui aclamado pelos mangueirenses – conta Índio da Mangueira, que precisava pegar a certidão de nascimento do irmão mais velho para poder desfilar.

O jeito malandreado de sambar que Índio e alguns poucos passistas ainda preservam atualmente chama a atenção de quem admira a arte. Ele concorda que o estilo está em falta e pede a manutenção de um dos pilares da cultura do samba.

– Antigamente os passistas eram aguardados e aplaudidos na Avenida. Desfilei ao lado de Moisés, Maria Helena e Gilson… O samba no pé está sendo deformado. Esqueceram o que é a história da dança do samba. É preciso que os garotos que estão começando entendam isso. Não tem nada a ver com opção sexual. Não é isso, mas existe uma postura malandreada que deve ser encarnada. Ser passista é ser feliz. É importante que a mídia leve essa discussão adiante e não deixe essa história morrer. Muitas vezes as pessoas não debatem isso porque a ala de passistas não conta ponto.

Confira a ficha técnica da Mangueira em 1984

Enredo: ''Yes, nós temos Braguinha''
Ordem de Desfile: 7ª escola a desfilar no domingo de carnaval, dia 04/03/1984 e 8ª a desfilar no sábado, dia 10/03/1984
Campeã do domingo com 208,0 pontos e Supercampeã do carnaval com 139,0 pontos
Carnavalesco: Max Lopes
Mestre Sala e Porta Bandeira: Delegado e Mocinha
Autores do Samba: Jurandir, Hélio Turco, Comprido, Arroz e Jajá
Mestre de Bateria: Taranta (300 ritmistas)
Rainha de Bateria: Ednéia de Oliveira
Contingente: 3.000 componentes (estimativa)
Intérprete: Jamelão
150 baianas
Estandartes de Ouro: Melhor Passista Masculino, Melhor Porta-Bandeira, Melhor Destaque Feminino(Maria Helena)

Curiosidades do desfile/ano de 1984:

– 1984 marca também o lançamento do álbum ''Cartola entre amigos'', que reúne amigos do artista mangueirense interpretando obras compostas por eles.

– Dona Zica desfilou no chão, ao lado da alegoria que tinha o homenageado como único destaque, e chegou a dar entrevista no meio do desfile.

– Jamelão tinha 70 anos no desfile de 1984.

– Mangueirenses famosos desfilaram: Beth Carvalho, Alcione, Rosemary, Terezinha Sodré e Eduardo Conde. Sidney Magal também foi destaque em um dos carros.

– No meio do desfile, durante uma entrevista, Beth Carvalho revelou que a Mangueira iria até a Praça da Apoteose e voltar.

– Com média de 130BPM(Batidas Por Minuto) de andamento, a bateria da Mangueira não fez bossas durante o desfile e também executou poucas subidas na primeira do samba e caídas para a segunda do samba. O desenho de tamborim mostrou-se audacioso para a época.

– Apesar da época e da dificuldade financeira, a Mangueira mostrou esculturas com formas muito bem definidas e fantasias de alto nível.

– Alcione desfilou a frente da ala das baianas e a ala das festas juninas foi a que mostrou mais animação durante o desfile.

– As alas mangueirenses não apresentavam as tão criticadas fileiras e os componentes evoluíam livremente delas. Alguns, inclusive, chegavam a tirar o chapéu de suas fantasias para saudar o público.

– Então governador do Rio em seu primeiro mandato, Leonel Brizolla recepcionou a Mangueira na Praça da Apoteose.

– Sérgio Cabral, Maria Augusta, Haroldo Costa, Juvenal Portela, Haroldo Costa, José Carlos Rêgo e Albino Pinheiro formavam o timaço de comentaristas da TV Manchete, em transmissão ancorada por Paulo Stein.

– No julgamento do supercampeonato, três quesitos foram excluídos: Enredo, Alegorias e Fantasias.

– No júri dos dois desfiles, nomes relevantes em suas profissões chamaram a atenção: Turíbio Santos, José Louzeiro, João Baptista Vargens, Edilberto Coutinho, Paulo Ubiratan, Ricardo Tacuchian e Wolf Maya.

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