Especial: Safra de enredos de 2013 preocupa sambistas. Saiba o que especialistas acham do assunto

 

 

 

Com a entrega dos sambas concorrentes da Acadêmicos do Grande Rio na última segunda-feira, todas as escolas do Grupo Especial já têm em mãos a obra que irá servir de trilha sonora para o desfile do Carnaval 2013. As composições, porém, precisam abordar os temas – enredos – escolhidos e é aí que, para muitos, está o problema. Desde que os primeiros enredos das agremiações do Grupo Especial foram conhecidos, uma chuva de críticas nas redes sociais e nas rodas de conversa dos sambistas veio à tona. O ''filho feio'' tem dono na visão da grande maioria que ama o maior espetáculo da terra. Ele se chama enredo patrocinado. E, de fato, alinhar essa relação comercial com a tão propagada ''relevância cultural'' é o foco principal do problema na visão dos especialistas ouvidos pelo site CARNAVALESCO.
 
Em 2013, das 12 agremiações do Grupo Especial, sete assumem sem problemas o enredo patrocinado, outras duas não assumem, mas nos bastidores sabe-se que extraoficialmente receberão incentivo financeiro para levarem tais temas para a Avenida. Os nove enredos patrocinados representam um recorde nos últimos anos, principalmente depois de duas temporadas de enredos autorais em maioria na elite do carnaval carioca. Apesar de a ideia inicial parecer, um enredo patrocinado não quer dizer um enredo ruim. Mas e a safra de uma maneira geral? Para Luis Carlos Magalhães, colunista do site CARNAVALESCO, a resposta pode ser respondida a partir do que se deseja com o carnaval atualmente.
 
– A safra é fortíssima sob o ponto de vista da atração de recursos. As escolas poderão fazer o carnaval com ricas fantasias e impressionantes alegorias. Se for isto o carnaval, viveremos um grande momento. Os turistas ficarão extasiados e a televisão brindará seus telespectadores de todo o ano com espetáculos ao nível de sua programação normal. No entanto, do ponto de vista da atração maior do desfile, de seu conteúdo, de sua alma, da emoção que é capaz de gerar e que fez dos desfiles a marca maior da cara brasileira, entendo que será um carnaval desprezado pela memória, que será lembrado muito pouco pela quantidade de enredos que não busca nada além de uns trocados – finalizou.
 
Para o jornalista Fabio Fabato, colunista do site ''Galeria do Samba'' e comentarista da ''Radio Tupi'', a safra é fraca. Apesar de achar que tudo é enredável, como diz a maioria dos carnavalescos e pesquisadores de enredo, acha prudente criticar o ''festival publicitário'' que invadirá a Marquês de Sapucaí este ano. 
 
– O carnaval também é contar uma história, esta é uma das partes fundamentais do processo. Um enredo ruim é como colocar um gringo, daqueles bem duros e sem molejo, para dançar como mestre-sala. É como a ginasta que opta por uma nota de partida baixa. Sim, o tema ruim é a nota de partida menor da ginástica olímpica. Se o enredo não tem lastro, não apresenta uma mensagem definida, não significa algo, a escola de samba – como historicamente conhecemos –, fica incompleta. Grande parte dos temas escolhidos para 2013 apresenta este problema. É mesma coisa que o atravessar da bateria, o samba marcheado, o carro alegórico sem acabamento. De que adianta o luxo se não há uma grande história para contar?
 
Já o historiador e colunista do site CARNAVALESCO, Roberto Vilaronga, é partidário da ideia de que tudo é ''carnavalizável''. Na visão dele, não se pode ''enquadrar as escolhas dos enredos, é preciso olhar para fora da caixa''. Roberto acredita que o que ocorre este ano é fruto de um novo processo no carnaval e que, cabe aos carnavalescos a missão de tornar os temas mais atraentes. O caráter financeiro também foi lembrado pelo historiador. Com dinheiro em caixa, as escolas conseguem se organizar melhor e evitam os gastos excessivos com mão-de-obra e materiais, numa época em que todas as agremiações correm atrás destas coisas no mercado.
 
E a relevância cultural? Roberto Vilaronga aponta o exemplo do Salgueiro, com um tema que foi criticado, mas que contém relevância cultural:
 
– Cultura é aquilo tudo que inclui o conhecimento, arte, a moral, a lei, costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem no seu meio. Logo é muito difícil você apontar e dizer, por exemplo, que um enredo sobre “Fama” não tem relevância cultural. Claro que tem. Você passeia pela mitologia, pela história, pela cultura de um povo e costumes. Logo podemos dizer que um enredo é mais relevante culturalmente que outro, mas dizer que não é relevante culturalmente é muito forte – opina.
 
– Claro que não existe régua para medir relevância cultural. Porém, entre um enredo sobre Portinari e um enredo sobre iogurte bancado por uma marca cujo desejo é apenas sua promoção, fico com o grande pintor brasileiro. Talvez a expressão ‘‘relevância cultural’’ possa ser trocada pela palavra intenção. Se a intenção de uma marca ao colocar R$ 5 milhões em um carnaval é a de se promover à custa de um enredo, a coisa está errada. O patrocinador ou novo mecenas pode despejar seus caraminguás, mas a forma de promoção tem de ser outra. Por que não expor sua marca na quadra, materiais institucionais, relacionar-se com a escola a partir de sua profunda facilidade de penetração social? – indaga Fabio Fabato.
 
A ''descarnavalização'' de alguns enredos patrocinados volta ao tema quando Luis Carlos Magalhães fala sobre a tal relação escola-patrocinador também citada por Fabato. Para o colunista, o patrocínio já faz parte da realidade do carnaval e é preciso ajustar essa relação. Ele questiona qual é a real intenção de uma escola ao fechar com o patrocinador: fazer um carnaval interessante ou apenas arrumar uns trocados para se manter no grupo e fechar seu balanço?
 
– A Tijuca poderá, só para dar um exemplo, fazer uma abordagem interessante do Brasil visto por imigrantes alemães, e a realidade desses brasileiros que vieram para cá construírem tanto quanto. Como já se fez no passado em relação à Itália, Japão etc.. O mesmo vale para a Inocentes desvendar a saga de coreanos por aqui entre nós. O Salgueiro falará sobre a vaidade mesmo, ou destacará seu patrocinador? Só saberemos lá no dia. O quanto cada enredo foi capaz de inspirar seus compositores, que tipo de samba, se os componentes o cantarão burocraticamente ou entusiasmadamente. Se cada desfile será apenas um sucessão de carros e fantasias bonitas ou se arrancarão emoção de todos nós.
 
O ano de 2012 parece emblemático para exemplificar como uma relação de patrocínio mal costurada pode atrapalhar uma escola. A Unidos do Porto da Pedra fechou acordo para falar sobre o iogurte, enredo que bateu em diversas portas de escolas do Grupo Especial e foi parar em São Gonçalo. O resultado todos já sabem. Depois de uma avalanche de críticas da opinião pública, a escola recebeu diversas notas baixas em quesitos que, numa visão geral, nem merecia. Seria a chamada ''contaminação'' provocada por um quesito? O certo é que o iogurte azedou e a Porto da Pedra, depois de onze carnavais seguidos na elite, irá desfilar no Grupo de Acesso em 2013. Fabato aponta o caso do Tigre como um desserviço comercial para as duas partes, escola e patrocinador.
 
– Infelizmente, os dirigentes ainda desconhecem a força das bandeiras que representam. Se companhias patrocinam teatro e cinema sem meterem o bedelho nos roteiros, por que as relações com o carnaval não podem ocorrer da mesma forma? O produto carnaval é muito bom e não foi explorado em sua plenitude. Cartola foi um gênio da música e, inconscientemente, um gênio do marketing. Criou o verde-rosa, hoje conhecido mundialmente. Em qualquer lugar do planeta, se alguém vestir verde e rosa, dirão: “olha, está de Mangueira!”. Ou seja, a velha Manga é uma marca muito forte. O mais engraçado é que o exemplo clássico de 2012, ligado ao tema patrocínio – o iogurte –, não gerou nada de bom para patrocinador e patrocinado. A escola caiu, o enredo foi achincalhado por toda a crítica e pelo júri, o mecenas não vendeu nenhum Activia a mais e, pasmem, ainda grudou sua marca em um “negócio” furado. 
 
Perguntado sobre o enredo que, numa visão pré-eliminar, se destaca na safra, e aquele que promete não render um bom desfile em 2013, Roberto Vilaronga apontou a União da Ilha, que falará sobre Vinicius de Moraes, como um exemplo promissor. Já a Inocentes de Belford Roxo, que levará para a Avenida a história da imigração sul-coreana, teve seu enredo considerado como mais fraco do Grupo Especial pelo historiador. Luis Carlos Magalhães também fez seu panorama.
 
– Um enredo que se destaca é o da Vila Isabel, patrocinadíssimo. Parece, no entanto, que destacará em seu desenvolvimento um painel de fatos e personagens que enriqueceram e enriquecem o nosso dia-a-dia. Outro é o da Portela, falando dela mesma, de sua região de origem, o que já lhe garante um sem número de alternativas. A Ilha trará um tema já recentemente desenvolvido, mas que foge à caça ao pote de tantas outras escolas. A São Clemente traz boas expectativas também. O mais fraco é o da Grande Rio, por ser, a exemplo da Porto da Pedra do carnaval anterior, o mais anti-carnavalesco.
 
A Tricolor Insulana e a Azul e Branco de Oswaldo Cruz também foram citadas por Fabio Fabato como possuidoras dos melhores enredos para 2013. A Vila Isabel, que conta com o patrocínio da Basf e falará sobre o Brasil Rural, ganhou elogios do jornalista.
 
– É a mais madura parceria para 2013. A escola vai falar de um enredo de certa forma relacionado ao patrocinador, mas inteiramente desenvolvido por sua carnavalesca.  Por fim, a escolha que menos me encantou foi a da Grande Rio. A escola que já nos brindou com temáticas soberbas – “Os santos que a África não viu” (1994), por exemplo – abraçou uma espécie de panfleto que pega carona em uma campanha ligada ao petróleo de difícil carnavalização. Qual será o limite para estrangulamento do quesito enredo? – pergunta Fabio Fabato. 
 
E você? O que acha da safra de enredos para o Carnaval 2013?
 
 
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