Esquentando carnavais

A boa notícia para quem, como eu, se delicia com o clima reinante nos ensaios técnicos, é que já está marcado o primeiro: 18 de dezembro.

Bem antes do natal já estaremos lá dizendo isso e aquilo, achando aquilo ou aquilo outro desta ou daquela escola. Quer coisa melhor que isso? Não é disso que gostamos tanto?

A casa nova já com seus novos mais de dois mil lugares e já com nova proposta para seu novo e maior desafio: o som.

E mais, pelo que se diz por aí, a obra realizada sem que a prefeitura – ou seja: nós – gaste um só centavo. É ou não é bom demais para ser verdade?

Para completar, o presidente da LIESA anuncia novas regras para o regulamento visando … digamos…”esquentar o carnaval”, segundo suas próprias palavras.

E para completar mais ainda, na mesma época, saiu a publicação das justificativas dos jurados.

E chega uma outra notícia. E dá conta de que a obra do sambódromo, há tanto tempo programada, agora se dará por conta do caderno de encargos das olimpíadas de 2016.

E aí, leitores, me desculpem… mas minha perna começa a tremer. Vocês têm que tolerar minha paranóia, mas infelizmente estou assim ultimamente: falou em Copa e em Olimpíadas, eu tremo.

E leio que as competições para ali programadas serão o “Tiro com Arco” e a chegada da maratona. E aí vem a pergunta que eu e vocês temos o direito de fazer: precisava aumentar alguma coisa para tais modalidades. O que tinha ali não é mais que suficiente?

A questão é administrar minha paranóia.Será que não é o contrário? Vão aproveitar que temos que fazer a obra e vão jogar tudo no embrulhão olímpico, chamar aquela turma “mais esperta que nós” e deixar para nós o papel de “aplaudidores” inocentes mais uma vez?

Cada um faz sua parte: uns tiram o proveito, nós pagamos os impostos…

Os blogs, sites, e redes sociais, uns mais outros menos acreditados, ora aqui, ora ali, levantam uma poeira. Foi assim que, mesmo dando todo o desconto devido por se tratar de um político concorrente em eleições próximas, e com a costumeira animosidade que exala, entre tudo que li vale a iniciativa de tomar conhecimento da hipótese levantada pelo deputado Anthony Garotinho em seu blog, em data de 21/04/2011, sob o título de “Uma negociata milionária (…)”.

Com as ressalvas reafirmadas, acho que vale a pena procurar lá e ler. O ex-governador identifica a presença de Ricardo Teixeira na parada e só livra a cara da LIESA.

Que vai ser bom, vai! Que vai dar gosto de ver, vai! Mas muito mais gostoso será se no dia de abertura dos ensaios técnicos não chegarmos lá tendo feito papel de bobos inocentes, como sempre fazemos.

Mas, paranóias à parte, vamos ficar com o que nos dá prazer e orgulho que é o nosso carnaval e nossas escolas de samba. De tudo que escrevi aí em cima temos a obra, as justificativas e as novas regras como objeto de nossa reflexões.

Quanto à obra propriamente dita quero me reportar à minha última, longuíssima e por isto criticada coluna, escrita com o fígado, na qual fiz referência à importância da Geral do Maraca para as maiores festas vividas por esta cidade nas tardes de domingo.

E me refiro à geral para provocar daqui o nosso presidente Castanheira.

Será que qualquer daquelas medidas propostas por ele, por mais apropriadas que possam ser, atingirão a “mosca” que é, ainda segundo ele, “esquentar o carnaval”?

Uma coisa é o fato de tais medidas contribuírem para diminuir distorções, outra coisa é esquentar o carnaval. Esquentar o carnaval é o que todos queremos. Parece contraditório que quanto mais bonito fica visualmente o carnaval, mas ele perde em vibração e precisa ser esquentado, nas palavras insuspeitas de quem tem a missão maior de defesa da exuberância da festa.

Achar que a beleza é incompatível com a vibração será sempre o erro maior.

Como todos nós sabemos esse esquentamento não depende só das novas instalações, da nova sonorização, do novo número de julgadores, da visão total da pista, ou da limitação das avaliações entre as notas nove e dez.

Vejamos a questão dos julgadores, selecionando um que tanto me impressionou. Desta vez não fiz a leitura quesito a quesito, julgador a julgador, cabine por cabine para ter uma visão geral. Já fiz isto tantas vezes, acho tudo tão parecido, que me limitei a observar um ou outro quesito e seus julgadores. E foi mais que suficiente.

Fico me perguntando o que faz, o que motiva um julgador, sabendo da importância daquele momento para tanta gente, sabendo de sua relevância para os rumo e tendências, se manifesta como um deles que julgou um dos quesitos vitais para tudo que estamos trazendo aqui? Disse ele ao analisar o samba Portela: “A escola poderia ter apresentado um samba mais empolgante, mas cumpriu com seu objetivo.”

Todos sabem o quanto não gostei desse samba da Portela. A questão que trago, portanto, não é o juízo de valor emitido, com o qual concordo. A questão é, no meu entender, a maneira burocrática de julgar, o que pode bem ser observado em tudo que escreveu sobre os demais sambas. Ele e tantos outros.

E aí eu pergunto: há quantos anos ele está lá julgando? Que contribuição terá dado para a grandeza da festa maior e mais importante entre tantas e tão importantes festas populares de nosso país? Será que ele tem consciência disto?

E pergunto mais: será que a direção do carnaval, aqueles que além de se preocupar com os relevantes aspectos turísticos e econômicos do carnaval, aqueles que deveriam se preocupar com os valores culturais da festa, será que eles a estão levando suficientemente a sério quando convidam e, pior, reconvidam, pessoas que não enxergam tanta responsabilidade nos papel que ali estão a exercer?

Eu acho que não!

Como pode um outro julgador se expor tanto, dar opinião tão clara, elogiar o mérito, penalizar o erro com tanta clareza, com letras e frases tão claras, fortes e nítidas enquanto outros se escondem em suas grafias premeditadamente tortas e descuidadas, emitindo superficialidades como se estivessem apreciando uma corrida de ratos na calçada?

Proponho aqui uma tese: é pela dedicação à grafia que se conhece o espírito e a intenção de cada julgador! Pelo menos um dos critérios. Não falo daqueles, como eu, que costumeiramente, no dia a dia, têm a letra feia e algumas vezes pouco decifrável.

Me refiro àqueles que “nem naquele momento capricham na grafia de forma a tornar seu critério de julgamento claro e inteligível”. Principalmente àqueles que não deixam claro nem gráfica e nem conceitualmente seus critérios de julgamento.

Esses prestam um desserviço ao “esquentamento” do carnaval. Um desserviço tão grande quanto o dos que não percebem tanto desrespeito e os reconvidam a julgar.

Será que o tal “curso de julgadores” que se tem praticado, de duração tão curta, está merecendo da direção do carnaval o cuidado necessário e compatível com aquele que considero o momento mais decisivo, mais definidor, do sucesso, dos descaminhos, dos equívocos e do “amornamento” da festa?

Será que os julgadores estarão sendo suficientemente esclarecidos sobre a real intenção de atribuição do 0,1 de bônus para buscar a “perfeição”, segundo Castanheira? De minha parte, pelo tanto que já conversei com o dirigente, acho que o que se busca é arrancar do julgador aquilo que podemos classificar como a suprema objetividade. Ou seja, é como se perguntássemos ao julgador de bateria: e aí, julgador, qual delas foi a melhor?

Ou perguntar ao julgador de samba: e aí, julgador, qual foi o melhor? Ou será que a pergunta não é esta, nem para a bateria e nem para o samba?

Será que as perguntas corretas são: 1) qual a bateria que mais criou? Ou será qual a bateria que melhor sustentou o canto, a dança, a harmonia e o conjunto da escola? Ou qual a bateria que desenvolveu a perfeita cadência do samba, valorizando sua síncopa, deixando-se ouvir cada um de seus instrumentos?

E quanto ao samba: Qual foi o samba mais bonito? Ou será, qual o que melhor retratou o enredo, sendo ou não o mais bonito? Ou qual o que harmonizou melhor letra e melodia? Ou ainda qual o que mais contagiou as arquibancadas?

Pelas minhas conversas e pelos e-mails que recebo, o item que parece unanimidade neste “amornamento” que se quer evitar é o fato de a premiação privilegiar a escola que não erra ao invés de valorizar a melhor. Trocando em miúdos: será que a escola melhor, a campeã, tem mesmo que ser a que erra menos?

A boa intenção do bônus, a tardia mas corajosa intenção de esquentar o carnaval esbarrará no burocratismo dos julgadores a que me referi acima se os critérios não forem clara e demoradamente expostos no curso de jurados, com a certeza absoluta de que tais critérios foram compreendidos e, mais complicado ainda, assimilados por todos, sem exceção.

A tarefa mais difícil será certamente responder as questões acima e definir, de forma absolutamente clara, o que é, afinal, para os critérios de julgamento, ser a melhor bateria entre todas e o melhor samba entre todos.

E isto sem contar os demais quesitos…

O presidente chega a afirmar que “… a qualidade do desfile (…) não comporta notas abaixo de nove”. E cita as notas dadas pelo julgador do quesito “Alegorias e Adereços”, para a Mocidade e Porto da Pedra. E com base neste argumento propõe a alteração do regulamento alterando a margem de notas para o espaço entre nove e dez.

Ao invés de criticar, esclarecer, orientar ou afastar o julgador, “baixa-se” um decreto eliminando a, segundo ele, distorção. No meu entendimento o julgador ou faltou a aula daquele dia ou não entendeu o critério da liga.

Bem, o espaço acabou com tanto ainda para dividir aqui. Encerro declarando, de minha parte, duas ou três questões unicamente conceituais que considero básicas para a continuidade do processo de derrubar distorções e também para justificar o título lá em cima:

1) A importância da justificativa da nota 10. Para a clareza do julgamento é muito mais importante o julgador declarar o por quê de ter dado nota 10 do que explicar o por quê de ter tirado 0,1. A justificativa da nota 10 é hoje muito mais relevante do que todas as outras. Sobretudo para evitar tantas controvérsias deste último carnaval tão esquisito. No mínimo, mas no mínimo mesmo, tão importante quanto. Se 0,1 a menos tira a vitória, a nota 10 contempla com a vitória;

2) O carnaval esquentará mesmo quando o resultado verdadeiramente espelhar o que se passou na avenida. Para tanto deve ser enfrentada corajosamente, entre outras, a questão mais delicada que é o tratamento hostil, desajustado que é dado não só às escolas que ascendem ao grupo especial como também a algumas outras. Mal chegam e já são como “bola da vez”, como sacos de pancadas a justificar, digamos, a pouca coragem de julgadores. Essas escolas, e outras “menos prestigiadas” acabam sendo a taboa de salvação para escolas à beira da queda que acabam sendo salvas por essa forma desigual de avaliação. Só o curso intensivo para jurados pode convencê-los de tão grande e nociva deformação;

3) Já que a reforma está aí, já que “mataram” a Geral do Maraca, já que a receita aumentará muito com a venda dos novos camarotes, insisto na proposta já feita nesta tela, e já exposta ao presidente, no sentido que todo espaço lateral da pista, hoje ocupado pelas frisas, seja adaptado com boas cadeiras e seja vendido a preços populares transformando aquele espaço em uma imensa Geral, uma verdadeira galeria de sambistas. Todos cantarão, no mínimo, os sambas de suas escolas e dançarão com eles contrabalançando a presença morna e distante das arquibancadas e a frieza daqueles – e são tantos – que, de seus camarotes, se contentam em apenas presenciar a beleza do espetáculo;

Acredito que, assim, é só jogar ali um sambinha bom para que o carnaval acenda e fique o mais parecido possível com o clima dos tão esperados ensaios técnicos. E no desfile, que as escolas vencedoras sejam assim consagradas pelo que trouxerem de emoção e beleza ao espetáculo, nunca por terem errado menos: essa a única, a grande, a verdadeira sacudida no carnaval.

Quem sabe estará aí, pelo menos em parte, o maçarico tão desejado pelo presidente e por todos os sambistas?

Mais que um maçarico, o carnaval está precisando mesmo é de uma boa sacudida.

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