Eugênio Leal: ‘Festa. Com reflexão’

Por Eugênio Leal

eugenio_leal_carnavalesco1Ano passado não consegui cumprir com minha missão aqui no CARNAVALESCO. Acabei não analisando o segundo dia de desfiles do Grupo Especial como fizera com os anteriores. Meu texto naquela manhã de terça-feira foi sobre os incidentes ocorridos ao longo dos desfiles. Eu pedia uma série de mudanças na estrutura do carnaval:

“…começar por um novo planejamento dos espaços da avenida. As entradas e saídas de alegorias precisam ganhar novas alternativas. As vias de “escape” para eventuais entradas de ambulâncias também. Um centro médico maior e melhor preparado para traumas se faz urgente.

Claro, é preciso que sejam feitas inspeções de segurança nas estruturas dos carros alegóricos, através dos órgãos competentes. As alegorias devem ser testadas na avenida antes dos desfiles, simulando as apresentações oficiais. Orientada por especialistas, a Liesa precisa redefinir limites de tamanho e peso para a confecção das alegorias. O risco de acidente deve ser minimizado, mesmo que isso interfira na concepção artística.

A farra das credenciais tem que acabar. Tem gente de sobra passeando na pista, se colocando em risco e atrapalhando desfiles e socorros. Aliás, é preciso criar novas rotas de circulação – para quem tem que se movimentar pelo Sambódromo – sem precisar cruzar a pista.

Os espaços para atuação da imprensa precisam ser melhor delimitados. Não dá pra ter um batalhão de fotógrafos e repórteres em meio a ação dos socorristas. Sou jornalista, atuo muitas vezes na pista e, até por isso, defendo uma melhor organização desta atividade para que nós tenhamos melhores condições de trabalho ali. É um sufoco atualmente”.

Do que escrevi apenas duas coisas foram colocadas em prática. Uma maior fiscalização das condições nos barracões (iniciativa do ministério do trabalho) e a diminuição das credenciais. Cortaram da imprensa. Quero ver se cortaram também dos bicões que circulam por ali. Todo o resto, ao que parece, ficou de lado. Não interessa.

A grande preocupação dos dirigentes ficou por conta da diminuição da verba que a prefeitura dá às escolas. Fato mais do que previsível diante do prefeito que as escolas ajudaram a eleger. Só os inocentes poderiam esperar outra coisa. Lembra aquele samba do “Me engana que eu gosto”. Alguns sambistas não gostam, adoram.

De fato o corte preocupa, mas foi bem aceito pela sociedade em função de atitudes reprováveis das próprias Escolas de Samba que não conseguem entender o mundo que as cerca. O desfile do Grupo Especial se apequenou nas últimas décadas porque se fechou para o seu povo. Atraiu um público que não se identifica com a cultura das Escolas de Samba. Pessoas que estão ali para uma festa paralela. Virou apenas um espetáculo que perde às vezes para atrações que se apresentam nos camarotes.

Um grande exemplo disso foi a decisão de não realizar os ensaios técnicos, o único evento onde as escolas se aproximavam do público que constitui a sua base cultural. Era o contrário! Era a hora de mostrar que o povo gosta de carnaval.

Era para usar os ensaios técnicos como um grito contra a política da prefeitura. Hora de unir os sambistas. Era.

Os dirigentes não são os únicos sambistas. Precisam parar de tomar decisões sem ouvir seus componentes. É básico. Tal postura afugentou milhares de pessoas das Escolas de Samba.

Isso se dá também pela falta de percepção da necessidade de reafirmar as bases culturais dos desfiles. Muitos se deixam levar pelos interesses da mídia de celebridades e reduzem sua representatividade aos “artistas” do momento. Nada contra a participação deles, mas o carnaval precisa ser protagonista por si próprio. Pelos seus próprios artistas, pela sua importantíssima e única produção cultural. Pelo trabalho de carnavalescos, artesãos, passistas, casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, intérpretes, ritmistas, etc.

O carnaval precisa resgatar seu respeito e acabar com os conchavos para o não rebaixamento; as mudanças de resultado um mês depois da apuração; a falta de transparência na escolha dos julgadores e nos seus julgamentos -que precisam ser justos! Chega de dois pesos e duas medidas! Chega de interesses escusos! Faz mal para a festa. O mundo está mudando constantemente. Não se aceita mais vícios deste tipo. Acordem!

Antes de pedir apoio à sociedade, o carnaval tem que fazer o seu dever de casa. Propor novidades, traçar objetivos, estabelecer um mínimo de comunicação com o seu público. Usar as mídias sociais e as convencionais. Buscar espaço nas televisões e rádios com produtos interessantes, pautas diferentes. Já passou da hora de criar uma nova imagem para as Escolas de Samba.

Vai começar mais um carnaval. Estarei na avenida. Menos animado que em 2017. Menos iludido que em 2016. Menos apaixonado que em 2015. Menos encantado que em 2014. Sem saber como estarei em 2019.